paraíso urbano
Ecocasas na cidade grande
Lindas e ecologicamente corretas, casas e condomínios afinados com o princípio sustentável começam a aparecer na cinza São Paulo e contribuem para a luta em economizar os recursos do planeta. A casa da arquiteta Tina Ansarah e a Casa dos Hólons são dois exemplos muito especiais
Thais Oliveira - Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável – 23/03/2009
Um pensamento comum dos que querem aderir à onda - necessária e inevitável - das construções sustentáveis é que elas só podem existir fora das grandes áreas urbanas. Mas, felizmente, não é assim. Já são muitas as iniciativas de construção e reforma de casas e apartamentos com uma preocupação ecológica dentro e ao redor de São Paulo.
A arquiteta Tina Ansarah é uma delas. Há quatro anos, quando comprou sua casa na Vila Madalena, ela decidiu incluir na grande reforma a colocação de um sistema de captação de água da chuva e outro de aquecimento solar. Uma cisterna de três metros de altura foi instalada embaixo da garagem, na entrada da casa, junto com um novo encanamento projetado para receber a água que cai no telhado. De lá, é levada para o container, filtrada e bombeada para a caixa d'água que abastece as torneiras perto dos jardins e os vasos sanitários.
Assim, a família de 5 pessoas não desperdiça a água tratada pela Sabesp nem nas privadas, nem na lavagem de pisos ou na manutenção das áreas verdes do imóvel. Uma nova tubulação também foi colocada para receber o aquecimento solar. Seis placas aquecem as torneiras e chuveiros e quatro, a piscina. "No máximo, um mês por ano fico sem a água filtrada da chuva e uma semana do ano fico sem a energia solar", conta Tina.
O gasto extra com a instalação dos sistemas alternativos foi pago em dois anos de economia nas contas. Outros detalhes da casa também foram pensados ecologicamente. A madeira cruzeta do deck é reciclada de antigos postes de luz, o piso de seixo rolado é mais rústico e as portas e janelas são grandes para melhorar a circulação de ar, evitando o ar condicionado. No terreno de 500 metros quadrados, 360 são construídos e o restante é verde. "Não cobri a garagem para não mexer nas árvores frutíferas e se vê verde de todos os cantos da casa. Queria dar um ar praiano e gostoso para a nossa casa", afirma a arquiteta.
A mesma sensação de sítio se tem na Casa dos Hólons, um laboratório de permacultura no Campo Belo, ao lado do cinzento aeroporto de Congonhas, em São Paulo. A casa convencional foi adaptada para a sustentabilidade. Hoje, a água que sai do vaso sanitário, da pia e dos chuveiros é limpa por um filtro biológico e depositada no ciclo de bananeiras do jardim, molhando e fertilizando as árvores ao mesmo tempo. Um teto verde foi instalado para produção de ervas e para diminuir a temperatura da casa principal. Um banheiro seco também foi construído na parte de fora do imóvel e transforma fezes em solo fértil para os canteiros.
"O nosso intuito aqui é de laboratório. Fazemos experimentos e encontramos soluções para melhorar a vida urbana", diz Tomaz Ahau, coordenador do projeto. “Sua casa no Brooklin” também passa por uma grande reforma sustentável. "Ela está sendo dimensionada para a auto-suficiência de água e também de energia", conta Tomaz. O tratamento da água será feito por um biofiltro e a energia virá de placas solares e eólicas. Na parte de acabamento, o tijolo será ecológico, o vidro reciclado e mosaicos feitos com cerâmica reaproveitada.
Mais comum em prédios comerciais, a tendência das eco habitações já atingiu, mesmo que ainda de forma incipiente, as construtoras civis. A Y. Takaoka Empreendimentos, por exemplo, é responsável pelo Gênesis II, um conjunto de 1060 lotes residenciais, em Alphaville (SP), onde há integração entre o desenvolvimento urbano e a natureza. Mas o projeto inicial não era assim. Foi pela demanda dos compradores que a construtora foi buscar soluções ecológicas na Fundação Brasileira do Desenvolvimento Sustentável. O resultado foi a preservação da mata nativa e o redimensionamento dos lotes de acordo com o recurso hídrico da região. "A área de floresta nativa era de 55% quando começamos o projeto e hoje é de 76% por causa do reflorestamento que iniciamos", afirma Marcelo Takaoka, diretor da construtora e presidente do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável.
No Gênesis II, foram introduzidas mais de 80 espécies de vegetação, entre elas o pau Brasil, mogno e jequitibá, um viveiro de sementes e mudas foi criado e corredores com árvores frutíferas construídos para atrair pássaros. Apenas madeiras de selo verde foram utilizadas, equipamentos de economia de energia instalados nas áreas comuns e um sistema de captação de água da chuva introduzido para lavagem de calçadas e irrigação de jardins. "Como não temos influência no projeto das casas construídas dentro do condomínio, produzimos manuais de água, energia e materiais alternativos para os proprietários. O objetivo é informar para que eles possam saber o que existe e pedir para o engenheiro ou arquiteto na hora da obra ou depois", conta Marcelo.
Técnicas, materiais e profissionais especializados são cada vez mais frequentes. O escritório de arquitetura Todescan Siciliano, depois de tanta procura no assunto, idealizou o Centro de Educação para Sustentabilidade, no condomínio Alphaville Burle Marx (SP). O espaço ambiental de referência tem modelos de tratamento de esgoto por gravidade, energia solar e eólica, captação de água da chuva e vários tipos de bioconstrução como adobe e pau-a-pique. Isso sem contar alternativas a materiais convencionais como cerâmica reciclada, piso feito de pneus, tijolo de solo cimento, vidro reciclado, placas de pasta de dente reciclada, piso construído com resíduo de lâmpada fluorescente e pastilhas feitas com a casca do coco.
Outro arquiteto paulista especializado em projetos sustentáveis é Chico Lima. Em um novo programa na TV Cultura, ele ajudará donos de imóveis de São Paulo a torná-los mais eficientes e ecológicos. "Serão soluções nem muito sofisticadas, nem muito caras para transformar aspectos da casa pensando na sustentabilidade", diz Chico. Em um apartamento numa movimentada avenida de São Paulo, por exemplo, o quintal antes impermeável e cinza ganhou sistema de drenagem, piso de madeira biosintética, plantas aromáticas e uma divisão de bambu contra o apartamento ao lado. "É importante pensar sistemicamente. Não só em captação de água e energia solar, mas também qualidade de vida, hábitos de reciclagem, entre outros", afirma o arquiteto. Em um quarto e sala de um solteiro no famoso - e imenso- edifício Copan, no centro da cidade, o foco foi saúde e desperdício. Foram consertados vazamentos, mofo nas paredes, e a parte elétrica que causava curtos constantes.
A economia em contas no final do mês é um dos maiores incentivos para as construções sustentáveis. Isso sem contar na economia dos recursos da natureza. O técnico elétrico Edson Urbano se viu obrigado a pensar no assunto quando ficou desempregado no final de 2004. Autodidata, começou a experimentar como reaproveitar a água do banho e das pias nos sanitários tomando banho em bacias e observando a água. Desenhou e construiu um sistema em sua casa no Ipiranga (SP) e desde então economiza cerca de 30% nas contas mensais. A solução virou profissão.
Edson escreve manuais com seus experimentos para a Sociedade do Sol e atualmente aperfeiçoa um sistema de captação de energia solar feito com canos e placas de PVC. "Com a crise econômica, compradores vão simplificar os projetos e o custo da manutenção de casas e apartamentos vai voltar a pesar na decisão. Construções ecológicas custam o mesmo ou até 5% mais caras do que as convencionais, mas se pagam rapidamente e depois proporcionam apenas economias nas contas e no planeta", afirma Marcelo Takaoka.
Um pensamento comum dos que querem aderir à onda - necessária e inevitável - das construções sustentáveis é que elas só podem existir fora das grandes áreas urbanas. Mas, felizmente, não é assim. Já são muitas as iniciativas de construção e reforma de casas e apartamentos com uma preocupação ecológica dentro e ao redor de São Paulo.
A arquiteta Tina Ansarah é uma delas. Há quatro anos, quando comprou sua casa na Vila Madalena, ela decidiu incluir na grande reforma a colocação de um sistema de captação de água da chuva e outro de aquecimento solar. Uma cisterna de três metros de altura foi instalada embaixo da garagem, na entrada da casa, junto com um novo encanamento projetado para receber a água que cai no telhado. De lá, é levada para o container, filtrada e bombeada para a caixa d'água que abastece as torneiras perto dos jardins e os vasos sanitários.
Assim, a família de 5 pessoas não desperdiça a água tratada pela Sabesp nem nas privadas, nem na lavagem de pisos ou na manutenção das áreas verdes do imóvel. Uma nova tubulação também foi colocada para receber o aquecimento solar. Seis placas aquecem as torneiras e chuveiros e quatro, a piscina. "No máximo, um mês por ano fico sem a água filtrada da chuva e uma semana do ano fico sem a energia solar", conta Tina.
O gasto extra com a instalação dos sistemas alternativos foi pago em dois anos de economia nas contas. Outros detalhes da casa também foram pensados ecologicamente. A madeira cruzeta do deck é reciclada de antigos postes de luz, o piso de seixo rolado é mais rústico e as portas e janelas são grandes para melhorar a circulação de ar, evitando o ar condicionado. No terreno de 500 metros quadrados, 360 são construídos e o restante é verde. "Não cobri a garagem para não mexer nas árvores frutíferas e se vê verde de todos os cantos da casa. Queria dar um ar praiano e gostoso para a nossa casa", afirma a arquiteta.
A mesma sensação de sítio se tem na Casa dos Hólons, um laboratório de permacultura no Campo Belo, ao lado do cinzento aeroporto de Congonhas, em São Paulo. A casa convencional foi adaptada para a sustentabilidade. Hoje, a água que sai do vaso sanitário, da pia e dos chuveiros é limpa por um filtro biológico e depositada no ciclo de bananeiras do jardim, molhando e fertilizando as árvores ao mesmo tempo. Um teto verde foi instalado para produção de ervas e para diminuir a temperatura da casa principal. Um banheiro seco também foi construído na parte de fora do imóvel e transforma fezes em solo fértil para os canteiros.
"O nosso intuito aqui é de laboratório. Fazemos experimentos e encontramos soluções para melhorar a vida urbana", diz Tomaz Ahau, coordenador do projeto. “Sua casa no Brooklin” também passa por uma grande reforma sustentável. "Ela está sendo dimensionada para a auto-suficiência de água e também de energia", conta Tomaz. O tratamento da água será feito por um biofiltro e a energia virá de placas solares e eólicas. Na parte de acabamento, o tijolo será ecológico, o vidro reciclado e mosaicos feitos com cerâmica reaproveitada.
Mais comum em prédios comerciais, a tendência das eco habitações já atingiu, mesmo que ainda de forma incipiente, as construtoras civis. A Y. Takaoka Empreendimentos, por exemplo, é responsável pelo Gênesis II, um conjunto de 1060 lotes residenciais, em Alphaville (SP), onde há integração entre o desenvolvimento urbano e a natureza. Mas o projeto inicial não era assim. Foi pela demanda dos compradores que a construtora foi buscar soluções ecológicas na Fundação Brasileira do Desenvolvimento Sustentável. O resultado foi a preservação da mata nativa e o redimensionamento dos lotes de acordo com o recurso hídrico da região. "A área de floresta nativa era de 55% quando começamos o projeto e hoje é de 76% por causa do reflorestamento que iniciamos", afirma Marcelo Takaoka, diretor da construtora e presidente do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável.
No Gênesis II, foram introduzidas mais de 80 espécies de vegetação, entre elas o pau Brasil, mogno e jequitibá, um viveiro de sementes e mudas foi criado e corredores com árvores frutíferas construídos para atrair pássaros. Apenas madeiras de selo verde foram utilizadas, equipamentos de economia de energia instalados nas áreas comuns e um sistema de captação de água da chuva introduzido para lavagem de calçadas e irrigação de jardins. "Como não temos influência no projeto das casas construídas dentro do condomínio, produzimos manuais de água, energia e materiais alternativos para os proprietários. O objetivo é informar para que eles possam saber o que existe e pedir para o engenheiro ou arquiteto na hora da obra ou depois", conta Marcelo.
Técnicas, materiais e profissionais especializados são cada vez mais frequentes. O escritório de arquitetura Todescan Siciliano, depois de tanta procura no assunto, idealizou o Centro de Educação para Sustentabilidade, no condomínio Alphaville Burle Marx (SP). O espaço ambiental de referência tem modelos de tratamento de esgoto por gravidade, energia solar e eólica, captação de água da chuva e vários tipos de bioconstrução como adobe e pau-a-pique. Isso sem contar alternativas a materiais convencionais como cerâmica reciclada, piso feito de pneus, tijolo de solo cimento, vidro reciclado, placas de pasta de dente reciclada, piso construído com resíduo de lâmpada fluorescente e pastilhas feitas com a casca do coco.
Outro arquiteto paulista especializado em projetos sustentáveis é Chico Lima. Em um novo programa na TV Cultura, ele ajudará donos de imóveis de São Paulo a torná-los mais eficientes e ecológicos. "Serão soluções nem muito sofisticadas, nem muito caras para transformar aspectos da casa pensando na sustentabilidade", diz Chico. Em um apartamento numa movimentada avenida de São Paulo, por exemplo, o quintal antes impermeável e cinza ganhou sistema de drenagem, piso de madeira biosintética, plantas aromáticas e uma divisão de bambu contra o apartamento ao lado. "É importante pensar sistemicamente. Não só em captação de água e energia solar, mas também qualidade de vida, hábitos de reciclagem, entre outros", afirma o arquiteto. Em um quarto e sala de um solteiro no famoso - e imenso- edifício Copan, no centro da cidade, o foco foi saúde e desperdício. Foram consertados vazamentos, mofo nas paredes, e a parte elétrica que causava curtos constantes.
A economia em contas no final do mês é um dos maiores incentivos para as construções sustentáveis. Isso sem contar na economia dos recursos da natureza. O técnico elétrico Edson Urbano se viu obrigado a pensar no assunto quando ficou desempregado no final de 2004. Autodidata, começou a experimentar como reaproveitar a água do banho e das pias nos sanitários tomando banho em bacias e observando a água. Desenhou e construiu um sistema em sua casa no Ipiranga (SP) e desde então economiza cerca de 30% nas contas mensais. A solução virou profissão.
Edson escreve manuais com seus experimentos para a Sociedade do Sol e atualmente aperfeiçoa um sistema de captação de energia solar feito com canos e placas de PVC. "Com a crise econômica, compradores vão simplificar os projetos e o custo da manutenção de casas e apartamentos vai voltar a pesar na decisão. Construções ecológicas custam o mesmo ou até 5% mais caras do que as convencionais, mas se pagam rapidamente e depois proporcionam apenas economias nas contas e no planeta", afirma Marcelo Takaoka.