Por Silvana Maria Rosso
Revista Arquitetura & Construção - 01/2008
Há pouco mais de um século a capital paulista era povoada de casas e ruas de barro que serviam de pouso aos tropeiros. Em pouco tempo, as feições da cidade foram ganhando requintes, ora para se equiparar ao Velho Continente, ora para buscar a própria identidade. Constate, aqui, essa arquitetura eclética e multifacetada.
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As aberturas, retas ou arredondadas, eram de madeira ou de canga (fragmentos de minério), e as janelas fechadas por rótulas (grade de ripas) ou muxarabiês (anteparo de treliça de influência árabe). "O modo de viver mameluco determinava o programa das casas", conta Jorge Eduardo Rubies, presidente do movimento Preserva São Paulo. A área para cocção, por exemplo, era rotativa, pois o fogo mudava de lugar ao jeito indígena. Entre os séculos 17 e 19, o estilo barroco, que associa elementos curvos e retos, marcou a arquitetura religiosa, como a Igreja de Santo Antônio e o Mosteiro da Luz. "Os interiores eram rebuscados, com trabalhos em talhas e dourações, e os exteriores, mais simples que o barroco mineiro, por causa da técnica em taipa", explica a arquiteta Eunice Helena Abascal, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
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A CIDADE PRÉ-FABRICADA
No século 18, São Paulo é elevada à categoria de cidade, e as casas ganham outro andar e balcões. O geometrismo costumeiro do movimento neoclássico aparece em São Paulo no fim desse século em obras públicas, projetadas pelo engenheiro militar português João da Costa Ferreira, disseminando a arquitetura simétrica e tripartite. "São construções com volume central e duas laterais; base, corpo e coroamento", ensina o arquiteto Rafael Manzo, professor da FAU-Mackenzie. Só em meados do século 19, o estilo, considerado uma das primeira manifestações ecléticas, virou moda entre os paulistanos, chegando com ele o vidro, o tijolo, a telha plana, a platibanda vertical (escondendo o telhado), o frontão, as colunas e os balaústres.
Com o advento da ferrovia, uma nova cidade é erguida sobre o antigo pouso de tropeiros. O mesmo trem que transportava o café ao porto de Santos t razia à capital gradis, janelas, tesouras, assoalhos, mármores, vitrais... materiais novos e prontos para serem usados. "É o início da construção industrializada", diz a arquiteta Ruth Verde Zein, professora da FAU-Mackenzie. Em 1886, a convite do Barão de Parnaíba, o engenheiro e arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo transfere-se de Campinas para a capital para planejar os edifícios das Secretarias do Estado, marcando assim a história da cidade com a introdução do ecletismo. Formado na Bélgica, "Ramos rompeu com o barroco, propondo novos estilos, condicionados ao modo de viver à francesa, a materiais importados e a uma nova mão-de-obra", ressalta o arquiteto Carlos Lemos, professor da FAU-USP. "O ecletismo é um pot-pourri que copia padrões de estilos históricos e obedece a regras formais de construção", explica Jorge Rubies. Aqui, o estilo foi predominantemente neo-renascentista por infl uência dos arquitetos e mestres-de-obras italianos que imigraram para São Paulo.
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Foram Felisberto Ranzini e Alfredo Borioni os desenhistas que melhor souberam interpretar a vontade de Severo, uma vez que ele não sabia desenhar. Paralelamente, em 1915, Victor Dubugras acompanhou o prefeito Washington Luiz a uma excursão pelos arredores da cidade à procura de exemplares da casa bandeirista - não se sabe se por influência ou não de Severo -, registrando pormenores e acabamentos da produção cultural da era do pilão.
Após a guerra, o arquiteto franco-argentino começa a sua arquitetura tradicionalista, depois chamada de neocolonial. Com o fim da guerra, quando se recomeçou a construir na cidade, o estilo era "o grito de modernidade", como registra Carlos Lemos. Tanto que, na Semana de Arte Moderna de 1922, a arquitetura dita moderna era a neocolonial. Constituía-se de casas alegres, entre jardins, com alvenaria de pedra, barrados de azulejos e arcadas. Depois de sua simplificação, tornou-se um estilo paulistano por excelência.
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A partir dos anos 20, as formas geométricas e o design abstrato predominam. O art déco, um estilo de transição com matriz clássica também proveniente da França, atinge a capital. A estrutura já é de concreto armado, permitindo grandes vãos, e os revestimentos de materiais nobres. "O déco mescla técnicas construtivas industriais e decorativas artesanais", destaca Jorge. Seu maior representante é Elisiário da Cunha Bahiana, autor de várias obras, como o Edifício Mappin Stores, o viaduto do Chá e o Jocquey Club (todos de 1935), entre muitos outros.
O refinamento de acabamentos e detalhes construtivos da escola podem ser conferidos no Banco de São Paulo (1935), planejado pelo argentino Álvaro Botelho sob encomenda da família Almeida Prado. Nos anos 30, com o getulismo, espalham-se pela cidade edifícios de organização clássica despidos dos elementos decorativos, chamada de tardo-fascista, a exemplo do prédio da prefeitura (1939), projetado pelo italiano Marcello Piacentini.
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Influenciados pelas idéias da escola alemã Bauhaus e do arquiteto francosuíço Le Corbusier, que propugnavam uma arquitetura funcional e despojada, alguns profi ssionais ensaiam em suas pranchetas os primeiros traços em linhas puras. Caso do ucraniano Gregori Warchavchik, que nos lega a primeira casa modernista (1926). Flávio de Carvalho entra na história com a sua vila para aluguel (1928) na alameda Lorena, com casas que vinham até com modo de usar.
Os anos 30 foram definitivos para o amadurecimento da arquitetura moderna brasileira. Le Corbusier veio ao Rio de Janeiro para comandar a equipe que iria projetar o Ministério da Educação e Saúde, de onde saíram expoentes do modernismo como Oscar Niemeyer e Affonso Eduardo Reidy, que deixaram obras em São Paulo. Nos anos 40, planta e fachada livres, pilotis, terraço-jardim e janelas horizontais tornaram-se os mandamentos de nossos arquitetos modernistas. "Nas décadas seguintes, a arquitetura paulista mostrou forte presença dos princípios modernos com derivações de autor", avalia Eunice Helena Abascal. Para Ruth, o século 20 foi marcado por tendências: "Pequenas ondas que vão e vêm". E, entre os anos 70 e 80, foi a hora de rever as falhas da arquitetura moderna, até então experimentalista. "A industrialização dos componentes, antes artesanais, possibilitou-nos fazer a boa arquitetura", conclui.
Por Silvana Maria Rosso
Revista Arquitetura & Construção - 01/2008
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As aberturas, retas ou arredondadas, eram de madeira ou de canga (fragmentos de minério), e as janelas fechadas por rótulas (grade de ripas) ou muxarabiês (anteparo de treliça de influência árabe). "O modo de viver mameluco determinava o programa das casas", conta Jorge Eduardo Rubies, presidente do movimento Preserva São Paulo. A área para cocção, por exemplo, era rotativa, pois o fogo mudava de lugar ao jeito indígena. Entre os séculos 17 e 19, o estilo barroco, que associa elementos curvos e retos, marcou a arquitetura religiosa, como a Igreja de Santo Antônio e o Mosteiro da Luz. "Os interiores eram rebuscados, com trabalhos em talhas e dourações, e os exteriores, mais simples que o barroco mineiro, por causa da técnica em taipa", explica a arquiteta Eunice Helena Abascal, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
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A CIDADE PRÉ-FABRICADA
No século 18, São Paulo é elevada à categoria de cidade, e as casas ganham outro andar e balcões. O geometrismo costumeiro do movimento neoclássico aparece em São Paulo no fim desse século em obras públicas, projetadas pelo engenheiro militar português João da Costa Ferreira, disseminando a arquitetura simétrica e tripartite. "São construções com volume central e duas laterais; base, corpo e coroamento", ensina o arquiteto Rafael Manzo, professor da FAU-Mackenzie. Só em meados do século 19, o estilo, considerado uma das primeira manifestações ecléticas, virou moda entre os paulistanos, chegando com ele o vidro, o tijolo, a telha plana, a platibanda vertical (escondendo o telhado), o frontão, as colunas e os balaústres.
Com o advento da ferrovia, uma nova cidade é erguida sobre o antigo pouso de tropeiros. O mesmo trem que transportava o café ao porto de Santos t razia à capital gradis, janelas, tesouras, assoalhos, mármores, vitrais... materiais novos e prontos para serem usados. "É o início da construção industrializada", diz a arquiteta Ruth Verde Zein, professora da FAU-Mackenzie. Em 1886, a convite do Barão de Parnaíba, o engenheiro e arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo transfere-se de Campinas para a capital para planejar os edifícios das Secretarias do Estado, marcando assim a história da cidade com a introdução do ecletismo. Formado na Bélgica, "Ramos rompeu com o barroco, propondo novos estilos, condicionados ao modo de viver à francesa, a materiais importados e a uma nova mão-de-obra", ressalta o arquiteto Carlos Lemos, professor da FAU-USP. "O ecletismo é um pot-pourri que copia padrões de estilos históricos e obedece a regras formais de construção", explica Jorge Rubies. Aqui, o estilo foi predominantemente neo-renascentista por infl uência dos arquitetos e mestres-de-obras italianos que imigraram para São Paulo.
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Foram Felisberto Ranzini e Alfredo Borioni os desenhistas que melhor souberam interpretar a vontade de Severo, uma vez que ele não sabia desenhar. Paralelamente, em 1915, Victor Dubugras acompanhou o prefeito Washington Luiz a uma excursão pelos arredores da cidade à procura de exemplares da casa bandeirista - não se sabe se por influência ou não de Severo -, registrando pormenores e acabamentos da produção cultural da era do pilão.
Após a guerra, o arquiteto franco-argentino começa a sua arquitetura tradicionalista, depois chamada de neocolonial. Com o fim da guerra, quando se recomeçou a construir na cidade, o estilo era "o grito de modernidade", como registra Carlos Lemos. Tanto que, na Semana de Arte Moderna de 1922, a arquitetura dita moderna era a neocolonial. Constituía-se de casas alegres, entre jardins, com alvenaria de pedra, barrados de azulejos e arcadas. Depois de sua simplificação, tornou-se um estilo paulistano por excelência.
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A partir dos anos 20, as formas geométricas e o design abstrato predominam. O art déco, um estilo de transição com matriz clássica também proveniente da França, atinge a capital. A estrutura já é de concreto armado, permitindo grandes vãos, e os revestimentos de materiais nobres. "O déco mescla técnicas construtivas industriais e decorativas artesanais", destaca Jorge. Seu maior representante é Elisiário da Cunha Bahiana, autor de várias obras, como o Edifício Mappin Stores, o viaduto do Chá e o Jocquey Club (todos de 1935), entre muitos outros.
O refinamento de acabamentos e detalhes construtivos da escola podem ser conferidos no Banco de São Paulo (1935), planejado pelo argentino Álvaro Botelho sob encomenda da família Almeida Prado. Nos anos 30, com o getulismo, espalham-se pela cidade edifícios de organização clássica despidos dos elementos decorativos, chamada de tardo-fascista, a exemplo do prédio da prefeitura (1939), projetado pelo italiano Marcello Piacentini.
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Influenciados pelas idéias da escola alemã Bauhaus e do arquiteto francosuíço Le Corbusier, que propugnavam uma arquitetura funcional e despojada, alguns profi ssionais ensaiam em suas pranchetas os primeiros traços em linhas puras. Caso do ucraniano Gregori Warchavchik, que nos lega a primeira casa modernista (1926). Flávio de Carvalho entra na história com a sua vila para aluguel (1928) na alameda Lorena, com casas que vinham até com modo de usar.
Os anos 30 foram definitivos para o amadurecimento da arquitetura moderna brasileira. Le Corbusier veio ao Rio de Janeiro para comandar a equipe que iria projetar o Ministério da Educação e Saúde, de onde saíram expoentes do modernismo como Oscar Niemeyer e Affonso Eduardo Reidy, que deixaram obras em São Paulo. Nos anos 40, planta e fachada livres, pilotis, terraço-jardim e janelas horizontais tornaram-se os mandamentos de nossos arquitetos modernistas. "Nas décadas seguintes, a arquitetura paulista mostrou forte presença dos princípios modernos com derivações de autor", avalia Eunice Helena Abascal. Para Ruth, o século 20 foi marcado por tendências: "Pequenas ondas que vão e vêm". E, entre os anos 70 e 80, foi a hora de rever as falhas da arquitetura moderna, até então experimentalista. "A industrialização dos componentes, antes artesanais, possibilitou-nos fazer a boa arquitetura", conclui.
























