[img01] "É preciso salvar o planeta."
Até recentemente, essa frase, tão comum nos debates sobre a mudança climática, como que resumia a própria ideia de sustentabilidade. Esperava-se que ela pudesse nos tirar do imobilismo e abrisse espaço para outra abordagem na economia e na sociedade. De uns tempos para cá, houve uma espécie de depuração e, para um número crescente de pessoas, já ficou claro que não se trata de uma missão de salvamento. Falemos francamente: a Terra permanecerá exatamente onde está, não importa o que façamos. Não há risco algum de extinção do planeta. A verdadeira questão é preservar uma vida decente para os homens e para os outros seres com quem dividimos espaço. Com isso, a discussão galgou vários patamares, e alguns consensos vão surgindo. O principal deles: o atual ritmo de emissão de carbono não é sustentável no longo prazo. Não para o planeta, mas para nossa vida aqui.
O caso chinês é revelador dos desafios que temos pela frente. A ascensão da China nas últimas décadas provocou uma onda de boas notícias para a humanidade. Desde 1981, mais de 660 milhões de pessoas saíram da miséria no país. Nunca na história tantos escaparam da fome e da penúria em tão pouco tempo. Com um apetite quase ilimitado por recursos naturais, a China elevou as cotações das commodities, o que impulsionou a renda nos cantos mais empobrecidos do planeta, como regiões da América Latina e África. Mas, como nos lembra em seu artigo Judith Shapiro, uma das maiores autoridades mundiais em meio ambiente, culpar a China seria não apenas ineficaz mas também injusto. Primeiro porque historicamente o mundo desenvolvido contribuiu muito mais para os problemas que enfrentamos hoje. Além disso, a economia chinesa já é uma das mais conectadas no cenário global. A grande fábrica da China está apenas respondendo a uma demanda por bens que é de todos. As manufaturas made in China foram importantes na manutenção da estabilidade dos preços e no aumento do bem-estar da população em dezenas de países. Todos nos beneficiamos do crescimento chinês. E todos vamos pagar o preço ambiental. Exemplos? A poeira chinesa é sentida na Califórnia e no oeste do Canadá, a milhares de quilômetros de distância - uma prova de que os problemas ambientais não respeitam as fronteiras humanas.
Por isso, a questão real parece girar menos sobre o meio ambiente e mais sobre o estilo de vida moderno. Desde os primórdios do capitalismo, nos acostumamos a pensar o desenvolvimento como fonte de renda e consumo para as pessoas. Claro, todos queremos viver melhor, algo inerente à nossa natureza. Mas a verdadeira sustentabilidade parece indicar que algo terá de mudar nessa equação. É o que afirma o escritor e jornalista americano David Owen, há décadas um renomado especialista em temas ambientais. Estamos apostando muitas fichas, diz ele, em soluções que permitam poupar energia. Novos produtos verdes são bem- vindos, mas frequentemente eles acabam criando novos mercados para centenas de milhões de consumidores. Com isso, a conta energética não para de crescer - apesar de, individualmente, as máquinas estarem cada vez melhores. De algum modo, precisamos transitar para um modelo menos dependente do consumo, algo que, hoje, parece uma utopia tão irreal quanto a imaginada por Thomas Morus no longínquo século 16.
Realisticamente, dá para esperar mudanças? Em junho, os olhos do mundo novamente estarão voltados para o Brasil. É no Rio de Janeiro, sede do encontro da Rio+20, que os próximos passos da agenda global serão definidos. A ambição dos líderes participantes do encontro irá demonstrar se, afinal, há ou não espaço para otimismo. Em 2009, outra reunião, a de Copenhague, terminou mal - aliás, muito mal. Apesar da enorme energia empenhada em sua realização, ficou a certeza de que o saldo foi apenas uma perda preciosa de tempo. Agora é trabalhar por um desfecho diferente aqui. Tempo é tudo o que não temos para perder.