entrevista
João de barro
Já é possível construir casas 100% ecológicas, apesar de ainda não ser muito barato, diz o arquiteto Gernot Minke, um dos maiores porta-vozes das técnicas sustentáveis na construção civil
Por Loraine Luz
Revista Vida Simples - 05/2008
Em vez do potente ar-condicionado sobre nossas cabeças, era através de duas portas estrategicamente entreabertas que um vento fresco cruzava o auditório do Instituto Goethe de Porto Alegre, numa noite quente. Sutil, mas emblemática intervenção do palestrante, Gernot Minke.
Professor, engenheiro e arquiteto alemão, Minke, 71 anos, esteve no Brasil em março para uma série de palestras sobre bioarquitetura. Não há ar-condicionado em sua casa em Kassel, na Alemanha. Ela é feita de barro tirado do próprio terreno e moldado de formas diferentes: em adobe (como tijolos, mas secos naturalmente, ou seja, sem desmatamento nem emissão de CO2) ou em mangueiras, como tiras de massa de modelar. O barro garante conforto térmico no inverno e no verão porque a umidade é mantida em níveis ideais.
Ponto para a saúde. Madeira, bambu, fardos de palha, pneus e garrafas também são matéria-prima nos mais de 30 protótipos em bioarquitetura que Minke espalhou por aí, inclusive no Brasil, como alternativa barata e inteligente à construção padrão, que depende de produção industrializada e contribui para a poluição e o uso indiscriminado de energia. Coordenador do Laboratório de Pesquisa para Construções Experimentais na Universidade de Kassel, Minke desenvolveu mais de 50 estudos sobre técnicas e materiais sustentáveis. É tão inventivo no aprimoramento do uso deles como nas engenhocas que cria para testá-los. Seu maior desafio, no entanto, é ganhar aliados contra cimento, tijolos e pregos. "É difícil construir barato", diz, em tom de lamento.
Como você começou a se interessar pelo assunto?
Meu interesse começou depois da universidade. Em viagens de estudo, encontrei problemas de habitação e soluções alternativas.
A bioarquitetura vai substituir a construção convencional?
Para mim, a bioarquitetura é mesmo a única solução para o futuro. Não é possível usar a construção tradicional para sempre e para todos. O pré-fabricado, o modo padrão de construção, requer produção industrializada, que contribui para a poluição.
Em suas palestras, você costuma falar sobre diferentes tipos de barro e pedras. Como você chegou a esse conhecimento?
Fiz doutorado em Engenharia. Mas técnica alternativa não se aprende na uniniversidade. Com o barro, o conhecimento veio a partir de testes nos laboratórios e com minhas próprias mãos.Chegar a soluções simples é muito complicado.
Por que o uso do cimento superou as técnicas mais naturais e é tão aplicado ainda?
Mas isso não acontece em todo o mundo. Em muitos lugares, o barro, a areia e a pedra são as únicas alternativas, porque as pessoas são muito pobres. Não podem comprar cimento.
Nas fotos de sua exposição, há construções com acabamento mais simples e outras com um visual mais sofisticado, que se confunde com o estilo da arquitetura convencional de hoje em dia. Qual seria mesmo a verdadeira diferença entre elas?
Não há diferenças. São todas feitas de barro, que é mais ecológico, econômico e saudável. Minha exposição mostra justamente isto: o que pode ser feito com barro e os diferentes acabamentos, que dependem da região, se mais chuvosa ou mais seca.
Há bioarquitetura na Inglaterra, em Gana, nos Estados Unidos, na Bolívia, na Alemanha, em Burkina Fasso. Há um intercâmbio?
Sim. Sempre aprendi novas coisas. Estou sempre aprendendo. Analiso a idéia local, busco melhorá-la, aprendendo com os erros. E depende da região. Países como Mali, na África, e Iêmen, no Oriente Médio, têm muita tradição nas construções com barro. Costumo estudar a técnica do local antes. E fazemos oficinas teórico-práticas nas regiões, como no Brasil.
Você mora em um bairro ecológico em Kassel, na Alemanha. O que faz dele um lugar diferente dos outros bairros?
O bairro foi planejado, é reconhecido e autorizado por legislação e autoridades locais. Fui responsável pelo projeto teórico e pela construção de quatro casas. Ao todo são 35. A maioria ocupada por professores e pessoas com senso ecológico altamente desenvolvido. Por exemplo, nossas ruas não são cimentadas. Capturamos a água da chuva para uso. Criamos lagos naturais como reservatório. Estufas captam o ar quente e o distribuem no inverno. Algumas casas têm coletores solares como fonte de energia. Não temos cercas com arames. Só naturais.
Sua casa foi construída com barro. Você já morou em uma casa convencional, de cimento?
Sim, antes morava em uma casa de cimento. Mas a minha residência atual já é a segunda casa de barro em que moro. Na primeira, foram oito anos. Ao todo, são 23 anos. Usei a própria terra que retirei com a escavação para a fundação. Na construção convencional as pessoas costumam pagar muito caro para buscar terra de outro lugar. Não entendo isso.
O resultado do uso das mangueiras de barro em sua casa é curioso. Esteticamente, você tem alguma técnica preferida?
Usei as mangueiras apenas no meu banheiro. Há outras técnicas no resto da casa, o contraste é interessante. Em minhas construções, são comuns as abóbadas. A abertura em cima, para o contato com o céu, o sol, as nuvens, é muito importante para mim. Gosto do sentido de espaço que isso provoca. As casas normais são como caixas retas.
A bioarquitetura se destacaria por ser mais benéfica à saúde, principalmente no que se refere à climatização, hoje tão dependente de meios onerosos e artificiais (como o ar-condicionado). Você sente esses benefícios?
Sim, durante o inverno, sempre tinha gripes e resfriados. Desde que me mudei, tive apenas três. No interior da casa de barro a umidade é sempre igual, em torno de 50%, mais ou menos. Mas além disso eu também sou vegetariano, não fumo, não tomo café.
Você tem projetos em países da América Latina e já esteve diversas vezes no Brasil. Deu para notar alguma evolução na aplicação de técnicas da bioarquitetura? Considero a evolução muito pequena ainda. Mais com relação ao uso de tetos verdes, talvez. É pouco ainda porque é novo. As pessoas desconhecem e não se ganha dinheiro com bioarquitetura. Donos de terrenos e empreiteiras não ganham. É difícil construir barato.
PARA SABER MAIS
LIVRO
Manual de Construcción en Tierra,
Gernot Minke, Editorial Fin de Siglo
Em vez do potente ar-condicionado sobre nossas cabeças, era através de duas portas estrategicamente entreabertas que um vento fresco cruzava o auditório do Instituto Goethe de Porto Alegre, numa noite quente. Sutil, mas emblemática intervenção do palestrante, Gernot Minke.
Professor, engenheiro e arquiteto alemão, Minke, 71 anos, esteve no Brasil em março para uma série de palestras sobre bioarquitetura. Não há ar-condicionado em sua casa em Kassel, na Alemanha. Ela é feita de barro tirado do próprio terreno e moldado de formas diferentes: em adobe (como tijolos, mas secos naturalmente, ou seja, sem desmatamento nem emissão de CO2) ou em mangueiras, como tiras de massa de modelar. O barro garante conforto térmico no inverno e no verão porque a umidade é mantida em níveis ideais.
Ponto para a saúde. Madeira, bambu, fardos de palha, pneus e garrafas também são matéria-prima nos mais de 30 protótipos em bioarquitetura que Minke espalhou por aí, inclusive no Brasil, como alternativa barata e inteligente à construção padrão, que depende de produção industrializada e contribui para a poluição e o uso indiscriminado de energia. Coordenador do Laboratório de Pesquisa para Construções Experimentais na Universidade de Kassel, Minke desenvolveu mais de 50 estudos sobre técnicas e materiais sustentáveis. É tão inventivo no aprimoramento do uso deles como nas engenhocas que cria para testá-los. Seu maior desafio, no entanto, é ganhar aliados contra cimento, tijolos e pregos. "É difícil construir barato", diz, em tom de lamento.
Como você começou a se interessar pelo assunto?
Meu interesse começou depois da universidade. Em viagens de estudo, encontrei problemas de habitação e soluções alternativas.
A bioarquitetura vai substituir a construção convencional?
Para mim, a bioarquitetura é mesmo a única solução para o futuro. Não é possível usar a construção tradicional para sempre e para todos. O pré-fabricado, o modo padrão de construção, requer produção industrializada, que contribui para a poluição.
Em suas palestras, você costuma falar sobre diferentes tipos de barro e pedras. Como você chegou a esse conhecimento?
Fiz doutorado em Engenharia. Mas técnica alternativa não se aprende na uniniversidade. Com o barro, o conhecimento veio a partir de testes nos laboratórios e com minhas próprias mãos.Chegar a soluções simples é muito complicado.
Por que o uso do cimento superou as técnicas mais naturais e é tão aplicado ainda?
Mas isso não acontece em todo o mundo. Em muitos lugares, o barro, a areia e a pedra são as únicas alternativas, porque as pessoas são muito pobres. Não podem comprar cimento.
Nas fotos de sua exposição, há construções com acabamento mais simples e outras com um visual mais sofisticado, que se confunde com o estilo da arquitetura convencional de hoje em dia. Qual seria mesmo a verdadeira diferença entre elas?
Não há diferenças. São todas feitas de barro, que é mais ecológico, econômico e saudável. Minha exposição mostra justamente isto: o que pode ser feito com barro e os diferentes acabamentos, que dependem da região, se mais chuvosa ou mais seca.
Há bioarquitetura na Inglaterra, em Gana, nos Estados Unidos, na Bolívia, na Alemanha, em Burkina Fasso. Há um intercâmbio?
Sim. Sempre aprendi novas coisas. Estou sempre aprendendo. Analiso a idéia local, busco melhorá-la, aprendendo com os erros. E depende da região. Países como Mali, na África, e Iêmen, no Oriente Médio, têm muita tradição nas construções com barro. Costumo estudar a técnica do local antes. E fazemos oficinas teórico-práticas nas regiões, como no Brasil.
Você mora em um bairro ecológico em Kassel, na Alemanha. O que faz dele um lugar diferente dos outros bairros?
O bairro foi planejado, é reconhecido e autorizado por legislação e autoridades locais. Fui responsável pelo projeto teórico e pela construção de quatro casas. Ao todo são 35. A maioria ocupada por professores e pessoas com senso ecológico altamente desenvolvido. Por exemplo, nossas ruas não são cimentadas. Capturamos a água da chuva para uso. Criamos lagos naturais como reservatório. Estufas captam o ar quente e o distribuem no inverno. Algumas casas têm coletores solares como fonte de energia. Não temos cercas com arames. Só naturais.
Sua casa foi construída com barro. Você já morou em uma casa convencional, de cimento?
Sim, antes morava em uma casa de cimento. Mas a minha residência atual já é a segunda casa de barro em que moro. Na primeira, foram oito anos. Ao todo, são 23 anos. Usei a própria terra que retirei com a escavação para a fundação. Na construção convencional as pessoas costumam pagar muito caro para buscar terra de outro lugar. Não entendo isso.
O resultado do uso das mangueiras de barro em sua casa é curioso. Esteticamente, você tem alguma técnica preferida?
Usei as mangueiras apenas no meu banheiro. Há outras técnicas no resto da casa, o contraste é interessante. Em minhas construções, são comuns as abóbadas. A abertura em cima, para o contato com o céu, o sol, as nuvens, é muito importante para mim. Gosto do sentido de espaço que isso provoca. As casas normais são como caixas retas.
A bioarquitetura se destacaria por ser mais benéfica à saúde, principalmente no que se refere à climatização, hoje tão dependente de meios onerosos e artificiais (como o ar-condicionado). Você sente esses benefícios?
Sim, durante o inverno, sempre tinha gripes e resfriados. Desde que me mudei, tive apenas três. No interior da casa de barro a umidade é sempre igual, em torno de 50%, mais ou menos. Mas além disso eu também sou vegetariano, não fumo, não tomo café.
Você tem projetos em países da América Latina e já esteve diversas vezes no Brasil. Deu para notar alguma evolução na aplicação de técnicas da bioarquitetura? Considero a evolução muito pequena ainda. Mais com relação ao uso de tetos verdes, talvez. É pouco ainda porque é novo. As pessoas desconhecem e não se ganha dinheiro com bioarquitetura. Donos de terrenos e empreiteiras não ganham. É difícil construir barato.
PARA SABER MAIS
LIVRO
Manual de Construcción en Tierra,
Gernot Minke, Editorial Fin de Siglo