Data verde
A era da computação verde
Economia de energia nos grandes data centers é a nova fronteira de desenvolvimento dos computadores
Por Sérgio Teixeira Jr.
Revista Exame - 20/06/2007
No final dos anos 90, uma companhia cercada de segredos chamada Transmeta monopolizou as atenções no Vale do Silício. Ela tinha em seus quadros ninguém menos do que Linus Torvalds, o criador do sistema operacional Linux, e se recusava a revelar qual era seu negócio.
O mistério finalmente foi desvendado três anos depois da fundação: a Transmeta estava trabalhando num chip de baixo consumo de energia. Na época, a idéia foi um sucesso de crítica, mas um fracasso de público. Poucos fabricantes de computadores aderiram aos chips econômicos, e hoje em dia uma Transmeta moribunda amarga prejuízo atrás de prejuízo.
Que diferença fazem seis anos. A palavra de ordem no mundo da computação atualmente é a eficiência energética. Os grandes data centers já consomem quase 1% de toda a energia elétrica gerada no planeta. Metade mantém os servidores em funcionamento, e o restante é usado nos gigantes sistemas de ar condicionado que regulam a temperatura das salas onde ficam as máquinas.
Se os níveis atuais de consumo forem mantidos, os gastos com eletricidade podem chegar a 50% dos orçamentos de tecnologia de uma grande empresa, segundo estima a consultoria Gartner Group. Não é por acaso que um dos principais motores da inovação no mundo da computação é a revolução verde (veja o aumento no consumo de energia dos data centers)
Desde o início desta década, com a expansão da internet e a crescente digitalização dos negócios, o número de servidores em uso no mundo passou de 6 milhões para 28 milhões. A maioria deles fica em grandes data centers, que podem ocupar áreas de até 5.000 metros quadrados e consomem até 50 vezes mais energia elétrica do que um escritório tradicional.
A Gartner calcula que o desperdício de energia nessas instalações possa chegar a 60%, e é justamente esse ponto que tem sido alvo da atenção da indústria tecnológica. No início de maio, a IBM anunciou um investimento anual de 1 bilhão de dólares num projeto batizado Big Green, um trocadilho com o apelido da empresa, Big Blue.
A idéia é reduzir as próprias contas de luz - a IBM é a maior operadora de data centers do mundo - e também as de seus clientes. Segundo a IBM, o poder de processamento dos data centers vai dobrar até 2010 sem que haja aumento do consumo de eletricidade. Na HP, outra grande fabricante de servidores e operadora de data centers em escala mundial, a estratégia envolve ganhos de eficiência no uso de ar-condicionado.
A sofisticação é tamanha que a carga de trabalho dos computadores pode ser transferida de uma região mais quente do data center para outra que esteja mais fria - ou até mesmo para uma central em outra parte do mundo -, sempre com o objetivo de minimizar a necessidade de resfriamento.
A tecnologia está sendo aplicada inicialmente na nova geração de centrais que lidam com os dados da própria HP. A estratégia também inclui uma redução drástica no número de centrais de processamento. "Tínhamos 85 data centers espalhados pelo mundo", diz Denoel Eller, diretor de marketing da empresa no Brasil. "Agora serão apenas seis, todos de nova geração. Com a consolidação, vamos desligar 19.000 servidores."
As mesmas inovações que acontecem em grande escala também se reproduzem no menor e mais importante elemento dos computadores, os microchips. Durante anos, Intel e AMD, os dois maiores fabricantes do mundo, buscaram superar o concorrente apenas no quesito velocidade.
Agora, a competição ganhou também a dimensão da economia de energia. Em fevereiro, a Intel apresentou um chip com 80 núcleos de processamento. Hoje, os PCs mais modernos já têm chips de dois núcleos, conhecidos como dual core, e em alguns anos os modelos de quatro núcleos serão o padrão em todas as máquinas.
A tecnologia de múltiplos núcleos tem um desempenho infinitamente superior à geração anterior dos chips, cujo representante máximo é a linha Pentium da Intel - e tem a grande vantagem de não aumentar o consumo de energia. É claro que o consumo de um computador doméstico é muito pequeno quando comparado com um chuveiro ou um ferro elétrico.
Mas a pressão sobre as fabricantes de processadores deve ser cada vez maior, pois seus maiores mercados são os países ricos, onde a energia custa caro e o consumo ambientalmente correto é cada vez mais presente.
E a questão não se encerra em medidas de performance por watt de um microchip. "Precisamos aprender a usar melhor os computadores", diz Nicholas Carr, consultor e autor de Does IT Matter? ("A TI importa?", sem tradução para o português), um influente livro sobre o impacto da tecnologia nos negócios.
Carr afirma que a tendência de acessarmos cada vez mais programas e serviços pela web pode vir a dispensar a necessidade de uma máquina potente em cada mesa. Os computadores ligados à rede poderiam ser mais simples, e todo o trabalho de computação aconteceria remotamente, em data centers de empresas como Google ou Microsoft, por exemplo. "Não se trata apenas de tornar os computadores mais eficientes. Também temos de tornar a computação mais eficiente", diz Carr.
No final dos anos 90, uma companhia cercada de segredos chamada Transmeta monopolizou as atenções no Vale do Silício. Ela tinha em seus quadros ninguém menos do que Linus Torvalds, o criador do sistema operacional Linux, e se recusava a revelar qual era seu negócio.
O mistério finalmente foi desvendado três anos depois da fundação: a Transmeta estava trabalhando num chip de baixo consumo de energia. Na época, a idéia foi um sucesso de crítica, mas um fracasso de público. Poucos fabricantes de computadores aderiram aos chips econômicos, e hoje em dia uma Transmeta moribunda amarga prejuízo atrás de prejuízo.
Que diferença fazem seis anos. A palavra de ordem no mundo da computação atualmente é a eficiência energética. Os grandes data centers já consomem quase 1% de toda a energia elétrica gerada no planeta. Metade mantém os servidores em funcionamento, e o restante é usado nos gigantes sistemas de ar condicionado que regulam a temperatura das salas onde ficam as máquinas.
Se os níveis atuais de consumo forem mantidos, os gastos com eletricidade podem chegar a 50% dos orçamentos de tecnologia de uma grande empresa, segundo estima a consultoria Gartner Group. Não é por acaso que um dos principais motores da inovação no mundo da computação é a revolução verde (veja o aumento no consumo de energia dos data centers)
Desde o início desta década, com a expansão da internet e a crescente digitalização dos negócios, o número de servidores em uso no mundo passou de 6 milhões para 28 milhões. A maioria deles fica em grandes data centers, que podem ocupar áreas de até 5.000 metros quadrados e consomem até 50 vezes mais energia elétrica do que um escritório tradicional.
A Gartner calcula que o desperdício de energia nessas instalações possa chegar a 60%, e é justamente esse ponto que tem sido alvo da atenção da indústria tecnológica. No início de maio, a IBM anunciou um investimento anual de 1 bilhão de dólares num projeto batizado Big Green, um trocadilho com o apelido da empresa, Big Blue.
A idéia é reduzir as próprias contas de luz - a IBM é a maior operadora de data centers do mundo - e também as de seus clientes. Segundo a IBM, o poder de processamento dos data centers vai dobrar até 2010 sem que haja aumento do consumo de eletricidade. Na HP, outra grande fabricante de servidores e operadora de data centers em escala mundial, a estratégia envolve ganhos de eficiência no uso de ar-condicionado.
A sofisticação é tamanha que a carga de trabalho dos computadores pode ser transferida de uma região mais quente do data center para outra que esteja mais fria - ou até mesmo para uma central em outra parte do mundo -, sempre com o objetivo de minimizar a necessidade de resfriamento.
A tecnologia está sendo aplicada inicialmente na nova geração de centrais que lidam com os dados da própria HP. A estratégia também inclui uma redução drástica no número de centrais de processamento. "Tínhamos 85 data centers espalhados pelo mundo", diz Denoel Eller, diretor de marketing da empresa no Brasil. "Agora serão apenas seis, todos de nova geração. Com a consolidação, vamos desligar 19.000 servidores."
As mesmas inovações que acontecem em grande escala também se reproduzem no menor e mais importante elemento dos computadores, os microchips. Durante anos, Intel e AMD, os dois maiores fabricantes do mundo, buscaram superar o concorrente apenas no quesito velocidade.
Agora, a competição ganhou também a dimensão da economia de energia. Em fevereiro, a Intel apresentou um chip com 80 núcleos de processamento. Hoje, os PCs mais modernos já têm chips de dois núcleos, conhecidos como dual core, e em alguns anos os modelos de quatro núcleos serão o padrão em todas as máquinas.
A tecnologia de múltiplos núcleos tem um desempenho infinitamente superior à geração anterior dos chips, cujo representante máximo é a linha Pentium da Intel - e tem a grande vantagem de não aumentar o consumo de energia. É claro que o consumo de um computador doméstico é muito pequeno quando comparado com um chuveiro ou um ferro elétrico.
Mas a pressão sobre as fabricantes de processadores deve ser cada vez maior, pois seus maiores mercados são os países ricos, onde a energia custa caro e o consumo ambientalmente correto é cada vez mais presente.
E a questão não se encerra em medidas de performance por watt de um microchip. "Precisamos aprender a usar melhor os computadores", diz Nicholas Carr, consultor e autor de Does IT Matter? ("A TI importa?", sem tradução para o português), um influente livro sobre o impacto da tecnologia nos negócios.
Carr afirma que a tendência de acessarmos cada vez mais programas e serviços pela web pode vir a dispensar a necessidade de uma máquina potente em cada mesa. Os computadores ligados à rede poderiam ser mais simples, e todo o trabalho de computação aconteceria remotamente, em data centers de empresas como Google ou Microsoft, por exemplo. "Não se trata apenas de tornar os computadores mais eficientes. Também temos de tornar a computação mais eficiente", diz Carr.