mostra na Oca
A morte na vida e na arte
O protesto de Frans Krajcberg contra a devastação da natureza pode ser visto como referência ao assassinato de sua família na Segunda Guerra
Por Elisa Tozzi
Revista Bravo! - 11/2008
Aos 87 anos, o artista Frans Krajcberg mantém uma rotina rígida: madruga todos os dias às 5h, passeia pela floresta (sim, floresta) para recolher troncos destruídos que possam servir de material para suas obras, escala de volta os 12 metros que separam a sua casa do chão e dorme lá pelas 18h, nunca depois disso. O polonês naturalizado brasileiro em 1957 vive há mais de três décadas em cima de uma árvore. Construído sobre um tronco de pequi de três metros de diâmetro e cercado pela mata atlântica do município de Nova Viçosa, no sul da Bahia, o curioso endereço serve de porta de entrada para o universo criativo de seu dono. Krajcberg é uma espécie de embaixador da união entre a arte e a ecologia. Uma exposição que segue até 14 de dezembro na Oca, em São Paulo, integra as comemorações dos 60 anos do Museu de Arte Moderna e conta parte da história do escultor, um dos primeiros a despontar por aqui com uma produção preocupada com o meio ambiente.
Com 65 esculturas e 40 fotografias de queimadas, a mostra, com curadoria do próprio artista, inspira-se no seu Manifesto do Rio Negro. O texto, escrito por ele em 1978, foi motivado por uma de suas viagens recorrentes pela Amazônia. Paradoxalmente, armas do extermínio estruturam suas esculturas, nunca nomeadas. Com serras elétricas e maçaricos, Krajcberg molda os troncos de árvores que recolhe nas florestas — o maior da exposição atinge seis metros de altura. Discurso político à parte, há valor estético em seus trabalhos: “Ele consegue partir de fragmentos destruídos da natureza e retirar dali uma beleza impressionante”, analisa o crítico Frederico Morais.
O tom panfletário, no entanto, permeia quase toda a conversa com o escultor, que, em um sotaque carregado, se diz sempre um “revoltado contra a destruição da vida”. Para o crítico Olívio Tavares de Araújo, essa postura tem um sentido mais amplo: “Talvez porque falar da morte do homem seja chocante demais, ele tenha passado a falar metaforicamente dessa morte pela natureza”. O crítico se refere a uma possível leitura autobiográfi ca da obra de Krajcberg, cuja trajetória é fortemente marcada pela morte.
A PEREGRINAÇÃO
Krajcberg presenciou o assassinato de toda a sua família na Polônia, nos anos 40. Traumatizado com a Segunda Guerra Mundial e os horrores do Holocausto, ele veio para o Brasil oito anos depois. Não que o destino tenha sido escolhido, exatamente: “Eu iria para qualquer lugar depois daquilo tudo. Cheguei ao Brasil por sorte”, lembra. Com ajuda do pintor russo Marc Chagall (1887-1985), Krajcberg embarcou para o Rio de Janeiro como o noivo falso de uma jovem húngara que nunca mais voltou a encontrar. Sem falar português, dormiu nas areias cariocas até conseguir viajar clandestinamente para São Paulo em um trem. Na capital paulista, conheceu o industrial e mecenas Ciccillo Matarazzo e trabalhou para ele em 1951, como montador da primeira Bienal de São Paulo. Foi assim que tomou gosto pela arte, começou a produzir telas e, seis anos mais tarde, circulou pela mesma Bienal como dono do prêmio de melhor pintura do grande evento paulistano.
Nessa época, o artista teve entre seus amigos Alfredo Volpi (1896-1988) e Waldemar Cordeiro (1925-1973), por exemplo. Mas é ao lituano Lasar Segall (1891-1957) que ele deve a maior reviravolta de sua carreira. Ao lhe oferecer um emprego na fábrica de papéis Klabin, no Paraná, Segall aproximou o polonês da natureza brasileira. As queimadas da região, no entanto, assustaram o escultor: “Minha casa foi atingida. Eu senti que estava na guerra mais uma vez”, diz. A partir daí, Krajc berg passou a fazer as esculturas com troncos e fl anou por Paris, Ibiza e Minas Gerais, até se estabelecer de vez em Nova Viçosa.
Não sem ressentimentos. Se na França o artista conta com um museu desde 2003, no bairro parisiense de Montparnasse, no Brasil ele se declara frustrado por não dispor de um endereço apropriado para sua arte. Apesar de ter há cinco anos um espaço com mais de cem obras suas em Curitiba, Krajcberg desabafa: “Minha galeria no Sul está abandonada, sem cuidado nenhum”. Até o ano passado, havia uma tentativa de ocupação da antiga serraria do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, mas o projeto está suspenso por causa de desentendimentos entre a prefeitura e a administração do local. Nesse sentido, a mostra na Oca, além da mensagem ecológica, pode funcionar ainda como um protesto particular contra o que Krajcberg considera um descaso com sua obra.
ONDE E QUANDO
Frans Krajcberg: Natura. Oca (Parque do Ibirapuera, portão 3, São Paulo, SP, tel. (11) 5085-1300. Até 14/12. De 3ª a dom., das 10h às 18h. Grátis.
Aos 87 anos, o artista Frans Krajcberg mantém uma rotina rígida: madruga todos os dias às 5h, passeia pela floresta (sim, floresta) para recolher troncos destruídos que possam servir de material para suas obras, escala de volta os 12 metros que separam a sua casa do chão e dorme lá pelas 18h, nunca depois disso. O polonês naturalizado brasileiro em 1957 vive há mais de três décadas em cima de uma árvore. Construído sobre um tronco de pequi de três metros de diâmetro e cercado pela mata atlântica do município de Nova Viçosa, no sul da Bahia, o curioso endereço serve de porta de entrada para o universo criativo de seu dono. Krajcberg é uma espécie de embaixador da união entre a arte e a ecologia. Uma exposição que segue até 14 de dezembro na Oca, em São Paulo, integra as comemorações dos 60 anos do Museu de Arte Moderna e conta parte da história do escultor, um dos primeiros a despontar por aqui com uma produção preocupada com o meio ambiente.
Com 65 esculturas e 40 fotografias de queimadas, a mostra, com curadoria do próprio artista, inspira-se no seu Manifesto do Rio Negro. O texto, escrito por ele em 1978, foi motivado por uma de suas viagens recorrentes pela Amazônia. Paradoxalmente, armas do extermínio estruturam suas esculturas, nunca nomeadas. Com serras elétricas e maçaricos, Krajcberg molda os troncos de árvores que recolhe nas florestas — o maior da exposição atinge seis metros de altura. Discurso político à parte, há valor estético em seus trabalhos: “Ele consegue partir de fragmentos destruídos da natureza e retirar dali uma beleza impressionante”, analisa o crítico Frederico Morais.
O tom panfletário, no entanto, permeia quase toda a conversa com o escultor, que, em um sotaque carregado, se diz sempre um “revoltado contra a destruição da vida”. Para o crítico Olívio Tavares de Araújo, essa postura tem um sentido mais amplo: “Talvez porque falar da morte do homem seja chocante demais, ele tenha passado a falar metaforicamente dessa morte pela natureza”. O crítico se refere a uma possível leitura autobiográfi ca da obra de Krajcberg, cuja trajetória é fortemente marcada pela morte.
A PEREGRINAÇÃO
Krajcberg presenciou o assassinato de toda a sua família na Polônia, nos anos 40. Traumatizado com a Segunda Guerra Mundial e os horrores do Holocausto, ele veio para o Brasil oito anos depois. Não que o destino tenha sido escolhido, exatamente: “Eu iria para qualquer lugar depois daquilo tudo. Cheguei ao Brasil por sorte”, lembra. Com ajuda do pintor russo Marc Chagall (1887-1985), Krajcberg embarcou para o Rio de Janeiro como o noivo falso de uma jovem húngara que nunca mais voltou a encontrar. Sem falar português, dormiu nas areias cariocas até conseguir viajar clandestinamente para São Paulo em um trem. Na capital paulista, conheceu o industrial e mecenas Ciccillo Matarazzo e trabalhou para ele em 1951, como montador da primeira Bienal de São Paulo. Foi assim que tomou gosto pela arte, começou a produzir telas e, seis anos mais tarde, circulou pela mesma Bienal como dono do prêmio de melhor pintura do grande evento paulistano.
Nessa época, o artista teve entre seus amigos Alfredo Volpi (1896-1988) e Waldemar Cordeiro (1925-1973), por exemplo. Mas é ao lituano Lasar Segall (1891-1957) que ele deve a maior reviravolta de sua carreira. Ao lhe oferecer um emprego na fábrica de papéis Klabin, no Paraná, Segall aproximou o polonês da natureza brasileira. As queimadas da região, no entanto, assustaram o escultor: “Minha casa foi atingida. Eu senti que estava na guerra mais uma vez”, diz. A partir daí, Krajc berg passou a fazer as esculturas com troncos e fl anou por Paris, Ibiza e Minas Gerais, até se estabelecer de vez em Nova Viçosa.
Não sem ressentimentos. Se na França o artista conta com um museu desde 2003, no bairro parisiense de Montparnasse, no Brasil ele se declara frustrado por não dispor de um endereço apropriado para sua arte. Apesar de ter há cinco anos um espaço com mais de cem obras suas em Curitiba, Krajcberg desabafa: “Minha galeria no Sul está abandonada, sem cuidado nenhum”. Até o ano passado, havia uma tentativa de ocupação da antiga serraria do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, mas o projeto está suspenso por causa de desentendimentos entre a prefeitura e a administração do local. Nesse sentido, a mostra na Oca, além da mensagem ecológica, pode funcionar ainda como um protesto particular contra o que Krajcberg considera um descaso com sua obra.
ONDE E QUANDO
Frans Krajcberg: Natura. Oca (Parque do Ibirapuera, portão 3, São Paulo, SP, tel. (11) 5085-1300. Até 14/12. De 3ª a dom., das 10h às 18h. Grátis.