inspiração rural
Uma fazenda com vocação para a arte
Confira esta: um festival, em São Paulo, em que todo mundo faz arte sem restrição de linguagem e sem fronteira entre quem inventa e quem assiste. Ali, as pessoas se reúnem para criar e plantar amizades. Tudo a ver com o espírito de nosso tempo
Por Raphaela de Campos Mello
Revista Bons Fluidos - 10/2008
É fato. O mundo anda cada vez mais multi: multimídia, multicultural, multidisciplinar, multiétnico... Enfim, se quisermos nos harmonizar com o que anda à nossa volta, é bom manter as antenas ligadas sobre o que está acontecendo por aí. Numa fazenda centenária, em Bragança Paulista, a 90 km de São Paulo, acontece anualmente, em julho, o Festival de Arte Serrinha, uma reunião de gente bacana que expressa bem essa nossa multifacetada alma brasileira.
As oficinas, ministradas por nomes de peso, transitam por artes plásticas, design, moda, gastronomia, literatura, música, teatro e por aí vai. Há também palestras gratuitas, shows, exposição de fotografia e sessões de cinema, além de atividades de arte-educação voltadas para a comunidade. Os responsáveis por esse burburinho são os irmãos Fábio e Marcelo Delduque, artista plástico e jornalista, respectivamente, donos da propriedade, e o produtor cultural e empresário Carlão de Oliveira.
Tudo acontece ao mesmo tempo. As oficinas ocupam vários ateliês. Alguns foram construídos especialmente para essa finalidade. Outros são puro improviso, o que torna a proposta ainda mais charmosa: o curral da vaca Estrela (um tanto incomodada pelo despejo) e até a casa de Fábio, inspirada nas linhas tortuosas do arquiteto catalão Antoni Gaudí, entram na dança.
A hospitalidade local é genuína. Todos são bem-vindos e sabem disso. Podem circular, espiar, ouvir as discussões mesmo que não estejam inscritos num curso específico. Plínio Ruschi, 22 anos, estudante de engenharia ambiental, por exemplo, chega sozinho. Deve encontrar o amigo que acompanha a namorada, inscrita na oficina de moda, ministrada pela estilista Karlla Giroto. Depois de muito esperar e não encontrar o colega, resolve ir a campo e se entrosar. Solícito, oferece ajuda à artista plástica Floriana Breyer.
Sentada na grama, Floriana martela uma antiga janela encontrada por ali. A esquadria será mais um componente da casa na árvore que todos aguardam por ver pronta. “Sempre gostei de refúgios. Por isso, construí uma estrutura de proteção que permite o aprofundamento do indivíduo em meio à natureza”, explica a artista, que no ano passado foi ao festival decidida a passar três dias e acabou ficando o mês inteiro.
A instalação de Flor, assim chamada por todos, não é a única. A fazenda abriga trabalhos produzidos nos anos anteriores. Hoje, as obras fazem parte do patrimônio cultural da propriedade. Uma dica se você um dia participar da festa: com o mapa ilustrado da área na mão, faça de conta que embarcou numa caça ao tesouro e se aventure pelo terreno até conhecer de perto uma a uma.
Voltando ao Plínio e seu espírito solidário. Ele passou a ser o ajudante oficial da artista. Já o amigo, a certa altura, apareceu: estirado num pufe, lendo um livro ao lado da lareira, que enche de calor e aconchego o ateliê de moda. Enquanto isso, na outra ponta, as meninas das tesouras debatem sobre a relação entre a roupa, o corpo e o entorno.
CONVÍVIO ESTREITO
Perto dali, no pátio em frente ao galpão principal, crianças brincam na companhia de Gaia, a cadela de Marcelo. São filhos de professores, de membros da equipe e de alunos. A bola e o bambolê convivem com as pinturas frescas, que secam ao sol, bem ao lado de pessoas refesteladas no gramado. Em outro canto, sobre a mesa de madeira salpicada de tinta, a conversa rola fácil e espontânea entre desconhecidos que logo encontram afinidades.
Apesar da movimentação constante das conexões que se estabelecem entre os participantes e suas criações, a qualquer momento é possível parar e contemplar o vento na copa das árvores, o céu de inverno tingido de um azul cortante, os morros que parecem saídos de um quadro bucólico. “Não queremos transformar o festival num Woodstock, e sim preservar a possibilidade de contemplação da paisagem”, diz Fábio. A atmosfera conspira para que os visitantes se deixem levar pelo ímpeto criativo. “O espírito de férias, de acampamento, está muito presente.
Ao mesmo tempo, existe uma reflexão conceitual sendo articulada”, diz o pintor Dudi Maia Rosa, que ministra a oficina de artes plásticas. Para ele, o que faz do festival um evento singular é a possibilidade do convívio estreito e da imersão na arte 24 horas por dia, uma experiência impossível na cidade. Seus alunos – estudantes de artes plásticas e amantes da pintura, como a dentista Viviane Modena, 50 anos – escolhem o momento ideal para pintar, que pode ser bem cedinho, no rastro da aurora, ou de madrugada.
No alto do morro, no curral da Estrela, a investigação se volta para as formas da natureza. Guiados pelo designer Hugo França – especialista em converter resíduos vegetais em móveis, objetos e esculturas –, arquitetos, paisagistas e artesãos buscam um novo olhar para suas profissões. “A idéia inicial era produzir peças pequenas com raízes de eucalipto encontradas na área da represa”, conta Hugo. No entanto, a notícia de que um grande tronco jazia na mata mudou o rumo da oficina. Rapidamente, uma caravana se formou e foi resgatar a matéria-prima, que dará vida a uma namoradeira.
A arte e seu poder de transformação individual e coletivo são a motivação principal do festival. Mas também não é exagero dizer que se trata de um álibi para fomentar o encontro, a troca, a convivência fraternal e interessada de gente que na cidade está tão dispersa e na Serrinha descobre e celebra a proximidade. O fim de semana termina com um banquete elaborado pelos alunos da chef Morena Leite. Em torno da mesa, onde se exibem carne-seca na moranga e pudim de tapioca, entre outras delícias, vê-se uma grande família a saciar a fome do corpo e da alma.
É fato. O mundo anda cada vez mais multi: multimídia, multicultural, multidisciplinar, multiétnico... Enfim, se quisermos nos harmonizar com o que anda à nossa volta, é bom manter as antenas ligadas sobre o que está acontecendo por aí. Numa fazenda centenária, em Bragança Paulista, a 90 km de São Paulo, acontece anualmente, em julho, o Festival de Arte Serrinha, uma reunião de gente bacana que expressa bem essa nossa multifacetada alma brasileira.
As oficinas, ministradas por nomes de peso, transitam por artes plásticas, design, moda, gastronomia, literatura, música, teatro e por aí vai. Há também palestras gratuitas, shows, exposição de fotografia e sessões de cinema, além de atividades de arte-educação voltadas para a comunidade. Os responsáveis por esse burburinho são os irmãos Fábio e Marcelo Delduque, artista plástico e jornalista, respectivamente, donos da propriedade, e o produtor cultural e empresário Carlão de Oliveira.
Tudo acontece ao mesmo tempo. As oficinas ocupam vários ateliês. Alguns foram construídos especialmente para essa finalidade. Outros são puro improviso, o que torna a proposta ainda mais charmosa: o curral da vaca Estrela (um tanto incomodada pelo despejo) e até a casa de Fábio, inspirada nas linhas tortuosas do arquiteto catalão Antoni Gaudí, entram na dança.
A hospitalidade local é genuína. Todos são bem-vindos e sabem disso. Podem circular, espiar, ouvir as discussões mesmo que não estejam inscritos num curso específico. Plínio Ruschi, 22 anos, estudante de engenharia ambiental, por exemplo, chega sozinho. Deve encontrar o amigo que acompanha a namorada, inscrita na oficina de moda, ministrada pela estilista Karlla Giroto. Depois de muito esperar e não encontrar o colega, resolve ir a campo e se entrosar. Solícito, oferece ajuda à artista plástica Floriana Breyer.
Sentada na grama, Floriana martela uma antiga janela encontrada por ali. A esquadria será mais um componente da casa na árvore que todos aguardam por ver pronta. “Sempre gostei de refúgios. Por isso, construí uma estrutura de proteção que permite o aprofundamento do indivíduo em meio à natureza”, explica a artista, que no ano passado foi ao festival decidida a passar três dias e acabou ficando o mês inteiro.
A instalação de Flor, assim chamada por todos, não é a única. A fazenda abriga trabalhos produzidos nos anos anteriores. Hoje, as obras fazem parte do patrimônio cultural da propriedade. Uma dica se você um dia participar da festa: com o mapa ilustrado da área na mão, faça de conta que embarcou numa caça ao tesouro e se aventure pelo terreno até conhecer de perto uma a uma.
Voltando ao Plínio e seu espírito solidário. Ele passou a ser o ajudante oficial da artista. Já o amigo, a certa altura, apareceu: estirado num pufe, lendo um livro ao lado da lareira, que enche de calor e aconchego o ateliê de moda. Enquanto isso, na outra ponta, as meninas das tesouras debatem sobre a relação entre a roupa, o corpo e o entorno.
CONVÍVIO ESTREITO
Perto dali, no pátio em frente ao galpão principal, crianças brincam na companhia de Gaia, a cadela de Marcelo. São filhos de professores, de membros da equipe e de alunos. A bola e o bambolê convivem com as pinturas frescas, que secam ao sol, bem ao lado de pessoas refesteladas no gramado. Em outro canto, sobre a mesa de madeira salpicada de tinta, a conversa rola fácil e espontânea entre desconhecidos que logo encontram afinidades.
Apesar da movimentação constante das conexões que se estabelecem entre os participantes e suas criações, a qualquer momento é possível parar e contemplar o vento na copa das árvores, o céu de inverno tingido de um azul cortante, os morros que parecem saídos de um quadro bucólico. “Não queremos transformar o festival num Woodstock, e sim preservar a possibilidade de contemplação da paisagem”, diz Fábio. A atmosfera conspira para que os visitantes se deixem levar pelo ímpeto criativo. “O espírito de férias, de acampamento, está muito presente.
Ao mesmo tempo, existe uma reflexão conceitual sendo articulada”, diz o pintor Dudi Maia Rosa, que ministra a oficina de artes plásticas. Para ele, o que faz do festival um evento singular é a possibilidade do convívio estreito e da imersão na arte 24 horas por dia, uma experiência impossível na cidade. Seus alunos – estudantes de artes plásticas e amantes da pintura, como a dentista Viviane Modena, 50 anos – escolhem o momento ideal para pintar, que pode ser bem cedinho, no rastro da aurora, ou de madrugada.
No alto do morro, no curral da Estrela, a investigação se volta para as formas da natureza. Guiados pelo designer Hugo França – especialista em converter resíduos vegetais em móveis, objetos e esculturas –, arquitetos, paisagistas e artesãos buscam um novo olhar para suas profissões. “A idéia inicial era produzir peças pequenas com raízes de eucalipto encontradas na área da represa”, conta Hugo. No entanto, a notícia de que um grande tronco jazia na mata mudou o rumo da oficina. Rapidamente, uma caravana se formou e foi resgatar a matéria-prima, que dará vida a uma namoradeira.
A arte e seu poder de transformação individual e coletivo são a motivação principal do festival. Mas também não é exagero dizer que se trata de um álibi para fomentar o encontro, a troca, a convivência fraternal e interessada de gente que na cidade está tão dispersa e na Serrinha descobre e celebra a proximidade. O fim de semana termina com um banquete elaborado pelos alunos da chef Morena Leite. Em torno da mesa, onde se exibem carne-seca na moranga e pudim de tapioca, entre outras delícias, vê-se uma grande família a saciar a fome do corpo e da alma.