
Por Tiago Lethbridge, de Chongqing
Revista Exame - 18/06/2008
São 6 da manhã, e o sol ainda se esconde atrás da densa camada de poluição que cobre o ceeu de Chongqing. O dia começa agora para os homens-bambu, que aos poucos chegam à praça em frente ao porto da cidade. Logo, são dezenas. Meia hora depois, centenas. Esse grupo desempenha a mais simples das atividades: com um pedaço de bambu atravessado nos ombros e uma corda, carregam ladeira acima as mercadorias que chegam ao porto. Cobram 2 yuans, o equivalente a 50 centavos de real, por viagem. Num bom dia, ganham o equivalente a 10 reais.
Num mau dia, prostram-se entediados em algum meio-fio da cidade — e os maus dias são mais freqüentes que os bons. “Trabalho 14 horas diárias”, diz Jiang Tingyun, de 58 anos de idade e homem-bambu há uma década. “Se der sorte, faço 100 viagens nesse tempo. As costas doem, mas uma bebida à noite alivia o problema.” Jiang e seus colegas formam a base da pirâmide social urbana chinesa. Moram naquilo que o país tem de mais parecido com as favelas brasileiras: seus apartamentos não têm banheiro, e até oito pessoas se aglomeram em quartos de 20 metros quadrados. Há mais de 100 000 homens-bambu na cidade e, apesar das condições precárias em que vivem, novos candidatos à função não param de chegar do interior. Chongqing recebe mais de 300 000 migrantes por ano, um recorde nacional. A cidade oferece a eles a única promessa de prosperidade numa das regiões mais pobres do país: aqui está nascendo a maior megalópole da China.
Escondida entre as montanhas da região central da China, Chongqing é o mais impressionante fenômeno urbano do século 21. Não existe nas grandes cidades chinesas nada que se compare ao canteiro de obras em que a cidade se transformou na última década. Há dezenas de prédios em construção em qualquer direção que se olhe, o que a torna particularmente desagradável. Nem as britadeiras de Pequim no frenesi pré-Olimpíada fazem tanto barulho quanto as de Chongqing. O governo está, basicamente, colocando a velha cidade abaixo e fazendo outra. Há dez anos, Chongqing era o retrato de uma China parada nos anos 60.
Tinha apenas 70 quilômetros de rodovias, um aeroporto modesto, nenhuma linha de metrô e duas pontes sobre os rios Yang Tsé e Jialing, que banham a cidade. De lá para cá, o governo local construiu mais de 1 000 quilômetros de estradas, 90 quilômetros de linhas de metrô (outros 440 estão a caminho), dois aeroportos e incontáveis novas pontes. O crescimento de Chongqing é também horizontal. Para acomodar os migrantes, a cidade se expande em média 31 quilômetros quadrados por ano, uma área equivalente a quase 4 000 campos de futebol. Em apenas cinco anos, a população da cidade cresceu o equivalente a três Dortmund e duas Detroit. Sua economia quadruplicou na última década. No ano passado, a taxa de crescimento foi de 14,5%.
Uma das principais características do modelo de desenvolvimento da China nos últimos 20 anos tem sido a imensa desigualdade entre a costa e o interior do país. Como aconteceu com o Brasil em suas décadas de crescimento acelerado, a China concentrou sua expansão em algumas cidades litorâneas, relegando ao oeste do país a função de produzir comida e fornecer mão-de-obra barata às fábricas. Entra aí uma agravante. Cada chinês tem de morar e trabalhar na província onde nasceu, a não ser que o governo permita que se mude. Os operários que vão trabalhar nas fábricas costeiras não têm permissão para ficar e voltam para sua cidade natal quando perdem o emprego. Pelo modelo chinês, ter chance ou não na vida passou a ser questão de destino. Quem nasce em Xangai pode vestir ternos Armani, pintar o cabelo de roxo e dirigir um carrão. Sorte dele. E quem nasce numa província pobre não pode. Azar.
O espectro de uma revolta rural ou a possibilidade de um êxodo em massa para as grandes cidades sempre assombraram os comunistas chineses, o que ajuda a explicar essa obsessão por controle. Para a linha-dura, bastava manter os camponeses devidamente apavorados para que o tecido social chinês não se rompesse. Mas esse tecido foi esgarçado ao limite pelos anos de crescimento, que deixaram de fora mais de 700 milhões de camponeses. Ainda hoje, mais de 100 milhões deles vivem com menos de 1 dólar por dia.
E a renda per capita na China urbana é três vezes maior que no campo. Receosos de perder o controle da massa, os comunistas protagonizaram no fim dos anos 90 uma mudança de atitude. Eles chegaram à conclusão de que era preciso fazer a pujança econômica dar o ar da graça no oeste rural do país. O governo lançou então uma espécie de Plano Marshall para a região. E o fez abrindo o cofre. Somente nos últimos cinco anos, 397 bilhões de dólares foram investidos em obras no oeste da China. A mais famosa delas é a hidrelétrica de Três Gargantas, a maior do mundo, destinada a abastecer de energia a região. Com essa dinheirama, os dirigentes chineses tentam comprar a estabilidade do país. E, nesse quebra-cabeça, nenhuma peça é mais importante que Chongqing.
Até dez anos atrás, Chongqing era conhecida por duas características: tinha o ar mais irrespirável da China e a comida mais apimentada. Estava condenada à irrelevância, enquanto as cidades costeiras davam saltos de crescimento a cada ano. Foi quando o governo espantou o país ao elevar o desenvolvimento de Chongqing à condição de prioridade absoluta. Isso aconteceu por meio da promoção da cidade à condição de “municipalidade”.
No bizarro sistema administrativo chinês, ser uma “municipalidade” significa estar sob controle direto do governo central, não mais do chefete de província. A coisa é tão importante que, na época, apenas Pequim, Xangai e Tianjin tinham status semelhante. Para aumentar o impacto da decisão, o governo juntou à cidade uma área rural do tamanho da Escócia. Começou, então, a ressurreição de Chongqing. O governo usou a velha fórmula de sempre: investimentos pesados em infra-estrutura e benefícios fiscais para empresas dispostas a investir na região (a alíquota de imposto de renda é de 15%. Em Xangai, de 25%). A taxa de investimentos estatais na cidade vem crescendo ao ritmo de 25% ao ano e atingiu o equivalente a 100 bilhões de reais no ano passado, a maior da história. “Nosso crescimento vai ajudar a desenvolver toda a região que circunda a cidade”, disse a Exame Huang Chaoyong, estrategista do governo de Chongqing. “Estamos falando de 240 milhões de pessoas.”
A 100 quilômetros do centro de Chongqing pode-se entender por que o governo escolheu essa região como prioridade máxima. Sair de Chongqing de carro é como dirigir numa auto-estrada rumo ao século 19. Em menos de 1 hora, arranha-céus, BMWs e restaurantes
McDonald’s dão lugar a carros movidos a búfalo, campos de arroz, silêncio e ar puro. No vilarejo de Ba Nan, feirantes de rua vendem dentaduras, cortam cabelo e executam rituais de curandeirismo. Aqui, o contato com o mundo exterior é tão raro que os moradores locais parecem não acreditar que têm um estrangeiro diante dos olhos: uns chamam os outros para analisar a estranha criatura que surgiu do nada.
Esse vilarejo é um microcosmo perfeito para analisar o impacto causado no campo pelo desordenado crescimento chinês das últimas décadas. Das 200 famílias que moram aqui, 89 foram quebradas ao meio. Os adultos trabalham como operários temporários em fábricas nas cidades. E cabe aos avós — ou ao governo — cuidar das crianças. “Sem o dinheiro que meus dois filhos mandam, não conseguiríamos viver”, diz Tao Yaohua, um camponês de 68 anos que planta arroz e cria os dois netos. Seus filhos trabalham na construção civil e ganham o equivalente a 10 reais por dia. Só voltam para casa nos feriados nacionais. Famílias com essa estrutura são invejadas no campo chinês. Os casos mais difíceis são aqueles em que cabe à mulher ficar com o filho, sozinha, enquanto o marido passa o ano noutra cidade. Um estudo da Universidade Harvard apontou que 56% dos suicídios de mulheres no mundo acontecem na China rural.
Há milhares de vilarejos como Ba Nan nessa região da China. Ao pé da letra, Chongqing é hoje a maior cidade do mundo, com 32 milhões de habitantes. Mas, deles, apenas 6 milhões vivem na cidade propriamente dita. A imensa maioria mora em paupérrimas zonas rurais, Ba Nan incluída. É justamente essa proximidade que faz de Chongqing a cabeça-de-ponte do plano de desenvolvimento da região oeste do país. A receita do governo para atacar a pobreza rural aqui é a mesma que usou para outras regiões do país: transformar o campo em cidade.
Mais de 400 milhões de chineses se mudaram para cidades nos últimos 20 anos, sempre sob o patrocínio estatal. Apenas 18% dos chineses viviam em cidades nos anos 80. Hoje, o número passou para 40%. A Inglaterra levou 120 anos para executar um êxodo rural dessas proporções. Os Estados Unidos, 80 anos. O objetivo dos burocratas de Chongqing é fazer a mancha urbana avançar rapidamente sobre as fazendas, tirando os camponeses da miséria e criando trabalho na cidade. De acordo com as metas oficiais, a cidade terá em 2020 uma população de 22 milhões de pessoas — que se tornará a maior da China e, possivelmente, do mundo também.
A confiança do governo chinês no cumprimento de suas metas é impressionante. Burocratas olham para projeções de 2020 como se já fossem reais — é palpável o orgulho que os responsáveis pelo planejamento de Chongqing sentem pelo que a cidade ainda não é. Essa confiança tem razão de ser. Nos últimos 20 anos, a China se especializou em transformar pântanos em metrópoles. Um exemplo é a cidade de Shenzhen, no extremo sul do país. Em 1980, Shenzhen era uma vila de pescadores com pouco mais de 20 000 habitantes. O governo, então, transformou aquela região numa zona econômica especial, um campo de testes onde o capitalismo poderia entrar.
Shenzhen logo se tornou um dos maiores pólos de manufatura do mundo. O sonho do governo de Chongqing é repetir essa história. Os obstáculos, porém, serão imensos. A chave para o desenvolvimento de Shenzhen foi sua localização. A cidade está a poucos quilômetros de Hong Kong. Como produzir em Shenzhen era muito mais barato, milhares de fábricas deixaram Hong Kong rumo à cidade vizinha. Além disso, aquela é uma posição privilegiada para exportação: as duas cidades estão na bacia do rio da Pérola, no caminho das principais rotas de navegação da Ásia. Hoje, o porto de Yantian, em Shenzhen, é o mais movimentado da China. “A combinação entre infra-estrutura e investimentos estrangeiros tornou Shenzhen imbatível”, diz Wang Lei Fu, diretor do porto de Yantian.
Apesar dos notáveis progressos dos últimos anos, Chongqing ainda está longe de atingir patamar semelhante. O principal motivo? Mais uma vez, a localização. Chongqing teve na Segunda Guerra Mundial seus dias de glória. O então líder chinês, Chiang Kai-shek, decidiu transferir a capital do país para Chongqing. Como a cidade ficava longe de tudo, os bombardeios japoneses teriam dificuldade para chegar até o centro decisório da China na guerra. Passados quase 70 anos, Chongqing continua longe de tudo. Os custos de exportação são muito maiores aqui, pois é preciso levar os produtos quase 2 000 quilômetros rio abaixo, até Xangai.
A cidade tenta compensar esse custo com uma mão-de-obra 50% mais barata e a alíquota camarada de imposto de renda. Mas hoje isso não basta. Quando Shenzhen surgiu, poucas províncias disputavam o investimento estrangeiro. Agora, todas se estapeiam para atrair multinacionais. Gigantes globais como Ford e Basf foram atraídas por Chongqing, mas não houve outros grandes investimentos estrangeiros na cidade. Um número resume o problema que a cidade enfrenta agora: cerca de 80% de seu crescimento na última década deveu-se ao investimento estatal. Para se tornar a Xangai do interior, como seus mandarins pretendem, Chongqing vai ter de elevar a participação de exportações e consumo nesse bolo. Será preciso, portanto, atrair capital. E está difícil convencer o capital a vir.
O pior, para o governo chinês, é que os desafios enfrentados por Chongqing são ainda maiores em outros pontos da região oeste do país. O caminhão de dinheiro investido até agora trouxe resultado modesto no quesito crucial: a desigualdade. “A diferença entre o oeste e a costa do país está aumentando”, diz o economista Gregory Chow, professor da Universidade Princeton. Desde que o governo começou a atacar o problema regional, a renda per capita na China rural cresceu 91%. Parece muito, mas o crescimento da renda nas cidades foi de 150% no mesmo período. Para piorar as coisas, o terremoto de maio atingiu em cheio a província de Sichuan, vizinha a Chongqing. O nível de destruição foi tão avassalador que lançou na população dúvidas sobre a qualidade do material de construção usado nas obras da região — provocando exatamente o tipo de sentimento que o governo tenta eliminar com a criação da maior cidade do mundo.
UMA CAPITAL NO MEIO DO NADA
Chongping é um dos centros urbanos que mais crescem no mundo
População: 32 milhões de habitantes
Crescimento: 14,5% em 2007
Número de imigrantes por ano: 300.000
Está construindo: 8 auto-estradas, 793 pontes e 440 quilômetros de linhas de metrô
A CHINA RURAL FICOU PARA TRÁS
As diferenças entre campo e cidade cresceram nas duas décadas de expansão econômica
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Fonte: China Statistical Yearbook 2007
Por Tiago Lethbridge, de Chongqing
Revista Exame - 18/06/2008
São 6 da manhã, e o sol ainda se esconde atrás da densa camada de poluição que cobre o ceeu de Chongqing. O dia começa agora para os homens-bambu, que aos poucos chegam à praça em frente ao porto da cidade. Logo, são dezenas. Meia hora depois, centenas. Esse grupo desempenha a mais simples das atividades: com um pedaço de bambu atravessado nos ombros e uma corda, carregam ladeira acima as mercadorias que chegam ao porto. Cobram 2 yuans, o equivalente a 50 centavos de real, por viagem. Num bom dia, ganham o equivalente a 10 reais.
Num mau dia, prostram-se entediados em algum meio-fio da cidade — e os maus dias são mais freqüentes que os bons. “Trabalho 14 horas diárias”, diz Jiang Tingyun, de 58 anos de idade e homem-bambu há uma década. “Se der sorte, faço 100 viagens nesse tempo. As costas doem, mas uma bebida à noite alivia o problema.” Jiang e seus colegas formam a base da pirâmide social urbana chinesa. Moram naquilo que o país tem de mais parecido com as favelas brasileiras: seus apartamentos não têm banheiro, e até oito pessoas se aglomeram em quartos de 20 metros quadrados. Há mais de 100 000 homens-bambu na cidade e, apesar das condições precárias em que vivem, novos candidatos à função não param de chegar do interior. Chongqing recebe mais de 300 000 migrantes por ano, um recorde nacional. A cidade oferece a eles a única promessa de prosperidade numa das regiões mais pobres do país: aqui está nascendo a maior megalópole da China.
Escondida entre as montanhas da região central da China, Chongqing é o mais impressionante fenômeno urbano do século 21. Não existe nas grandes cidades chinesas nada que se compare ao canteiro de obras em que a cidade se transformou na última década. Há dezenas de prédios em construção em qualquer direção que se olhe, o que a torna particularmente desagradável. Nem as britadeiras de Pequim no frenesi pré-Olimpíada fazem tanto barulho quanto as de Chongqing. O governo está, basicamente, colocando a velha cidade abaixo e fazendo outra. Há dez anos, Chongqing era o retrato de uma China parada nos anos 60.
Tinha apenas 70 quilômetros de rodovias, um aeroporto modesto, nenhuma linha de metrô e duas pontes sobre os rios Yang Tsé e Jialing, que banham a cidade. De lá para cá, o governo local construiu mais de 1 000 quilômetros de estradas, 90 quilômetros de linhas de metrô (outros 440 estão a caminho), dois aeroportos e incontáveis novas pontes. O crescimento de Chongqing é também horizontal. Para acomodar os migrantes, a cidade se expande em média 31 quilômetros quadrados por ano, uma área equivalente a quase 4 000 campos de futebol. Em apenas cinco anos, a população da cidade cresceu o equivalente a três Dortmund e duas Detroit. Sua economia quadruplicou na última década. No ano passado, a taxa de crescimento foi de 14,5%.
Uma das principais características do modelo de desenvolvimento da China nos últimos 20 anos tem sido a imensa desigualdade entre a costa e o interior do país. Como aconteceu com o Brasil em suas décadas de crescimento acelerado, a China concentrou sua expansão em algumas cidades litorâneas, relegando ao oeste do país a função de produzir comida e fornecer mão-de-obra barata às fábricas. Entra aí uma agravante. Cada chinês tem de morar e trabalhar na província onde nasceu, a não ser que o governo permita que se mude. Os operários que vão trabalhar nas fábricas costeiras não têm permissão para ficar e voltam para sua cidade natal quando perdem o emprego. Pelo modelo chinês, ter chance ou não na vida passou a ser questão de destino. Quem nasce em Xangai pode vestir ternos Armani, pintar o cabelo de roxo e dirigir um carrão. Sorte dele. E quem nasce numa província pobre não pode. Azar.
O espectro de uma revolta rural ou a possibilidade de um êxodo em massa para as grandes cidades sempre assombraram os comunistas chineses, o que ajuda a explicar essa obsessão por controle. Para a linha-dura, bastava manter os camponeses devidamente apavorados para que o tecido social chinês não se rompesse. Mas esse tecido foi esgarçado ao limite pelos anos de crescimento, que deixaram de fora mais de 700 milhões de camponeses. Ainda hoje, mais de 100 milhões deles vivem com menos de 1 dólar por dia.
E a renda per capita na China urbana é três vezes maior que no campo. Receosos de perder o controle da massa, os comunistas protagonizaram no fim dos anos 90 uma mudança de atitude. Eles chegaram à conclusão de que era preciso fazer a pujança econômica dar o ar da graça no oeste rural do país. O governo lançou então uma espécie de Plano Marshall para a região. E o fez abrindo o cofre. Somente nos últimos cinco anos, 397 bilhões de dólares foram investidos em obras no oeste da China. A mais famosa delas é a hidrelétrica de Três Gargantas, a maior do mundo, destinada a abastecer de energia a região. Com essa dinheirama, os dirigentes chineses tentam comprar a estabilidade do país. E, nesse quebra-cabeça, nenhuma peça é mais importante que Chongqing.
Até dez anos atrás, Chongqing era conhecida por duas características: tinha o ar mais irrespirável da China e a comida mais apimentada. Estava condenada à irrelevância, enquanto as cidades costeiras davam saltos de crescimento a cada ano. Foi quando o governo espantou o país ao elevar o desenvolvimento de Chongqing à condição de prioridade absoluta. Isso aconteceu por meio da promoção da cidade à condição de “municipalidade”.
No bizarro sistema administrativo chinês, ser uma “municipalidade” significa estar sob controle direto do governo central, não mais do chefete de província. A coisa é tão importante que, na época, apenas Pequim, Xangai e Tianjin tinham status semelhante. Para aumentar o impacto da decisão, o governo juntou à cidade uma área rural do tamanho da Escócia. Começou, então, a ressurreição de Chongqing. O governo usou a velha fórmula de sempre: investimentos pesados em infra-estrutura e benefícios fiscais para empresas dispostas a investir na região (a alíquota de imposto de renda é de 15%. Em Xangai, de 25%). A taxa de investimentos estatais na cidade vem crescendo ao ritmo de 25% ao ano e atingiu o equivalente a 100 bilhões de reais no ano passado, a maior da história. “Nosso crescimento vai ajudar a desenvolver toda a região que circunda a cidade”, disse a Exame Huang Chaoyong, estrategista do governo de Chongqing. “Estamos falando de 240 milhões de pessoas.”
A 100 quilômetros do centro de Chongqing pode-se entender por que o governo escolheu essa região como prioridade máxima. Sair de Chongqing de carro é como dirigir numa auto-estrada rumo ao século 19. Em menos de 1 hora, arranha-céus, BMWs e restaurantes
McDonald’s dão lugar a carros movidos a búfalo, campos de arroz, silêncio e ar puro. No vilarejo de Ba Nan, feirantes de rua vendem dentaduras, cortam cabelo e executam rituais de curandeirismo. Aqui, o contato com o mundo exterior é tão raro que os moradores locais parecem não acreditar que têm um estrangeiro diante dos olhos: uns chamam os outros para analisar a estranha criatura que surgiu do nada.
Esse vilarejo é um microcosmo perfeito para analisar o impacto causado no campo pelo desordenado crescimento chinês das últimas décadas. Das 200 famílias que moram aqui, 89 foram quebradas ao meio. Os adultos trabalham como operários temporários em fábricas nas cidades. E cabe aos avós — ou ao governo — cuidar das crianças. “Sem o dinheiro que meus dois filhos mandam, não conseguiríamos viver”, diz Tao Yaohua, um camponês de 68 anos que planta arroz e cria os dois netos. Seus filhos trabalham na construção civil e ganham o equivalente a 10 reais por dia. Só voltam para casa nos feriados nacionais. Famílias com essa estrutura são invejadas no campo chinês. Os casos mais difíceis são aqueles em que cabe à mulher ficar com o filho, sozinha, enquanto o marido passa o ano noutra cidade. Um estudo da Universidade Harvard apontou que 56% dos suicídios de mulheres no mundo acontecem na China rural.
Há milhares de vilarejos como Ba Nan nessa região da China. Ao pé da letra, Chongqing é hoje a maior cidade do mundo, com 32 milhões de habitantes. Mas, deles, apenas 6 milhões vivem na cidade propriamente dita. A imensa maioria mora em paupérrimas zonas rurais, Ba Nan incluída. É justamente essa proximidade que faz de Chongqing a cabeça-de-ponte do plano de desenvolvimento da região oeste do país. A receita do governo para atacar a pobreza rural aqui é a mesma que usou para outras regiões do país: transformar o campo em cidade.
Mais de 400 milhões de chineses se mudaram para cidades nos últimos 20 anos, sempre sob o patrocínio estatal. Apenas 18% dos chineses viviam em cidades nos anos 80. Hoje, o número passou para 40%. A Inglaterra levou 120 anos para executar um êxodo rural dessas proporções. Os Estados Unidos, 80 anos. O objetivo dos burocratas de Chongqing é fazer a mancha urbana avançar rapidamente sobre as fazendas, tirando os camponeses da miséria e criando trabalho na cidade. De acordo com as metas oficiais, a cidade terá em 2020 uma população de 22 milhões de pessoas — que se tornará a maior da China e, possivelmente, do mundo também.
A confiança do governo chinês no cumprimento de suas metas é impressionante. Burocratas olham para projeções de 2020 como se já fossem reais — é palpável o orgulho que os responsáveis pelo planejamento de Chongqing sentem pelo que a cidade ainda não é. Essa confiança tem razão de ser. Nos últimos 20 anos, a China se especializou em transformar pântanos em metrópoles. Um exemplo é a cidade de Shenzhen, no extremo sul do país. Em 1980, Shenzhen era uma vila de pescadores com pouco mais de 20 000 habitantes. O governo, então, transformou aquela região numa zona econômica especial, um campo de testes onde o capitalismo poderia entrar.
Shenzhen logo se tornou um dos maiores pólos de manufatura do mundo. O sonho do governo de Chongqing é repetir essa história. Os obstáculos, porém, serão imensos. A chave para o desenvolvimento de Shenzhen foi sua localização. A cidade está a poucos quilômetros de Hong Kong. Como produzir em Shenzhen era muito mais barato, milhares de fábricas deixaram Hong Kong rumo à cidade vizinha. Além disso, aquela é uma posição privilegiada para exportação: as duas cidades estão na bacia do rio da Pérola, no caminho das principais rotas de navegação da Ásia. Hoje, o porto de Yantian, em Shenzhen, é o mais movimentado da China. “A combinação entre infra-estrutura e investimentos estrangeiros tornou Shenzhen imbatível”, diz Wang Lei Fu, diretor do porto de Yantian.
Apesar dos notáveis progressos dos últimos anos, Chongqing ainda está longe de atingir patamar semelhante. O principal motivo? Mais uma vez, a localização. Chongqing teve na Segunda Guerra Mundial seus dias de glória. O então líder chinês, Chiang Kai-shek, decidiu transferir a capital do país para Chongqing. Como a cidade ficava longe de tudo, os bombardeios japoneses teriam dificuldade para chegar até o centro decisório da China na guerra. Passados quase 70 anos, Chongqing continua longe de tudo. Os custos de exportação são muito maiores aqui, pois é preciso levar os produtos quase 2 000 quilômetros rio abaixo, até Xangai.
A cidade tenta compensar esse custo com uma mão-de-obra 50% mais barata e a alíquota camarada de imposto de renda. Mas hoje isso não basta. Quando Shenzhen surgiu, poucas províncias disputavam o investimento estrangeiro. Agora, todas se estapeiam para atrair multinacionais. Gigantes globais como Ford e Basf foram atraídas por Chongqing, mas não houve outros grandes investimentos estrangeiros na cidade. Um número resume o problema que a cidade enfrenta agora: cerca de 80% de seu crescimento na última década deveu-se ao investimento estatal. Para se tornar a Xangai do interior, como seus mandarins pretendem, Chongqing vai ter de elevar a participação de exportações e consumo nesse bolo. Será preciso, portanto, atrair capital. E está difícil convencer o capital a vir.
O pior, para o governo chinês, é que os desafios enfrentados por Chongqing são ainda maiores em outros pontos da região oeste do país. O caminhão de dinheiro investido até agora trouxe resultado modesto no quesito crucial: a desigualdade. “A diferença entre o oeste e a costa do país está aumentando”, diz o economista Gregory Chow, professor da Universidade Princeton. Desde que o governo começou a atacar o problema regional, a renda per capita na China rural cresceu 91%. Parece muito, mas o crescimento da renda nas cidades foi de 150% no mesmo período. Para piorar as coisas, o terremoto de maio atingiu em cheio a província de Sichuan, vizinha a Chongqing. O nível de destruição foi tão avassalador que lançou na população dúvidas sobre a qualidade do material de construção usado nas obras da região — provocando exatamente o tipo de sentimento que o governo tenta eliminar com a criação da maior cidade do mundo.
UMA CAPITAL NO MEIO DO NADA
Chongping é um dos centros urbanos que mais crescem no mundo
População: 32 milhões de habitantes
Crescimento: 14,5% em 2007
Número de imigrantes por ano: 300.000
Está construindo: 8 auto-estradas, 793 pontes e 440 quilômetros de linhas de metrô
A CHINA RURAL FICOU PARA TRÁS
As diferenças entre campo e cidade cresceram nas duas décadas de expansão econômica
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Fonte: China Statistical Yearbook 2007
























