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A arte de plantar
O artista Jean Paul Ganem cria obras de arte que modificam a paisagem e envolvem projetos sociais, como a profissionalização de pessoas carentes. Pirituba, em São Paulo, foi o local escolhido para o seu novo projeto
Por Thiago Carrapatoso
Planeta Sustentável - 25/02/2008
"Uma arte com o olhar para a realidade". É assim que o artista plástico tunisiano radicado na França, Jean Paul Ganem, define o seu trabalho. Ele desenvolveu o conceito de landscape art, no qual modifica a paisagem de um local para construir uma obra de arte. Como? Utilizando técnicas de jardinagem.
[img01] Ganem transforma a visão de um determinado lugar projetando um jardim colorido, com muitas formas geométricas, composto por flores, plantas e materiais reciclados. O "olhar para a realidade" entra na participação dos próprios moradores da região, que mantêm a obra. E a beleza de seu trabalho é que altera o ambiente no qual elas estão instaladas. "Olhar para um lugar no qual, antes, existia algo totalmente contaminado e devastado e ver algo bonito funciona como agente transformador. Só isso já muda a auto-estima, a questão cultural e a percepção social daquelas pessoas", explica.
Como exemplo, Ganem cita o "Jardin des Capteurs", em Montreal (Canadá), que, há mais de 30 anos, era um aterro sanitário. Ele fez parcerias com Ongs e com moradores da região para criar o jardim. Os moradores tiraram o entulho, descontaminaram a terra, aprenderam a cuidar da vegetação e plantaram as espécies. Depois dessa reforma, as pessoas puderam fazer piqueniques onde antes estava coberto de lixo. Mas, por pouco tempo. Infelizmente, nessa paisagem, nem tudo deu certo.
As plantas tiveram que ser retiradas do local por causa dos gases que o lixo em decomposição emite. No aterro, há canos enterrados que escoam esses gases para a produção de energia. Por causa do metano que saiu da terra, o chão cedeu. Então, para não perder a plantas, Ganem distribuiu as mudas pelas escolas da região.
O artista plástico tem planos de trazer esse conceito de landscape art para o Brasil. Tanto é que o secretário do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo Jorge, já está em contato com Ganem para que ele construa um jardim na região de Pirituba, no extremo sul de São Paulo. "A obra de Jean Paul valoriza a natureza, a integração do homem com a paisagem e a recuperação de áreas degradas por meio de um trabalho artístico sócio-ambiental".
A idéia é utilizar o jardim como continuação de um parque linear que existe no bairro. "No ano passado, 500 famílias invadiram esse lugar e corriam risco, já que um rio passa por ali. A Secretaria da Habitação entrou em negociação com eles e conseguiram alocar 300 famílias ali por perto. É uma região que não tem nada e há 20 mil pessoas morando em um local isolado. Por conta da finalização dessa obra, a secretaria achou que seria o melhor local. Como o projeto ainda não saiu do papel, eles vão revestir com grama", comenta Ganem.
Para preservar a memória dessas pessoas, o artista usou uma planta baixa e manteve o desenho original formado pelas casas. "É um trabalho de mosaico, praticamente. Foi o meio encontrado para que os moradores encontrassem novamente suas residências, mas, agora, com flores".
Mas por que trazer esse projeto para o Brasil? "Faz 20 anos que venho para cá", conta Ganem. "Então, conheço razoavelmente a cultura brasileira. Porque, para fazer o projeto - que está dentro da comunidade e do paisagismo do lugar -, é necessário conhecer um pouco o país. Eu já fiz esse tipo de trabalho no Canadá e, agora, depois de duas décadas convivendo com o Brasil, sinto que está na hora de fazer o mesmo por aqui".
A sustentabilidade do projeto não está somente em desenvolver uma área verde em um lugar que está abandonado ou destruído. Para Pirituba, a idéia é que o landscape art seja voltado à comunidade local, profissionalizando os moradores da região. "Há jovens que serão contratados para trabalhar no plantio. Eles participarão de uma oficina, de um processo de ensino. Nossa missão é fazer com que esses jovens sejam inseridos no mercado de trabalho depois de todo o processo", argumenta.
Pretende-se, além disso, construir um viveiro com diversas mudas para servir à pesquisa e ao comércio para paisagistas interessados. "Nós temos uma Ong de sensibilização e outra de profissionalização. O que importa, aqui, é a inserção social: trazer pessoas que estão na linha de pobreza e torná-las jardineiros. Ao mesmo tempo, esse é um projeto de economia solidária, pois a continuidade dele envolve incubadoras e cooperativas."
Eduardo Jorge concorda com a iniciativa social da obra. "Um projeto como esse pode gerar uma semente de desenvolvimento sustentável para regiões extremamente carentes, além de estimular a auto-estima das comunidades envolvidas, chamando a atenção da sociedade para áreas menos favorecidas da cidade. Esse é um dos grandes desafios das grandes metrópoles", diz.
Quem também acredita no projeto é o cantor e compositor Tom Zé. Ganem descobriu que ele é o jardineiro do prédio onde mora (veja reportagem da revista Contigo com Tom, aqui) e que sempre chama crianças carentes para ajudá-lo na tarefa de cuidar das plantas. "Para o Tom, trabalhar com as plantas é uma terapia fantástica. Ele aderiu por afinidade pura com o conceito", comenta Ganem.
O projeto de Jean Paul ainda não saiu do papel por falta de patrocínio, mas Ganem e seus assessores esperam que as obras sejam iniciadas ainda no primeiro semestre de 2008. Algo, porém, é certo: a presença de Tom Zé para a inauguração oficial já está garantida. Vai ser uma festa!
Leia também:
A arte da jardinagemA arte das flores A arte da paisagem
"Uma arte com o olhar para a realidade". É assim que o artista plástico tunisiano radicado na França, Jean Paul Ganem, define o seu trabalho. Ele desenvolveu o conceito de
landscape art, no qual modifica a paisagem de um local para construir uma obra de arte. Como? Utilizando técnicas de jardinagem.
[img01] Ganem transforma a visão de um determinado lugar projetando um jardim colorido, com muitas formas geométricas, composto por flores, plantas e materiais reciclados. O "olhar para a realidade" entra na participação dos próprios moradores da região, que mantêm a obra. E a beleza de seu trabalho é que altera o ambiente no qual elas estão instaladas. "Olhar para um lugar no qual, antes, existia algo totalmente contaminado e devastado e ver algo bonito funciona como agente transformador. Só isso já muda a auto-estima, a questão cultural e a percepção social daquelas pessoas", explica.
Como exemplo, Ganem cita o "Jardin des Capteurs", em Montreal (Canadá), que, há mais de 30 anos, era um aterro sanitário. Ele fez parcerias com Ongs e com moradores da região para criar o jardim. Os moradores tiraram o entulho, descontaminaram a terra, aprenderam a cuidar da vegetação e plantaram as espécies. Depois dessa reforma, as pessoas puderam fazer piqueniques onde antes estava coberto de lixo. Mas, por pouco tempo. Infelizmente, nessa paisagem, nem tudo deu certo.
As plantas tiveram que ser retiradas do local por causa dos gases que o lixo em decomposição emite. No aterro, há canos enterrados que escoam esses gases para a produção de energia. Por causa do metano que saiu da terra, o chão cedeu. Então, para não perder a plantas, Ganem distribuiu as mudas pelas escolas da região.
O artista plástico tem planos de trazer esse conceito de landscape art para o Brasil. Tanto é que o secretário do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo Jorge, já está em contato com Ganem para que ele construa um jardim na região de Pirituba, no extremo sul de São Paulo. "A obra de Jean Paul valoriza a natureza, a integração do homem com a paisagem e a recuperação de áreas degradas por meio de um trabalho artístico sócio-ambiental".
A idéia é utilizar o jardim como continuação de um parque linear que existe no bairro. "No ano passado, 500 famílias invadiram esse lugar e corriam risco, já que um rio passa por ali. A Secretaria da Habitação entrou em negociação com eles e conseguiram alocar 300 famílias ali por perto. É uma região que não tem nada e há 20 mil pessoas morando em um local isolado. Por conta da finalização dessa obra, a secretaria achou que seria o melhor local. Como o projeto ainda não saiu do papel, eles vão revestir com grama", comenta Ganem.
Para preservar a memória dessas pessoas, o artista usou uma planta baixa e manteve o desenho original formado pelas casas. "É um trabalho de mosaico, praticamente. Foi o meio encontrado para que os moradores encontrassem novamente suas residências, mas, agora, com flores".
Mas por que trazer esse projeto para o Brasil? "Faz 20 anos que venho para cá", conta Ganem. "Então, conheço razoavelmente a cultura brasileira. Porque, para fazer o projeto - que está dentro da comunidade e do paisagismo do lugar -, é necessário conhecer um pouco o país. Eu já fiz esse tipo de trabalho no Canadá e, agora, depois de duas décadas convivendo com o Brasil, sinto que está na hora de fazer o mesmo por aqui".
A sustentabilidade do projeto não está somente em desenvolver uma área verde em um lugar que está abandonado ou destruído. Para Pirituba, a idéia é que o landscape art seja voltado à comunidade local, profissionalizando os moradores da região. "Há jovens que serão contratados para trabalhar no plantio. Eles participarão de uma oficina, de um processo de ensino. Nossa missão é fazer com que esses jovens sejam inseridos no mercado de trabalho depois de todo o processo", argumenta.
Pretende-se, além disso, construir um viveiro com diversas mudas para servir à pesquisa e ao comércio para paisagistas interessados. "Nós temos uma Ong de sensibilização e outra de profissionalização. O que importa, aqui, é a inserção social: trazer pessoas que estão na linha de pobreza e torná-las jardineiros. Ao mesmo tempo, esse é um projeto de economia solidária, pois a continuidade dele envolve incubadoras e cooperativas."
Eduardo Jorge concorda com a iniciativa social da obra. "Um projeto como esse pode gerar uma semente de desenvolvimento sustentável para regiões extremamente carentes, além de estimular a auto-estima das comunidades envolvidas, chamando a atenção da sociedade para áreas menos favorecidas da cidade. Esse é um dos grandes desafios das grandes metrópoles", diz.
Quem também acredita no projeto é o cantor e compositor Tom Zé. Ganem descobriu que ele é o jardineiro do prédio onde mora (veja reportagem da revista Contigo com Tom, aqui) e que sempre chama crianças carentes para ajudá-lo na tarefa de cuidar das plantas. "Para o Tom, trabalhar com as plantas é uma terapia fantástica. Ele aderiu por afinidade pura com o conceito", comenta Ganem.
O projeto de Jean Paul ainda não saiu do papel por falta de patrocínio, mas Ganem e seus assessores esperam que as obras sejam iniciadas ainda no primeiro semestre de 2008. Algo, porém, é certo: a presença de Tom Zé para a inauguração oficial já está garantida. Vai ser uma festa!
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