GÁS TOTAL
A bolsa que vende ar
O primeiro mercado de compra e venda de créditos de carbono do mundo, sediado em Chicago, não pára de crescer - e começa a gerar filhotes em outros países
Por Cristiane Mano e José Alberto Gonçalves
Revista Exame - 18/07/2007
A corrida pela neutralização de emissões de carbono já entrou para a agenda do cidadão comum mundo afora. Num misto de atitude ecologicamente correta e jogada publicitária, bandas de rock como Coldplay e Pearl Jam anunciaram que suas últimas turnês mundiais foram neutralizadas- o Coldplay mandou plantar 10 000 mangueiras na Índia e o Pearl Jam criou uma reserva ambiental em Madagascar.
A nova obsessão mundial, porém, só chegou às esferas mais altas do poder público nos Estados Unidos no final de junho. O congresso americano decidiu compensar suas emissões de carbono até 2010 comprando créditos na Bolsa do Clima de Chicago (em inglês, Chicago Climate Exchange, ou CCX). Com isso, tornou-se o mais novo dos 300 membros da primeira bolsa do mundo dedicada à compra e venda voluntária de créditos de carbono- também fazem parte da lista empresas como Motorola, Ford e Cargill.
A movimentação da CCX, criada em 2003 pelo financista Richard Sandor, sextuplicou nos últimos dois anos. A bolsa de Chicago movimentou 30 milhões de dólares no primeiro semestre deste ano, o dobro da cifra obtida no mesmo período do ano passado (veja quadro). A CCX ainda tem um potencial gigantesco, sobretudo se seus números forem comparados aos do mercado formado pelos países signatários do Protocolo de Kyoto, que movimentou 30 bilhões de dólares em 2006.
Ex-vice-presidente da bolsa de derivativos de Chicago e professor da conceituada escola de negócios Kellogg, Sandor abriu o primeiro pregão da CCX dois anos antes de os países signatários do Protocolo de Kyoto começarem a negociar seus créditos. Não foi a primeira vez que ele ajudou a criar uma commodity financeira baseada em gases nocivos para o ambiente.
Sandor foi um dos idealizadores de um sistema pioneiro de comércio de emissões de dióxido de sulfúreo, que causa chuva ácida, nos anos 90. Atualmente, esse setor movimenta 3 bilhões de dólares por ano e já reduziu 30% das emissões do gás. "O livre mercado é a melhor maneira de resolver questões ambientais", diz Sandor, que se tornou uma espécie de embaixador das finanças ambientais.
A multiplicação dos créditos
Ele começou recentemente a criar filhotes da CCX. Há dois anos, articulou a abertura de uma versão européia da bolsa, a European Climate Exchange (ECX), responsável por 80% das negociações de créditos realizados em bolsa na Europa (a maior parte dos negócios ocorre sem intermediações de bolsa). Neste ano, abriu uma filial na Califórnia e outra em Montreal, ainda com movimentações inexpressivas. Hoje, Sandor estuda a criação de uma bolsa asiática, na Índia.
Todas essas unidades são controladas pela empresa Climate Exchange, que tem ações negociadas em Londres e Sandor como presidente do conselho de administração. O valor de mercado das ações da Climate Exchange já chegou a 1,4 bilhão de dólares. Um dos sinais mais evidentes do potencial de expansão da bolsa aconteceu quando o banco de investimentos Goldman Sachs, maior investidor individual do mercado europeu de carbono, comprou 10% da Climate Exchange no final do ano passado. Em janeiro de 2007, aumentou a participação para 19%.
É preciso um pouco de abstração para entender o que se vende e o que se compra num mercado de créditos de carbono. O mecanismo para os membros da CCX, porém, é simples. Para se associar à bolsa, uma empresa tem de se comprometer a reduzir em 6% suas emissões de carbono até 2010. O que for além disso pode virar créditos que outras empresas (ou mesmo entidades do governo) podem comprar para compensar suas emissões.
Trata-se de um mercado auto-regulado e com menos restrições do que a compra e venda de créditos certificados sob as normas estabelecidas pelo Protocolo de Kyoto. Uma das diferenças é que na Bolsa do Clima de Chicago podem entrar projetos de reflorestamento- o que explica a presença de empresas brasileiras de celulose no pregão. Hoje há dez companhias nacionais que negociam na bolsa, sendo que cinco delas são do setor de papel e celulose.
A pioneira foi a Suzano, que começou a participar da bolsa em fevereiro de 2007. Seu estoque de créditos pode resultar numa receita de 10 milhões de dólares- quase 100 vezes mais que o investimento de 150 000 dólares para realizar os inventários, contratar a auditoria do projeto e pagar as taxas da CCX.
A diferença de padrões do mercado voluntário e do estimulado pelas metas do Protocolo de Kyoto resulta também num degrau significativo entre as cotações em cada um deles. O preço médio de negociações por tonelada de carbono na CCX aumentou de 85 centavos de dólar em 2004 para os atuais 4 dólares. Mas ainda está muito longe das cotações européias, que chegam a 20 euros por tonelada. A previsão é que os valores se aproximem a partir de 2012, caso o governo americano decida participar da nova rodada do Protocolo de Kyoto.
Especialistas acreditam que, se houver uma padronização da commodity em todo o mundo, os preços do mercado voluntário tendem a se aproximar dos do mercado europeu. O primeiro sinal da adesão americana ao combate das emissões de carbono, com a negociação da câmara na CCX há poucas semanas, está dado.
A corrida pela neutralização de emissões de carbono já entrou para a agenda do cidadão comum mundo afora. Num misto de atitude ecologicamente correta e jogada publicitária, bandas de rock como Coldplay e Pearl Jam anunciaram que suas últimas turnês mundiais foram neutralizadas- o Coldplay mandou plantar 10 000 mangueiras na Índia e o Pearl Jam criou uma reserva ambiental em Madagascar.
A nova obsessão mundial, porém, só chegou às esferas mais altas do poder público nos Estados Unidos no final de junho. O congresso americano decidiu compensar suas emissões de carbono até 2010 comprando créditos na Bolsa do Clima de Chicago (em inglês, Chicago Climate Exchange, ou CCX). Com isso, tornou-se o mais novo dos 300 membros da primeira bolsa do mundo dedicada à compra e venda voluntária de créditos de carbono- também fazem parte da lista empresas como Motorola, Ford e Cargill.
A movimentação da CCX, criada em 2003 pelo financista Richard Sandor, sextuplicou nos últimos dois anos. A bolsa de Chicago movimentou 30 milhões de dólares no primeiro semestre deste ano, o dobro da cifra obtida no mesmo período do ano passado (veja quadro). A CCX ainda tem um potencial gigantesco, sobretudo se seus números forem comparados aos do mercado formado pelos países signatários do Protocolo de Kyoto, que movimentou 30 bilhões de dólares em 2006.
Ex-vice-presidente da bolsa de derivativos de Chicago e professor da conceituada escola de negócios Kellogg, Sandor abriu o primeiro pregão da CCX dois anos antes de os países signatários do Protocolo de Kyoto começarem a negociar seus créditos. Não foi a primeira vez que ele ajudou a criar uma commodity financeira baseada em gases nocivos para o ambiente.
Sandor foi um dos idealizadores de um sistema pioneiro de comércio de emissões de dióxido de sulfúreo, que causa chuva ácida, nos anos 90. Atualmente, esse setor movimenta 3 bilhões de dólares por ano e já reduziu 30% das emissões do gás. "O livre mercado é a melhor maneira de resolver questões ambientais", diz Sandor, que se tornou uma espécie de embaixador das finanças ambientais.
A multiplicação dos créditos
Ele começou recentemente a criar filhotes da CCX. Há dois anos, articulou a abertura de uma versão européia da bolsa, a European Climate Exchange (ECX), responsável por 80% das negociações de créditos realizados em bolsa na Europa (a maior parte dos negócios ocorre sem intermediações de bolsa). Neste ano, abriu uma filial na Califórnia e outra em Montreal, ainda com movimentações inexpressivas. Hoje, Sandor estuda a criação de uma bolsa asiática, na Índia.
Todas essas unidades são controladas pela empresa Climate Exchange, que tem ações negociadas em Londres e Sandor como presidente do conselho de administração. O valor de mercado das ações da Climate Exchange já chegou a 1,4 bilhão de dólares. Um dos sinais mais evidentes do potencial de expansão da bolsa aconteceu quando o banco de investimentos Goldman Sachs, maior investidor individual do mercado europeu de carbono, comprou 10% da Climate Exchange no final do ano passado. Em janeiro de 2007, aumentou a participação para 19%.
É preciso um pouco de abstração para entender o que se vende e o que se compra num mercado de créditos de carbono. O mecanismo para os membros da CCX, porém, é simples. Para se associar à bolsa, uma empresa tem de se comprometer a reduzir em 6% suas emissões de carbono até 2010. O que for além disso pode virar créditos que outras empresas (ou mesmo entidades do governo) podem comprar para compensar suas emissões.
Trata-se de um mercado auto-regulado e com menos restrições do que a compra e venda de créditos certificados sob as normas estabelecidas pelo Protocolo de Kyoto. Uma das diferenças é que na Bolsa do Clima de Chicago podem entrar projetos de reflorestamento- o que explica a presença de empresas brasileiras de celulose no pregão. Hoje há dez companhias nacionais que negociam na bolsa, sendo que cinco delas são do setor de papel e celulose.
A pioneira foi a Suzano, que começou a participar da bolsa em fevereiro de 2007. Seu estoque de créditos pode resultar numa receita de 10 milhões de dólares- quase 100 vezes mais que o investimento de 150 000 dólares para realizar os inventários, contratar a auditoria do projeto e pagar as taxas da CCX.
A diferença de padrões do mercado voluntário e do estimulado pelas metas do Protocolo de Kyoto resulta também num degrau significativo entre as cotações em cada um deles. O preço médio de negociações por tonelada de carbono na CCX aumentou de 85 centavos de dólar em 2004 para os atuais 4 dólares. Mas ainda está muito longe das cotações européias, que chegam a 20 euros por tonelada. A previsão é que os valores se aproximem a partir de 2012, caso o governo americano decida participar da nova rodada do Protocolo de Kyoto.
Especialistas acreditam que, se houver uma padronização da commodity em todo o mundo, os preços do mercado voluntário tendem a se aproximar dos do mercado europeu. O primeiro sinal da adesão americana ao combate das emissões de carbono, com a negociação da câmara na CCX há poucas semanas, está dado.