trânsito - memória
No tempo do Fontenelle
A história do polêmico diretor de trânsito que ficou apenas 57 dias no cargo murchando pneus de quem ousava desrespeitar a lei
Por Edison Veiga
Revista Veja São Paulo - 02/07/2008
Para uns, gênio incompreendido. Para outros, doido varrido. Mas uma coisa com que todos concordavam é que o coronel reformado Francisco Américo Fontenelle, convidado pelo governador Abreu Sodré para solucionar os problemas do trânsito daquela São Paulo de 1967, era turrão, tinha pulso firme e sabia manter a disciplina. “O homem era bravo”, lembra o engenheiro de transportes Isao Konno, que trabalhou com ele na época. Com status de celebridade, Fontenelle veio dirigir o Departamento Estadual de Trânsito (DET) paulista. “Ao assumir, ele convocou os vinte engenheiros e disse para esvaziarmos os pneus de carros estacionados em locais proibidos.” A polêmica operação “esvazia-pneus” havia sido um marco da passagem de Fontenelle pelo departamento de trânsito do Rio de Janeiro.
Carioca, desde criança ele foi apaixonado por aviação militar. Formou-se oficial-aviador e fez cursos de aperfeiçoamento nos Estados Unidos. Na Força Aérea Brasileira, chegou à patente de coronel-aviador. Entre 1961 e 1965, ocupou diversos cargos públicos no antigo estado da Guanabara: coordenador de transportes, diretor do Departamento de Concessões, presidente da Companhia
de Transportes Coletivos e diretor do Serviço de Trânsito, entre outros. Também
executou planos de trânsito e transportes coletivos para Belém, no Pará, e São Luís, no Maranhão. Quando chegou a São Paulo, encontrou uma cidade na qual os problemas de tráfego começavam a se tornar rotina. A capital, de 5 milhões de habitantes, contava com 350 000 carros - e recebia 300 novos por dia (hoje são 950).
Fontenelle tomou medidas rápidas e agressivas. Combateu os estacionamentos
irregulares e não perdoou quem parava em fila dupla. “Sei esvaziar pneus e ser violento”, costumava dizer a quem o contestasse. Não parava em seu gabinete. Visitava diariamente todas as seções do departamento de trânsito e sempre ia para a rua fiscalizar, pessoalmente, o fluxo de automóveis. Criou um anel no centro — utilizando os viadutos Santa Ifigênia, do Chá e Jacareí - em que todas as ruas passaram a ser de mão única. Restringiu a circulação de veículos em diversas vias centrais e proibiu carga e descarga durante o dia.“São Paulo vai pegar fogo”, anunciou o coronel, quando propôs tais mudanças.
Pegou mesmo. Mas queimou junto o seu cargo. No início de abril de 1967, quase dois meses após tomar posse, Fontenelle foi demitido pelo governador. Em julho, já afastado, compareceu a um programa de TV para defender suas idéias. Durante o debate, excedeu-se e foi vítima de um infarto - o segundo de sua vida. Morreu diante das câmeras. Tinha 46 anos. Hoje, 41 anos depois, todos os dias há motoristas e pedestres paulistanos trafegando pelos 500 metros da Rua Coronel Américo Fontenelle, na Penha. A maioria sem ter idéia de quem foi o homem que respirava trânsito e tinha convicção de que era possível melhorá-lo.
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Para uns, gênio incompreendido. Para outros, doido varrido. Mas uma coisa com que todos concordavam é que o coronel reformado Francisco Américo Fontenelle, convidado pelo governador Abreu Sodré para solucionar os problemas do trânsito daquela São Paulo de 1967, era turrão, tinha pulso firme e sabia manter a disciplina. “O homem era bravo”, lembra o engenheiro de transportes Isao Konno, que trabalhou com ele na época. Com status de celebridade, Fontenelle veio dirigir o Departamento Estadual de Trânsito (DET) paulista. “Ao assumir, ele convocou os vinte engenheiros e disse para esvaziarmos os pneus de carros estacionados em locais proibidos.” A polêmica operação “esvazia-pneus” havia sido um marco da passagem de Fontenelle pelo departamento de trânsito do Rio de Janeiro.
Carioca, desde criança ele foi apaixonado por aviação militar. Formou-se oficial-aviador e fez cursos de aperfeiçoamento nos Estados Unidos. Na Força Aérea Brasileira, chegou à patente de coronel-aviador. Entre 1961 e 1965, ocupou diversos cargos públicos no antigo estado da Guanabara: coordenador de transportes, diretor do Departamento de Concessões, presidente da Companhia
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executou planos de trânsito e transportes coletivos para Belém, no Pará, e São Luís, no Maranhão. Quando chegou a São Paulo, encontrou uma cidade na qual os problemas de tráfego começavam a se tornar rotina. A capital, de 5 milhões de habitantes, contava com 350 000 carros - e recebia 300 novos por dia (hoje são 950).
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Pegou mesmo. Mas queimou junto o seu cargo. No início de abril de 1967, quase dois meses após tomar posse, Fontenelle foi demitido pelo governador. Em julho, já afastado, compareceu a um programa de TV para defender suas idéias. Durante o debate, excedeu-se e foi vítima de um infarto - o segundo de sua vida. Morreu diante das câmeras. Tinha 46 anos. Hoje, 41 anos depois, todos os dias há motoristas e pedestres paulistanos trafegando pelos 500 metros da Rua Coronel Américo Fontenelle, na Penha. A maioria sem ter idéia de quem foi o homem que respirava trânsito e tinha convicção de que era possível melhorá-lo.
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