Investimento
O capital também quer ser verde
Fundos brasileiros começam a investir em empresas que atuam no promissor mercado de negócios ligados ao meio ambiente
Por Ana Luiza Herzog
Revista Exame - 18/07/2007
No bilionário mercado americano de capital de risco, uma tendência tem se mostrado cada vez mais forte - a busca dos investidores por negócios "verdes". Segundo estimativas da consultoria Cleantech Network, nos últimos dois anos o setor de venture capital injetou cerca de 3 bilhões de dólares em pequenas empresas criadas por empreendedores que buscam soluções para problemas relacionados ao meio ambiente.
Um dos expoentes dessa onda ecológica é o investidor John Doerr, do fundo Kleiner Perkins Caufield e Byers. Num passado recente, Doerr viu as possibilidades da internet e ficou rico ao apostar num destino brilhante para companhias de tecnologia, como Compaq e Google. Agora faz o mesmo com os negócios verdes. Nos últimos tempos, Doerr levantou 200 milhões de dólares para investir em negócios movidos a inovações ambientais.
No Brasil, um fenômeno semelhante vem ganhando corpo. "Não é possível precisar quanto está sendo investido, mas sabemos que essa é uma tendência que certamente vai crescer", afirma Marcus Regueira, presidente da Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital (ABVCAP).
Um dos protagonistas desse novo tipo de investimento é a gestora de capital de risco Stratus, que em maio anunciou um investimento de 20 milhões de reais na Ecosorb, empresa paulista especializada na prevenção e na remediação de desastres ambientais. Trata-se do primeiro aporte de uma série de seis que a Stratus deverá fazer até o final de 2008 por meio do VCIII, fundo que tem mais 80 milhões de reais em caixa para investir em negócios sustentáveis. A Ecosorb nasceu no início desta década, com a importação de turfa - um absorvente natural de óleos e outros produtos químicos prejudiciais à natureza.
Ao longo do tempo, além de ampliar a gama de produtos de proteção ambiental vendidos às empresas, a Ecosorb também se especializou em ajudar petrolíferas, portos e companhias de logística a evitar (ou remediar) acidentes de grande impacto. Presente hoje nos portos de Santos, Rio de Janeiro, Paranaguá e Itajaí e namalha ferroviária da América Latina Logística (ALL), a Ecosorb fatura 15 milhões de reais por ano. Mas o resultado do presente, para os investidores, é irrelevante diante das oportunidades de ganho futuro.
Ao contrário do que aconteceu durante a bolha da internet, os investidores agora têm mais cautela na hora de escolher os projetos
A expectativa da Stratus é que as vendas da Ecosorb cheguem a 100 milhões de reais em menos de cinco anos. O capital da companhia, porém, poderá ser aberto antes disso, por meio do Bovespa Mais - iniciativa da bolsa de São Paulo para incentivar a entrada de pequenas e médias empresas no mercado de capitais. "É bem provável que a Ecosorb seja a primeira empresa ambiental na bolsa", afirma Philippe Lisbona, gestor do fundo.
O otimismo de Lisbona em relação ao crescimento da empresa está calcado em duas premissas. A primeira é que o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal vingará - o que implicaria tentativas de solucionar o tão falado gargalo da infra-estrutura por meio da expansão e criação de mais portos. A segunda é que os órgãos ambientais e a própria sociedade serão cada vez mais intolerantes em relação a problemas como vazamento de óleo. "Nosso plano é crescer 40% ao ano, não só com o aumento do volume de negócios gerados pela expansão da infra-estrutura como também por aquisições", diz Eugenio Singer, presidente da Ecosorb.
A CARIOCA RIO BRAVO, gestora que tem entre seus sócios o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, formou um fundo de 35 milhões de reais para investir em negócios ligados a sustentabilidade. Sua primeira aposta aconteceu em março deste ano, quando realizou um aporte na paulista Adespec, pequena empresa que detém tecnologia para produzir colas e selantes (o valor do investimento não foi revelado).
O grande atrativo dos produtos fabricados pela Adespec é a ausência de solventes - substâncias tóxicas ao ser humano e ao meio ambiente banidas em vários países, mas ainda usadas em larga escala no Brasil. Caberá também à Rio Bravo decidir o que fazer com os 100 milhões de dólares que o Global Environment Fund (GEF), um dos mais tradicionais fundos verdes do mundo, destinou para o Brasil.
Paralelamente, a gestora acaba de fechar uma parceria com o ABN Amro Real para administrar parte dos recursos emprestados pelo banco. Há algum tempo, o ABN concede empréstimos para companhias interessadas em promover melhorias ambientais em suas operações. Agora, o banco decidiu lucrar financiando negócios que tenham grande chance de crescimento.
Nos últimos dois anos, o setor de venture capital injetou mais de 3 bilhões de dólares em pequenas empreas americanas que buscam soluções para problemas ambinetais
Um dos fatores que impulsionam os fundos de capital de risco a investir em negócios sustentáveis é a convicção de que cada vez mais os consumidores refletirão sobre como suas decisões de compra - de qualquer produto ou serviço - podem afetar o meio ambiente. A paulista AxialPar, por exemplo, uma das pioneiras em apostar nos negócios sustentáveis, colocou 60 milhões de reais em seis empresas desde 2002.Uma das que estão em estágio mais avançado de desenvolvimento é a Mar & Terra, que pertence inteiramente ao fundo. Ela nasceu em setembro de 2003 para cultivar, em cativeiro, peixes brasileiros, como o pintado e o pacu.
[img01]Atualmente, produz cerca de 30 toneladas de pintado por mês para o mercado nacional e o externo - parte desse volume tem origem numa fazenda de 130 hectares em Mato Grosso do Sul.
A expectativa é que, em três anos, essa produção mais que triplique."Existem previsões de que até 2048 o ritmo atual de pesca comercial terá exaurido as populações de peixes", afirma Jorge Souza, diretor da Mar & Terra. "Por isso, acreditamos que os consumidores ficarão cada vez mais preocupados em consumir peixes de cativeiro como forma de reduzir a pressão da pesca sobre os mares." A AxialPar prepara-se agora para o lançamento de um segundo fundo de 50 milhões de reais, que serão investidos nos próximos quatro anos.
Apesar do aparente potencial dos negócios verdes, os investidores mantêm-se - pelo menos até agora cautelosos. Ao contrário do que aconteceu durante o boom da internet, eles estão empolgados com a onda da sustentabilidade - mas não cegos a ponto de desembolsar milhões de reais em qualquer projeto pintado de verde. Olhar com atenção os números da empresa e quem são os empreendedores é fundamental antes de dar o sinal positivo para um novo investimento. "O conhecimento da empresa sobre o negócio nos chamou a atenção, mas também fomos atraídos pelo fato de que ela já tinha balanços auditados externamente, controles financeiros monitorados por um software de gestão integrada e um conselho de administração", afirma Lisbona, da Stratus. Esse pente-fino leva tempo.
A Rio Bravo negociou por dois anos antes de decidir injetar dinheiro na Adespec. "Desde o início, sabíamos que a empresa tinha nas mãos uma tecnologia fantástica", diz Luiz Eugenio Junqueira Figueiredo, diretor da Rio Bravo. "Mas precisávamos de tempo para conhecer as pessoas por trás dessas inovações."
[img02]Segundo Figueiredo, um dos fatores que mais atraíram o fundo foi o perfil dos sócios da Adespec. Seus fundadores são a engenheira química Wang Shu Chen e o administrador Flávio Lacerda. Wang começou a pesquisar a possibilidade de fabricar colas sem solventes há sete anos, depois de viver um drama pessoal.
Na época, ela trabalhava em outra empresa e foi exposta a uma substância tóxica que reduziu em 30% sua taxa de glóbulos brancos. Lacerda fez carreira no Brasil e no exterior à frente de duas multinacionais fabricantes de colas e selantes. Até a entrada da Rio Bravo, a Adespec só tinha condições de fazer vendas reduzidas para a indústria de espelhos, marcenarias, artesãos e pequenas redes de varejo. O aporte do fundo está ajudando a aumentar sua capacidade de produção e a estruturar a área comercial.
Com isso, a empresa espera colocar seus produtos nas prateleiras de grandes redes de materiais de construção, como Leroy Merlin e Telhanorte. "Cada vez mais as pessoas querem produtos que tenham bom desempenho, mas que também sejam inofensivos ao meio ambiente", diz Lacerda. "E nós temos as duas coisas.
AS APOSTAS DOS FUNDOS
Empresas que já receberam investimento de venture capital
MAR & TERRA
Quem investiu: AxialPar
Quando: Setembro de 2003
O que faz: Cria em cativeiro peixes de rio tipicamente brasileiros, como o pintado e o pacu. Com esse sistema, que evita a pesca predatória, a empresa já conquistou clientes no Brasil e no exterior
ADESPEC
Quem investiu: Rio Bravo
Quando: Março de 2006
O que faz: Desde 2001, a empresa produz colas e selantes para uso industrial e doméstico que não utilizam solventes — substâncias tóxicas já banidas nos Estados Unidos e na Europa, mas ainda muito utilizadas no Brasil
ECOSORB
Quem investiu: Fundo Stratus
Quando: Maio de 2006
O que faz: Criada em 2000, a empresa começou vendendo turfa, um absorvente natural e orgânico de óleo e de outros produtos químicos. Hoje, também atua na gestão e na prevenção de acidentes ambientais de alta periculosidade
No bilionário mercado americano de capital de risco, uma tendência tem se mostrado cada vez mais forte - a busca dos investidores por negócios "verdes". Segundo estimativas da consultoria Cleantech Network, nos últimos dois anos o setor de venture capital injetou cerca de 3 bilhões de dólares em pequenas empresas criadas por empreendedores que buscam soluções para problemas relacionados ao meio ambiente.
Um dos expoentes dessa onda ecológica é o investidor John Doerr, do fundo Kleiner Perkins Caufield e Byers. Num passado recente, Doerr viu as possibilidades da internet e ficou rico ao apostar num destino brilhante para companhias de tecnologia, como Compaq e Google. Agora faz o mesmo com os negócios verdes. Nos últimos tempos, Doerr levantou 200 milhões de dólares para investir em negócios movidos a inovações ambientais.
No Brasil, um fenômeno semelhante vem ganhando corpo. "Não é possível precisar quanto está sendo investido, mas sabemos que essa é uma tendência que certamente vai crescer", afirma Marcus Regueira, presidente da Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital (ABVCAP).
Um dos protagonistas desse novo tipo de investimento é a gestora de capital de risco Stratus, que em maio anunciou um investimento de 20 milhões de reais na Ecosorb, empresa paulista especializada na prevenção e na remediação de desastres ambientais. Trata-se do primeiro aporte de uma série de seis que a Stratus deverá fazer até o final de 2008 por meio do VCIII, fundo que tem mais 80 milhões de reais em caixa para investir em negócios sustentáveis. A Ecosorb nasceu no início desta década, com a importação de turfa - um absorvente natural de óleos e outros produtos químicos prejudiciais à natureza.
Ao longo do tempo, além de ampliar a gama de produtos de proteção ambiental vendidos às empresas, a Ecosorb também se especializou em ajudar petrolíferas, portos e companhias de logística a evitar (ou remediar) acidentes de grande impacto. Presente hoje nos portos de Santos, Rio de Janeiro, Paranaguá e Itajaí e namalha ferroviária da América Latina Logística (ALL), a Ecosorb fatura 15 milhões de reais por ano. Mas o resultado do presente, para os investidores, é irrelevante diante das oportunidades de ganho futuro.
Ao contrário do que aconteceu durante a bolha da internet, os investidores agora têm mais cautela na hora de escolher os projetos
A expectativa da Stratus é que as vendas da Ecosorb cheguem a 100 milhões de reais em menos de cinco anos. O capital da companhia, porém, poderá ser aberto antes disso, por meio do Bovespa Mais - iniciativa da bolsa de São Paulo para incentivar a entrada de pequenas e médias empresas no mercado de capitais. "É bem provável que a Ecosorb seja a primeira empresa ambiental na bolsa", afirma Philippe Lisbona, gestor do fundo.
O otimismo de Lisbona em relação ao crescimento da empresa está calcado em duas premissas. A primeira é que o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal vingará - o que implicaria tentativas de solucionar o tão falado gargalo da infra-estrutura por meio da expansão e criação de mais portos. A segunda é que os órgãos ambientais e a própria sociedade serão cada vez mais intolerantes em relação a problemas como vazamento de óleo. "Nosso plano é crescer 40% ao ano, não só com o aumento do volume de negócios gerados pela expansão da infra-estrutura como também por aquisições", diz Eugenio Singer, presidente da Ecosorb.
A CARIOCA RIO BRAVO, gestora que tem entre seus sócios o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, formou um fundo de 35 milhões de reais para investir em negócios ligados a sustentabilidade. Sua primeira aposta aconteceu em março deste ano, quando realizou um aporte na paulista Adespec, pequena empresa que detém tecnologia para produzir colas e selantes (o valor do investimento não foi revelado).
O grande atrativo dos produtos fabricados pela Adespec é a ausência de solventes - substâncias tóxicas ao ser humano e ao meio ambiente banidas em vários países, mas ainda usadas em larga escala no Brasil. Caberá também à Rio Bravo decidir o que fazer com os 100 milhões de dólares que o Global Environment Fund (GEF), um dos mais tradicionais fundos verdes do mundo, destinou para o Brasil.
Paralelamente, a gestora acaba de fechar uma parceria com o ABN Amro Real para administrar parte dos recursos emprestados pelo banco. Há algum tempo, o ABN concede empréstimos para companhias interessadas em promover melhorias ambientais em suas operações. Agora, o banco decidiu lucrar financiando negócios que tenham grande chance de crescimento.
Nos últimos dois anos, o setor de venture capital injetou mais de 3 bilhões de dólares em pequenas empreas americanas que buscam soluções para problemas ambinetais
Um dos fatores que impulsionam os fundos de capital de risco a investir em negócios sustentáveis é a convicção de que cada vez mais os consumidores refletirão sobre como suas decisões de compra - de qualquer produto ou serviço - podem afetar o meio ambiente. A paulista AxialPar, por exemplo, uma das pioneiras em apostar nos negócios sustentáveis, colocou 60 milhões de reais em seis empresas desde 2002.Uma das que estão em estágio mais avançado de desenvolvimento é a Mar & Terra, que pertence inteiramente ao fundo. Ela nasceu em setembro de 2003 para cultivar, em cativeiro, peixes brasileiros, como o pintado e o pacu.
[img01]Atualmente, produz cerca de 30 toneladas de pintado por mês para o mercado nacional e o externo - parte desse volume tem origem numa fazenda de 130 hectares em Mato Grosso do Sul.
A expectativa é que, em três anos, essa produção mais que triplique."Existem previsões de que até 2048 o ritmo atual de pesca comercial terá exaurido as populações de peixes", afirma Jorge Souza, diretor da Mar & Terra. "Por isso, acreditamos que os consumidores ficarão cada vez mais preocupados em consumir peixes de cativeiro como forma de reduzir a pressão da pesca sobre os mares." A AxialPar prepara-se agora para o lançamento de um segundo fundo de 50 milhões de reais, que serão investidos nos próximos quatro anos.
Apesar do aparente potencial dos negócios verdes, os investidores mantêm-se - pelo menos até agora cautelosos. Ao contrário do que aconteceu durante o boom da internet, eles estão empolgados com a onda da sustentabilidade - mas não cegos a ponto de desembolsar milhões de reais em qualquer projeto pintado de verde. Olhar com atenção os números da empresa e quem são os empreendedores é fundamental antes de dar o sinal positivo para um novo investimento. "O conhecimento da empresa sobre o negócio nos chamou a atenção, mas também fomos atraídos pelo fato de que ela já tinha balanços auditados externamente, controles financeiros monitorados por um software de gestão integrada e um conselho de administração", afirma Lisbona, da Stratus. Esse pente-fino leva tempo.
A Rio Bravo negociou por dois anos antes de decidir injetar dinheiro na Adespec. "Desde o início, sabíamos que a empresa tinha nas mãos uma tecnologia fantástica", diz Luiz Eugenio Junqueira Figueiredo, diretor da Rio Bravo. "Mas precisávamos de tempo para conhecer as pessoas por trás dessas inovações."
[img02]Segundo Figueiredo, um dos fatores que mais atraíram o fundo foi o perfil dos sócios da Adespec. Seus fundadores são a engenheira química Wang Shu Chen e o administrador Flávio Lacerda. Wang começou a pesquisar a possibilidade de fabricar colas sem solventes há sete anos, depois de viver um drama pessoal.
Na época, ela trabalhava em outra empresa e foi exposta a uma substância tóxica que reduziu em 30% sua taxa de glóbulos brancos. Lacerda fez carreira no Brasil e no exterior à frente de duas multinacionais fabricantes de colas e selantes. Até a entrada da Rio Bravo, a Adespec só tinha condições de fazer vendas reduzidas para a indústria de espelhos, marcenarias, artesãos e pequenas redes de varejo. O aporte do fundo está ajudando a aumentar sua capacidade de produção e a estruturar a área comercial.
Com isso, a empresa espera colocar seus produtos nas prateleiras de grandes redes de materiais de construção, como Leroy Merlin e Telhanorte. "Cada vez mais as pessoas querem produtos que tenham bom desempenho, mas que também sejam inofensivos ao meio ambiente", diz Lacerda. "E nós temos as duas coisas.
AS APOSTAS DOS FUNDOS
Empresas que já receberam investimento de venture capital
MAR & TERRA
Quem investiu: AxialPar
Quando: Setembro de 2003
O que faz: Cria em cativeiro peixes de rio tipicamente brasileiros, como o pintado e o pacu. Com esse sistema, que evita a pesca predatória, a empresa já conquistou clientes no Brasil e no exterior
ADESPEC
Quem investiu: Rio Bravo
Quando: Março de 2006
O que faz: Desde 2001, a empresa produz colas e selantes para uso industrial e doméstico que não utilizam solventes — substâncias tóxicas já banidas nos Estados Unidos e na Europa, mas ainda muito utilizadas no Brasil
ECOSORB
Quem investiu: Fundo Stratus
Quando: Maio de 2006
O que faz: Criada em 2000, a empresa começou vendendo turfa, um absorvente natural e orgânico de óleo e de outros produtos químicos. Hoje, também atua na gestão e na prevenção de acidentes ambientais de alta periculosidade