moda reciclada
Costura do bem
A moda dá um salto quando estilistas estrelados apostam no trabalho com ONGs. Conheça aqui algumas dessas parcerias de sucesso
Daniel Tavares
Revista Elle – 11/2009
Uma calça masculina social vira um short feminino balonê. Um lenço se transforma em um top curtinho. Dois vestidos antigos misturados dão origem a um terceiro, com shape moderno e decote nas costas. Essas foram algumas das transformações que ganharam vida no projeto Moda Reciclada, um laboratório criativo liderado por Alexandre Herchcovitch, que teve como parceiras as costureiras da ONG Florescer, de Paraisópolis, na Região Sul de São Paulo.
O mais divertido foi que as peças que serviram de matéria-prima vieram de doações e todo mundo pôde ver o resultado final do trabalho numa exposição, em outubro, no MorumbiShopping, que sediou o evento. Mesmo as peças que não passaram pela transformação foram aproveitadas. No total, a ONG recebeu quase 3 mil itens, que foram encaminhados para bazares com renda revertida para a própria entidade.
A experiência trouxe ainda outros frutos. Segundo as oito costureiras que trabalharam com Alexandre, a convivência com o estilista foi extremamente produtiva e deve ajudar a grife Recicla Jeans, que nasceu na ONG e tem uma loja própria em São Paulo. "Herchcovitch trouxe muitas ideias e técnicas que não conhecíamos", diz a costureira Iracilda Loiola de Sena, coordenadora do grupo, que cria roupas novas com jeans usados. "Daqui para a frente, as peças ficarão ainda melhores, com um apelo mais fashion", prevê.
Para Herchcovitch, a iniciativa beneficia ambas as partes e faz com que todos melhorem como pessoas e profissionais. Embora seja a primeira vez que ele encampa esse tipo de parceria, a reciclagem aparece com frequência em seu trabalho. "É preciso evitar o desperdício. Por isso, reciclar é uma ótima saída para a moda. Daqui a alguns anos, haverá vários ateliês especializados em transformar as roupas que você não quer", diz Alexandre, que, por sinal, está preparando uma linha de jaquetas com tecidos de bandeiras antigas.
A associação de um nome do cenário fashion e uma comunidade de baixa renda vem se tornando frequente. A pioneira foi a M. Officer, do estilista Carlos Miele. Em 2000, ele apresentou uma coleção feita com a Coopa-Roca, uma ONG sediada na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Funcionou como uma troca. Miele fornecia matéria-prima e maquinário, enquanto elas entravam com a expertise em bordados tipicamente brasileiros.
O grande diferencial dessa relação é que ela continua firme. Até hoje, a Coopa-Roca participa de todas as coleções das grifes de Miele. Normalmente, os projetos não têm essa longevidade e duram apenas algumas estações. "Por mim, nossa história será infinita. Tenho muito orgulho de ver a cooperativa progredindo com independência, mantendo novas parcerias e desenvolvendo suas próprias coleções", diz Miele, que hoje acompanha o processo de viabilização de uma nova sede para a Coopa. O espaço é três vezes maior que o atual e em um endereço de fácil acesso dentro da Rocinha. O terreno, aliás, foi doado à instituição pelo estilista.
Outra dupla formada este ano e que também pretende ter uma relação longa é a da Hering com o Grupo Cultural AfroReggae, cuja base fica no bairro de Vigário Geral, no Rio, onde oferece aula de música e dança, entre outras atividades, para jovens carentes. Desde a coleção de inverno deste ano, a marca está vendendo uma linha criada em conjunto com o grupo cultural. As estampas foram desenvolvidas por Bragga, um designer da comunidade, e uma porcentagem das vendas é revertida para a ONG. "Como a nossa marca tem força nacional, essa iniciativa vai ajudar a divulgar pelo país inteiro o trabalho do AfroReggae", diz Marcos Ribeiro, diretor de marketing da Hering. Em contrapartida, essa linha de roupas mostra a preocupação da marca em apoiar projetos sociais importantes, como vem fazendo com o Câncer de Mama no Alvo da Moda, uma campanha que chegou ao Brasil há 14 anos.
A Osklen, uma marca que já nasceu engajada em questões sociais e também ambientais, fundou em 2007 sua própria ONG, o Instituto-e, que pesquisa tecidos e técnicas sustentáveis e apoia várias iniciativas de cooperativas pelo Brasil. "A cada temporada, procuramos novos parceiros e, ao mesmo tempo, ajudamos a estruturá-los para que consigam seguir com suas próprias pernas. Por isso, optamos por parcerias mais curtas", diz Nina Braga, diretora do Instituto-e. Uma das poucas exceções é a Cooperema, cooperativa de reciclagem de lixo de Marambaia, em São Gonçalo, Rio de Janeiro, que fabrica as ecobags da Osklen há três anos.
Em Brasília, quem se destaca no cenário fashion com preocupações sociais é a Apoena, que começou uma década atrás como uma ONG para capacitar mulheres a fazer trabalhos de corte e costura. Cinco anos mais tarde, o trabalho evoluiu a ponto de virar uma grife, que já faz parte do line-up do Fashion Rio, tem uma loja própria no Distrito Federal e vende para multimarcas de todo o país. Lideradas pela diretora de estilo Kátia Ferreira, 250 mulheres estão envolvidas na confecção das peças e mais de 600 fazem trabalhos esporádicos. "Umas das coisas mais interessantes é que várias comunidades, de diversas cidades satélites da região, participam", diz Kátia.
Na prática, uma peça de roupa acaba passando por muitos lugares, pois cada núcleo é especializado num tipo de bordado ou costura, o que resulta em um mix de referências do artesanato brasileiro. Exemplos como esses, que ligam uma grife ou estilista estrelado a instituições não governamentais e comunidades de baixa renda, não faltam. Reciclagem, tecidos e técnicas sustentáveis, moda com preocupação social e ambiental: pelo jeito, essas são tendências que vão permanecer entre os hits de qualquer temporada. Fique de olho e inspire-se nessas boas ideias!
Uma calça masculina social vira um short feminino balonê. Um lenço se transforma em um top curtinho. Dois vestidos antigos misturados dão origem a um terceiro, com shape moderno e decote nas costas. Essas foram algumas das transformações que ganharam vida no projeto Moda Reciclada, um laboratório criativo liderado por Alexandre Herchcovitch, que teve como parceiras as costureiras da ONG Florescer, de Paraisópolis, na Região Sul de São Paulo.
O mais divertido foi que as peças que serviram de matéria-prima vieram de doações e todo mundo pôde ver o resultado final do trabalho numa exposição, em outubro, no MorumbiShopping, que sediou o evento. Mesmo as peças que não passaram pela transformação foram aproveitadas. No total, a ONG recebeu quase 3 mil itens, que foram encaminhados para bazares com renda revertida para a própria entidade.
A experiência trouxe ainda outros frutos. Segundo as oito costureiras que trabalharam com Alexandre, a convivência com o estilista foi extremamente produtiva e deve ajudar a grife Recicla Jeans, que nasceu na ONG e tem uma loja própria em São Paulo. "Herchcovitch trouxe muitas ideias e técnicas que não conhecíamos", diz a costureira Iracilda Loiola de Sena, coordenadora do grupo, que cria roupas novas com jeans usados. "Daqui para a frente, as peças ficarão ainda melhores, com um apelo mais fashion", prevê.
Para Herchcovitch, a iniciativa beneficia ambas as partes e faz com que todos melhorem como pessoas e profissionais. Embora seja a primeira vez que ele encampa esse tipo de parceria, a reciclagem aparece com frequência em seu trabalho. "É preciso evitar o desperdício. Por isso, reciclar é uma ótima saída para a moda. Daqui a alguns anos, haverá vários ateliês especializados em transformar as roupas que você não quer", diz Alexandre, que, por sinal, está preparando uma linha de jaquetas com tecidos de bandeiras antigas.
A associação de um nome do cenário fashion e uma comunidade de baixa renda vem se tornando frequente. A pioneira foi a M. Officer, do estilista Carlos Miele. Em 2000, ele apresentou uma coleção feita com a Coopa-Roca, uma ONG sediada na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Funcionou como uma troca. Miele fornecia matéria-prima e maquinário, enquanto elas entravam com a expertise em bordados tipicamente brasileiros.
O grande diferencial dessa relação é que ela continua firme. Até hoje, a Coopa-Roca participa de todas as coleções das grifes de Miele. Normalmente, os projetos não têm essa longevidade e duram apenas algumas estações. "Por mim, nossa história será infinita. Tenho muito orgulho de ver a cooperativa progredindo com independência, mantendo novas parcerias e desenvolvendo suas próprias coleções", diz Miele, que hoje acompanha o processo de viabilização de uma nova sede para a Coopa. O espaço é três vezes maior que o atual e em um endereço de fácil acesso dentro da Rocinha. O terreno, aliás, foi doado à instituição pelo estilista.
Outra dupla formada este ano e que também pretende ter uma relação longa é a da Hering com o Grupo Cultural AfroReggae, cuja base fica no bairro de Vigário Geral, no Rio, onde oferece aula de música e dança, entre outras atividades, para jovens carentes. Desde a coleção de inverno deste ano, a marca está vendendo uma linha criada em conjunto com o grupo cultural. As estampas foram desenvolvidas por Bragga, um designer da comunidade, e uma porcentagem das vendas é revertida para a ONG. "Como a nossa marca tem força nacional, essa iniciativa vai ajudar a divulgar pelo país inteiro o trabalho do AfroReggae", diz Marcos Ribeiro, diretor de marketing da Hering. Em contrapartida, essa linha de roupas mostra a preocupação da marca em apoiar projetos sociais importantes, como vem fazendo com o Câncer de Mama no Alvo da Moda, uma campanha que chegou ao Brasil há 14 anos.
A Osklen, uma marca que já nasceu engajada em questões sociais e também ambientais, fundou em 2007 sua própria ONG, o Instituto-e, que pesquisa tecidos e técnicas sustentáveis e apoia várias iniciativas de cooperativas pelo Brasil. "A cada temporada, procuramos novos parceiros e, ao mesmo tempo, ajudamos a estruturá-los para que consigam seguir com suas próprias pernas. Por isso, optamos por parcerias mais curtas", diz Nina Braga, diretora do Instituto-e. Uma das poucas exceções é a Cooperema, cooperativa de reciclagem de lixo de Marambaia, em São Gonçalo, Rio de Janeiro, que fabrica as ecobags da Osklen há três anos.
Em Brasília, quem se destaca no cenário fashion com preocupações sociais é a Apoena, que começou uma década atrás como uma ONG para capacitar mulheres a fazer trabalhos de corte e costura. Cinco anos mais tarde, o trabalho evoluiu a ponto de virar uma grife, que já faz parte do line-up do Fashion Rio, tem uma loja própria no Distrito Federal e vende para multimarcas de todo o país. Lideradas pela diretora de estilo Kátia Ferreira, 250 mulheres estão envolvidas na confecção das peças e mais de 600 fazem trabalhos esporádicos. "Umas das coisas mais interessantes é que várias comunidades, de diversas cidades satélites da região, participam", diz Kátia.
Na prática, uma peça de roupa acaba passando por muitos lugares, pois cada núcleo é especializado num tipo de bordado ou costura, o que resulta em um mix de referências do artesanato brasileiro. Exemplos como esses, que ligam uma grife ou estilista estrelado a instituições não governamentais e comunidades de baixa renda, não faltam. Reciclagem, tecidos e técnicas sustentáveis, moda com preocupação social e ambiental: pelo jeito, essas são tendências que vão permanecer entre os hits de qualquer temporada. Fique de olho e inspire-se nessas boas ideias!