40 anos
Morte do Herói
Sem Martin Luther King, movimento negro Americano ficou menos pacifista
Da Redação
Revista Aventuras na História - 05/2008
Depois de hesitar muito, o maior líder negro americano, Martin Luther King, abraçara a luta contra a Guerra do Vietnã. A causa da dúvida era o medo de que os negros americanos fossem acusados de antipatrióticos. Sobre o conflito, King dissera: “Precisamos deixar claro que não toleraremos mais, não votaremos mais em homens que continuam a considerar as mortes de vietnamitas e americanos como a melhor maneira de promover a liberdade e a autodeterminação no Sudeste Asiático”.
A luta dele contra o racismo começara havia mais de 15 anos. Já nos anos 50 o pastor batista estava engajado em movimentos pelos direitos dos negros. Em sua trajetória, elaborou discursos belíssimos e conseguiu que fosse aprovada a Lei dos Direitos Civis (em 1963), que transformava a legislação segregacionista americana em algo inconstitucional, e, em 1965, que os negros tivessem direito ao voto. Ao mesmo tempo, recebia ameaças de morte, era perseguido pelo FBI e sofria de depressão.
Em 1965, King já tentara se engajar na luta pelo fim da Guerra do Vietnã, mas foi atacado por amigos e oposição, que não queriam que ele se metesse nessa briga. Mas, em 1968, King combinou a luta contra o racismo com o ativismo contra a guerra e as desigualdades sociais. O pastor tinha ido para Memphis, no Tennessee, em 4 de abril, para apoiar uma greve de lixeiros.
Desiludido com o sonho de um país mais justo e com direitos iguais, começou a escrever o discurso “Por que a América deve ir para o inferno”. Com o sermão inacabado, conversava na sacada do Lorraine Motel quando levou um tiro no pescoço, às 18h01. Morreu uma hora depois, no hospital. O assassino, o branco James Earl Ray, foi preso dois meses depois, mas o crime nunca foi esclarecido.
O movimento que tinha em Martin Luther King Jr. seu grande ídolo já estava rachando havia pelo menos dois anos. Outros líderes, como Stokely Carmichael, um intelectual radical nascido em Trinidad e Tobago, estavam falando em “Poder Negro” e estruturando o grupo rebelde dos Panteras Negras, deixando de lado a ideologia não-violenta do pastor King e buscando o confronto com o governo e com os brancos. “Agora que levaram o doutor King, está na hora de acabar com essa merda de não-violência”, desabafou Carmichael, depois daquele 4 de abril.
Os líderes dos Panteras Negras não pegavam leve. Os mais moderados exigiam o ensino da história dos negros americanos e de suas lutas políticas em escolas e universidades. Os radicais defendiam uma espécie de nacionalismo negro, no qual os afro-americanos tomavam o poder que lhes havia sido negado – embora ninguém dissesse exatamente qual “Estado” seria criado no lugar dos Estados Unidos “branco”.
Nessa onda de radicalismo, os defensores do Poder Negro tentavam encontrar a arte, a moda e até os cortes de cabelo genuinamente africanos. Ao lado dessas preocupações quase sempre inofensivas, alguns intelectuais do movimento defendiam a criação de organizações paramilitares e até o estupro de mulheres brancas (uma forma de revidar os séculos de dominação sexual exercida pelos homens brancos sobre mulheres negras).
Ao mesmo tempo, os Panteras Negras exigiam que os afro-americanos ficassem isentos do serviço militar – afinal, não teriam razões para lutar por um país que os oprimia. É claro que os recrutadores não engoliram a idéia.
Apesar dos confrontos raciais que se seguiram em muitas das principais cidades americanas, e da repressão muitas vezes brutal da polícia, a ação de Martin Luther King e seus companheiros acabou revertendo de vez a segregação racial institucionalizada nos Estados Unidos. A política de ação afirmativa nas universidades criou uma classe média negra relativamente rica e poderosa.
Embora haja tensão racial difusa nas grandes metrópoles americanas, podese dizer que é graças aos acontecimentos de 1968 que o negro Barack Obama é hoje um dos principais candidatos a presidente dos Estados Unidos.
Inspiração para mudanças radicais, por James Green*
“1968 foi um ano em que uma geração de estudantes e trabalhadores nascidos durante e imediatamente após a Segunda Guerra desafi aram o status quo no mundo da Guerra Fria – particularmente as universidades, a polícia e o Exército. Estudantes negros abraçaram o orgulho racial e figuras separatistas ou militantes anti-racismo como Malcolm X e Martin Luther King.
A geração de 68 que hoje ocupa importantes cargos em universidades, governos, partidos políticos, literatura e indústria do entretenimento seria provavelmente muito menos inspirada a devotar suas vidas e seus sonhos a mudanças radicais se 1968 não tivesse existido. O assassinato de Martin Luther King foi um colapso terrível. Ele era um homem carismático, indiscutivelmente um dos líderes mais radicais que vimos no século 20.
A desilusão que se seguiu a sua morte causou danos incalculáveis às esperanças que aquela geração tinha de ver tempos melhores. Hoje, Barack Obama é apresentado como representante da nova geração e daqueles que desejam transcender as ácidas divisões raciais, culturais e políticas que herdamos dos anos 60 – divisões que Reagan e os Bush exploraram para desacreditar o liberalismo e as questões raciais daquela década. Mas eu acredito que o apelo de Obama é estruturado em alguns daqueles grandes desejos de 1968, apesar de ele expressá-los em termos muito patrióticos – termos
que eram rejeitados em 1968”.
* James Green é historiador da Universidade de Yale especializado em movimentos civis da década de 1960.
Depois de hesitar muito, o maior líder negro americano, Martin Luther King, abraçara a luta contra a Guerra do Vietnã. A causa da dúvida era o medo de que os negros americanos fossem acusados de antipatrióticos. Sobre o conflito, King dissera: “Precisamos deixar claro que não toleraremos mais, não votaremos mais em homens que continuam a considerar as mortes de vietnamitas e americanos como a melhor maneira de promover a liberdade e a autodeterminação no Sudeste Asiático”.
A luta dele contra o racismo começara havia mais de 15 anos. Já nos anos 50 o pastor batista estava engajado em movimentos pelos direitos dos negros. Em sua trajetória, elaborou discursos belíssimos e conseguiu que fosse aprovada a Lei dos Direitos Civis (em 1963), que transformava a legislação segregacionista americana em algo inconstitucional, e, em 1965, que os negros tivessem direito ao voto. Ao mesmo tempo, recebia ameaças de morte, era perseguido pelo FBI e sofria de depressão.
Em 1965, King já tentara se engajar na luta pelo fim da Guerra do Vietnã, mas foi atacado por amigos e oposição, que não queriam que ele se metesse nessa briga. Mas, em 1968, King combinou a luta contra o racismo com o ativismo contra a guerra e as desigualdades sociais. O pastor tinha ido para Memphis, no Tennessee, em 4 de abril, para apoiar uma greve de lixeiros.
Desiludido com o sonho de um país mais justo e com direitos iguais, começou a escrever o discurso “Por que a América deve ir para o inferno”. Com o sermão inacabado, conversava na sacada do Lorraine Motel quando levou um tiro no pescoço, às 18h01. Morreu uma hora depois, no hospital. O assassino, o branco James Earl Ray, foi preso dois meses depois, mas o crime nunca foi esclarecido.
O movimento que tinha em Martin Luther King Jr. seu grande ídolo já estava rachando havia pelo menos dois anos. Outros líderes, como Stokely Carmichael, um intelectual radical nascido em Trinidad e Tobago, estavam falando em “Poder Negro” e estruturando o grupo rebelde dos Panteras Negras, deixando de lado a ideologia não-violenta do pastor King e buscando o confronto com o governo e com os brancos. “Agora que levaram o doutor King, está na hora de acabar com essa merda de não-violência”, desabafou Carmichael, depois daquele 4 de abril.
Os líderes dos Panteras Negras não pegavam leve. Os mais moderados exigiam o ensino da história dos negros americanos e de suas lutas políticas em escolas e universidades. Os radicais defendiam uma espécie de nacionalismo negro, no qual os afro-americanos tomavam o poder que lhes havia sido negado – embora ninguém dissesse exatamente qual “Estado” seria criado no lugar dos Estados Unidos “branco”.
Nessa onda de radicalismo, os defensores do Poder Negro tentavam encontrar a arte, a moda e até os cortes de cabelo genuinamente africanos. Ao lado dessas preocupações quase sempre inofensivas, alguns intelectuais do movimento defendiam a criação de organizações paramilitares e até o estupro de mulheres brancas (uma forma de revidar os séculos de dominação sexual exercida pelos homens brancos sobre mulheres negras).
Ao mesmo tempo, os Panteras Negras exigiam que os afro-americanos ficassem isentos do serviço militar – afinal, não teriam razões para lutar por um país que os oprimia. É claro que os recrutadores não engoliram a idéia.
Apesar dos confrontos raciais que se seguiram em muitas das principais cidades americanas, e da repressão muitas vezes brutal da polícia, a ação de Martin Luther King e seus companheiros acabou revertendo de vez a segregação racial institucionalizada nos Estados Unidos. A política de ação afirmativa nas universidades criou uma classe média negra relativamente rica e poderosa.
Embora haja tensão racial difusa nas grandes metrópoles americanas, podese dizer que é graças aos acontecimentos de 1968 que o negro Barack Obama é hoje um dos principais candidatos a presidente dos Estados Unidos.
Inspiração para mudanças radicais, por James Green*
“1968 foi um ano em que uma geração de estudantes e trabalhadores nascidos durante e imediatamente após a Segunda Guerra desafi aram o status quo no mundo da Guerra Fria – particularmente as universidades, a polícia e o Exército. Estudantes negros abraçaram o orgulho racial e figuras separatistas ou militantes anti-racismo como Malcolm X e Martin Luther King.
A geração de 68 que hoje ocupa importantes cargos em universidades, governos, partidos políticos, literatura e indústria do entretenimento seria provavelmente muito menos inspirada a devotar suas vidas e seus sonhos a mudanças radicais se 1968 não tivesse existido. O assassinato de Martin Luther King foi um colapso terrível. Ele era um homem carismático, indiscutivelmente um dos líderes mais radicais que vimos no século 20.
A desilusão que se seguiu a sua morte causou danos incalculáveis às esperanças que aquela geração tinha de ver tempos melhores. Hoje, Barack Obama é apresentado como representante da nova geração e daqueles que desejam transcender as ácidas divisões raciais, culturais e políticas que herdamos dos anos 60 – divisões que Reagan e os Bush exploraram para desacreditar o liberalismo e as questões raciais daquela década. Mas eu acredito que o apelo de Obama é estruturado em alguns daqueles grandes desejos de 1968, apesar de ele expressá-los em termos muito patrióticos – termos
que eram rejeitados em 1968”.
* James Green é historiador da Universidade de Yale especializado em movimentos civis da década de 1960.