mini verde
O carro do presente
Com o lançamento do Nano, o carro mais barato do mundo, a indiana Tata desafia a indústria automobilística
Por Sérgio Teixeira Jr. com reportagem de Denise Dweck
Revista Exame - 30/01/2008
[img1]Quando o empresário Ratan Tatá anunciou, há quatro anos, o plano de fazer um carro de 2.500 dólares para as famílias indianas, muitos figurões da indústria ridicularizaram o projeto. Em tom jocoso, comparavam o veículo a uma bicicleta de quatro rodas. No início de janeiro, o empresário indiano calou os piadistas. Graças a uma série de inovações tecnológicas,o Nano é, de longe, o carro mais barato do mundo.
Começará a ser vendido no final do ano pelos 2.500 dólares prometidos (sem contar impostos e frete). Pela metade do preço de um Maruti 800, da Suzuki, destronado como o carro mais barato do mercado indiano, os motoristas do Tata Nano dirigirão um carro 8% menor, mas com 21% mais de espaço em seu interior.
A fábrica do carro em Singur, na Índia, terá capacidade para produzir 250.000 veículos por ano, mas estima-se que o carro atingirá vendas anuais de 1 milhão de unidades. O desafio que Tata colocou para si, e cumpriu, representa mais um desafio para a indústria automobilística tradicional, já às voltas com a questão da responsabilidade ambiental: como produzir carros de forma competitiva para conquistar a imensa fatia da população que nunca teve um carro na vida?
Não é uma questão trivial. Na Alemanha, as vendas estão estagnadas. À beira de uma recessão e com um aperto no crédito, os Estados Unidos também não oferecem consolo muito pelo contrário. O espaço para a expansão da indústria automotiva está em países como Índia, China e, em menor grau, Brasil.
Todos são países com pouca densidade de carros e que passam por um período de crescimento estável, com classes mais baixas em ascensão. De acordo com dados da consultoria CSM Worldwide, especializada no setor automotivo, as vendas de automóveis no sul da Ásia serão 87,7% maiores em 2013 do que em 2007.
Na América do Norte, o aumento será de apenas 9,6%,no mesmo período."Os mercados em desenvolvimento, porém, ainda terão uma renda mais baixa.O carro para essa região terá de ser diferente: mais barato e com menos itens", diz o consultor Paulo Cardamone, da CSM Worldwide.
Para criar o carro mais barato do mundo, Ratan Tata inventou um novo modelo de negócios, que envolve mudanças nos materiais utilizados, nos contratos e na distribuição do carro. Na estrutura do Nano, foi usado um tipo de aço mais leve. O tamanho do motor foi reduzido. Para obter preços mais baixos nas peças, Tata negociou contratos com volumes maiores e prazos mais longos. Na distribuição, ele criou um sistema em que envia o carro em partes para ser montado nas concessionárias.
O custo de desenvolvimento do Nano foi muito inferior ao dos carros feitos no Ocidente. Uma das explicações é o fato de os salários dos engenheiros indianos serem quase um terço do que é pago aos profissionais de Detroit. "Dificilmente outras montadoras conseguirão o mesmo resultado", diz Paul Blokland, diretor da consultoria indiana Segment Y, especializada em carros. "A Índia é um dos poucos países com engenheiros muito bons e mercado com escala suficiente para um carro com margem tão pequena."
Não à toa outras empresas estão de olho no país para fazer modelos de baixo custo. A Renault-Nissan está discutindo uma parceria com a indiana Bajaj Auto para lançar um carro de 3.000 dólares no ano que vem. "O lançamento do Nano pode ser uma ruptura tremenda para a indústria automobilística", diz Vijay Vaitheeswaran, autor de um livro recente sobre a corrida pelo carro do futuro.
"A tendência de carros menores e mais baratos pode muito bem se espalhar para o mundo rico. Essa é uma força extremamente poderosa, que pode forçar a indústria tradicional a repensar seus modelos de negócios."
É evidente que um carro como o Nano, na sua configuração atual, não poderia ser vendido em muitos outros mercados além da Índia. As regras de segurança indianas são menos rígidas. Se o Nano fosse adaptado para outro mercado, com reforço na estrutura metálica e mais itens de segurança, por exemplo, seu valor poderia facilmente saltar para 6.000 dólares.
Mesmo assim, o valor seria baixo em comparação aos preços pagos mundo afora, especialmente no Brasil, onde o carro mais barato sai por cerca de 12.000 dólares. O mercado brasileiro é uma das apostas da Fiat, que vai construir no país um novo carro de baixo custo para ser exportado. Mas aqui ainda vai ser difícil ver modelos com preços baixíssimos pelo menos enquanto os impostos estiverem nas alturas.
Veja também:
Em busca do carro do futuro
Adeus à gasolina?
A inovação virá das pequenas
[img1]Quando o empresário Ratan Tatá anunciou, há quatro anos, o plano de fazer um carro de 2.500 dólares para as famílias indianas, muitos figurões da indústria ridicularizaram o projeto. Em tom jocoso, comparavam o veículo a uma bicicleta de quatro rodas. No início de janeiro, o empresário indiano calou os piadistas. Graças a uma série de inovações tecnológicas,o Nano é, de longe, o carro mais barato do mundo.
Começará a ser vendido no final do ano pelos 2.500 dólares prometidos (sem contar impostos e frete). Pela metade do preço de um Maruti 800, da Suzuki, destronado como o carro mais barato do mercado indiano, os motoristas do Tata Nano dirigirão um carro 8% menor, mas com 21% mais de espaço em seu interior.
A fábrica do carro em Singur, na Índia, terá capacidade para produzir 250.000 veículos por ano, mas estima-se que o carro atingirá vendas anuais de 1 milhão de unidades. O desafio que Tata colocou para si, e cumpriu, representa mais um desafio para a indústria automobilística tradicional, já às voltas com a questão da responsabilidade ambiental: como produzir carros de forma competitiva para conquistar a imensa fatia da população que nunca teve um carro na vida?
Não é uma questão trivial. Na Alemanha, as vendas estão estagnadas. À beira de uma recessão e com um aperto no crédito, os Estados Unidos também não oferecem consolo muito pelo contrário. O espaço para a expansão da indústria automotiva está em países como Índia, China e, em menor grau, Brasil.
Todos são países com pouca densidade de carros e que passam por um período de crescimento estável, com classes mais baixas em ascensão. De acordo com dados da consultoria CSM Worldwide, especializada no setor automotivo, as vendas de automóveis no sul da Ásia serão 87,7% maiores em 2013 do que em 2007.
Na América do Norte, o aumento será de apenas 9,6%,no mesmo período."Os mercados em desenvolvimento, porém, ainda terão uma renda mais baixa.O carro para essa região terá de ser diferente: mais barato e com menos itens", diz o consultor Paulo Cardamone, da CSM Worldwide.
Para criar o carro mais barato do mundo, Ratan Tata inventou um novo modelo de negócios, que envolve mudanças nos materiais utilizados, nos contratos e na distribuição do carro. Na estrutura do Nano, foi usado um tipo de aço mais leve. O tamanho do motor foi reduzido. Para obter preços mais baixos nas peças, Tata negociou contratos com volumes maiores e prazos mais longos. Na distribuição, ele criou um sistema em que envia o carro em partes para ser montado nas concessionárias.
O custo de desenvolvimento do Nano foi muito inferior ao dos carros feitos no Ocidente. Uma das explicações é o fato de os salários dos engenheiros indianos serem quase um terço do que é pago aos profissionais de Detroit. "Dificilmente outras montadoras conseguirão o mesmo resultado", diz Paul Blokland, diretor da consultoria indiana Segment Y, especializada em carros. "A Índia é um dos poucos países com engenheiros muito bons e mercado com escala suficiente para um carro com margem tão pequena."
Não à toa outras empresas estão de olho no país para fazer modelos de baixo custo. A Renault-Nissan está discutindo uma parceria com a indiana Bajaj Auto para lançar um carro de 3.000 dólares no ano que vem. "O lançamento do Nano pode ser uma ruptura tremenda para a indústria automobilística", diz Vijay Vaitheeswaran, autor de um livro recente sobre a corrida pelo carro do futuro.
"A tendência de carros menores e mais baratos pode muito bem se espalhar para o mundo rico. Essa é uma força extremamente poderosa, que pode forçar a indústria tradicional a repensar seus modelos de negócios."
É evidente que um carro como o Nano, na sua configuração atual, não poderia ser vendido em muitos outros mercados além da Índia. As regras de segurança indianas são menos rígidas. Se o Nano fosse adaptado para outro mercado, com reforço na estrutura metálica e mais itens de segurança, por exemplo, seu valor poderia facilmente saltar para 6.000 dólares.
Mesmo assim, o valor seria baixo em comparação aos preços pagos mundo afora, especialmente no Brasil, onde o carro mais barato sai por cerca de 12.000 dólares. O mercado brasileiro é uma das apostas da Fiat, que vai construir no país um novo carro de baixo custo para ser exportado. Mas aqui ainda vai ser difícil ver modelos com preços baixíssimos pelo menos enquanto os impostos estiverem nas alturas.
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