ENTREVISTA
O visionário do design sustentável
O italiano Ezio Manzini é designer, engenheiro, arquiteto e professor. Em visita a Curitiba, para o 1º. Simpósio Internacional sobre Design Sustentável, e ao Rio, para um curso na UFRJ, ele falou, com exclusividade ao Planeta Sustentável, sobre suas idéias arrojadas
Por Gabriela Varanda - Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável - 17/09/2007
Veja também a entrevista de Ezio Manzini para Veja Rio: Dez perguntas para Ezio Manzini
Ezio Manzini é diretor da unidade de pesquisa em Design e Inovação para a Sustentabilidade (DIS), do Instituto Politécnico de Milão. Com diversas publicações sobre o tema, já recebeu duas vezes o prêmio "Compasso D'Oro", concedido pela Associação de Desenho Industrial (ADI) da Itália, e, no ano passado, recebeu, ainda, o título de Doutor Honorário em Belas Artes, pela The New School, de Nova Iorque.
Em visita ao Brasil, o professor italiano ministrou o curso "Design, Inovação Social e Desenvolvimento Sustentável", na Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE/UFRJ), e voou - com sentido duplo - até Curitiba, no Paraná. Lá, em apenas um dia, ministrou um minicurso diante de uma platéia lotada e proferiu a palestra inaugural do 1º Simpósio Internacional de Design Sustentável.
Atualmente, Manzini é responsável pelo Sustainable Everyday Project (SEP), uma plataforma web que reúne informações sobre pesquisas, workshops, projetos e atividades relacionados à promoção do design sustentável na vida cotidiana. Apostando numa mudança radical no sistema de produção e consumo mundial, o designer propõe alternativas que permitam a tão sonhada redução do consumo, num novo cenário onde os produtos são substituídos pelo resultado que eles promovem, "em vez de carros, falemos em mobilidade", sugere. No novo cenário traçado pelo designer, o compartilhamento de bens é a solução para a redução da produção e do consumo de novos artefatos. "O compartilhamento de carros, por exemplo, entre uma comunidade específica, permitira uma redução do número de veículos por pessoa", comenta.
Buscando inspiração em iniciativas espontâneas de grupos que desenvolvem trabalhos cooperativos, para resolver problemas em seu dia-a-dia, principalmente na Europa - chamados por Manzini de "comunidades criativas" -, o pesquisador sugere um novo caminho para o design sustentável do século XXI: o de facilitar essas atividades, num novo contexto social e econômico de unidades distribuídas pelo mundo, que preservam e valorizam suas características locais, mas que, nem por isso, deixam de se comunicar com o resto do mundo, numa eficiente rede de troca de informações. Ainda que hoje sejam iniciativas alternativas e isoladas, são também focos de vida sustentável, que, segundo Manzini, chegam, nos próximos anos, ao mainstream.
Figura carismática e falante, Manzini falou ao Planeta Sustentável, no idioma que ele mesmo define, jocosamente, como ítalo-inglês:
Em seu livro "O desenvolvimento de produtos sustentáveis: os requisitos ambientais dos produtos industriais" (Edusp/2002), a abordagem do conceito de ecodesign estava centrada no ciclo de vida de um produto (como reduzir gastos com matéria-prima, energia e lixo, desde o nascimento até o descarte de um artefato). Em sua nova abordagem do tema, o produto aparece desmaterializado, cedendo espaço a contextos de bem-estar e qualidade de vida, desligados da necessidade de compra e consumo. Os produtos, como nós conhecemos, vão desaparecer?
Vivemos um complexo momento de transição. O produto sustentável deve ainda ser produzido de maneira menos agressiva ao meio ambiente, economizando matéria-prima e energia. Mas, por outro lado, a fabricação de novos artefatos, mesmo que eficientes, traz consigo um efeito colateral: ela não desacelera a produção e o consumo. Portanto, devemos apostar em outra alternativa: no bem-estar baseado em contextos e não em produtos que nos conduzem à almejada qualidade de vida.
Você diz que, em países como o Brasil, podemos pular etapas e chegar mais rapidamente ao desenvolvimento sustentável, em comparação a países da Europa. Qual seria o motivo para esse atalho?
Em países industrializados, o sistema econômico já está completamente estabelecido, pesado e, portanto, inerte. Observamos que a economia baseada em produtos na Europa chegou ao seu limite. No Brasil, como esse processo não está maduro por completo, há a possibilidade de saltar diretamente para um novo e promissor cenário.
O designer pode, de fato, promover uma revolução social, transformando a sociedade?
A sustentabilidade é uma revolução. O designer será mais um ator dentro desse grande plano, conduzindo a sociedade na direção correta, no seu papel de facilitar as inovações sociais.
Essas novas ferramentas serão facilmente reconhecidas como exemplares de uma nova geração do design?
Elas terão um princípio funcional comum, baseado em três conceitos fundamentais: serviços colaborativos, bens compartilhados e ecologia do tempo, por meio da promoção de um tempo lento e contemplativo.
Mas existirá uma estética comum a todas elas?
Espero que haja sempre uma enorme diversidade de estilos, sobre esse substrato comum. A promoção e a valorização da diversidade, até mesmo em questões estéticas, é um ponto relevante dessa abordagem do design.
Você pode citar exemplos práticos de ferramentas de design que surgem nesse novo cenário?
São aplicações que facilitam a implantação desse novo sistema. Para citar experiências que já existem, no compartilhamento de carros há chaves que acumulam informações de cada um dos seus usuários, permitindo o ajuste automático dos assentos e personalizando outros componentes. Para o kid bus - uma caminhada em grupo de crianças até a escola, orientada por um adulto (alternativa saudável e sustentável de deslocamento, muito comum na Europa) -, podemos pensar em pulseiras localizadoras, para o caso de algumas delas se perder. No campo da moradia, vários serviços e equipamentos de uso compartilhado num prédio, como, por exemplo, uma máquina de lavar comunitária, com funções específicas, pode ser uma ferramenta útil. Somente para citar alguns casos.
Você afirma que as soluções devem surgir pontualmente, explorando recursos locais, dentro de comunidades específicas. Não haverá mais a possibilidade de se desenvolver um serviço-padrão, que poderá ser utilizado em qualquer parte do mundo?
As idéias são comuns, mas as soluções poderão ser reproduzidas e formatadas de diferentes maneiras, em diversos pontos do planeta. Por exemplo, a idéia de compra compartilhada de produtos agrícolas orgânicos, provenientes de pequenos sítios, pode parecer apenas uma alternativa mais econômica na China e receber contornos ideológicos na Itália, como é o caso do movimento Slow Food. Mas para ambos, a idéia é a mesma.
Você diz que, em países onde as tradições são mais fortes, há maior chance de surgir as chamadas "comunidades criativas". Por que?
Tradições vivas podem facilitar a elaboração de diferentes formas de se encarar uma questão. Por exemplo, as bem-sucedidas empresas dos anos 1980, no Japão, herdaram boa parte de sua filosofia do forte sistema feudal, que marcou a história do país. Na Itália, há uma enorme quantidade de pequenas empresas, todas elas surgiram a partir de núcleos familiares que se estabeleceram como pequenos empreendimentos e que, hoje, disputam o mercado. As tradições, nos dois casos, facilitaram e influenciaram a organização ativa da sociedade.
Esse resgate de uma qualidade de vida baseada num tempo lento e contemplativo não pode parecer uma abordagem nostálgica da sustentabilidade?
A ecologia do tempo pode, de fato, evocar a nostalgia. Mas não há nada de ruim nesse sentimento, já que ele permite que você viva melhor. Um tempo mais lento, mas também atualizado com tecnologias recentes. Na verdade, é uma nostalgia reflexiva, que permite uma maior consciência.
Qual é o objetivo do Sustainable Everyday Project (SEP)?
O SEP é uma ferramenta dinâmica desenvolvida em parceria com o pesquisador François Jégou (professor da LA Cambre School, em Bruxelas, e especialista em design estratégico). Um banco de dados em constante atualização, que armazena exemplos de cenários sustentáveis na vida cotidiana, casos de inovação social e informações sobre exposições realizadas em diferentes cidades do mundo, permitindo o intercâmbio de idéias. Como essas exposições apresentam uma estrutura modular e flexível, elas pode ser adaptadas a diferentes situações, sempre trazendo colaborações e participação ativa dos locais onde elas são exibidas, já que a idéia é sempre incentivar iniciativas sustentáveis nos lugares onde o projeto é apresentado. Podemos promover, assim, um estilo de vida sustentável, mundo afora.
Para saber mais, visite o site do Sustainable Everyday Project
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Em visita ao Brasil, o professor italiano ministrou o curso "Design, Inovação Social e Desenvolvimento Sustentável", na Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE/UFRJ), e voou - com sentido duplo - até Curitiba, no Paraná. Lá, em apenas um dia, ministrou um minicurso diante de uma platéia lotada e proferiu a palestra inaugural do 1º Simpósio Internacional de Design Sustentável.
Atualmente, Manzini é responsável pelo Sustainable Everyday Project (SEP), uma plataforma web que reúne informações sobre pesquisas, workshops, projetos e atividades relacionados à promoção do design sustentável na vida cotidiana. Apostando numa mudança radical no sistema de produção e consumo mundial, o designer propõe alternativas que permitam a tão sonhada redução do consumo, num novo cenário onde os produtos são substituídos pelo resultado que eles promovem, "em vez de carros, falemos em mobilidade", sugere. No novo cenário traçado pelo designer, o compartilhamento de bens é a solução para a redução da produção e do consumo de novos artefatos. "O compartilhamento de carros, por exemplo, entre uma comunidade específica, permitira uma redução do número de veículos por pessoa", comenta.
Buscando inspiração em iniciativas espontâneas de grupos que desenvolvem trabalhos cooperativos, para resolver problemas em seu dia-a-dia, principalmente na Europa - chamados por Manzini de "comunidades criativas" -, o pesquisador sugere um novo caminho para o design sustentável do século XXI: o de facilitar essas atividades, num novo contexto social e econômico de unidades distribuídas pelo mundo, que preservam e valorizam suas características locais, mas que, nem por isso, deixam de se comunicar com o resto do mundo, numa eficiente rede de troca de informações. Ainda que hoje sejam iniciativas alternativas e isoladas, são também focos de vida sustentável, que, segundo Manzini, chegam, nos próximos anos, ao mainstream.
Figura carismática e falante, Manzini falou ao Planeta Sustentável, no idioma que ele mesmo define, jocosamente, como ítalo-inglês:
Em seu livro "O desenvolvimento de produtos sustentáveis: os requisitos ambientais dos produtos industriais" (Edusp/2002), a abordagem do conceito de ecodesign estava centrada no ciclo de vida de um produto (como reduzir gastos com matéria-prima, energia e lixo, desde o nascimento até o descarte de um artefato). Em sua nova abordagem do tema, o produto aparece desmaterializado, cedendo espaço a contextos de bem-estar e qualidade de vida, desligados da necessidade de compra e consumo. Os produtos, como nós conhecemos, vão desaparecer?
Vivemos um complexo momento de transição. O produto sustentável deve ainda ser produzido de maneira menos agressiva ao meio ambiente, economizando matéria-prima e energia. Mas, por outro lado, a fabricação de novos artefatos, mesmo que eficientes, traz consigo um efeito colateral: ela não desacelera a produção e o consumo. Portanto, devemos apostar em outra alternativa: no bem-estar baseado em contextos e não em produtos que nos conduzem à almejada qualidade de vida.
Você diz que, em países como o Brasil, podemos pular etapas e chegar mais rapidamente ao desenvolvimento sustentável, em comparação a países da Europa. Qual seria o motivo para esse atalho?
Em países industrializados, o sistema econômico já está completamente estabelecido, pesado e, portanto, inerte. Observamos que a economia baseada em produtos na Europa chegou ao seu limite. No Brasil, como esse processo não está maduro por completo, há a possibilidade de saltar diretamente para um novo e promissor cenário.
O designer pode, de fato, promover uma revolução social, transformando a sociedade?
A sustentabilidade é uma revolução. O designer será mais um ator dentro desse grande plano, conduzindo a sociedade na direção correta, no seu papel de facilitar as inovações sociais.
Essas novas ferramentas serão facilmente reconhecidas como exemplares de uma nova geração do design?
Elas terão um princípio funcional comum, baseado em três conceitos fundamentais: serviços colaborativos, bens compartilhados e ecologia do tempo, por meio da promoção de um tempo lento e contemplativo.
Mas existirá uma estética comum a todas elas?
Espero que haja sempre uma enorme diversidade de estilos, sobre esse substrato comum. A promoção e a valorização da diversidade, até mesmo em questões estéticas, é um ponto relevante dessa abordagem do design.
Você pode citar exemplos práticos de ferramentas de design que surgem nesse novo cenário?
São aplicações que facilitam a implantação desse novo sistema. Para citar experiências que já existem, no compartilhamento de carros há chaves que acumulam informações de cada um dos seus usuários, permitindo o ajuste automático dos assentos e personalizando outros componentes. Para o kid bus - uma caminhada em grupo de crianças até a escola, orientada por um adulto (alternativa saudável e sustentável de deslocamento, muito comum na Europa) -, podemos pensar em pulseiras localizadoras, para o caso de algumas delas se perder. No campo da moradia, vários serviços e equipamentos de uso compartilhado num prédio, como, por exemplo, uma máquina de lavar comunitária, com funções específicas, pode ser uma ferramenta útil. Somente para citar alguns casos.
Você afirma que as soluções devem surgir pontualmente, explorando recursos locais, dentro de comunidades específicas. Não haverá mais a possibilidade de se desenvolver um serviço-padrão, que poderá ser utilizado em qualquer parte do mundo?
As idéias são comuns, mas as soluções poderão ser reproduzidas e formatadas de diferentes maneiras, em diversos pontos do planeta. Por exemplo, a idéia de compra compartilhada de produtos agrícolas orgânicos, provenientes de pequenos sítios, pode parecer apenas uma alternativa mais econômica na China e receber contornos ideológicos na Itália, como é o caso do movimento Slow Food. Mas para ambos, a idéia é a mesma.
Você diz que, em países onde as tradições são mais fortes, há maior chance de surgir as chamadas "comunidades criativas". Por que?
Tradições vivas podem facilitar a elaboração de diferentes formas de se encarar uma questão. Por exemplo, as bem-sucedidas empresas dos anos 1980, no Japão, herdaram boa parte de sua filosofia do forte sistema feudal, que marcou a história do país. Na Itália, há uma enorme quantidade de pequenas empresas, todas elas surgiram a partir de núcleos familiares que se estabeleceram como pequenos empreendimentos e que, hoje, disputam o mercado. As tradições, nos dois casos, facilitaram e influenciaram a organização ativa da sociedade.
Esse resgate de uma qualidade de vida baseada num tempo lento e contemplativo não pode parecer uma abordagem nostálgica da sustentabilidade?
A ecologia do tempo pode, de fato, evocar a nostalgia. Mas não há nada de ruim nesse sentimento, já que ele permite que você viva melhor. Um tempo mais lento, mas também atualizado com tecnologias recentes. Na verdade, é uma nostalgia reflexiva, que permite uma maior consciência.
Qual é o objetivo do Sustainable Everyday Project (SEP)?
O SEP é uma ferramenta dinâmica desenvolvida em parceria com o pesquisador François Jégou (professor da LA Cambre School, em Bruxelas, e especialista em design estratégico). Um banco de dados em constante atualização, que armazena exemplos de cenários sustentáveis na vida cotidiana, casos de inovação social e informações sobre exposições realizadas em diferentes cidades do mundo, permitindo o intercâmbio de idéias. Como essas exposições apresentam uma estrutura modular e flexível, elas pode ser adaptadas a diferentes situações, sempre trazendo colaborações e participação ativa dos locais onde elas são exibidas, já que a idéia é sempre incentivar iniciativas sustentáveis nos lugares onde o projeto é apresentado. Podemos promover, assim, um estilo de vida sustentável, mundo afora.
Para saber mais, visite o site do Sustainable Everyday Project
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