
Por Déborah de Paula Souza
Revista Claudia - 06/2007
A moda de Ronaldo Fraga extrapolou a passarela. Sua coleção de verão 2007/2008 - que será apresentada este mês na São Paulo Fashion Week - tem como musa a cantora Nara Leão e se desdobrará em disco e livro. Isso soa natural para quem, como ele, vive plugado na cultura brasileira e na arte contemporânea. Ninguém ousou misturar moda com temas tão diversos como a ditadura militar (coleção dedicada a Zuzu Angel) e a arte e a loucura (temporada em que abordou o artista plástico e doente mental Arthur Bispo do Rosário) ou enfocar as contradições da indústria (a última linha de inverno, inspirada na China).
A bordo dos seus grandes óculos Prada com lentes vermelhas, Fraga vê o mundo de modo singular e pode se inspirar tanto em renomados escritores, como Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa, quanto na sua costureira, dona Nilza. O estilista, que já tem uma loja em Belo Horizonte e inaugurou recentemente outra em São Paulo, prepara-se para lançar três livros de estilo pela editora Cosac Naify - o primeiro deles, Nara Leão Ilustrada por Ronaldo Fraga - para Crianças de 0 a 100 Anos, sai em setembro. Os demais serão lançados até 2008: um deles integra uma coleção de moda brasileira, e o outro, ainda sem nome definido, revelará os bastidores de sua carreira.
Aos 40 anos, Ronaldo é casado com Ivana (uma ruiva cacheada com cara de anjo barroco, braço direito da sua confecção) e pai de dois filhos, Ludovico e Graciliano, de 5 e 3 anos. Para contar todas as novidades, ele recebeu a editora de Claudia em sua casa, um lindo sobrado dos anos 30, no centro de Belo Horizonte, onde o trem passa assobiando no quintal.
Claudia - Em que momento suas roupas se transformaram em uma nova categoria da literatura nacional?
Ronaldo Fraga - Quando fiz a coleção inspirada no poeta Carlos Drummond de Andrade (2005), reuni tanto material de pesquisa que acabou rendendo um livro - Drummond Selecionado e Ilustrado por Ronaldo Fraga, com patrocínio da Usiminas e do governo de Minas Gerais. Adorei a experiência e resolvi fazer o mesmo com a nova coleção, da Nara.
Por que escolheu Nara Leão como tema?
Tudo começou porque o Nelson Motta, que foi muito amigo dela, convidou a cantora Fernanda Takai para regravar parte de sua obra, lembrando que em 2008 a bossa nova completa 50 anos e em 2009 fará 20 anos que Nara morreu. Fernanda sabia da minha paixão por Nara e, como já cantou em duas trilhas de desfiles meus, me procurou - a partir daí não consegui pensar em outra coisa.
Qual é o tom da sua homenagem?
Nara me permitiu tocar na delicadeza. Na definição de Chico Buarque, ela era aquela menina tímida, frágil e doce que carregou nas costas um banquinho e um violão, o morro carioca, uma passeata de protesto... e eu diria que ela carregou também umas bananas do tropicalismo e um circo, porque gravou muito para o público infantil.
Você vai mostrar um Brasil bossa-nova na Fashion Week?
Não sou saudosista e não vou falar do passado, e sim de um futuro que não aconteceu - Nara me emociona porque ela apontou para esse futuro, lutou por ele e nunca fez nenhum tipo de concessão. Sua postura artística, política e ética é impressionante. Nara tinha um olhar supersofisticado para a cultura brasileira, até hoje é desconcertante de tão moderna. Para mim, ela é cachorro da mesma matilha de Drummond, Guimarães Rosa e outros artistas que já foram tema de coleções passadas.
Por que você está sempre visitando alguma figura genial?
Porque essas pessoas encararam olho no olho o mundo em que viveram, e eu desejo fazer o mesmo. Os artistas que pesquisei têm em comum o cuidado e o afeto com o seu tempo. E tudo o que eu quero é afagar o meu tempo. Isso não é romantismo, é memória afetiva. O mundo hoje virou um museu de grandes novidades - pensamos que é tudo novo porque não conhecemos o velho. A memória é meu playground, o lugar onde amarro o meu picadeiro.
Os joelhos da Nara eram muito elogiados. Vai ter minissaia na nova coleção?
Claro, vai ter braços e pernas de fora, afinal também estou falando de Copacabana. Não vou copiar o figurino da intérprete, o que me interessa é o seu espírito - fiz uma coleção simples e sofisticada com um quê de melancolia e de auto-ironia. Mostro roupas com textura de pedras portuguesas, com estampa de branco sobre branco. Estou usando tecidos novos, que parecem forro de mesa; trabalhei com imagens da favela, pacotes de sementes de flores e barquinhos bordados. Tentei resumir o que Nara Leão viveu em quatro décadas: bossa nova, resgate da cultura do morro, política - ela foi uma das primeiras a se manifestar contra a ditadura -, canções para as crianças e tropicalismo.
Além do livro sobre a cantora, você vai lançar mais dois...
Até o final deste ano, a editora Cosac Naify vai lançar uma coleção reunindo dez estilistas brasileiros - e eu estou entre eles. Em 2008, sai o outro volume, que pedi para a pesquisadora e professora de moda Cristiane Mesquita organizar, recheado de histórias de bastidores curiosas.
Pode contar uma?
Quando estreei no Phytoervas, em 1996, com a coleção Eu Amo Coração de Galinha (esse desfile e o do Álbum de Família lhe renderam o prêmio de estilista-revelação), o DJ Felipe Venâncio achou que tinha que botar a galinha na trilha sonora. Mandamos um motorista de táxi atrás de uma. Acredita que, quando ele chegou à granja, botou a galinha para cacarejar no telefone para ver se eu aprovava a música?
Um episódio especialmente marcante?
O final do desfile Quem Matou Zuzu Angel, em 2001, foi mágico. A platéia começou a chorar, as modelos também. Na apresentação da coleção O Corpo Cru, em 2002, dispensei as modelos e botei uma engenhoca onde giravam bonecos vestidos com as roupas. Só que a máquina quebrou, o engenheiro ficou desesperado. Aí, botei os bonecos nas mãos das camareiras e pedi que entrassem na passarela - eram corpos reais em cena e elas foram muito aplaudidas.
A moda é competitiva, mas você já dividiu sua passarela.
Sim, essa experiência com Jum Nakao é inesquecível. Estávamos com dificuldade de conseguir patrocínio e eu disse: vamos mandar uma carta um para o outro, eu me inspiro em você e vice-versa e a platéia terá que descobrir quem fez o quê. E assim foi: apresentamos a coleção de verão de 2000/2001 num galpão na Barra Funda (bairro fabril paulistano). Foi um desfile alegre, cheio de balões coloridos...
Imaginava que ia ficar famoso a ponto de dar autógrafo na rua?
Não, mas o Renato Kherlakian tentou me avisar. Em 1990, eu tinha acabado de sair da faculdade de moda e participei de um concurso da Santista. O Renato fazia parte do júri. Ele olhou minha coleção e disse: "Você será um grande nome da moda nacional". Eu era naïf total e perguntei para a produção: Quem é esse cara?" Quase caí de costas quando me disseram que era o poderoso diretor da Zoomp.
E aí você ganhou o concurso...
Sim, o prêmio era uma bolsa na Parson's (escola de arte e design em Nova York). Foi a primeira vez que saí do Brasil. Sou filho de jogador de futebol, mas daquele tempo em que os jogadores não eram milionários. Meu pai enrolava folha de bananeira na canela para aliviar a dor muscular. Um dia ele apareceu de bermuda na minha escola, com aquelas plantas grudadas nas pernas - tinha 1,90 metro, se apresentou com a maior cerimônia para a professora e pediu que ela parasse de puxar a minha orelha na aula. Disse que eu não estava acostumado com isso, que na nossa casa ninguém machucava as crianças. Morri de vergonha. Só anos mais tarde compreendi seu gesto tão bonito e protetor.
A chegada dos filhos influenciou o seu trabalho?
Lancei a coleção infantil depois que meu menino mais velho, Ludovico, nasceu porque eu saía para comprar roupa para ele e achava tudo o fim da picada. A partir deste ano, a marca Ronaldo Fraga para Filhotes se solidificou. Estamos correndo para dar conta dos pedidos. São peças para meninos e meninas até 10 anos, com três linhas diferentes: roupas para lembrar, para amar e para divertir. A camiseta com estampa de bolacha já virou um clássico.
O que a paternidade trouxe para a sua vida?
Eu me pergunto se daqui a 40 anos meus filhos terão orgulho de mim. Afinal, o que é que realmente fica? Isso me ajuda a discernir o que é importante. Poucas vezes levei os meninos aos meus desfiles - não quero que pensem que trabalho é só festa. Gosto mais de levá-los à confecção, para que eles vejam o pai e a mãe resolvendo as coisas do dia-a-dia.
Como consegue ficar imune ao glamour fashion?
Acho ótimo morar em Belo Horizonte, assim não preciso ir a todas as festas. Gosto de fazer meu desfile em São Paulo e voltar para casa. Se bem que eu não paro em casa...
Por onde você tem andado?
Pelo interior de Minas, em Salinas, Divinópolis... Tenho atuado em vários pólos confeccionistas, convidado por federações de indústrias, pelo Sebrae, ou algum órgão regional. A base é sempre a mesma: faço um diagnóstico da situação local e desenvolvo um projeto com o objetivo de gerar trabalho e renda para a população, mas sempre com a perspectiva de pesquisar a cultura e usá-la como matéria-prima. O resultado é animador, as pessoas redescobrem a alma da criação - param de pensar em qual é a cor da estação e passam a pesquisar o sertão, o rio São Francisco, a olhar para a cidade, a casa, a vida delas.
Pode dar um conselho de estilo para as mulheres?
Libertem-se da cartilha fashion, ela muda a toda hora. Estar bem vestida tem a ver com repertório de moda, e isso não se constrói em um dia. O que importa não é se a saia subiu ou desceu, e sim quem você é e quais são as suas escolhas. Antes eu achava que a moda mudava o mundo. Não acho mais. Quem muda o mundo são as pessoas. Mas a moda pode mudar as pessoas.
Por Déborah de Paula Souza
Revista Claudia - 06/2007
A moda de Ronaldo Fraga extrapolou a passarela. Sua coleção de verão 2007/2008 - que será apresentada este mês na São Paulo Fashion Week - tem como musa a cantora Nara Leão e se desdobrará em disco e livro. Isso soa natural para quem, como ele, vive plugado na cultura brasileira e na arte contemporânea. Ninguém ousou misturar moda com temas tão diversos como a ditadura militar (coleção dedicada a Zuzu Angel) e a arte e a loucura (temporada em que abordou o artista plástico e doente mental Arthur Bispo do Rosário) ou enfocar as contradições da indústria (a última linha de inverno, inspirada na China).
A bordo dos seus grandes óculos Prada com lentes vermelhas, Fraga vê o mundo de modo singular e pode se inspirar tanto em renomados escritores, como Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa, quanto na sua costureira, dona Nilza. O estilista, que já tem uma loja em Belo Horizonte e inaugurou recentemente outra em São Paulo, prepara-se para lançar três livros de estilo pela editora Cosac Naify - o primeiro deles, Nara Leão Ilustrada por Ronaldo Fraga - para Crianças de 0 a 100 Anos, sai em setembro. Os demais serão lançados até 2008: um deles integra uma coleção de moda brasileira, e o outro, ainda sem nome definido, revelará os bastidores de sua carreira.
Aos 40 anos, Ronaldo é casado com Ivana (uma ruiva cacheada com cara de anjo barroco, braço direito da sua confecção) e pai de dois filhos, Ludovico e Graciliano, de 5 e 3 anos. Para contar todas as novidades, ele recebeu a editora de Claudia em sua casa, um lindo sobrado dos anos 30, no centro de Belo Horizonte, onde o trem passa assobiando no quintal.
Claudia - Em que momento suas roupas se transformaram em uma nova categoria da literatura nacional?
Ronaldo Fraga - Quando fiz a coleção inspirada no poeta Carlos Drummond de Andrade (2005), reuni tanto material de pesquisa que acabou rendendo um livro - Drummond Selecionado e Ilustrado por Ronaldo Fraga, com patrocínio da Usiminas e do governo de Minas Gerais. Adorei a experiência e resolvi fazer o mesmo com a nova coleção, da Nara.
Por que escolheu Nara Leão como tema?
Tudo começou porque o Nelson Motta, que foi muito amigo dela, convidou a cantora Fernanda Takai para regravar parte de sua obra, lembrando que em 2008 a bossa nova completa 50 anos e em 2009 fará 20 anos que Nara morreu. Fernanda sabia da minha paixão por Nara e, como já cantou em duas trilhas de desfiles meus, me procurou - a partir daí não consegui pensar em outra coisa.
Qual é o tom da sua homenagem?
Nara me permitiu tocar na delicadeza. Na definição de Chico Buarque, ela era aquela menina tímida, frágil e doce que carregou nas costas um banquinho e um violão, o morro carioca, uma passeata de protesto... e eu diria que ela carregou também umas bananas do tropicalismo e um circo, porque gravou muito para o público infantil.
Você vai mostrar um Brasil bossa-nova na Fashion Week?
Não sou saudosista e não vou falar do passado, e sim de um futuro que não aconteceu - Nara me emociona porque ela apontou para esse futuro, lutou por ele e nunca fez nenhum tipo de concessão. Sua postura artística, política e ética é impressionante. Nara tinha um olhar supersofisticado para a cultura brasileira, até hoje é desconcertante de tão moderna. Para mim, ela é cachorro da mesma matilha de Drummond, Guimarães Rosa e outros artistas que já foram tema de coleções passadas.
Por que você está sempre visitando alguma figura genial?
Porque essas pessoas encararam olho no olho o mundo em que viveram, e eu desejo fazer o mesmo. Os artistas que pesquisei têm em comum o cuidado e o afeto com o seu tempo. E tudo o que eu quero é afagar o meu tempo. Isso não é romantismo, é memória afetiva. O mundo hoje virou um museu de grandes novidades - pensamos que é tudo novo porque não conhecemos o velho. A memória é meu playground, o lugar onde amarro o meu picadeiro.
Os joelhos da Nara eram muito elogiados. Vai ter minissaia na nova coleção?
Claro, vai ter braços e pernas de fora, afinal também estou falando de Copacabana. Não vou copiar o figurino da intérprete, o que me interessa é o seu espírito - fiz uma coleção simples e sofisticada com um quê de melancolia e de auto-ironia. Mostro roupas com textura de pedras portuguesas, com estampa de branco sobre branco. Estou usando tecidos novos, que parecem forro de mesa; trabalhei com imagens da favela, pacotes de sementes de flores e barquinhos bordados. Tentei resumir o que Nara Leão viveu em quatro décadas: bossa nova, resgate da cultura do morro, política - ela foi uma das primeiras a se manifestar contra a ditadura -, canções para as crianças e tropicalismo.
Além do livro sobre a cantora, você vai lançar mais dois...
Até o final deste ano, a editora Cosac Naify vai lançar uma coleção reunindo dez estilistas brasileiros - e eu estou entre eles. Em 2008, sai o outro volume, que pedi para a pesquisadora e professora de moda Cristiane Mesquita organizar, recheado de histórias de bastidores curiosas.
Pode contar uma?
Quando estreei no Phytoervas, em 1996, com a coleção Eu Amo Coração de Galinha (esse desfile e o do Álbum de Família lhe renderam o prêmio de estilista-revelação), o DJ Felipe Venâncio achou que tinha que botar a galinha na trilha sonora. Mandamos um motorista de táxi atrás de uma. Acredita que, quando ele chegou à granja, botou a galinha para cacarejar no telefone para ver se eu aprovava a música?
Um episódio especialmente marcante?
O final do desfile Quem Matou Zuzu Angel, em 2001, foi mágico. A platéia começou a chorar, as modelos também. Na apresentação da coleção O Corpo Cru, em 2002, dispensei as modelos e botei uma engenhoca onde giravam bonecos vestidos com as roupas. Só que a máquina quebrou, o engenheiro ficou desesperado. Aí, botei os bonecos nas mãos das camareiras e pedi que entrassem na passarela - eram corpos reais em cena e elas foram muito aplaudidas.
A moda é competitiva, mas você já dividiu sua passarela.
Sim, essa experiência com Jum Nakao é inesquecível. Estávamos com dificuldade de conseguir patrocínio e eu disse: vamos mandar uma carta um para o outro, eu me inspiro em você e vice-versa e a platéia terá que descobrir quem fez o quê. E assim foi: apresentamos a coleção de verão de 2000/2001 num galpão na Barra Funda (bairro fabril paulistano). Foi um desfile alegre, cheio de balões coloridos...
Imaginava que ia ficar famoso a ponto de dar autógrafo na rua?
Não, mas o Renato Kherlakian tentou me avisar. Em 1990, eu tinha acabado de sair da faculdade de moda e participei de um concurso da Santista. O Renato fazia parte do júri. Ele olhou minha coleção e disse: "Você será um grande nome da moda nacional". Eu era naïf total e perguntei para a produção: Quem é esse cara?" Quase caí de costas quando me disseram que era o poderoso diretor da Zoomp.
E aí você ganhou o concurso...
Sim, o prêmio era uma bolsa na Parson's (escola de arte e design em Nova York). Foi a primeira vez que saí do Brasil. Sou filho de jogador de futebol, mas daquele tempo em que os jogadores não eram milionários. Meu pai enrolava folha de bananeira na canela para aliviar a dor muscular. Um dia ele apareceu de bermuda na minha escola, com aquelas plantas grudadas nas pernas - tinha 1,90 metro, se apresentou com a maior cerimônia para a professora e pediu que ela parasse de puxar a minha orelha na aula. Disse que eu não estava acostumado com isso, que na nossa casa ninguém machucava as crianças. Morri de vergonha. Só anos mais tarde compreendi seu gesto tão bonito e protetor.
A chegada dos filhos influenciou o seu trabalho?
Lancei a coleção infantil depois que meu menino mais velho, Ludovico, nasceu porque eu saía para comprar roupa para ele e achava tudo o fim da picada. A partir deste ano, a marca Ronaldo Fraga para Filhotes se solidificou. Estamos correndo para dar conta dos pedidos. São peças para meninos e meninas até 10 anos, com três linhas diferentes: roupas para lembrar, para amar e para divertir. A camiseta com estampa de bolacha já virou um clássico.
O que a paternidade trouxe para a sua vida?
Eu me pergunto se daqui a 40 anos meus filhos terão orgulho de mim. Afinal, o que é que realmente fica? Isso me ajuda a discernir o que é importante. Poucas vezes levei os meninos aos meus desfiles - não quero que pensem que trabalho é só festa. Gosto mais de levá-los à confecção, para que eles vejam o pai e a mãe resolvendo as coisas do dia-a-dia.
Como consegue ficar imune ao glamour fashion?
Acho ótimo morar em Belo Horizonte, assim não preciso ir a todas as festas. Gosto de fazer meu desfile em São Paulo e voltar para casa. Se bem que eu não paro em casa...
Por onde você tem andado?
Pelo interior de Minas, em Salinas, Divinópolis... Tenho atuado em vários pólos confeccionistas, convidado por federações de indústrias, pelo Sebrae, ou algum órgão regional. A base é sempre a mesma: faço um diagnóstico da situação local e desenvolvo um projeto com o objetivo de gerar trabalho e renda para a população, mas sempre com a perspectiva de pesquisar a cultura e usá-la como matéria-prima. O resultado é animador, as pessoas redescobrem a alma da criação - param de pensar em qual é a cor da estação e passam a pesquisar o sertão, o rio São Francisco, a olhar para a cidade, a casa, a vida delas.
Pode dar um conselho de estilo para as mulheres?
Libertem-se da cartilha fashion, ela muda a toda hora. Estar bem vestida tem a ver com repertório de moda, e isso não se constrói em um dia. O que importa não é se a saia subiu ou desceu, e sim quem você é e quais são as suas escolhas. Antes eu achava que a moda mudava o mundo. Não acho mais. Quem muda o mundo são as pessoas. Mas a moda pode mudar as pessoas.






















