








Por Jefferson Gorgulho Peixoto, com fotos de Araquém Alcântara
Revista National Geographic - 03/2008
A primeira hora da manhã, ainda sem a luz direta do Sol, é o momento em que se pode distinguir melhor as infinitas nuanças do verde nas árvores. A variedade impressiona: uma mesma espécie não se repete por muitos e muitos metros. Na Amazônia, durante os meses de janeiro a junho, época da cheia, o leito dos rios praticamente dobra de tamanho, tornando possível a navegação por estreitos canais mata adentro. Viajamos por um igapó, uma imensa área alagada do rio Cuieiras, afluente do Negro. O comandante corta o motor e atracamos em um canto tranqüilo, de frente para uma árvore imensa cujo tronco está encoberto pela água até a metade.
O médico oncologista e escritor Drauzio Varella aprecia momentos assim. Ele contempla, reflete. Aos 64 anos, demorou quase 50 para pôr os pés na maior floresta da Terra. "Nas primeiras vezes em que vim pra cá, eu me perguntava como era possível ter demorado tanto a conhecer este lugar maravilhoso", diz. Para Varella, a Amazônia abriga o futuro da medicina. Sob seu comando, uma equipe de pesquisadores reúne-se a cada dois meses para localizar e avaliar a diversidade de vida e a atividade farmacológica existente no local, 100 quilômetros a noroeste de Manaus.
Num projeto da Universidade Paulista (Unip), o grupo coleta plantas para estudar a atividade de seus componentes contra certos tipos de câncer e bactérias resistentes a antibióticos. "A história da medicina está cheia de casos em que determinado princípio ativo foi extraído de uma planta. Na oncologia, inclusive, uma das drogas mais usadas atualmente contra câncer de mama, o taxol, foi isolada de uma planta nativa da América do Norte, a Taxus brevifolia. Imagine o potencial existente na floresta Amazônica", afirma.
Estima-se que o Brasil concentre cerca de 20% de toda a biodiversidade mundial, e que a Amazônia contenha 17% da biodiversidade brasileira - um tesouro biológico ainda pouco estudado.
A extração do princípio ativo de uma planta e sua manipulação até chegar à fórmula de um medicamento apto a ser usado em seres humanos é um processo complexo, que consome muito dinheiro e um tempo médio superior a dez anos.
Desde que as viagens de coleta ao baixo rio Negro começaram, a bordo do barco Escola da Natureza, em 1998, os cientistas da Unip já contabilizaram 2,2 mil extratos de planta detectados (extrato é o produto da retirada de compostos químicos da planta pelo uso de um solvente - café e chá são exemplos familiares). "Desse total, 72 indicaram alguma atividade contra ao menos uma das células tumorais que estudamos e outros 50 mostraram reação contra bactérias", revela Varella, ressaltando que, mesmo nos casos mais promissores, ainda há muito trabalho a ser feito. "Depois de detectar que um extrato apresentou atividade contra uma célula de câncer de mama, por exemplo, temos de fracioná-lo, ou seja, separar cada substância de sua composição para chegarmos àquela responsável pela atividade. Depois, é preciso passar para a fase de testes em animais e, posteriormente, em pessoas."
Ao contrário das antigas expedições capitaneadas por naturalistas europeus, em que o interesse científico vinha a reboque do comercial - e quase sempre contribuía para a destruição do ambiente -, as incursões científicas contemporâneas sabem que a maior riqueza está no conhecimento.
No século 21, o enfoque não é mais territorial; trata-se agora de uma busca microscópica atrás de informação. Mas como encontrar a espécie que pode dar origem a uma nova droga no meio da imensidão vegetal da floresta?
A Amazônia não é nenhum tapete verde homogêneo, como ainda hoje se costuma pensar. Existem muitas variações. Na bacia do rio Negro, por exemplo, é possível encontrar áreas de floresta alta, exuberante, vizinhas a campinas de arbustos baixos e solo arenoso. "Cada um desses terrenos dá suporte a vegetações diferentes, as espécies podem mudar muito entre uma área de platô e outra em declive, próxima a um rio", diz o botânico Mateus Paciencia, coordenador do trabalho de coleta. "As florestas de terra firme estão livres dos alagamentos sazonais e costumam apresentar maior número de plantas de grande porte, com flores e frutos que facilitam a identificação."
Para ajudar no rastreamento das espécies, os botânicos delimitam na mata as chamadas "parcelas", terrenos de 100 por 100 metros, onde as árvores de maior porte são classificadas e identificadas - recebem uma placa com um número. A definição do local e a identificação precisa das árvores e plantas são cruciais: de nada adiantaria a um farmacêutico descobrir uma substância no laboratório se não lhe fosse possível saber de que planta ela foi extraída e onde ela está.
Na mata, Paciencia segue o experiente mateiro Osmar Ferreira, levando a lista que contém o número das árvores de cada parcela e que servirá de base para a coleta da manhã. Drauzio Varella, de lupa na mão, pára diante de um tronco recoberto por uma camada de musgo. A névoa paira sobre nossa cabeça enquanto passamos sobre raízes enormes e desviamos de uma seqüência infindável de galhos e cipós. Até que avistarmos as estacas unidas que delimitam a área de pesquisa.
Durante dois meses, em 2002, Paciencia e Ferreira viveram acampados nessa parte da selva, fazendo as medições e fincando cada estaca nas três parcelas. Àquela época, 2,4 mil árvores de 279 espécies diferentes atingiram a "nota de corte" da pesquisa. Em 2008, será feito o primeiro recenseamento das parcelas, o que tornará possível uma avaliação sobre as dimensões da riqueza natural da região. "Até os anos 1980, era consenso de que a biodiversidade da Amazônia aumentava no sentido leste-oeste. Isso de fato ocorre: a Amazônia ocidental contém mais diversidade do que a oriental. Mas o que se constata agora é que existe um pico de riqueza na Amazônia central. Os cientistas falam em ponto de convergência: o centro da Amazônia, precisamente a macrorregião de Manaus, concentra espécimes vindos de muitos lados", explica Paciencia.
Certas árvores nas parcelas da Unip têm mais de 40 metros de altura. Em áreas de terra firme como essa, o espaço entre os troncos, no solo, não existe na parte alta, nas copas - estas se misturam e não é simples distinguir uma espécie da outra. É comum Osmar Ferreira subir em uma árvore para cortar um ramo da vizinha - ele precisa estar atento para fazer a distinção visual do espécime certo em meio a tantos galhos. E tem de chegar ainda ao ramo mais adequado, com o podão, e cortá-lo corretamente, preservando, se possível, galhos, folhas, flores e frutos.
No barco, o material coletado precisa ser processado para a viagem de volta. Na proa, logo abaixo da cabine, num pequeno laboratório, partes danificadas são retiradas, assim como insetos eventualmente presentes. Logo é feita a classificação da planta, ao menos até o gênero.
As diferentes partes são depois separadas e ensacadas em porções menores, que recebem etiquetas de identificação. Em Manaus, tudo passará dois dias em uma estufa para secagem completa. Osmar Ferreira moerá cada parte, produzindo uma pilha de sacos com o pó dos órgãos de cada uma das plantas coletadas. Essa é a floresta Amazônica que o restante da equipe recebe em São Paulo para a segunda fase do trabalho.
No convés, observando a chuva forte que começou no meio da tarde e não parou mais, Drauzio Varella relembra o começo de tudo, em 1992. "Organizamos um curso de biotecnologia em câncer e Aids, em São Paulo. Depois, convidamos pesquisadores estrangeiros para visitar a Amazônia a bordo deste mesmo barco. Entre eles estava Robert Gallo, um dos descobridores do vírus da Aids. Ele olhou para a floresta e me perguntou: 'Quem está pesquisando aqui, em busca de novos medicamentos?' 'Ninguém', eu respondi."
Naquela época, o National Cancer Institute (NCI), cuja sede fica na cidade de Frederick, em Maryland, nos Estados Unidos, já possuía um banco com quase 200 mil extratos de plantas, animais e fungos de espécies do hemisfério norte, incluindo Europa e China. Mais de 35 mil espécies de plantas serviram de fonte para as pesquisas, mas apenas 4% apresentavam indícios da necessidade de mais estudos. Até o início deste século, o NCI havia chegado a 42 drogas sintetizadas de fontes naturais, em mais de 30 anos de coleta - um exemplo de quão árduo é o trabalho nessa medicina baseada em recursos vegetais.
Varella sempre soube que o sucesso dessa empreitada amazônica dependeria do conhecimento de pessoas como Luiz Coelho. Amazonense da cidade de Tefé, ele nasceu em 1928 e com 6 anos chegou a Manaus, onde vive até hoje. Dali, partiria, anos mais tarde, para conhecer a fundo a floresta na companhia dos maiores botânicos do mundo. "Seu Luiz é representante de uma geração quase extinta de botânicos práticos, que aprendeu a profissão no campo. Percorreu a Amazônia toda junto de nomes como os do brasileiro William Rodrigues e do inglês Ghillean Prance, considerado por muitos o maior botânico vivo. Mesmo esses grandes homens da ciência já se calaram diante do conhecimento de seu Luiz na hora de identificar uma planta", diz Varella.
Coelho foi fundamental na montagem do acervo de plantas hoje estudadas. Existem diferentes estratégias de coleta. Pode-se, por exemplo, seguir as informações de moradores locais. Os defensores dessa estratégia argumentam que ela pode levar a resultados mais diretos, pois já houve um teste prévio feito pelas comunidades tradicionais. Outra abordagem é a que busca plantas na natureza por associação com outras que apresentem parentesco e cuja atividade farmacológica já seja conhecida. No caso de regiões com tanta biodiversidade, como a Amazônia, a coleta aleatória também é interessante. Em apenas 1 hectare, a área das parcelas, é possível encontrar até 300 espécies de árvores de grande porte. Esse modelo garante a criação rápida de um banco de extratos diversificado.
No laboratório da Unip em São Paulo, a farmacêutica Ivana Suffredini testa os extratos contra células de seis tipos de câncer (mama, ovário, pulmão, próstata, sistema nervoso central e leucemia) e outras quatro bactérias muito comuns, entre elas a Escherichia coli e Staphylococcus aureus. Ela e sua equipe investigam cada fração de material trazido da Amazônia para saber se nela há grupos importantes de substâncias, como os alcalóides. "Agora estamos num estágio bastante promissor. Chegamos a 72 extratos que apresentaram atividade contra, ao menos, uma célula de tumor, e outros 50 que reagiram contra uma das bactérias estudadas. Alguns extratos, como os Amphirrox sp. e Macoubea sprucei, apresentaram resultados contra todas as células de câncer."
A pesquisa de novos medicamentos na floresta demora a dar frutos? Considerando-se apenas o objetivo final, sim. Mas basta conversar com o mateiro Osmar Ferreira para se enxergar resultados positivos imediatos na vida de todas as pessoas envolvidas em um trabalho como esse. Até 1992, Ferreira vivia graças à renda obtida da venda de madeira de lei da mata na mesma região das áreas da atual pesquisa. "Jacareúba, sumaúma, virola, andiroba, cedro e outras mais", conta ele. "Chegava a gastar 30 litros de gasolina por dia só para alimentar a motosserra. Derrubava de 20 a 30 árvores de grande porte, com caules de até 1,5 metro de diâmetro. Deixava as toras na margem do rio à espera da próxima cheia; e, quando a madeira boiava, eu e meus outros quatro irmãos seguíamos até Manaus para vender."
Ferreira vivenciou histórias comuns de exploração criminosa da Amazônia, que perdura ainda em algumas regiões, sobretudo no Mato Grosso, no Pará e em Rondônia. Até que um dia, desempregado em Manaus, ele decidiu fazer um teste para mateiro do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Hoje, contratado pela Unip para a pesquisa no rio Cuieiras, cuida de todo o processamento do material feito em um laboratório recém-inaugurado pela universidade em Manaus e até arrisca algumas classificações.
Estudos recentes mostram que a biodiversidade da Amazônia oriental, a mais ameaçada pelo desmatamento, vem diminuindo nos últimos anos. É como se a taxa de reposição natural da selva não fosse capaz de suprir as rápidas baixas. "Normalmente, uma perturbação natural, a morte de uma árvore, por exemplo, pode gerar mais vida", resume o botânico Mateus Paciencia, "pois muitas espécies passam a habitar aquele local em que antes só havia um. O problema acontece quando as perturbações causadas pelo homem atingem um ritmo muito acelerado. A floresta parece não ter tempo de reagir."
Num momento em que se discute como nunca a devastação da maior floresta da Terra, a experiência de pessoas como Paciencia, Osmar Ferreira e Luiz Coelho torna-se a cada dia mais valiosa. Eles conhecem uma Amazônia ainda estranha a todos nós - uma floresta profunda, de detalhes, tomada por uma miríade de árvores, plantas, folhas e frutos. Um mundo que pode salvar vidas e revolucionar o futuro da medicina.
Por Jefferson Gorgulho Peixoto, com fotos de Araquém Alcântara
Revista National Geographic - 03/2008
A primeira hora da manhã, ainda sem a luz direta do Sol, é o momento em que se pode distinguir melhor as infinitas nuanças do verde nas árvores. A variedade impressiona: uma mesma espécie não se repete por muitos e muitos metros. Na Amazônia, durante os meses de janeiro a junho, época da cheia, o leito dos rios praticamente dobra de tamanho, tornando possível a navegação por estreitos canais mata adentro. Viajamos por um igapó, uma imensa área alagada do rio Cuieiras, afluente do Negro. O comandante corta o motor e atracamos em um canto tranqüilo, de frente para uma árvore imensa cujo tronco está encoberto pela água até a metade.
O médico oncologista e escritor Drauzio Varella aprecia momentos assim. Ele contempla, reflete. Aos 64 anos, demorou quase 50 para pôr os pés na maior floresta da Terra. "Nas primeiras vezes em que vim pra cá, eu me perguntava como era possível ter demorado tanto a conhecer este lugar maravilhoso", diz. Para Varella, a Amazônia abriga o futuro da medicina. Sob seu comando, uma equipe de pesquisadores reúne-se a cada dois meses para localizar e avaliar a diversidade de vida e a atividade farmacológica existente no local, 100 quilômetros a noroeste de Manaus.
Num projeto da Universidade Paulista (Unip), o grupo coleta plantas para estudar a atividade de seus componentes contra certos tipos de câncer e bactérias resistentes a antibióticos. "A história da medicina está cheia de casos em que determinado princípio ativo foi extraído de uma planta. Na oncologia, inclusive, uma das drogas mais usadas atualmente contra câncer de mama, o taxol, foi isolada de uma planta nativa da América do Norte, a Taxus brevifolia. Imagine o potencial existente na floresta Amazônica", afirma.
Estima-se que o Brasil concentre cerca de 20% de toda a biodiversidade mundial, e que a Amazônia contenha 17% da biodiversidade brasileira - um tesouro biológico ainda pouco estudado.
A extração do princípio ativo de uma planta e sua manipulação até chegar à fórmula de um medicamento apto a ser usado em seres humanos é um processo complexo, que consome muito dinheiro e um tempo médio superior a dez anos.
Desde que as viagens de coleta ao baixo rio Negro começaram, a bordo do barco Escola da Natureza, em 1998, os cientistas da Unip já contabilizaram 2,2 mil extratos de planta detectados (extrato é o produto da retirada de compostos químicos da planta pelo uso de um solvente - café e chá são exemplos familiares). "Desse total, 72 indicaram alguma atividade contra ao menos uma das células tumorais que estudamos e outros 50 mostraram reação contra bactérias", revela Varella, ressaltando que, mesmo nos casos mais promissores, ainda há muito trabalho a ser feito. "Depois de detectar que um extrato apresentou atividade contra uma célula de câncer de mama, por exemplo, temos de fracioná-lo, ou seja, separar cada substância de sua composição para chegarmos àquela responsável pela atividade. Depois, é preciso passar para a fase de testes em animais e, posteriormente, em pessoas."
Ao contrário das antigas expedições capitaneadas por naturalistas europeus, em que o interesse científico vinha a reboque do comercial - e quase sempre contribuía para a destruição do ambiente -, as incursões científicas contemporâneas sabem que a maior riqueza está no conhecimento.
No século 21, o enfoque não é mais territorial; trata-se agora de uma busca microscópica atrás de informação. Mas como encontrar a espécie que pode dar origem a uma nova droga no meio da imensidão vegetal da floresta?
A Amazônia não é nenhum tapete verde homogêneo, como ainda hoje se costuma pensar. Existem muitas variações. Na bacia do rio Negro, por exemplo, é possível encontrar áreas de floresta alta, exuberante, vizinhas a campinas de arbustos baixos e solo arenoso. "Cada um desses terrenos dá suporte a vegetações diferentes, as espécies podem mudar muito entre uma área de platô e outra em declive, próxima a um rio", diz o botânico Mateus Paciencia, coordenador do trabalho de coleta. "As florestas de terra firme estão livres dos alagamentos sazonais e costumam apresentar maior número de plantas de grande porte, com flores e frutos que facilitam a identificação."
Para ajudar no rastreamento das espécies, os botânicos delimitam na mata as chamadas "parcelas", terrenos de 100 por 100 metros, onde as árvores de maior porte são classificadas e identificadas - recebem uma placa com um número. A definição do local e a identificação precisa das árvores e plantas são cruciais: de nada adiantaria a um farmacêutico descobrir uma substância no laboratório se não lhe fosse possível saber de que planta ela foi extraída e onde ela está.
Na mata, Paciencia segue o experiente mateiro Osmar Ferreira, levando a lista que contém o número das árvores de cada parcela e que servirá de base para a coleta da manhã. Drauzio Varella, de lupa na mão, pára diante de um tronco recoberto por uma camada de musgo. A névoa paira sobre nossa cabeça enquanto passamos sobre raízes enormes e desviamos de uma seqüência infindável de galhos e cipós. Até que avistarmos as estacas unidas que delimitam a área de pesquisa.
Durante dois meses, em 2002, Paciencia e Ferreira viveram acampados nessa parte da selva, fazendo as medições e fincando cada estaca nas três parcelas. Àquela época, 2,4 mil árvores de 279 espécies diferentes atingiram a "nota de corte" da pesquisa. Em 2008, será feito o primeiro recenseamento das parcelas, o que tornará possível uma avaliação sobre as dimensões da riqueza natural da região. "Até os anos 1980, era consenso de que a biodiversidade da Amazônia aumentava no sentido leste-oeste. Isso de fato ocorre: a Amazônia ocidental contém mais diversidade do que a oriental. Mas o que se constata agora é que existe um pico de riqueza na Amazônia central. Os cientistas falam em ponto de convergência: o centro da Amazônia, precisamente a macrorregião de Manaus, concentra espécimes vindos de muitos lados", explica Paciencia.
Certas árvores nas parcelas da Unip têm mais de 40 metros de altura. Em áreas de terra firme como essa, o espaço entre os troncos, no solo, não existe na parte alta, nas copas - estas se misturam e não é simples distinguir uma espécie da outra. É comum Osmar Ferreira subir em uma árvore para cortar um ramo da vizinha - ele precisa estar atento para fazer a distinção visual do espécime certo em meio a tantos galhos. E tem de chegar ainda ao ramo mais adequado, com o podão, e cortá-lo corretamente, preservando, se possível, galhos, folhas, flores e frutos.
No barco, o material coletado precisa ser processado para a viagem de volta. Na proa, logo abaixo da cabine, num pequeno laboratório, partes danificadas são retiradas, assim como insetos eventualmente presentes. Logo é feita a classificação da planta, ao menos até o gênero.
As diferentes partes são depois separadas e ensacadas em porções menores, que recebem etiquetas de identificação. Em Manaus, tudo passará dois dias em uma estufa para secagem completa. Osmar Ferreira moerá cada parte, produzindo uma pilha de sacos com o pó dos órgãos de cada uma das plantas coletadas. Essa é a floresta Amazônica que o restante da equipe recebe em São Paulo para a segunda fase do trabalho.
No convés, observando a chuva forte que começou no meio da tarde e não parou mais, Drauzio Varella relembra o começo de tudo, em 1992. "Organizamos um curso de biotecnologia em câncer e Aids, em São Paulo. Depois, convidamos pesquisadores estrangeiros para visitar a Amazônia a bordo deste mesmo barco. Entre eles estava Robert Gallo, um dos descobridores do vírus da Aids. Ele olhou para a floresta e me perguntou: 'Quem está pesquisando aqui, em busca de novos medicamentos?' 'Ninguém', eu respondi."
Naquela época, o National Cancer Institute (NCI), cuja sede fica na cidade de Frederick, em Maryland, nos Estados Unidos, já possuía um banco com quase 200 mil extratos de plantas, animais e fungos de espécies do hemisfério norte, incluindo Europa e China. Mais de 35 mil espécies de plantas serviram de fonte para as pesquisas, mas apenas 4% apresentavam indícios da necessidade de mais estudos. Até o início deste século, o NCI havia chegado a 42 drogas sintetizadas de fontes naturais, em mais de 30 anos de coleta - um exemplo de quão árduo é o trabalho nessa medicina baseada em recursos vegetais.
Varella sempre soube que o sucesso dessa empreitada amazônica dependeria do conhecimento de pessoas como Luiz Coelho. Amazonense da cidade de Tefé, ele nasceu em 1928 e com 6 anos chegou a Manaus, onde vive até hoje. Dali, partiria, anos mais tarde, para conhecer a fundo a floresta na companhia dos maiores botânicos do mundo. "Seu Luiz é representante de uma geração quase extinta de botânicos práticos, que aprendeu a profissão no campo. Percorreu a Amazônia toda junto de nomes como os do brasileiro William Rodrigues e do inglês Ghillean Prance, considerado por muitos o maior botânico vivo. Mesmo esses grandes homens da ciência já se calaram diante do conhecimento de seu Luiz na hora de identificar uma planta", diz Varella.
Coelho foi fundamental na montagem do acervo de plantas hoje estudadas. Existem diferentes estratégias de coleta. Pode-se, por exemplo, seguir as informações de moradores locais. Os defensores dessa estratégia argumentam que ela pode levar a resultados mais diretos, pois já houve um teste prévio feito pelas comunidades tradicionais. Outra abordagem é a que busca plantas na natureza por associação com outras que apresentem parentesco e cuja atividade farmacológica já seja conhecida. No caso de regiões com tanta biodiversidade, como a Amazônia, a coleta aleatória também é interessante. Em apenas 1 hectare, a área das parcelas, é possível encontrar até 300 espécies de árvores de grande porte. Esse modelo garante a criação rápida de um banco de extratos diversificado.
No laboratório da Unip em São Paulo, a farmacêutica Ivana Suffredini testa os extratos contra células de seis tipos de câncer (mama, ovário, pulmão, próstata, sistema nervoso central e leucemia) e outras quatro bactérias muito comuns, entre elas a Escherichia coli e Staphylococcus aureus. Ela e sua equipe investigam cada fração de material trazido da Amazônia para saber se nela há grupos importantes de substâncias, como os alcalóides. "Agora estamos num estágio bastante promissor. Chegamos a 72 extratos que apresentaram atividade contra, ao menos, uma célula de tumor, e outros 50 que reagiram contra uma das bactérias estudadas. Alguns extratos, como os Amphirrox sp. e Macoubea sprucei, apresentaram resultados contra todas as células de câncer."
A pesquisa de novos medicamentos na floresta demora a dar frutos? Considerando-se apenas o objetivo final, sim. Mas basta conversar com o mateiro Osmar Ferreira para se enxergar resultados positivos imediatos na vida de todas as pessoas envolvidas em um trabalho como esse. Até 1992, Ferreira vivia graças à renda obtida da venda de madeira de lei da mata na mesma região das áreas da atual pesquisa. "Jacareúba, sumaúma, virola, andiroba, cedro e outras mais", conta ele. "Chegava a gastar 30 litros de gasolina por dia só para alimentar a motosserra. Derrubava de 20 a 30 árvores de grande porte, com caules de até 1,5 metro de diâmetro. Deixava as toras na margem do rio à espera da próxima cheia; e, quando a madeira boiava, eu e meus outros quatro irmãos seguíamos até Manaus para vender."
Ferreira vivenciou histórias comuns de exploração criminosa da Amazônia, que perdura ainda em algumas regiões, sobretudo no Mato Grosso, no Pará e em Rondônia. Até que um dia, desempregado em Manaus, ele decidiu fazer um teste para mateiro do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Hoje, contratado pela Unip para a pesquisa no rio Cuieiras, cuida de todo o processamento do material feito em um laboratório recém-inaugurado pela universidade em Manaus e até arrisca algumas classificações.
Estudos recentes mostram que a biodiversidade da Amazônia oriental, a mais ameaçada pelo desmatamento, vem diminuindo nos últimos anos. É como se a taxa de reposição natural da selva não fosse capaz de suprir as rápidas baixas. "Normalmente, uma perturbação natural, a morte de uma árvore, por exemplo, pode gerar mais vida", resume o botânico Mateus Paciencia, "pois muitas espécies passam a habitar aquele local em que antes só havia um. O problema acontece quando as perturbações causadas pelo homem atingem um ritmo muito acelerado. A floresta parece não ter tempo de reagir."
Num momento em que se discute como nunca a devastação da maior floresta da Terra, a experiência de pessoas como Paciencia, Osmar Ferreira e Luiz Coelho torna-se a cada dia mais valiosa. Eles conhecem uma Amazônia ainda estranha a todos nós - uma floresta profunda, de detalhes, tomada por uma miríade de árvores, plantas, folhas e frutos. Um mundo que pode salvar vidas e revolucionar o futuro da medicina.





















