AMIGO DA TERRA
"As empresas são hipócritas"
Tony Juniper, principal executivo da Friends of the Earth, diz que as grandes companhias fazem propaganda enganosa sobre suas políticas de sustentabilidade
Por Luciene Antunes
Revista Exame - 01/08/2007
[img01]No comando da ONG inglesa Friends of the Earth, Tony Juniper tornou-se um implacável crítico do discurso de sustentabilidade das grandes empresas. Para ele, isso não passa de marketing para vender uma boa reputação aos acionistas. Seu discurso é uma amostra das pressões - justas ou não- que empresas do mundo todo vão enfrentar daqui para a frente.
Por que o senhor ataca tanto as companhias que investem em políticas sustentáveis?
Há muita hipocrisia. A Shell, por exemplo, gasta uma enorme quantia de dinheiro tentando convencer as pessoas de que se importa com o meio ambiente. No entanto, sua produção de petróleo e de gás só aumenta.
No geral, as empresas não são hoje mais responsáveis?
Sim, algumas empresas têm obtido lucro com atividades sustentáveis, como as companhias de produtos orgânicos. Mas elas tendem a ser menores, e suas oportunidades de crescer são limitadas pelas grandes que querem manter tudo do jeito que está.
Companhias como a petrolífera Exxon não mudaram de comportamento por causa das pressões de ONGs e da opinião pública?
Em geral, as empresas dizem que mudaram depois de grandes incidentes. Mas, freqüentemente, cometem os mesmos descuidos depois de um tempo. Se essas empresas pretendem desempenhar um papel de liderança, precisam mudar sua estratégia e deixar os combustíveis fósseis em favor de tecnologias alternativas.
Os investimentos da Toyota e de outras montadoras em carros híbridos não representam sinais dessa mudança?
A Toyota mente em suas propagandas. Na Inglaterra, a empresa promovia o híbrido Lexus com o seguinte slogan: "Alta performance, baixas emissões, nenhuma culpa". Essas afirmações sobre o impacto do veículo são falsas. O carro ainda se enquadra numa categoria de grandes emissões. Tanto é que o órgão que regula a propaganda na Inglaterra mandou retirar a publicidade do ar. A tecnologia híbrida é um avanço, mas está longe de ser a solução para os problemas de poluição.
O uso do etanol seria uma boa solução?
O etanol possui vantagens ambientais. Mas tem alguns problemas. Sua produção requer grandes áreas de terra. Isso pode gerar uma competição de espaço no campo entre as culturas destinadas à produção de alimentos e de combustível. Em alguns casos, o etanol também exige uma grande quantidade de energia para sua produção, o que torna seu custo-benefício duvidoso.
Que setores da economia mundial são atualmente as maiores ameaças ao meio ambiente?
Há dois setores especialmente preocupantes. O primeiro engloba empresas que produzem e consomem muitos combustíveis fósseis. O outro é o conjunto de companhias envolvidas na exploração de recursos naturais, como a indústria do agronegócio.
A China é considerada hoje outra grande ameaça. O senhor concorda com essa visão?
Não. A maior parte do problema atual foi gerada pelas emissões de poluentes das grandes potências ocidentais. É preciso que cada um assuma sua parte da culpa. Está claro que não dá mais para apostar no crescimento econômico baseado na queima de enormes quantidades de combustíveis fósseis.
[img01]No comando da ONG inglesa Friends of the Earth, Tony Juniper tornou-se um implacável crítico do discurso de sustentabilidade das grandes empresas. Para ele, isso não passa de marketing para vender uma boa reputação aos acionistas. Seu discurso é uma amostra das pressões - justas ou não- que empresas do mundo todo vão enfrentar daqui para a frente.
Por que o senhor ataca tanto as companhias que investem em políticas sustentáveis?
Há muita hipocrisia. A Shell, por exemplo, gasta uma enorme quantia de dinheiro tentando convencer as pessoas de que se importa com o meio ambiente. No entanto, sua produção de petróleo e de gás só aumenta.
No geral, as empresas não são hoje mais responsáveis?
Sim, algumas empresas têm obtido lucro com atividades sustentáveis, como as companhias de produtos orgânicos. Mas elas tendem a ser menores, e suas oportunidades de crescer são limitadas pelas grandes que querem manter tudo do jeito que está.
Companhias como a petrolífera Exxon não mudaram de comportamento por causa das pressões de ONGs e da opinião pública?
Em geral, as empresas dizem que mudaram depois de grandes incidentes. Mas, freqüentemente, cometem os mesmos descuidos depois de um tempo. Se essas empresas pretendem desempenhar um papel de liderança, precisam mudar sua estratégia e deixar os combustíveis fósseis em favor de tecnologias alternativas.
Os investimentos da Toyota e de outras montadoras em carros híbridos não representam sinais dessa mudança?
A Toyota mente em suas propagandas. Na Inglaterra, a empresa promovia o híbrido Lexus com o seguinte slogan: "Alta performance, baixas emissões, nenhuma culpa". Essas afirmações sobre o impacto do veículo são falsas. O carro ainda se enquadra numa categoria de grandes emissões. Tanto é que o órgão que regula a propaganda na Inglaterra mandou retirar a publicidade do ar. A tecnologia híbrida é um avanço, mas está longe de ser a solução para os problemas de poluição.
O uso do etanol seria uma boa solução?
O etanol possui vantagens ambientais. Mas tem alguns problemas. Sua produção requer grandes áreas de terra. Isso pode gerar uma competição de espaço no campo entre as culturas destinadas à produção de alimentos e de combustível. Em alguns casos, o etanol também exige uma grande quantidade de energia para sua produção, o que torna seu custo-benefício duvidoso.
Que setores da economia mundial são atualmente as maiores ameaças ao meio ambiente?
Há dois setores especialmente preocupantes. O primeiro engloba empresas que produzem e consomem muitos combustíveis fósseis. O outro é o conjunto de companhias envolvidas na exploração de recursos naturais, como a indústria do agronegócio.
A China é considerada hoje outra grande ameaça. O senhor concorda com essa visão?
Não. A maior parte do problema atual foi gerada pelas emissões de poluentes das grandes potências ocidentais. É preciso que cada um assuma sua parte da culpa. Está claro que não dá mais para apostar no crescimento econômico baseado na queima de enormes quantidades de combustíveis fósseis.