com as próprias mãos
A terra do artesanato
Rendas de bilro, louças e peças decorativas de barro, cestarias... No Ceará, são produzidos objetos com técnicas únicas
Silvia Regina
Revista Bravo! – Especial Ceará – 10/2009
Para conhecer o artesanato que é feito no Ceará, o visitante pode percorrer dois caminhos. O primeiro é visitar as feiras de artesãos que acontecem em Fortaleza — como a da Central do Artesanato do Ceará (Ceart) — ou aquelas realizadas na região do Cariri (sertão cearense que compreende as cidades de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha, entre outras). Outro caminho é visitar as casas dos moradores. Desde a capital até o interior, não há uma moradia em que não se encontre uma toalha de renda de bilro ou de labirinto, enfeites de filé, redes ou louças de barro.
Nas peças, é possível observar um artesanato genuíno e único, que dificilmente se acha em outras partes do Brasil. “Trata-se de um artesanato extremamente barroco, decorado com arabescos e geometrismos. As peças têm grande utilidade nas casas, mas nunca se apartam do decorativo”, explica Raimundo Oswald Cavalcante Barroso, professor de cultura brasileira e antropologia da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e autor do livro Mãos Preciosas — O Artesanato do Ceará (Luste Editores).
Com uma terra seca e um sol que arde como fogo, o artesanato aproveita as adversidades para se tornar especial. “Esse povo sabe tirar beleza há tempos dos materiais aparentemente desprezíveis, como a palha do milho, considerada por muitos como a borra da borra, porque era dada aos porcos. Nas mãos de uma trançadeira, vira bolsa elegante capaz de figurar nas coleções de moda”, afirma Barroso. Cada cidade do sertão possui características próprias e é especialista em um tipo de arte.
Cascavel, Ipu e Viçosa do Ceará, por exemplo, são conhecidas pelas louças de barro; Jaguaruana, pelas redes; Jaguaribe, pela renda de filé, e Aquiraz, pela renda de bilro. Já a região do Cariri se destaca das demais por uma questão muito simples: ali se concentra todo tipo de arte, tornando-se um polo produtor da cultura cearense. E essa excelência, Segundo contam os mais velhos, é responsabilidade de Padre Cícero (ou Padim Ciço, como é chamado naquelas bandas), padroeiro da região que nasceu na cidade de Crato, em 1844, e se tornou um santo milagreiro não reconhecido pelo Vaticano.
Diz a lenda que, quando um romeiro chegava à região e se apresentava ao padre, este lhe perguntava o que sabia, o que podia ou o que queria fazer. No fim da conversa,recebia uma missão que, mais tarde, deveria ser estendida aos herdeiros. Assim, cada casa ganhava um altar e uma oficina. Em Juazeiro do Norte, o ofício era levado tão a sério que havia uma rua para cada artesanato.
Trabalhar também era uma forma de oração. Naquela época, as mulheres permaneciam em casa, às voltas com o artesanato, enquanto os homens iam para o mar pescar. Foi da pesca que vieram as primeiras contribuições para essa arte. Os pescadores procuravam na mata as madeiras de melhor qualidade para construir seus barcos. Nasciam assim jangadas de piúba e botes de timbaúba. Junto com esses trabalhadores veio também a arte da cestaria. Da palha da carnaúba surgiram samburás, caçoas e outros cestos imprescindíveis para armazenar os pescados. O ofício da cestaria foi repassado às mulheres, que aperfeiçoaram a arte e usam a técnica até os dias atuais para a confecção de cestos, objetos de decoração e bolsas.
A vida dos pescadores, tão rica em regionalismos, foi retratada no documentário It’s All True, do cineasta americano Orson Welles, o mesmo que dirigiu Cidadão Kane. Em 1942, ele desembarcou em Fortaleza para retratar a odisseia vivida por quatro pescadores que um ano antes partiram da antiga praia do Peixe (hoje Iracema) para o Rio de Janeiro, de jangada, sem bússola ou mapa de navegação, numa viagem que levou dois meses. Eles pretendiam chamar a atenção do governo para a situação de abandono em que viviam os 35 mil pescadores cearenses.
Apesar de o filme nunca ter sido exibido - a censura da época não permitiu, as cenas foram todas filmadas. Durante sua passagem por Fortaleza, Welles dormia em cabana rústica para ficar mais próximo da vida dos pescadores, frequentou boates e compareceu a festejos juninos. Quem o conheceu garante que era um homem gentil e um trabalhador apaixonado pela arte.
Ao lado da cestaria, a rede também é peça artesanal que virou marca registrada desse povo. É nela que o caboclo - homem simples do sertão que carrega como herança os traços do índio e do branco - se deita para descansar, dormir e até morrer. Ela também embala as crianças, é usada para acomodar os pescadores durante o tempo que passam, nos barcos, em alto-mar ou caminhoneiros durante as paradas as fibras do algodão e a ajuda de um tear rústico. O tempo tornou o produto valioso no comércio, e foi inevitável o aparecimento da industrialização. Hoje, as redes perderam o ar artesanal, mas ainda são admiradas por cearenses e turistas.
RENDAS DE BILRO, FILÉ E LABIRINTO
A confecção da renda de bilro, do filé — um tipo de bordado bem colorido — e do labirinto — renda feita desfazendo- se um tecido — é algo que se passa de mãe para filhas e netas. Em cidadezinhas como Aracati, Aquiraz e Camocim, é cena comum mulheres sentadas em frente a suas casas, almofadas no meio das pernas, criando um novo desenho e fazendo sua arte como ninguém.
Contam as artesãs mais experientes que o filé chegou ao Ceará pelo porto de Aracati, vindo de Portugal,espalhando-se pelo litoral e, depois, pelo interior. No início, usavam-se apenas fios brancos que depois foram substituídos pelos coloridos. De objeto de decoração, o bordado ganhou as ruas e se transformou em saias, blusas e saídas de banho. Já o labirinto é feito de maneira contrária. Nesse tipo de artesanato, também trazido da península Ibérica, a artesã lança mão de um tecido inteiro e ali vai desfiando fio a fio até formar um desenho. O trabalho final é uma obra de arte que somente mãos muito talentosas conseguem fazer. Para completar, ainda há a renda. Com habilidade e paciência e utilizando grandes almofadas recheadas de palhas que servem de apoio para os alfinetes — feitos de mandacaru ou metal —, as artesãs vão tecendo a renda com a ajuda dos bilros, peças feitas de coquinho de macaúba.
Vinda da Europa, a arte do bordado, do labirinto, da renda foi aperfeiçoada em terras cearenses, e ainda hoje a técnica é repassada de mães para filhas e , depois, netas
As mãos habilidosas também aprenderam a confeccionar louças de barro para o sustento da família. O material é abundante no Ceará, mas apresenta diferenças em cada cidade em que é recolhido. Assim, a louça de Cascavel é avermelhada, a de Ipu, parda, e a de Viçosa do Ceará, mais clara. De acordo com o professor Oswald Barroso, os desenhos também variam. Em Cascavel, predominam as abstrações geométricas, enquanto nas demais cidades os desenhos florais estão entre os preferidos.
O trabalho é feminino. Assim como acontece com as rendeiras, as mulheres se reúnem na sala de casa ou num puxadinho feito após a cozinha e, sentadas no chão, moldam cada objeto. “O contato com o barro faz brotar figuras. Nas peças que elas criam, deixam também um pouco de sua alma”, garante o professor Oswald Barroso.