A área cercada pelas avenidas Cruzeiro do Sul, General Ataliba Leonel e Zaki Narchi, no bairro de Santana, zona Norte de São Paulo, tem um significado para a cidade e sua população que há alguns anos era praticamente inimaginável. Até 2002, a região era sinônimo de sofrimento, violência e encarceramento. Hoje transmite vida, saúde, cultura e lazer. A transformação do espaço público, prezada por qualquer morador do entorno, se deu por conta da demolição do presídio Carandiru, naquele ano, e da construção, em seu lugar, do Parque da Juventude. No dia 25 de janeiro, aniversário de São Paulo, ele será palco de um evento especial: o Planeta no Parque 2012, organizado pelo Planeta Sustentável (Acompanhe as informações pelo blog Planeta no Parque).
Inaugurado em três etapas - a área esportiva, com quadras e pista de skate, em 2003; a área central, com pistas, bosques e 16 mil metros de Mata Atlântica, em 2004, e a área institucional, que engloba duas Etecs - Escolas Técnicas estaduais e a Biblioteca de São Paulo, em 2007 -, o parque amplia a cada ano o número de atividades que oferece e, por outro lado, recebe crescente visitação pública. Em 2006, 600 mil pessoas visitaram o parque. No ano passado, 2,5 milhões de visitantes ocuparam o espaço que antes atendia oito mil detentos.
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"O Parque da Juventude vem sendo cada vez mais procurado e descoberto. Ele veio para conquistar de forma harmoniosa e carinhosa a população, que ganhou uma oportunidade para viver mais e curtir mais. Sem dúvida trouxe tranquilidade e bem-estar. Causou uma diferença muito grande na região, porque muitas das áreas, por exemplo a reserva de Mata Atlântica, nunca foram vistas e ficavam apagadas, escondidas", afirma Paulo Pavan, diretor do espaço. "O mais bacana é que ele não é um parque simples, mas um grande complexo que agrega esporte, lazer, cultura, educação, meio ambiente e cidadania. Ele traz alegria, descontração e acaba com o estigma do Carandiru. Aqui se sente vida e natureza", completa.
Para Roberto Aflalo, um dos arquitetos responsáveis pelo projeto eleito pelo governo do Estado, a mudança física teve muita importância. Se antes era um contexto urbano que se pretendia evitar, hoje o cenário oferece novas perspectivas e uma paisagem com grande área de vegetação. "O aumento da área verde para a cidade é fundamental, principalmente em uma cidade como São Paulo e naquela região, que é pouco servida por parques", diz. Além disso, o novo espaço tem o mérito de agregar valor à sociedade: "O complexo prisional é um centro de exclusão de indivíduos da sociedade e o projeto que fizemos tem objetivo exatamente contrário: inclusão de indivíduos e promoção das relações sociais. O lugar antes era extremamente negativo para região e passou a ser um local extremamente desejável", comenta.
É evidente que o Parque da Juventude chamou a atenção de comerciantes e empreendedores, valorizou a região e se tornou um referencial da zona norte. Uma volta pela área mostra que ele também pode provocar mudanças profundas na vida das pessoas. José Carlos Martins, de 50 anos, começou a frequentar o local somente por conta do Acessa São Paulo, programa do governo do Estado que oferece internet gratuita à população. Ele usufrui de um dos 110 computadores disponíveis no prédio da Etec Parque da Juventude. Certo dia entrou na Biblioteca de São Paulo e aceitou fazer a carteirinha. Virou frequentador assíduo por uma coincidência: na primeira visita, feita numa época em que buscava entender as complicações que têm nos rins, se deparou com um livro sobre medicina. "Era um livro sobre medicina bem ‘arroz com feijão’. Eu adorei e passei a frequentar. Venho ler revista e jornal todos os dias", conta.
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A biblioteca "bomba", como manda a linguagem dos adolescentes e crianças que lotam os computadores do primeiro andar, destinado ao público infanto-juvenil. Os menores também passeiam entre estantes e leem livros nas mesinhas e pufes coloridos. No segundo andar, para o público adulto, ficam livros, audiolivros, e-books, CDs, DVDs, jornais, revistas, computadores com acesso à internet, equipamentos que facilitam a leitura a deficientes visuais, material em braile e scanners que leem livros. A concentração e o gosto pela leitura são evidentes. Os recursos que a biblioteca oferecem são tão proveitosos que já entraram na ocupada rotina de alguns visitantes: "desculpe, mas estou com o tempo contado para a leitura", disse um deles recusando-se a falar com a reportagem.
Além de ingresso à cultura, o Parque da Juventude significa, também, acesso à profissionalização e empregos. Que o digam os 2.500 alunos dos cursos de enfermagem, informática, administração, museu, entre outros, das duas Etecs localizadas no parque e administradas pelo Centro Paula Souza. Ou os mais de dois mil alunos - de cinco a 60 anos - das diversas aulas de esportes gratuitas oferecidas ali, como as de Taekwondo, que é realizada há quatro anos.
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Ivone Faddul Alves, arquiteta da Secretaria de Esportes e idealizadora do projeto de Taekwondo - chamando Projeto União Parque da Juventude e financiado pelo Estado de São Paulo e pela Liga de Taekwondo -, conta que as classes de atividades física dentro do parque, além de todos os benefícios para a saúde, muda a relação das pessoas com o espaço público: "Antes você vinha ao parque e logo ia embora. Agora existe um vínculo. Recebemos 400 alunos por semana e o legal é que vem pessoas de comunidades, de classe média e as de influência que trabalham na região. A troca é muito interessante", diz.
Para alguns alunos, as aulas propiciaram patrocínio e bolsa de estudos na faculdade UniSant’Anna, uma das instituições parceiras do projeto. Para outros, presenteou com uma nova profissão. O campeão brasileiro Luan Bruno, de 20 anos, é um dos alunos que passou a dar aulas de Taekwondo em algumas escolas e academias da região. Ele treina no Parque da Juventude desde o início das aulas - assim como as também campeãs brasileiras Thais Labrador e Talita Rodrigues - e disputará, no dia 27 de janeiro, em Aracajú, o que pode resultar em mais uma conquista para todo o grupo: uma vaga na equipe olímpica.
Dez alunos que acabaram de se formar na faixa preta, que também devem começar a dar aulas em escolas, listaram algumas vantagens de se fazer parte deste grupo: oportunidade de ingressar em uma nova profissão; cuidado com a saúde; aumento da qualidade de vida; possibilidade de interação social; conquista de novos amigos. O Parque da Juventude é, enfim, um complexo de oportunidades na zona norte de São Paulo. E o fato de estar ancorado numa estação de metrô - a Carandiru -, segundo o arquiteto Aflalo, o eleva a uma dimensão metropolitana.
No feriado do dia 25 de janeiro, o Planeta no Parque confirmará esse polo de lazer e cidadania. "Será uma grande oportunidade para receber número expressivo de pessoas novas que não conhecem o parque e poderão desfrutar do seu encanto. O Planeta no Parque ainda oferecerá boas ações para a comunidade, trazendo participação e informação, além de um grande show de encerramento. Num momento especial para São Paulo, não teria melhor a ser feito. É um presente para todos", diz Pavan.
*Biblioteca de São Paulo
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