resistente e durável
A redescoberta do bambu
Há milênios, ele dá forma a casas tradicionais no Japão e na China. Nos últimos anos, pesquisas avalizaram a resistência e durabilidade das varas na construção, enquanto sua versão laminada aparece em pisos e móveis
Vários autores*
Especial Casa Sustentável* – 08/2009
*Revistas Casa Claudia e Arquitetura e Construção
A necessidade de repensar o consumo de materiais na construção e na decoração para torná-las mais sustentáveis atrai olhares para novas alternativas. É o caso do bambu, visto como a promessa para este século. Pesquisador desse recurso há mais de 30 anos, o professor Khosrow Ghavami, do Departamento de Engenharia Civil da PUC-RJ, não tem dúvidas sobre seu potencial. "Estudei 14 espécies e três delas, em especial, têm mais de 10 cm de diâmetro e são excelentes para a construção", diz ele, referindo-se ao guadua (Guadua angustifolia), ao bambu-gigante (Dendrocalamus giganteus) e ao bambu-mossô (Phyllostchys pubescens).
Todos estão presentes no Brasil, onde existem grandes florestas inexploradas. No Acre, por exemplo, os bambuzais cobrem 38% do estado. De crescimento rápido (em três anos, está pronta para o corte), essa gramínea chama a atenção, a princípio, pela beleza. Mas a resistência também surpreende: de frágil, ela não tem nada. "Sua compressão, flexão e tração já foram amplamente testadas e aprovadas em laboratório", afirma Marco Antonio Pereira, professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Unesp, em Bauru, SP.
Vários arquitetos estrangeiros têm apostado no bambu em projetos públicos. Na Espanha, o Aeroporto Internacional de Barajas, do britânico Richard Rogers, surpreende os usuários com seu forro, que suaviza a aparência da estrutura de concreto e aço. Em locais como esse, de uso intenso, a opção pelo material atesta a confiança na sua durabilidade e resistência, já que manutenções frequentes não seriam bem-vindas. "Se tratado adequadamente, o bambu apresenta durabilidade superior a 25 anos, equivalente à do eucalipto", afirma o arquiteto Edoardo Aranha, de São Paulo. Ele se refere aos tratamentos químicos para retirar o amido e prevenir o ataque de pragas como brocas e carunchos.
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Além do autoclave, outro procedimento comum chama-se boucherie, que substitui a seiva por um composto de cloro, bromo e boro. Submergir as varas em água durante 20 dias também produz bons resultados, segundo Edoardo. No Brasil, a carioca Celina Llerena, sócia-fundadora da Escola de Bioarquitetura e Centro de Pesquisa e Tecnologia Experimental em Bambu (Ebiobambu), em Visconde de Mauá, RJ, encabeça a lista dos entusiastas. "Visitei a Colômbia há alguns anos e voltei encantada com as possibilidades que o material oferece", conta a arquiteta, autora do projeto desta página, no Rio de Janeiro.
O bambu-mossô foi também a opção do arquiteto Walter Ono, de São Paulo, para o viveiro de orquídeas que você vê ao lado. Familiarizado com o material, com o qual trabalha desde 1972, Walter recomenda, além do tratamento contra pragas, a aplicação periódica de stain (os produtores também indicam manutenção com verniz naval). Embora no Brasil esse recurso apareça ainda timidamente em projetos de arquitetura, moradias de bambu são mais comuns do que se imagina. A organização chinesa International Network for Bamboo and Rattan (Inbar) estima que mais de 1 bilhão de pessoas habitam construções desse tipo em todo o mundo. "A maioria delas, no entanto, foi erguida em países em desenvolvimento, com técnicas tradicionais que estão se perdendo", comenta o professor Khosrow.
Em contrapartida, países como a Colômbia e o Equador mantêm programas de habitações populares que privilegiam o bambu por causa do baixo custo e, com isso, estão formando mão de obra capacitada. Para os arquitetos especializados no assunto, o desafio é trafegar por duas frentes: resgatar conhecimentos e divulgar o bambu para combater o déficit habitacional e apagar a ideia de que ele seria um material menos nobre aprimorando técnicas para a aplicação em projetos de alto padrão.
QUESTÃO DE FIBRA
Parece perfeito: um tecido fabricado do bambu, matéria-prima abundante na natureza, de crescimento rápido e fácil manejo sustentável. Natural e ecológico, não fosse o que se esconde por baixo do pano: esses fios resultam de processos produtivos que não podem ser considerados "verdes", segundo Hans-Jürgen Kleine, químico com mais de 30 anos de experiência na indústria têxtil e de celulose e fundador da Associação Catarinense do Bambu. Para fabricar um tecido natural, as fibras vegetais precisam ter, no mínimo, 30 mm de comprimento - caso do algodão e do linho, mas não das espécies de bambu (que têm apenas entre 2 e 3 mm). "Para quebrá-las e transformá-las, a indústria utiliza o dissulfeto de carbono, altamente tóxico ao meio ambiente", explica Hans. O processo é idêntico ao da produção de viscose, obtida de qualquer fibra vegetal.
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Quanto à maciez e à ação fungicida do tecido de bambu, características ressaltadas por alguns fabricantes, o gerente de infraestrutura e capacitação tecnológica da Associação Brasileira da Indústria Têxtil, Sylvio Nápoli, esclarece: "Na verdade, os fios de bambu aderem com mais facilidade aos produtos químicos que conferem essas propriedades". E há ainda outro problema: o Brasil não produz fios de bambu. "Importamos toda a matéria-prima, principalmente da China", completa. Mais impactos ambientais gerados pelo transporte intercontinental. Resguardados os usos ecológicos na arquitetura e na decoração, na forma de tecido o bambu está longe de ser aclamado pelos ambientalistas. "Por enquanto, trata-se de uma estratégia de marketing que se aproveita da boa fama do material", resume Hans.
PARA NÃO ERRAR
Contrate um arquiteto: Ele irá calcular corretamente as medidas das varas para o uso estrutural e tomará cuidados como o dimensionamento do beiral e a proteção da fundação. Além dos profissionais citados nesta reportagem, você pode obter indicações na Ebiobambu e no Centro de Tecnologia Intuitiva e Bio-Arquitetura (Tibá).
Observe os pré-requisitos: As espécies indicadas para a construção são guadua, gigante e mossô (sempre com mais de 10 cm de diâmetro). "Atenção à idade", aponta Marco Antonio Pereira, da Unesp. É fundamental que o material tenha sido cortado após os 3 anos de vida, do contrário, poderá sofrer rachaduras. Em geral, os maduros apresentam manchas de fungos (que saem com pano úmido), enquanto os verdes exibem varas mais vistosas.
Confira o tratamento: "A opção mais natural contra as pragas é a imersão das varas em água por 21 dias, que apodrece o amido interno. Mas isso tem que ser feito até 12 horas depois do corte", diz o arquiteto Edoardo Aranha. Entre os tratamentos químicos, a boucherie substitui a seiva por um composto de cloro, cromo e boro e o autoclave injeta esse mesmo composto sob pressão. "Em ambos a pegada ecológica é grande, mas o segundo oferece mais durabilidade", pondera. Nas aplicações internas, verniz, seladora ou stain a cada dois anos preservam o bambu. Já o uso externo requer stain ou verniz naval.
Quem oferece: Em geral, os fornecedores produzem a gramínea em matas cultivadas e manejadas para fins comerciais.
- Bambuaria: vende a dúzia de bambu-mossô por R$ 350 (varas de 3 m, com diâmetro entre 5 e 14 cm) e bambu-gigante por R$ 450 (varas de 3 m, com diâmetro entre 10 e 18 cm). Para comprimentos maiores (até 7 m), o valor cresce proporcionalmente. Tudo tratado a vapor (embora o produtor recomende para o gigante preservação química).
- Guadua Bambu: comercializa a dúzia de bambu-mossô (varas de 3,80 a 4,20 m, com diâmetro entre 8 e 12 cm) por R$ 240. O bambu-gigante é vendido por unidade (de R$ 33,60 a R$ 84, dependendo do diâmetro), assim como o guadua (R$ 46,40 a R$ 92). Não inclui tratamento químico.
QUERIDINHO DOS DESIGNERS
A alta resistência e flexibilidade do bambu o credencia como matéria-prima de pisos, painéis, móveis e objetos cujo visual em nada lembra as aplicações artesanais e rústicas associadas ao material. A catarinense Oré Brasil, por exemplo, vem colecionando prêmios de design com suas criações. "O consumidor ainda não vê diferença entre bambu e taquara. Quando tem a chance de tocar, sentir o produto, tende perder todos os preconceitos", afirma Bernardo Foggiato, gerente comercial da empresa. É importante observar a recomendação do fabricante com relação ao uso e à manutenção das peças - que devem ficar em ambientes internos e ser limpas com pano úmido. E quem desconfia do desempenho dos pisos de bambu pode se tranquilizar: sua densidade equivale à de uma madeira como o carvalho – Veja galeria de fotos
*Araci Queiroz, Edson G. Medeiros, Giuliana Capello, Marianne Wenzel e Regina Galvão
*Revistas Casa Claudia e Arquitetura e Construção
A necessidade de repensar o consumo de materiais na construção e na decoração para torná-las mais sustentáveis atrai olhares para novas alternativas. É o caso do bambu, visto como a promessa para este século. Pesquisador desse recurso há mais de 30 anos, o professor Khosrow Ghavami, do Departamento de Engenharia Civil da PUC-RJ, não tem dúvidas sobre seu potencial. "Estudei 14 espécies e três delas, em especial, têm mais de 10 cm de diâmetro e são excelentes para a construção", diz ele, referindo-se ao guadua (Guadua angustifolia), ao bambu-gigante (Dendrocalamus giganteus) e ao bambu-mossô (Phyllostchys pubescens).
Todos estão presentes no Brasil, onde existem grandes florestas inexploradas. No Acre, por exemplo, os bambuzais cobrem 38% do estado. De crescimento rápido (em três anos, está pronta para o corte), essa gramínea chama a atenção, a princípio, pela beleza. Mas a resistência também surpreende: de frágil, ela não tem nada. "Sua compressão, flexão e tração já foram amplamente testadas e aprovadas em laboratório", afirma Marco Antonio Pereira, professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Unesp, em Bauru, SP.
Vários arquitetos estrangeiros têm apostado no bambu em projetos públicos. Na Espanha, o Aeroporto Internacional de Barajas, do britânico Richard Rogers, surpreende os usuários com seu forro, que suaviza a aparência da estrutura de concreto e aço. Em locais como esse, de uso intenso, a opção pelo material atesta a confiança na sua durabilidade e resistência, já que manutenções frequentes não seriam bem-vindas. "Se tratado adequadamente, o bambu apresenta durabilidade superior a 25 anos, equivalente à do eucalipto", afirma o arquiteto Edoardo Aranha, de São Paulo. Ele se refere aos tratamentos químicos para retirar o amido e prevenir o ataque de pragas como brocas e carunchos.
[img1]
Além do autoclave, outro procedimento comum chama-se boucherie, que substitui a seiva por um composto de cloro, bromo e boro. Submergir as varas em água durante 20 dias também produz bons resultados, segundo Edoardo. No Brasil, a carioca Celina Llerena, sócia-fundadora da Escola de Bioarquitetura e Centro de Pesquisa e Tecnologia Experimental em Bambu (Ebiobambu), em Visconde de Mauá, RJ, encabeça a lista dos entusiastas. "Visitei a Colômbia há alguns anos e voltei encantada com as possibilidades que o material oferece", conta a arquiteta, autora do projeto desta página, no Rio de Janeiro.
O bambu-mossô foi também a opção do arquiteto Walter Ono, de São Paulo, para o viveiro de orquídeas que você vê ao lado. Familiarizado com o material, com o qual trabalha desde 1972, Walter recomenda, além do tratamento contra pragas, a aplicação periódica de stain (os produtores também indicam manutenção com verniz naval). Embora no Brasil esse recurso apareça ainda timidamente em projetos de arquitetura, moradias de bambu são mais comuns do que se imagina. A organização chinesa International Network for Bamboo and Rattan (Inbar) estima que mais de 1 bilhão de pessoas habitam construções desse tipo em todo o mundo. "A maioria delas, no entanto, foi erguida em países em desenvolvimento, com técnicas tradicionais que estão se perdendo", comenta o professor Khosrow.
Em contrapartida, países como a Colômbia e o Equador mantêm programas de habitações populares que privilegiam o bambu por causa do baixo custo e, com isso, estão formando mão de obra capacitada. Para os arquitetos especializados no assunto, o desafio é trafegar por duas frentes: resgatar conhecimentos e divulgar o bambu para combater o déficit habitacional e apagar a ideia de que ele seria um material menos nobre aprimorando técnicas para a aplicação em projetos de alto padrão.
QUESTÃO DE FIBRA
Parece perfeito: um tecido fabricado do bambu, matéria-prima abundante na natureza, de crescimento rápido e fácil manejo sustentável. Natural e ecológico, não fosse o que se esconde por baixo do pano: esses fios resultam de processos produtivos que não podem ser considerados "verdes", segundo Hans-Jürgen Kleine, químico com mais de 30 anos de experiência na indústria têxtil e de celulose e fundador da Associação Catarinense do Bambu. Para fabricar um tecido natural, as fibras vegetais precisam ter, no mínimo, 30 mm de comprimento - caso do algodão e do linho, mas não das espécies de bambu (que têm apenas entre 2 e 3 mm). "Para quebrá-las e transformá-las, a indústria utiliza o dissulfeto de carbono, altamente tóxico ao meio ambiente", explica Hans. O processo é idêntico ao da produção de viscose, obtida de qualquer fibra vegetal.
[img3]
Quanto à maciez e à ação fungicida do tecido de bambu, características ressaltadas por alguns fabricantes, o gerente de infraestrutura e capacitação tecnológica da Associação Brasileira da Indústria Têxtil, Sylvio Nápoli, esclarece: "Na verdade, os fios de bambu aderem com mais facilidade aos produtos químicos que conferem essas propriedades". E há ainda outro problema: o Brasil não produz fios de bambu. "Importamos toda a matéria-prima, principalmente da China", completa. Mais impactos ambientais gerados pelo transporte intercontinental. Resguardados os usos ecológicos na arquitetura e na decoração, na forma de tecido o bambu está longe de ser aclamado pelos ambientalistas. "Por enquanto, trata-se de uma estratégia de marketing que se aproveita da boa fama do material", resume Hans.
PARA NÃO ERRAR
Contrate um arquiteto: Ele irá calcular corretamente as medidas das varas para o uso estrutural e tomará cuidados como o dimensionamento do beiral e a proteção da fundação. Além dos profissionais citados nesta reportagem, você pode obter indicações na Ebiobambu e no Centro de Tecnologia Intuitiva e Bio-Arquitetura (Tibá).
Observe os pré-requisitos: As espécies indicadas para a construção são guadua, gigante e mossô (sempre com mais de 10 cm de diâmetro). "Atenção à idade", aponta Marco Antonio Pereira, da Unesp. É fundamental que o material tenha sido cortado após os 3 anos de vida, do contrário, poderá sofrer rachaduras. Em geral, os maduros apresentam manchas de fungos (que saem com pano úmido), enquanto os verdes exibem varas mais vistosas.
Confira o tratamento: "A opção mais natural contra as pragas é a imersão das varas em água por 21 dias, que apodrece o amido interno. Mas isso tem que ser feito até 12 horas depois do corte", diz o arquiteto Edoardo Aranha. Entre os tratamentos químicos, a boucherie substitui a seiva por um composto de cloro, cromo e boro e o autoclave injeta esse mesmo composto sob pressão. "Em ambos a pegada ecológica é grande, mas o segundo oferece mais durabilidade", pondera. Nas aplicações internas, verniz, seladora ou stain a cada dois anos preservam o bambu. Já o uso externo requer stain ou verniz naval.
Quem oferece: Em geral, os fornecedores produzem a gramínea em matas cultivadas e manejadas para fins comerciais.
- Bambuaria: vende a dúzia de bambu-mossô por R$ 350 (varas de 3 m, com diâmetro entre 5 e 14 cm) e bambu-gigante por R$ 450 (varas de 3 m, com diâmetro entre 10 e 18 cm). Para comprimentos maiores (até 7 m), o valor cresce proporcionalmente. Tudo tratado a vapor (embora o produtor recomende para o gigante preservação química).
- Guadua Bambu: comercializa a dúzia de bambu-mossô (varas de 3,80 a 4,20 m, com diâmetro entre 8 e 12 cm) por R$ 240. O bambu-gigante é vendido por unidade (de R$ 33,60 a R$ 84, dependendo do diâmetro), assim como o guadua (R$ 46,40 a R$ 92). Não inclui tratamento químico.
QUERIDINHO DOS DESIGNERS
A alta resistência e flexibilidade do bambu o credencia como matéria-prima de pisos, painéis, móveis e objetos cujo visual em nada lembra as aplicações artesanais e rústicas associadas ao material. A catarinense Oré Brasil, por exemplo, vem colecionando prêmios de design com suas criações. "O consumidor ainda não vê diferença entre bambu e taquara. Quando tem a chance de tocar, sentir o produto, tende perder todos os preconceitos", afirma Bernardo Foggiato, gerente comercial da empresa. É importante observar a recomendação do fabricante com relação ao uso e à manutenção das peças - que devem ficar em ambientes internos e ser limpas com pano úmido. E quem desconfia do desempenho dos pisos de bambu pode se tranquilizar: sua densidade equivale à de uma madeira como o carvalho – Veja galeria de fotos
*Araci Queiroz, Edson G. Medeiros, Giuliana Capello, Marianne Wenzel e Regina Galvão