tradição
O som do folclore
Há 175 anos, a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto transforma em música os sons da natureza e as situações do cotidiano da região do Cariri em música
Silvia Regina
Revista Bravo! – Especial Ceará – 10/2009
“Aqui está a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, do Crato. Gente, essa banda foi meu pai que formou. Meu pai morreu com 104 anos de idade e deixou essa banda que vem alegrando o Brasil.” É assim, numa linguagem simples e com o sotaque carregado nordestino, que os irmãos Aniceto dão início a mais uma apresentação. Representantes do típico forró pé de serra da região do Cariri, no agreste cearense, a banda carrega há 175 anos as tradições dessa cultura popular.
Formado no século 19 pelo “Véi Anicete”, ou José Lourençoda Silva, que mais tarde se tornaria José Aniceto, um descendente de índios do Cariri, o grupo se encontra na terceira geração — a quarta já está sendo formada — e não deixa de lado a música antiga do sertão. A primeira formação tinha Anicete, amigos e parentes. Depois, o fundador foi ensinando o ofício para os herdeiros. Raimundo, o caçula de dez fi lhos, conta que o pai passou tudo que sabia adiante.
“Todos os seis filhos homens aprenderam a tocar”, diz. Aos 75 anos — começou a tocar com 6 -, ele acompanhou de perto a renovação da banda. A formação atual é composta por cinco integrantes. Além de Raimundo, sobem ao palco Adriano, Antonio (seu irmão), Jeová e Ciço. Eles têm um sexto integrante, Ugui, escalado em situações especiais. “Continuamos em família, não podemos perder essa característica”, diz.
Mestre Raimundo, como é chamado, sabe que o apelido de infância do pai deu nome à primeira formação da banda, mas não sabe dizer por que Anicete virou Aniceto. “Foi mudando na boca do povo”, lembra. O nome virou marca registrada da família. “Todos passaram a ser conhecidos como Aniceto”, diz o mestre.
“Constituída no séulo 19, a banda se encontra na terceira geração - a quarta está sendo formada agora – sem deixar de lado a música antiga do sertão”
SONS DA NATUREZA
Com a mesma simplicidade que explica a formação do grupo, Raimundo revela a rotina dos artistas. Longe do glamour que cerca os grandes astros da música, os Aniceto são trabalhadores da roça, passam o dia mexendo na terra, enquanto observam o comportamento dos animais e os sons emitidos por eles. “A música dos Aniceto é bem regional. Eles se inspiram em situações do dia a dia para criar ritmos e danças”, explica a professora Elídia Clara Aguiar Veríssimo, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), que em 2002 defendeu tese de mestrado sobre o som produzido pelo quinteto. “Eles se diferenciam das demais bandas cabaçais do Cariri pela temática de suas músicas. Usam os sons e o comportamento dos animais para criar.
Aí nascem marchinhas e forrozinhos que ninguém mais produz, trazendo o cotidiano da roça para o palco”, explica Elídia. Também fazem parte do repertório situações vividas por alguns integrantes. É o caso da música da Luta do Severino Brabo. Mestre Raimundo conta que esse personagem realmente existiu e fez parte de sua infância. O tal homem assustava a todos andando com dois facões na cintura e tentando arrumar briga por onde passava. “Eu ficava olhando, aprendi alguns movimentos com ele e coloquei isso na banda”, conta. Nesse caso, impressiona o som emitido pelas facas que acompanham a música.
Funciona como um instrumento musical. Outra surpresa é a disposição de mestre Raimundo. Responsável pela coreografia, ele dança, pula e arrisca até um salto mortal na apresentação. Os nomes dos passos também são assunto à parte para os Aniceto. Há o pula cobra, corte tesoura, amassa barro, cruzeta e trancelim, entre outros. Alguns já existiam e são típicos nesse tipo de banda; outros, como amassa barro, foram inventados pelo “Véi Anicete”.
A pesquisa de Elídia também mostra que, apesar de não possuírem formação acadêmica em música, os Aniceto têm ouvido para sons que músicos profi ssionais não têm. O mesmo ocorre com a habilidade em tocar seus instrumentos musicais. “Só para ter uma ideia, eles imitam o choro do cachorro na flauta. É uma maneira própria de deslizar os dedos no instrumento que foi aprendida há muito tempo e só eles conseguem fazer”, diz Elídia. Não foi só a música que José Aniceto deixou para os filhos.
Inteligente e perspicaz, repassou a arte de confeccionar os próprios instrumentos. E até hoje os herdeiros seguem a tradição. Os músicos fabricam a zabumba, os pifes — uma espécie de flauta - e o tarol (a caixinha). A introdução do prato é invenção recente. A primeira geração não tinha esse instrumento. Porém, observando os demais grupos de música do Cariri, os componentes acharam interessante o chiado do prato e o introduziram na banda.
"Na música que fazem e nos instrumentos que fabricam, está a preservação de um passado que não pode ser esquecido"
QUEM É BOM NASCE FEITO
A Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto não faz ensaios. Quando sobra tempo, eles se reúnem para tocar, experimentar novos sons e treinar as coreografi as. “É do pensamento da gente que quem é bom já nasce feito”, diz mestre Raimundo. Com o tempo escasso, geralmente os ensaios acontecem no palco. É nesse momento que eles aproveitam para fazer possíveis mudanças. “A gente muda tudo rapidinho. Não tem problema”, diz. É assim que eles se diferenciam — ao perceber que alguma banda está fazendo o mesmo som que eles, o grupo sobe ao palco com algo novo, surpreendendo a todos.
Da cidade de Crato para o mundo, os irmãos Aniceto ainda são figuras constantes nas festas populares e religiosas, como a Renovação do Coração de Jesus, na região do Cariri, tocam em igrejas, procissões, novenas, casamentos e, se alguém pedir, adaptam o repertório até para enterros. Dividem o tempo também com os shows em Fortaleza e em outros estados brasileiros. O prestígio deles é tanto que já fizeram temporada no Sesc Pompeia, em São Paulo, com o espetáculo Ciranda dos Homens, Carnaval dos Animais, concebido pelo premiado coreógrafo Ivaldo Bertazzo.
Já estiveram na França e em Portugal, durante as comemorações do aniversário do município lusitano de Crato. “O nosso trabalho é cultura, e as pessoas parecem que gostam muito do que a gente faz”, conta Raimundo, com sua característica simplicidade. A produção musical da mais popular banda cabaçal cearense foi registrada em um disco de vinil e dois CDs, dificilmente encontrados à venda no mercado.
Também já participaram de filmes e documentários. Desde 2004, Raimundo Aniceto é Mestre da Cultura Tradicional Popular do Ceará, título concebido pela Secretaria da Cultura do estado (Secult). O trabalho dos Aniceto foi reconhecido até pelo Ministério da Cultura. Em 2007, a banda recebeu a Ordem do Mérito Cultural (OMC). Criada em 1995, a condecoração é uma homenagem do governo federal a cidadãos e instituições que se destacam na prestação de serviços à cultura do país. Essa é mais uma prova da importância do grupo. É como os irmãos fazem questão de frisar: “Enquanto existir a banda cabaçal, o folclore não acaba no Brasil”. Com certeza, o povo brasileiro agradece.
A VEZ DA BANDA MIRIM
Adriano é um dos integrantes mais novos da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, mas isso não quer dizer que lhe falte experiência. Tem 17 anos de música, é fi lho de Antonio e sobrinho de mestre Aniceto. Por esse motivo, coube a ele encabeçar um importante projeto. Há seis anos vem repassando o que sabe para cinco meninos (Alison, Marcos Adriano, João Vitor, Vanilson e Guto), todos filhos dos atuais integrantes. É a chamada banda Aniceto Mirim. Eles têm entre 12 e 14 anos, ensaiam no chão batido do sertão, já se apresentaram em Fortaleza e encantaram a plateia. “A banda é uma tradição da família, e a gente não pode deixar isso morrer”, enfatiza mestre Raimundo.
“Aqui está a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, do Crato. Gente, essa banda foi meu pai que formou. Meu pai morreu com 104 anos de idade e deixou essa banda que vem alegrando o Brasil.” É assim, numa linguagem simples e com o sotaque carregado nordestino, que os irmãos Aniceto dão início a mais uma apresentação. Representantes do típico forró pé de serra da região do Cariri, no agreste cearense, a banda carrega há 175 anos as tradições dessa cultura popular.
Formado no século 19 pelo “Véi Anicete”, ou José Lourençoda Silva, que mais tarde se tornaria José Aniceto, um descendente de índios do Cariri, o grupo se encontra na terceira geração — a quarta já está sendo formada — e não deixa de lado a música antiga do sertão. A primeira formação tinha Anicete, amigos e parentes. Depois, o fundador foi ensinando o ofício para os herdeiros. Raimundo, o caçula de dez fi lhos, conta que o pai passou tudo que sabia adiante.
“Todos os seis filhos homens aprenderam a tocar”, diz. Aos 75 anos — começou a tocar com 6 -, ele acompanhou de perto a renovação da banda. A formação atual é composta por cinco integrantes. Além de Raimundo, sobem ao palco Adriano, Antonio (seu irmão), Jeová e Ciço. Eles têm um sexto integrante, Ugui, escalado em situações especiais. “Continuamos em família, não podemos perder essa característica”, diz.
Mestre Raimundo, como é chamado, sabe que o apelido de infância do pai deu nome à primeira formação da banda, mas não sabe dizer por que Anicete virou Aniceto. “Foi mudando na boca do povo”, lembra. O nome virou marca registrada da família. “Todos passaram a ser conhecidos como Aniceto”, diz o mestre.
“Constituída no séulo 19, a banda se encontra na terceira geração - a quarta está sendo formada agora – sem deixar de lado a música antiga do sertão”
SONS DA NATUREZA
Com a mesma simplicidade que explica a formação do grupo, Raimundo revela a rotina dos artistas. Longe do glamour que cerca os grandes astros da música, os Aniceto são trabalhadores da roça, passam o dia mexendo na terra, enquanto observam o comportamento dos animais e os sons emitidos por eles. “A música dos Aniceto é bem regional. Eles se inspiram em situações do dia a dia para criar ritmos e danças”, explica a professora Elídia Clara Aguiar Veríssimo, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), que em 2002 defendeu tese de mestrado sobre o som produzido pelo quinteto. “Eles se diferenciam das demais bandas cabaçais do Cariri pela temática de suas músicas. Usam os sons e o comportamento dos animais para criar.
Aí nascem marchinhas e forrozinhos que ninguém mais produz, trazendo o cotidiano da roça para o palco”, explica Elídia. Também fazem parte do repertório situações vividas por alguns integrantes. É o caso da música da Luta do Severino Brabo. Mestre Raimundo conta que esse personagem realmente existiu e fez parte de sua infância. O tal homem assustava a todos andando com dois facões na cintura e tentando arrumar briga por onde passava. “Eu ficava olhando, aprendi alguns movimentos com ele e coloquei isso na banda”, conta. Nesse caso, impressiona o som emitido pelas facas que acompanham a música.
Funciona como um instrumento musical. Outra surpresa é a disposição de mestre Raimundo. Responsável pela coreografia, ele dança, pula e arrisca até um salto mortal na apresentação. Os nomes dos passos também são assunto à parte para os Aniceto. Há o pula cobra, corte tesoura, amassa barro, cruzeta e trancelim, entre outros. Alguns já existiam e são típicos nesse tipo de banda; outros, como amassa barro, foram inventados pelo “Véi Anicete”.
A pesquisa de Elídia também mostra que, apesar de não possuírem formação acadêmica em música, os Aniceto têm ouvido para sons que músicos profi ssionais não têm. O mesmo ocorre com a habilidade em tocar seus instrumentos musicais. “Só para ter uma ideia, eles imitam o choro do cachorro na flauta. É uma maneira própria de deslizar os dedos no instrumento que foi aprendida há muito tempo e só eles conseguem fazer”, diz Elídia. Não foi só a música que José Aniceto deixou para os filhos.
Inteligente e perspicaz, repassou a arte de confeccionar os próprios instrumentos. E até hoje os herdeiros seguem a tradição. Os músicos fabricam a zabumba, os pifes — uma espécie de flauta - e o tarol (a caixinha). A introdução do prato é invenção recente. A primeira geração não tinha esse instrumento. Porém, observando os demais grupos de música do Cariri, os componentes acharam interessante o chiado do prato e o introduziram na banda.
"Na música que fazem e nos instrumentos que fabricam, está a preservação de um passado que não pode ser esquecido"
QUEM É BOM NASCE FEITO
A Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto não faz ensaios. Quando sobra tempo, eles se reúnem para tocar, experimentar novos sons e treinar as coreografi as. “É do pensamento da gente que quem é bom já nasce feito”, diz mestre Raimundo. Com o tempo escasso, geralmente os ensaios acontecem no palco. É nesse momento que eles aproveitam para fazer possíveis mudanças. “A gente muda tudo rapidinho. Não tem problema”, diz. É assim que eles se diferenciam — ao perceber que alguma banda está fazendo o mesmo som que eles, o grupo sobe ao palco com algo novo, surpreendendo a todos.
Da cidade de Crato para o mundo, os irmãos Aniceto ainda são figuras constantes nas festas populares e religiosas, como a Renovação do Coração de Jesus, na região do Cariri, tocam em igrejas, procissões, novenas, casamentos e, se alguém pedir, adaptam o repertório até para enterros. Dividem o tempo também com os shows em Fortaleza e em outros estados brasileiros. O prestígio deles é tanto que já fizeram temporada no Sesc Pompeia, em São Paulo, com o espetáculo Ciranda dos Homens, Carnaval dos Animais, concebido pelo premiado coreógrafo Ivaldo Bertazzo.
Já estiveram na França e em Portugal, durante as comemorações do aniversário do município lusitano de Crato. “O nosso trabalho é cultura, e as pessoas parecem que gostam muito do que a gente faz”, conta Raimundo, com sua característica simplicidade. A produção musical da mais popular banda cabaçal cearense foi registrada em um disco de vinil e dois CDs, dificilmente encontrados à venda no mercado.
Também já participaram de filmes e documentários. Desde 2004, Raimundo Aniceto é Mestre da Cultura Tradicional Popular do Ceará, título concebido pela Secretaria da Cultura do estado (Secult). O trabalho dos Aniceto foi reconhecido até pelo Ministério da Cultura. Em 2007, a banda recebeu a Ordem do Mérito Cultural (OMC). Criada em 1995, a condecoração é uma homenagem do governo federal a cidadãos e instituições que se destacam na prestação de serviços à cultura do país. Essa é mais uma prova da importância do grupo. É como os irmãos fazem questão de frisar: “Enquanto existir a banda cabaçal, o folclore não acaba no Brasil”. Com certeza, o povo brasileiro agradece.
A VEZ DA BANDA MIRIM
Adriano é um dos integrantes mais novos da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, mas isso não quer dizer que lhe falte experiência. Tem 17 anos de música, é fi lho de Antonio e sobrinho de mestre Aniceto. Por esse motivo, coube a ele encabeçar um importante projeto. Há seis anos vem repassando o que sabe para cinco meninos (Alison, Marcos Adriano, João Vitor, Vanilson e Guto), todos filhos dos atuais integrantes. É a chamada banda Aniceto Mirim. Eles têm entre 12 e 14 anos, ensaiam no chão batido do sertão, já se apresentaram em Fortaleza e encantaram a plateia. “A banda é uma tradição da família, e a gente não pode deixar isso morrer”, enfatiza mestre Raimundo.