CABANA SUIÇA
Monte Rosa: um laboratório de arquitetura eficiente
Construída no meio dos Alpes Suíços, a cabana Monte Rosa é um laboratório de tecnologias para a construção civil sustentável. A beleza e modernidade que envolvem o prédio já o tornaram conhecido como “O Cristal da Montanha”
Suzana Camargo, de Zurique, Suíça – Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável – 03/11/2009
A imagem é impressionante: erguida a 2.883 metros acima do nível do mar, a cabana Monte Rosa é um pequeno ponto brilhante no meio do gigantesco horizonte dos glaciares suíços. Localizada próximo a um dos mais importantes cartões-postais do país, o monte Zermatt, Monte Rosa fica completamente isolada das grandes cidades. Para chegar até ao abrigo, são necessárias cerca de três horas de caminhada. Mas o isolamento foi propositalmente planejado e intencional.
Para comemorar os 150 anos da prestigiada Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH), alunos e professores desenvolveram uma série de projetos para marcar a celebração da data. Durante o inverno de 2003, o arquiteto e professor Andrea Deplazes fundou o Estúdio Monte Rosa, uma espécie de escritório de arquitetura, dentro da universidade, onde estudantes puderam trabalhar no projeto da cabana. “Logo no começo já tinhamos certeza que queríamos uma construção num local isolado, completamente distante da civilização. Nossa ideia era mostrar que poderíamos depois utilizar as mesmas tecnologias nas sociedades urbanas”, explica Deplazes. “Nosso projeto deve ser visto como um case study.
Com mil ideias na cabeça e nenhum dinheiro para colocar o projeto em prática, a universidade foi atrás de patrocinadores. Conseguiu vários, mas um deles foi o principal, o Clube Alpino Suíço (SAC, sigla em alemão), entidade responsável por coordenar e fiscalizar a prática de esportes e atividades nas montanhas e única com permissão para construir qualquer obra nos Alpes. Juntos, ETH e SAC decidiram que a futura construção seria uma nova cabana, uma espécie de albergue, para alpinistas e turistas.
Não foi fácil convencer o governo suíço sobre a construção de um edifício ultramodernoso numa área tão preservada e importante. Entretanto, o mais difícil foi juntar o pensamento conservador do Clube Alpino Suíço, uma instituição com mais de cem anos de existência, com as idéias arrojadas dos jovens arquitetos da ETH. “Para nós, a cabana era um laboratório e para o clube não poderia haver dúvida sobre a eficiência e praticidade do funcionamento do abrigo”, conta o arquiteto responsável por Monte Rosa.
Foram muitos desenhos na prancheta e maquetes até que o projeto fosse finalmente aprovado. Depois disso, todo o material para a construção foi fabricado com ajuda de computadores para que houve um encaixe perfeito da estrutura. Com acesso difícil e um prazo curto para a construção da obra, todo o material da cabana foi transportado por helicóptero e encaixado no local, como uma casa pré-fabricada. Operários e engenheiros tinham apenas algumas semanas do verão suíço para montar o abrigo, afinal seria impossível construí-lo enfrentando rajadas de vento e o frio comum na região. Em apenas 21 semanas, Monte Rosa estava de pé.
AUTONOMIA EM ENERGIA E ÁGUA
Mas afinal, o que a cabana suíça tem de tão especial? “Apesar de não estar conectada a nenhuma rede de energia elétrica ou água, Monte Rosa é praticamente auto-suficiente nesses recursos. Todos vêm diretamente da natureza, sem custo nenhum e sem poluir o meio ambiente”, revela Andrea Deplazes.
Com 1.150 m2 e seis andares, a construção foi projetada na forma de uma esfera. O formato é estratégico. Quanto menos superfícies há num edifício ou casa, menor será a perda de calor e energia. A maior parte do revestimento externo foi feito em alumínio, daí o brilho da cabana. Apesar de ter um custo alto e requerer muita energia para ser produzido, o material se mostra como a melhor alternativa para isolamento, principalmente em situações meteorológicas extremas, como as enfrentadas nos Alpes, com fortes rajadas de vento e muita neve. Além disso, o alumínio é muito resistente e não precisa ser trocado durante 50 anos ou mais. Já a fachada sudoeste do edifício é coberta por painéis solares fotovoltaicos, considerados os mais eficientes na captação da energia solar. Essa energia é utilizada no aquecimento dos ambientes e da água.
Internamente, a estrutura e os móveis da cabana foram feitos em madeira. Uma escada em forma de espiral contorna todo o edifício, acompanhando as janelas. A escada foi projetada especialmente dessa maneira para aproveitar ao máximo a luz do sol. “Ela acompanha a rota do sol e faz com que o calor circule pelo edifício, maximizando o uso desse recurso natural”, afirma o arquiteto.
Juntos, as células solares e o desenho arquitetônico das janelas e a escada circular permitem que Monte Rosa seja praticamente autônoma em energia. Existe um equipamento stand-by, que pode ser usado em casos de emergência para gerar eletricidade à cabana, mas durante as últimas semanas o que tem se constatado é que há mais do que energia natural sendo produzida. “Há sobra de energia”, conta rindo Deplazes. “Já até cogitamos construir uma piscina aquecida na parte externa do prédio”.
O abastecimento de água vem do degelo da neve durante os meses quentes. Tubulações levam a água para uma “caverna”, ou melhor, um depósito subterrâneo construído para esse propósito, com capacidade para 200 mil litros. Depois de utilizada nos banheiros, a água passa por uma microfiltragem e pode ser reusada.
Através de satélite, tudo o que acontece em Monte Rosa é monitorado por computadores da ETH, em Zurique. Sensores internos instalados na cabana podem, por exemplo, informar qual a melhor maneira de distribuir o ar internamente. “Os sensores medem a densidade de pessoas e fazem uma distribuição inteligente de CO2. Podemos ainda checar o quanto de energia está sendo captada atráves da janelas ou dos painéis solares, com isso fazemos um diagnóstico e decidimos se o aquecimento elétrico sobressalente precisa ou não ser ativado”.
SIMBIOSE DE TECNOLOGIAS
Quando foi inaugurada no final do setembro, Monte Rosa foi considerada por muitos, especialmente pela mídia, como a Cabana do Futuro. Mas ela não dever ser vista dessa maneira. Monte Rosa é um projeto plenamente viável nos dias atuais. “Não usamos novas tecnologias, simplesmente combinamos diversas, que até então não tinham sido utilizadas juntas”. Mas há sim uma pequena novidade na cabana da ETH: o sistema inteligente que conecta todos os demais sistemas para colocá-los sob a supervisão do comando central em Zurique.
Andrea Deplazes acredita que já há muito inventado, não há mais necessidade de criar tecnologias, mas sim, implementá-las de maneira prática e eficiente. “Precisamos deixar para trás a utilização dos combustíveis fósseis e nos focar nos recursos naturais limpos”, diz ele ainda.
Monte Rosa só não é totalmente auto-suficiente porque depende de comida e coleta de lixo externos. O lixo orgânico será usado em adubos, mas o resto tem que ser enviado para locais apropriados de tratamento. O abrigo será aberto oficialmente para o público em março de 2010. São 18 quartos, que acomodam até 120 pessoas. A diária vai custar 24 francos suíços (cerca de 40 reais), sem refeição, o preço médio de um pernoite numa cabana nos Alpes, todas administradas pelo Clube Alpino Suíço, que tem aproximadamente 120 mil associados. Assim como outras hospedagens, Monte Rosa ficará aberta entre o começo da primavera e o final do outono. O SAC considera os demais meses perigosos para turistas nos Alpes.
Apesar do custo altíssimo do projeto, 6,5 milhões de francos suíços (11 milhões de reais), Monte Rosa é um exemplo a ser seguido em obras em qualquer lugar – sejam áreas urbanas ou não. Afinal, essa é a prova que a arquitetura eficiente pode ser uma enorme aliada na construção de um mundo mais sustentável.
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Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH)
Clube Alpino Suíço (SAC, sigla em alemão)
A imagem é impressionante: erguida a 2.883 metros acima do nível do mar, a cabana Monte Rosa é um pequeno ponto brilhante no meio do gigantesco horizonte dos glaciares suíços. Localizada próximo a um dos mais importantes cartões-postais do país, o monte Zermatt, Monte Rosa fica completamente isolada das grandes cidades. Para chegar até ao abrigo, são necessárias cerca de três horas de caminhada. Mas o isolamento foi propositalmente planejado e intencional.
Para comemorar os 150 anos da prestigiada Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH), alunos e professores desenvolveram uma série de projetos para marcar a celebração da data. Durante o inverno de 2003, o arquiteto e professor Andrea Deplazes fundou o Estúdio Monte Rosa, uma espécie de escritório de arquitetura, dentro da universidade, onde estudantes puderam trabalhar no projeto da cabana. “Logo no começo já tinhamos certeza que queríamos uma construção num local isolado, completamente distante da civilização. Nossa ideia era mostrar que poderíamos depois utilizar as mesmas tecnologias nas sociedades urbanas”, explica Deplazes. “Nosso projeto deve ser visto como um case study.
Com mil ideias na cabeça e nenhum dinheiro para colocar o projeto em prática, a universidade foi atrás de patrocinadores. Conseguiu vários, mas um deles foi o principal, o Clube Alpino Suíço (SAC, sigla em alemão), entidade responsável por coordenar e fiscalizar a prática de esportes e atividades nas montanhas e única com permissão para construir qualquer obra nos Alpes. Juntos, ETH e SAC decidiram que a futura construção seria uma nova cabana, uma espécie de albergue, para alpinistas e turistas.
Não foi fácil convencer o governo suíço sobre a construção de um edifício ultramodernoso numa área tão preservada e importante. Entretanto, o mais difícil foi juntar o pensamento conservador do Clube Alpino Suíço, uma instituição com mais de cem anos de existência, com as idéias arrojadas dos jovens arquitetos da ETH. “Para nós, a cabana era um laboratório e para o clube não poderia haver dúvida sobre a eficiência e praticidade do funcionamento do abrigo”, conta o arquiteto responsável por Monte Rosa.
Foram muitos desenhos na prancheta e maquetes até que o projeto fosse finalmente aprovado. Depois disso, todo o material para a construção foi fabricado com ajuda de computadores para que houve um encaixe perfeito da estrutura. Com acesso difícil e um prazo curto para a construção da obra, todo o material da cabana foi transportado por helicóptero e encaixado no local, como uma casa pré-fabricada. Operários e engenheiros tinham apenas algumas semanas do verão suíço para montar o abrigo, afinal seria impossível construí-lo enfrentando rajadas de vento e o frio comum na região. Em apenas 21 semanas, Monte Rosa estava de pé.
AUTONOMIA EM ENERGIA E ÁGUA
Mas afinal, o que a cabana suíça tem de tão especial? “Apesar de não estar conectada a nenhuma rede de energia elétrica ou água, Monte Rosa é praticamente auto-suficiente nesses recursos. Todos vêm diretamente da natureza, sem custo nenhum e sem poluir o meio ambiente”, revela Andrea Deplazes.
Com 1.150 m2 e seis andares, a construção foi projetada na forma de uma esfera. O formato é estratégico. Quanto menos superfícies há num edifício ou casa, menor será a perda de calor e energia. A maior parte do revestimento externo foi feito em alumínio, daí o brilho da cabana. Apesar de ter um custo alto e requerer muita energia para ser produzido, o material se mostra como a melhor alternativa para isolamento, principalmente em situações meteorológicas extremas, como as enfrentadas nos Alpes, com fortes rajadas de vento e muita neve. Além disso, o alumínio é muito resistente e não precisa ser trocado durante 50 anos ou mais. Já a fachada sudoeste do edifício é coberta por painéis solares fotovoltaicos, considerados os mais eficientes na captação da energia solar. Essa energia é utilizada no aquecimento dos ambientes e da água.
Internamente, a estrutura e os móveis da cabana foram feitos em madeira. Uma escada em forma de espiral contorna todo o edifício, acompanhando as janelas. A escada foi projetada especialmente dessa maneira para aproveitar ao máximo a luz do sol. “Ela acompanha a rota do sol e faz com que o calor circule pelo edifício, maximizando o uso desse recurso natural”, afirma o arquiteto.
Juntos, as células solares e o desenho arquitetônico das janelas e a escada circular permitem que Monte Rosa seja praticamente autônoma em energia. Existe um equipamento stand-by, que pode ser usado em casos de emergência para gerar eletricidade à cabana, mas durante as últimas semanas o que tem se constatado é que há mais do que energia natural sendo produzida. “Há sobra de energia”, conta rindo Deplazes. “Já até cogitamos construir uma piscina aquecida na parte externa do prédio”.
O abastecimento de água vem do degelo da neve durante os meses quentes. Tubulações levam a água para uma “caverna”, ou melhor, um depósito subterrâneo construído para esse propósito, com capacidade para 200 mil litros. Depois de utilizada nos banheiros, a água passa por uma microfiltragem e pode ser reusada.
Através de satélite, tudo o que acontece em Monte Rosa é monitorado por computadores da ETH, em Zurique. Sensores internos instalados na cabana podem, por exemplo, informar qual a melhor maneira de distribuir o ar internamente. “Os sensores medem a densidade de pessoas e fazem uma distribuição inteligente de CO2. Podemos ainda checar o quanto de energia está sendo captada atráves da janelas ou dos painéis solares, com isso fazemos um diagnóstico e decidimos se o aquecimento elétrico sobressalente precisa ou não ser ativado”.
SIMBIOSE DE TECNOLOGIAS
Quando foi inaugurada no final do setembro, Monte Rosa foi considerada por muitos, especialmente pela mídia, como a Cabana do Futuro. Mas ela não dever ser vista dessa maneira. Monte Rosa é um projeto plenamente viável nos dias atuais. “Não usamos novas tecnologias, simplesmente combinamos diversas, que até então não tinham sido utilizadas juntas”. Mas há sim uma pequena novidade na cabana da ETH: o sistema inteligente que conecta todos os demais sistemas para colocá-los sob a supervisão do comando central em Zurique.
Andrea Deplazes acredita que já há muito inventado, não há mais necessidade de criar tecnologias, mas sim, implementá-las de maneira prática e eficiente. “Precisamos deixar para trás a utilização dos combustíveis fósseis e nos focar nos recursos naturais limpos”, diz ele ainda.
Monte Rosa só não é totalmente auto-suficiente porque depende de comida e coleta de lixo externos. O lixo orgânico será usado em adubos, mas o resto tem que ser enviado para locais apropriados de tratamento. O abrigo será aberto oficialmente para o público em março de 2010. São 18 quartos, que acomodam até 120 pessoas. A diária vai custar 24 francos suíços (cerca de 40 reais), sem refeição, o preço médio de um pernoite numa cabana nos Alpes, todas administradas pelo Clube Alpino Suíço, que tem aproximadamente 120 mil associados. Assim como outras hospedagens, Monte Rosa ficará aberta entre o começo da primavera e o final do outono. O SAC considera os demais meses perigosos para turistas nos Alpes.
Apesar do custo altíssimo do projeto, 6,5 milhões de francos suíços (11 milhões de reais), Monte Rosa é um exemplo a ser seguido em obras em qualquer lugar – sejam áreas urbanas ou não. Afinal, essa é a prova que a arquitetura eficiente pode ser uma enorme aliada na construção de um mundo mais sustentável.
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Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH)
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