curto e certo
Poesia na favela
A poesia se tornou o cartão de visita da Chácara Santana, bairro da zona sul de São Paulo. A quem interessar, esse é o endereço do sarau da Cooperifa, tribo afinada com a força transformadora do verbo
Raphaela de Campos Mello
Revista Bons Fluídos – 11/2009
"Povo lindo, povo inteligente." Com esse bordão, o poeta Sérgio Vaz se dirige à plateia reunida no bar do Zé Batidão, na periferia de São Paulo. Inquieto e espontâneo, ele é o idealizador da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa), que completa 8 anos este mês. Fruto do turbilhão criativo que o habita e, sobretudo, da ajuda de amigos e de colaboradores, a iniciativa tem um nobre objetivo: "Comungar a cidadania através da literatura e da palavra", como define Sérgio. O pilar central da iniciativa é o sarau que acontece todas as quartas-feiras no bar mais animado do bairro. "Pode chover, ter enchente, jogo do Brasil contra a Argentina, e assim por diante", brinca o agitador cultural, que ironicamente assina como Vira-Lata da Literatura.
"Quantas vezes saí por aí sem rumo e direção. Pedindo o fim da guerra. Para a nossa união", Dante
Um homem apaixonado pela palavra e pela periferia, seu berço e sua musa inspiradora. "Sou um poeta que ama sua comunidade. Nada mais", dispara. Cada encontro atrai uma média de 250 pessoas. Emocionados e concentrados, às vezes espremidos, os poetas e frequentadores mostram que chegou a hora de desfazer a crença de que nas áreas mais afastadas dos centros das grandes cidades não há produção cultural, e sim somente pobreza e violência.
SALIVA E SOLA DE SAPATO
Antes de alcançar meta tão gratificante, Sérgio realizou de tudo um pouco. Trabalhou como auxiliar de escritório, vendedor de videogame, comerciante e assessor parlamentar. Na juventude, se aproximou das canções populares carregadas de inconformismo e contestação, sentimentos que ele conhecia tão bem e o influenciam até os dias de hoje. "Foi como se um raio tivesse caído em minha cabeça e aberto um buraco do tamanho do mundo", escreveu no livro Cooperifa - Antropofagia Periférica (Aeroplano), obra que conta a trajetória da organização.
Em nome da bandeira poética, ele protagonizou também passagens inusitadas, como o episódio batizado de Mendigagem Cultural. Imagine a cena. Vestido com farrapos, o poeta participou clandestinamente da Bienal do Livro, no início dos anos 90, com o intuito de promover seu trabalho. Os exemplares, depositados dentro de um saco de estopa, estavam à venda, o que instigou a curiosidade do público e a desconfiança dos seguranças do evento. Uma mistura de protesto e senso de oportunidade.
"Um beijo no rosto, um coração disposto. Tua boca inquieta como quem espera a hora certa. Sinto o gosto do teu beijo. Te amar é meu desejo", João Santos
Assim, batendo em portas de cinema, teatro, shows e livrarias para vender suas obras (ele já possui cinco títulos publicados) ou apenas para distribuir gratuitamente cartões-postais e marcadores de livros contendo trechos de seus poemas, Sérgio abriu caminho no mundo das letras.
Mas o acolhimento definitivo partiu dos membros da própria comunidade. Às voltas com a ideia de criar um sarau, mas sem teto para receber as pessoas, o poeta contou com a generosa oferta de Zé Batidão, dono do bar que, curiosamente, um dia pertenceu ao pai de Sérgio e onde ele trabalhou por toda a adolescência.
FESTA DA POESIA
"Todas as cores, todas as dores, todas as tribos", como diz o anfitrião, na abertura do encontro, são bem-vindas na roda poética. Os presentes são poetas amadores, funcionários públicos, professores, desempregados, aposentados, donas de casa, advogados, comerciantes, enfermeiras, estudantes, rappers e crianças.
Vozes tímidas, outras emocionadas. Algumas raivosas, indignadas. Cidadãos que encontram ali um espaço de expressão. Os temas variam: justiça social, preconceito, racismo, amor, sexo e política. Antes e depois de encararem o microfone, os participantes são encorajados com aplausos, muitos aplausos. "Aqui se fermentam ideias que antes ficavam guardadas na gaveta", define a professora Lu Souza, que adotou o sarau há cinco anos. Ela mesma recebeu o incentivo dos amigos para soltar o verbo. "Até hoje tremo. É muita emoção. A palavra tem o poder de contagiar as pessoas", confessa.
Já Márcio Batista, professor de educação física e um dos mais antigos membros da trupe, faz questão de recitar seus versos de cor, com a segurança de quem conhece bem o terreno. "No início, cada poeta declamava quatro poemas. Hoje, se a composição for muito longa, temos de pedir para acelerar a leitura", revela rindo. Em média 60 pessoas se apresentam por noite. Algumas datas rendem até celebrações especiais. "Já lançamos aqui mais de 40 livros independentes de poetas que frequentam o sarau", diz Márcio. Ele próprio publicou, no ano passado, a coletânea Meninos do Brasil. "Reuni sete anos de trabalho", conta orgulhoso.
FÁBRICA DE PALAVRAS
O rapper Cocão, integrante do grupo Versão Popular, também é das antigas. Talvez por isso circule entre as mesas cumprimentando conhecidos e desconhecidos com um aperto de mão. "Escrevo de tudo, não tenho limites", resume. "E me sinto realizado por ouvir e ser ouvido", acrescenta. Quem vem de fora sente um clima amistoso no ar, regado a muito respeito pelo que o outro tem a dizer. Talvez esse observador não consiga avaliar o poder transformador que esse trabalho representa. "As pessoas são muito legais e a poesia, para elas, tem uma importância enorme. É uma poesia que, no papel, não convence tanto, mas muito forte nas interpretações feitas nos saraus", afirma Ivan Marques, professor de literatura brasileira da Universidade de São Paulo (USP).
Se por um lado o material produzido pela Cooperifa carece de sofisticação linguística, por outro esbanja poder de fogo. Felizmente, um fogo bem diferente daquele produzido pela pólvora. Pelas quebradas da periferia da zona sul, flui uma chama de vida, criativa e contagiante. Estamos falando da transformação social animada pela arte, moeda valiosíssima num país que, em pleno século 21, amarga as tristes estatísticas do analfabetismo. "Muita gente da comunidade teve seu primeiro contato com o livro no sarau e até voltou a estudar", revela Sérgio.
"Se a cabeça é o que te impede de andar nu, rasgue a cabeça", Rui
Como um pai orgulhoso de sua cria, ele vocifera: "A literatura produzida na periferia pode ter menos crase, vírgula ou coisa assim, mas ainda assim é literatura". Ao disparar frases como essa, o poeta pode soar revolucionário, até mesmo ser confundido com um ativista político. No entanto, nenhum desses rótulos o agrada. "O que a sociedade precisa neste momento é tirar o r da palavra revolução. Primeiro, nós precisamos evoluir, para depois revolucionar", defende. E avisa a quem interessar: "Tem muita coisa boa acontecendo culturalmente na periferia. A Cooperifa é só uma delas".
ATENÇÃO ÀS ATIVIDADES PROMOVIDAS POR ESSA TURMA
- Chuva de livros: distribuição de 500 exemplares à comunidade todo mês de agosto. Sarau nas escolas: realizado às terças-feiras para os jovens.
- Prêmio Cooperifa: entrega de troféus a pessoas e entidades que ajudam a transformar a periferia num lugar melhor.
- Poesia no ar: soltura de balões de gás nos quais são amarrados pedaços de papéis com belas palavras. A entidade também realiza edição de livros, e uma mostra cultural anual que abrange teatro, dança, artes plásticas, literatura, cinema e música. Os conteúdos são produzidos exclusivamente por grupos da periferia. E, para terminar, há o cinema na laje, que ocorre quinzenalmente, às segundas-feiras, com exibições de documentários e filmes alternativos - alguns criados por jovens da região. "A entrada é franca, a pipoca é gratuita e a Lua sincera", divulga Sérgio.
"Povo lindo, povo inteligente." Com esse bordão, o poeta Sérgio Vaz se dirige à plateia reunida no bar do Zé Batidão, na periferia de São Paulo. Inquieto e espontâneo, ele é o idealizador da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa), que completa 8 anos este mês. Fruto do turbilhão criativo que o habita e, sobretudo, da ajuda de amigos e de colaboradores, a iniciativa tem um nobre objetivo: "Comungar a cidadania através da literatura e da palavra", como define Sérgio. O pilar central da iniciativa é o sarau que acontece todas as quartas-feiras no bar mais animado do bairro. "Pode chover, ter enchente, jogo do Brasil contra a Argentina, e assim por diante", brinca o agitador cultural, que ironicamente assina como Vira-Lata da Literatura.
"Quantas vezes saí por aí sem rumo e direção. Pedindo o fim da guerra. Para a nossa união", Dante
Um homem apaixonado pela palavra e pela periferia, seu berço e sua musa inspiradora. "Sou um poeta que ama sua comunidade. Nada mais", dispara. Cada encontro atrai uma média de 250 pessoas. Emocionados e concentrados, às vezes espremidos, os poetas e frequentadores mostram que chegou a hora de desfazer a crença de que nas áreas mais afastadas dos centros das grandes cidades não há produção cultural, e sim somente pobreza e violência.
SALIVA E SOLA DE SAPATO
Antes de alcançar meta tão gratificante, Sérgio realizou de tudo um pouco. Trabalhou como auxiliar de escritório, vendedor de videogame, comerciante e assessor parlamentar. Na juventude, se aproximou das canções populares carregadas de inconformismo e contestação, sentimentos que ele conhecia tão bem e o influenciam até os dias de hoje. "Foi como se um raio tivesse caído em minha cabeça e aberto um buraco do tamanho do mundo", escreveu no livro Cooperifa - Antropofagia Periférica (Aeroplano), obra que conta a trajetória da organização.
Em nome da bandeira poética, ele protagonizou também passagens inusitadas, como o episódio batizado de Mendigagem Cultural. Imagine a cena. Vestido com farrapos, o poeta participou clandestinamente da Bienal do Livro, no início dos anos 90, com o intuito de promover seu trabalho. Os exemplares, depositados dentro de um saco de estopa, estavam à venda, o que instigou a curiosidade do público e a desconfiança dos seguranças do evento. Uma mistura de protesto e senso de oportunidade.
"Um beijo no rosto, um coração disposto. Tua boca inquieta como quem espera a hora certa. Sinto o gosto do teu beijo. Te amar é meu desejo", João Santos
Assim, batendo em portas de cinema, teatro, shows e livrarias para vender suas obras (ele já possui cinco títulos publicados) ou apenas para distribuir gratuitamente cartões-postais e marcadores de livros contendo trechos de seus poemas, Sérgio abriu caminho no mundo das letras.
Mas o acolhimento definitivo partiu dos membros da própria comunidade. Às voltas com a ideia de criar um sarau, mas sem teto para receber as pessoas, o poeta contou com a generosa oferta de Zé Batidão, dono do bar que, curiosamente, um dia pertenceu ao pai de Sérgio e onde ele trabalhou por toda a adolescência.
FESTA DA POESIA
"Todas as cores, todas as dores, todas as tribos", como diz o anfitrião, na abertura do encontro, são bem-vindas na roda poética. Os presentes são poetas amadores, funcionários públicos, professores, desempregados, aposentados, donas de casa, advogados, comerciantes, enfermeiras, estudantes, rappers e crianças.
Vozes tímidas, outras emocionadas. Algumas raivosas, indignadas. Cidadãos que encontram ali um espaço de expressão. Os temas variam: justiça social, preconceito, racismo, amor, sexo e política. Antes e depois de encararem o microfone, os participantes são encorajados com aplausos, muitos aplausos. "Aqui se fermentam ideias que antes ficavam guardadas na gaveta", define a professora Lu Souza, que adotou o sarau há cinco anos. Ela mesma recebeu o incentivo dos amigos para soltar o verbo. "Até hoje tremo. É muita emoção. A palavra tem o poder de contagiar as pessoas", confessa.
Já Márcio Batista, professor de educação física e um dos mais antigos membros da trupe, faz questão de recitar seus versos de cor, com a segurança de quem conhece bem o terreno. "No início, cada poeta declamava quatro poemas. Hoje, se a composição for muito longa, temos de pedir para acelerar a leitura", revela rindo. Em média 60 pessoas se apresentam por noite. Algumas datas rendem até celebrações especiais. "Já lançamos aqui mais de 40 livros independentes de poetas que frequentam o sarau", diz Márcio. Ele próprio publicou, no ano passado, a coletânea Meninos do Brasil. "Reuni sete anos de trabalho", conta orgulhoso.
FÁBRICA DE PALAVRAS
O rapper Cocão, integrante do grupo Versão Popular, também é das antigas. Talvez por isso circule entre as mesas cumprimentando conhecidos e desconhecidos com um aperto de mão. "Escrevo de tudo, não tenho limites", resume. "E me sinto realizado por ouvir e ser ouvido", acrescenta. Quem vem de fora sente um clima amistoso no ar, regado a muito respeito pelo que o outro tem a dizer. Talvez esse observador não consiga avaliar o poder transformador que esse trabalho representa. "As pessoas são muito legais e a poesia, para elas, tem uma importância enorme. É uma poesia que, no papel, não convence tanto, mas muito forte nas interpretações feitas nos saraus", afirma Ivan Marques, professor de literatura brasileira da Universidade de São Paulo (USP).
Se por um lado o material produzido pela Cooperifa carece de sofisticação linguística, por outro esbanja poder de fogo. Felizmente, um fogo bem diferente daquele produzido pela pólvora. Pelas quebradas da periferia da zona sul, flui uma chama de vida, criativa e contagiante. Estamos falando da transformação social animada pela arte, moeda valiosíssima num país que, em pleno século 21, amarga as tristes estatísticas do analfabetismo. "Muita gente da comunidade teve seu primeiro contato com o livro no sarau e até voltou a estudar", revela Sérgio.
"Se a cabeça é o que te impede de andar nu, rasgue a cabeça", Rui
Como um pai orgulhoso de sua cria, ele vocifera: "A literatura produzida na periferia pode ter menos crase, vírgula ou coisa assim, mas ainda assim é literatura". Ao disparar frases como essa, o poeta pode soar revolucionário, até mesmo ser confundido com um ativista político. No entanto, nenhum desses rótulos o agrada. "O que a sociedade precisa neste momento é tirar o r da palavra revolução. Primeiro, nós precisamos evoluir, para depois revolucionar", defende. E avisa a quem interessar: "Tem muita coisa boa acontecendo culturalmente na periferia. A Cooperifa é só uma delas".
ATENÇÃO ÀS ATIVIDADES PROMOVIDAS POR ESSA TURMA
- Chuva de livros: distribuição de 500 exemplares à comunidade todo mês de agosto. Sarau nas escolas: realizado às terças-feiras para os jovens.
- Prêmio Cooperifa: entrega de troféus a pessoas e entidades que ajudam a transformar a periferia num lugar melhor.
- Poesia no ar: soltura de balões de gás nos quais são amarrados pedaços de papéis com belas palavras. A entidade também realiza edição de livros, e uma mostra cultural anual que abrange teatro, dança, artes plásticas, literatura, cinema e música. Os conteúdos são produzidos exclusivamente por grupos da periferia. E, para terminar, há o cinema na laje, que ocorre quinzenalmente, às segundas-feiras, com exibições de documentários e filmes alternativos - alguns criados por jovens da região. "A entrada é franca, a pipoca é gratuita e a Lua sincera", divulga Sérgio.