Fidel no paredão
Se o etanol substituir a gasolina, faltará comida no mundo?
Indo contra a opinião do líder cubano Fidel Castro, não faltará comida no mundo se os carros fossem abastecidos somente com etanol
Por Lorena Verli
Revista Mundo Estranho - 05/2007
Mesmo se 100% da gasolina fosse substituída por álcool, não faltariam terras para plantar gêneros alimentícios suficientes para alimentar o mundo inteiro. Mas a questão não é tão objetiva assim, afinal os alimentos não são distribuídos de forma igualitária e o crescimento da importância comercial do milho e da cana fatalmente faria o preço deles disparar. Por isso, alguns especialistas acreditam que, no caso da substituição total da gasolina, a população mais pobre passaria fome. Mas esta análise não é unânime: há quem defenda que o aumento cavalar da produção de milho e cana faria com que terras cultiváveis não cultivadas atualmente passassem a receber culturas alimentícias e haveria comida suficiente para todos. Nos dois casos, não faltaria comida, assim como acontece hoje: apesar de milhares de pessoas morrerem de fome, o mundo produz cerca de dois quilos por cabeça ao dia, o que seria suficiente para deixar todos os 6 bilhões de habitantes do mundo gordinhos. "A fome não é conseqüência da falta de alimento e sim da má distribuição", diz o engenheiro químico Carlos Eduardo Rossell, do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe), da Unicamp. Além disso, se as novas áreas cultiváveis não fossem ocupadas de forma planejada, o esforço para redução das emissões de carbono na atmosfera poderia gerar um impacto ambiental muito mais devastador, inclusive com a intensificação do aquecimento global.
Quilômetros rodados X prato cheio
Calculamos qual seria o impacto do império do etanol e a perspectiva não é nada boa. Veja o infográfico e as informações:
DIVISÃO DA TERRA
A Terra é formada por 14,9 bilhões de hectares de terras emersas, mas apenas 20% disso - cerca de 3 bilhões de hectares - podem ser cultivados. O resto é ocupado por desertos, cordilheiras, geleiras etc. E atualmente apenas metade da área cultivável - 1,5 bilhão de hectares - é de fato cultivada. Ou seja: ainda há muito espaço para plantar
ETANOL HOJE
Dentro da "meia-África" (1,5 bilhões de hectares) cultivada atualmente, uma parte pequena é ocupada por plantações de cana (24 milhões de hectares) e milho (147 milhões de hectares), que são usados tanto para alimentação (para humanos e como ração) quanto para produção de etanol. Se 100% disso fosse transformado em álcool, teríamos 682 bilhões de litros ao ano, mas hoje apenas 51 bilhões de litros são produzidos
100% ETANOL
Para substituir toda a gasolina consumida hoje, seriam necessários 3 trilhões de litros de etanol. Com milho como matéria prima, 857 milhões de hectares seriam ocupados. Se fosse cana, seriam 427 milhões de hectares. Lembrando dos 1,5 bilhão de hectares já ocupados hoje, concluímos que terras "virgens" teriam que passar a ser cultivadas, mas caberia tudo nos 3 bilhões de hectares
MAS TEM UM PORÉM...
Se tudo caberia nos 3 bilhões de hectares por que não dá para substituir a gasolina já? Porque embora os 1,5 bilhão de hectares não cultivados tenham terra boa, eles já são ocupados por ecossistemas como a floresta Amazônica, o Pantanal, o Cerrado etc. E se eles fossem substituídos por lavouras de milho ou cana, muita coisa ruim poderia acontecer. Veja só:
- Desertificação: as florestas são diretamente responsáveis pelas chuvas. Sem elas, o solo passaria a secar, ficaria vulnerável à erosão e talvez até se tornasse impróprio para o plantio;
- Extinção: uma vez destruído, o ecossistema não pode ser recuperado. E, dependendo de qual for o ecossistema, isso pode significar a extinção de comunidades inteiras de plantas e animais;
- Efeito inverso: as florestas tropicais ajudam a regular os padrões climáticos globais, ou seja, sem elas a temperatura do planeta poderia disparar. Conclusão: o uso do etanol era uma medida anti-aquecimento e, no final das contas, acabaria intensificando o efeito estufa.
Mesmo se 100% da gasolina fosse substituída por álcool, não faltariam terras para plantar gêneros alimentícios suficientes para alimentar o mundo inteiro. Mas a questão não é tão objetiva assim, afinal os alimentos não são distribuídos de forma igualitária e o crescimento da importância comercial do milho e da cana fatalmente faria o preço deles disparar. Por isso, alguns especialistas acreditam que, no caso da substituição total da gasolina, a população mais pobre passaria fome. Mas esta análise não é unânime: há quem defenda que o aumento cavalar da produção de milho e cana faria com que terras cultiváveis não cultivadas atualmente passassem a receber culturas alimentícias e haveria comida suficiente para todos. Nos dois casos, não faltaria comida, assim como acontece hoje: apesar de milhares de pessoas morrerem de fome, o mundo produz cerca de dois quilos por cabeça ao dia, o que seria suficiente para deixar todos os 6 bilhões de habitantes do mundo gordinhos. "A fome não é conseqüência da falta de alimento e sim da má distribuição", diz o engenheiro químico Carlos Eduardo Rossell, do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe), da Unicamp. Além disso, se as novas áreas cultiváveis não fossem ocupadas de forma planejada, o esforço para redução das emissões de carbono na atmosfera poderia gerar um impacto ambiental muito mais devastador, inclusive com a intensificação do aquecimento global.
Quilômetros rodados X prato cheio
Calculamos qual seria o impacto do império do etanol e a perspectiva não é nada boa. Veja o infográfico e as informações:
DIVISÃO DA TERRA
A Terra é formada por 14,9 bilhões de hectares de terras emersas, mas apenas 20% disso - cerca de 3 bilhões de hectares - podem ser cultivados. O resto é ocupado por desertos, cordilheiras, geleiras etc. E atualmente apenas metade da área cultivável - 1,5 bilhão de hectares - é de fato cultivada. Ou seja: ainda há muito espaço para plantar
ETANOL HOJE
Dentro da "meia-África" (1,5 bilhões de hectares) cultivada atualmente, uma parte pequena é ocupada por plantações de cana (24 milhões de hectares) e milho (147 milhões de hectares), que são usados tanto para alimentação (para humanos e como ração) quanto para produção de etanol. Se 100% disso fosse transformado em álcool, teríamos 682 bilhões de litros ao ano, mas hoje apenas 51 bilhões de litros são produzidos
100% ETANOL
Para substituir toda a gasolina consumida hoje, seriam necessários 3 trilhões de litros de etanol. Com milho como matéria prima, 857 milhões de hectares seriam ocupados. Se fosse cana, seriam 427 milhões de hectares. Lembrando dos 1,5 bilhão de hectares já ocupados hoje, concluímos que terras "virgens" teriam que passar a ser cultivadas, mas caberia tudo nos 3 bilhões de hectares
MAS TEM UM PORÉM...
Se tudo caberia nos 3 bilhões de hectares por que não dá para substituir a gasolina já? Porque embora os 1,5 bilhão de hectares não cultivados tenham terra boa, eles já são ocupados por ecossistemas como a floresta Amazônica, o Pantanal, o Cerrado etc. E se eles fossem substituídos por lavouras de milho ou cana, muita coisa ruim poderia acontecer. Veja só:
- Desertificação: as florestas são diretamente responsáveis pelas chuvas. Sem elas, o solo passaria a secar, ficaria vulnerável à erosão e talvez até se tornasse impróprio para o plantio;
- Extinção: uma vez destruído, o ecossistema não pode ser recuperado. E, dependendo de qual for o ecossistema, isso pode significar a extinção de comunidades inteiras de plantas e animais;
- Efeito inverso: as florestas tropicais ajudam a regular os padrões climáticos globais, ou seja, sem elas a temperatura do planeta poderia disparar. Conclusão: o uso do etanol era uma medida anti-aquecimento e, no final das contas, acabaria intensificando o efeito estufa.