Menos resíduos = Mais lucros
O fim do lixo
Gigantes com Wal-Mart e GE espelham-se na história da americana Interface, a indústria de carpetes onde nada se perde
Por Lia Vasconcelos
Revista Exame - 18/07/2007
O presidente mundial do Wal-Mart, Lee Scott, fez barulho recentemente ao anunciar metas ambiciosas de redução de consumo de energia em suas lojas e uma ostensiva jornada com seus fornecedores para diminuir desperdícios nas embalagens dos produtos oferecidos em suas prateleiras. Antes de engajar-se nesse projeto, porém, Scott foi ouvir os conselhos do senhor de cabelos grisalhos da foto acima. O americano Ray Anderson, dono da fabricante de carpetes Interface, com vendas de 1 bilhão de dólares em 2006, é um dos pioneiros da sustentabilidade nos negócios nos Estados Unidos. Na última década, Anderson dedicou-se a transformar radicalmente o modelo de negócios da companhia que fundou em 1973. Nesse período, ele tratou de rever todos os processos da Interface- do relacionamento com fornecedores ao pós-venda- de modo a aproveitar ao máximo os carpetes usados. Sua meta é eliminar totalmente os desperdícios até 2020.
Anderson vem sendo cada vez mais requisitado por outros empresários e executivos, como o presidente do Wal-Mart. Ele faz mais de 150 palestras por ano mundo afora e criou, em janeiro deste ano, uma consultoria especializada no assunto -- a InterfaceRaise. Em sua lista de dez clientes estão nomes como Toyota e GE. Para o empresário, o movimento de diversas empresas nessa direção faz parte de uma nova -- e inexorável -- fase industrial. "Algumas pessoas me acham radical", disse Anderson a EXAME. "Mas sou tão orientado aos lucros como qualquer outro empresário."
A lógica por trás de tanto esforço, como ressalta o empresário, vai além do discurso ambientalmente correto. Sua empreitada na redução de desperdícios, por exemplo, resultou numa economia de 336 milhões de dólares nos últimos dez anos -- apenas com a diminuição de consumo de água e energia na fábrica. O maior ganho, porém, está no aumento do uso de material reciclado ou de origem orgânica na linha de produção. Nos últimos cinco anos, o índice desse tipo de material no produto final passou de 3% para 21%. A mudança teve impacto direto nos resultados financeiros da companhia. De 1994 a 2006, o Ebitda (lucro antes de impostos, juros, depreciação e amortização) da Interface cresceu 82%. Nesse período, o mercado americano de carpetes diminuiu mais de 30%. "Nossa margem de lucro só tem aumentado, mesmo durante a recessão", afirma Anderson. "Nem por um minuto passou pela nossa cabeça abandonar nossa estratégia baseada na sustentabilidade."
A transformação da Interface, que tem 35 fábricas espalhadas pelo mundo e está presente em 150 países, começou em 1994. Anderson conta que um dos motivos para decidir pelo novo caminho foi a leitura do livro A Ecologia do Comércio, do americano Paul Hawken. Ambientalista fanático, Hawken alertava sobre a devastação dos recursos naturais causada pela indústria. "Peguei o livro por acaso e comecei a folhear", afirma Anderson. "Lá pela página 25 minha ficha caiu."
A leitura mudou não apenas seus hábitos pessoais- hoje ele e a mulher dirigem carros híbridos e têm uma casa de férias que funciona 100% à base de energia solar- como a forma de lidar com sua empresa. Depois de fazer algumas contas, ele descobriu que sua companhia havia utilizado mais de 544 000 toneladas de matéria-prima- e nem 1 grama desse volume era de material reciclado. O destino do carpete após o uso também era desconhecido. Estupefato, Anderson decidiu que a empresa precisava mudar de rumo. "Meus colegas acharam que eu era louco", diz ele. "Tivemos, e ainda temos, de passar por uma forte mudança cultural."
O primeiro passo foi concentrar esforços para mudar a matéria-prima das fibras do carpete, antes baseada em derivados do petróleo. Isso implicou trocar quase todos os fornecedores. Para desenvolver uma fibra orgânica de vegetais como o milho, a Interface fez parcerias com fornecedores com quem jamais tivera contato antes, como a companhia de agronegócios Cargill. Hoje, todo o carpete já é 100% reciclável. Os fios têm apenas 9% de sua composição de náilon (também reciclado).
De acordo com Anderson, as emissões de gases de duas fábricas no Canadá e nos Estados Unidos diminuíram 72%. Para monitorar os avanços, a equipe da fábrica criou uma métrica para calcular o custo do desperdício em sua atividade. "Não consideramos lixo apenas os resíduos da fábrica", diz Buddy Hay, vice-presidente de operações sustentáveis da Interface. Outros indicadores, como o custo de embalagem dos produtos, o uso de energia não renovável na produção e o percentual de material não reciclado na composição dos carpetes da marca, também compõem o cálculo de desperdícios da companhia.
Para ter mais controle sobre o reaproveitamento de carpetes, em 1998 a Interface colocou em prática um programa inédito: a empresa entra em contato com clientes donos de carpetes velhos e se encarrega de retirá-los (mesmo que sejam produtos de concorrentes). Todo esse material é reciclado para a fabricação de novos produtos. O plano mais ousado de Anderson, porém, ainda está no papel -- um projeto de leasing de carpetes que garantiria à Interface o controle total sobre o aproveitamento do produto. Em vez de comprar o carpete, o cliente pagaria à empresa um valor pelo direito de uso do produto por alguns anos. Ao final do prazo estipulado, a Interface recolheria o carpete usado, reciclaria e substituiria o produto na casa do cliente. Para Anderson, essa é uma das medidas que podem ajudar a empresa a tornar-se 100% sustentável nos próximos anos.
MAIS RECICLAGEM, MAIS LUCRO
À medida que o uso de material orgânico ou reciclado no produto final aumentou...
2002-3%
2003- 21%
...o lucrobrutoda interface também cresceu (em milhões de dólares)
2002- 223
2006- 340
Fonte: empresa
O presidente mundial do Wal-Mart, Lee Scott, fez barulho recentemente ao anunciar metas ambiciosas de redução de consumo de energia em suas lojas e uma ostensiva jornada com seus fornecedores para diminuir desperdícios nas embalagens dos produtos oferecidos em suas prateleiras. Antes de engajar-se nesse projeto, porém, Scott foi ouvir os conselhos do senhor de cabelos grisalhos da foto acima. O americano Ray Anderson, dono da fabricante de carpetes Interface, com vendas de 1 bilhão de dólares em 2006, é um dos pioneiros da sustentabilidade nos negócios nos Estados Unidos. Na última década, Anderson dedicou-se a transformar radicalmente o modelo de negócios da companhia que fundou em 1973. Nesse período, ele tratou de rever todos os processos da Interface- do relacionamento com fornecedores ao pós-venda- de modo a aproveitar ao máximo os carpetes usados. Sua meta é eliminar totalmente os desperdícios até 2020.
Anderson vem sendo cada vez mais requisitado por outros empresários e executivos, como o presidente do Wal-Mart. Ele faz mais de 150 palestras por ano mundo afora e criou, em janeiro deste ano, uma consultoria especializada no assunto -- a InterfaceRaise. Em sua lista de dez clientes estão nomes como Toyota e GE. Para o empresário, o movimento de diversas empresas nessa direção faz parte de uma nova -- e inexorável -- fase industrial. "Algumas pessoas me acham radical", disse Anderson a EXAME. "Mas sou tão orientado aos lucros como qualquer outro empresário."
A lógica por trás de tanto esforço, como ressalta o empresário, vai além do discurso ambientalmente correto. Sua empreitada na redução de desperdícios, por exemplo, resultou numa economia de 336 milhões de dólares nos últimos dez anos -- apenas com a diminuição de consumo de água e energia na fábrica. O maior ganho, porém, está no aumento do uso de material reciclado ou de origem orgânica na linha de produção. Nos últimos cinco anos, o índice desse tipo de material no produto final passou de 3% para 21%. A mudança teve impacto direto nos resultados financeiros da companhia. De 1994 a 2006, o Ebitda (lucro antes de impostos, juros, depreciação e amortização) da Interface cresceu 82%. Nesse período, o mercado americano de carpetes diminuiu mais de 30%. "Nossa margem de lucro só tem aumentado, mesmo durante a recessão", afirma Anderson. "Nem por um minuto passou pela nossa cabeça abandonar nossa estratégia baseada na sustentabilidade."
A transformação da Interface, que tem 35 fábricas espalhadas pelo mundo e está presente em 150 países, começou em 1994. Anderson conta que um dos motivos para decidir pelo novo caminho foi a leitura do livro A Ecologia do Comércio, do americano Paul Hawken. Ambientalista fanático, Hawken alertava sobre a devastação dos recursos naturais causada pela indústria. "Peguei o livro por acaso e comecei a folhear", afirma Anderson. "Lá pela página 25 minha ficha caiu."
A leitura mudou não apenas seus hábitos pessoais- hoje ele e a mulher dirigem carros híbridos e têm uma casa de férias que funciona 100% à base de energia solar- como a forma de lidar com sua empresa. Depois de fazer algumas contas, ele descobriu que sua companhia havia utilizado mais de 544 000 toneladas de matéria-prima- e nem 1 grama desse volume era de material reciclado. O destino do carpete após o uso também era desconhecido. Estupefato, Anderson decidiu que a empresa precisava mudar de rumo. "Meus colegas acharam que eu era louco", diz ele. "Tivemos, e ainda temos, de passar por uma forte mudança cultural."
O primeiro passo foi concentrar esforços para mudar a matéria-prima das fibras do carpete, antes baseada em derivados do petróleo. Isso implicou trocar quase todos os fornecedores. Para desenvolver uma fibra orgânica de vegetais como o milho, a Interface fez parcerias com fornecedores com quem jamais tivera contato antes, como a companhia de agronegócios Cargill. Hoje, todo o carpete já é 100% reciclável. Os fios têm apenas 9% de sua composição de náilon (também reciclado).
De acordo com Anderson, as emissões de gases de duas fábricas no Canadá e nos Estados Unidos diminuíram 72%. Para monitorar os avanços, a equipe da fábrica criou uma métrica para calcular o custo do desperdício em sua atividade. "Não consideramos lixo apenas os resíduos da fábrica", diz Buddy Hay, vice-presidente de operações sustentáveis da Interface. Outros indicadores, como o custo de embalagem dos produtos, o uso de energia não renovável na produção e o percentual de material não reciclado na composição dos carpetes da marca, também compõem o cálculo de desperdícios da companhia.
Para ter mais controle sobre o reaproveitamento de carpetes, em 1998 a Interface colocou em prática um programa inédito: a empresa entra em contato com clientes donos de carpetes velhos e se encarrega de retirá-los (mesmo que sejam produtos de concorrentes). Todo esse material é reciclado para a fabricação de novos produtos. O plano mais ousado de Anderson, porém, ainda está no papel -- um projeto de leasing de carpetes que garantiria à Interface o controle total sobre o aproveitamento do produto. Em vez de comprar o carpete, o cliente pagaria à empresa um valor pelo direito de uso do produto por alguns anos. Ao final do prazo estipulado, a Interface recolheria o carpete usado, reciclaria e substituiria o produto na casa do cliente. Para Anderson, essa é uma das medidas que podem ajudar a empresa a tornar-se 100% sustentável nos próximos anos.
MAIS RECICLAGEM, MAIS LUCRO
À medida que o uso de material orgânico ou reciclado no produto final aumentou...
2002-3%
2003- 21%
...o lucrobrutoda interface também cresceu (em milhões de dólares)
2002- 223
2006- 340
Fonte: empresa