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As seis perfeições do budismo
Praticar a generosidade, a disciplina ética, a paciência, a sabedoria, o esforço entusiástico e a concentração levam a um estado de bem-estar e felicidade plenos. Saiba como trazê-las para seu dia a dia e ter mais qualidade de vida
Melissa Diniz
Revista Bons Fluidos – 11/2009
Imagine como seria se cada um de nós, ao nascer, recebesse um roteiro para encontrar a tão sonhada felicidade. Nesse tal código de conduta não estaria o nome de seu par perfeito nem a profissão que você deveria seguir para ter sucesso, mas algumas atitudes capazes de afastá-la da tristeza e da dor, levando-a a um estágio de bem-estar pleno. Pois, para os praticantes do budismo, esse roteiro existe e está expresso nas seis perfeições descritas por Buda e seus discípulos.
A palavra perfeição, ou paramita (em tibetano), tem como tradução literal a expressão “ir além”, ou “atravessar para a outra margem”. Segundo os preceitos do budismo, essa “travessia” é o caminho mais eficiente para quem busca se libertar de emoções perturbadoras – como a raiva, o medo e a depressão – e quer viver com mais alegria, paz e prosperidade. Na realidade, o termo perfeição, nesse contexto, é usado para simbolizar seis virtudes: generosidade, disciplina ética, paciência, esforço entusiástico, concentração e sabedoria, que juntas configuram um estilo de vida baseado na compaixão.
Isso porque, no budismo, o outro vem sempre em primeiro lugar e seu contentamento funciona como uma espécie de termômetro para sabermos se estamos na trilha certa para obter nossa própria satisfação. Para divulgar essa profunda filosofia, diversos representantes e divulgadores do budismo no Brasil se reuniram na Livraria da Vila, em São Paulo, por ocasião do lançamento do livro As Seis Perfeições – Como Atingir o Bem-Estar Supremo (WMF Martins Fontes), do mestre Geshe Sonam Rinchen.
Na obra, o autor – que é professor de filosofia budista em Dharamsala, cidade indiana onde vivem o dalai-lama e as principais autoridades tibetanas condenadas ao exílio – comenta as vantagens de incorporarmos essas virtudes ao nosso dia a dia. “Ao respeitarmos o outro, por meio da prática das seis perfeições, somos capazes de alcançar o que mais desejamos”, diz. Ao que acrescenta a monja Coen, fundadora da Comunidade Zen Budista de São Paulo: “Quem pega só para si não percebe que faz parte de um todo e que beneficiando os outros também será beneficiado”.
APLICAÇÃO E DISCIPLINA
De acordo com Rinchen, enquanto a prática da generosidade, da disciplina ética e da paciência é direcionada ao benefício dos outros, a concentração e a sabedoria são importantes para o desenvolvimento pessoal. Já o esforço entusiástico é necessário em ambos os casos. Mesmo com o roteiro de Buda em mãos, alcançar o bem estar pleno exige dedicação.
Rinchen afirma que somente com a prática constante e diária, mesmo nas situações mais simples da vida, é possível desenvolver essas virtudes. Essa é também a opinião da lama Tsering Everest, coordenadora do centro de budismo tibetano Odsal Ling, em São Paulo: “A mudança de hábitos somente é alcançada com a prática. Você pode usar as seis perfeições no ato de ouvir, ao arrumar a cama ou ao servir uma xícara de chá, mas o principal é saber que tudo o que fazemos deve ter como base não o eu, mas o todo”. Dadas as explicações, está na hora de saber como as seis perfeições podem ajudá-la a ser plena e equilibrada. Conheça um pouco mais sobre cada uma delas a seguir.
GENEROSIDADE
Uma das principais práticas da filosofia budista, é também sinônimo de doação. Mais do que abrir mão dos bens materiais e de consumo, ela implica disposição para dar algo ao outro de maneira espontânea e de boa vontade. O primeiro passo para você alcançá-la em plenitude é superar o apego. “Pensar na transitoriedade das coisas, inclusive do corpo, diminui nossa ligação excessiva a tudo que nos rodeia. Dê o possível agora e deseje intensamente ser capaz de se desapegar daquilo de que é mais difícil renunciar”, aconselha Geshe Sonam Rinchen.
O exercício de tal atitude e a compreensão da transitoriedade das coisas evitam que soframos exageradamente na ausência de objetos, pessoas ou posses que consideramos importantes. Ele recomenda: “Não adie uma ação generosa. Aproveite cada oportunidade que surgir na vida, pois possuir muito é inútil e, quanto maior a doação, mais recursos virão em nossa direção”. Do ponto de vista do budismo, o excesso de bens materiais, além de não trazer a real felicidade para a vida, gera concentração de riqueza de um lado e miséria do outro. Já a divisão dos recursos é capaz de criar prosperidade para todos. Vale lembrar mais uma vez que a generosidade só tem valor quando é sincera, feita com alegria e sem esperar nada em troca.
DISCIPLINA ÉTICA
Formado pela junção de duas qualidades igualmente importantes e profundas, esse preceito se manifesta de três maneiras diferentes: a coibição do mal, a criação da virtude e o trabalho voluntário pelo próximo. Para o budismo, o mal se expressa por meio de toda attitude física e verbal que possa prejudicar os outros e a nós mesmas. Por isso, um dos papéis da disciplina ética é justamente evitar a impulsividade, o arrependimento e levar à consciência plena das palavras e dos atos diários. “O primeiro passo para ter essa virtude é reconhecer e admitir os pensamentos e ações faltosos como tais”, diz Rinchen. Depois vem a necessidade de transformar suas atitudes: “Você está fazendo o que sempre fez, não é de surpreender que as coisas estejam na mesma. Se quiser queelas sejam diferentes, terá de mudar de hábitos”, orienta.
“O ser humano deveria buscar a sabedoria em sua vida tanto quanto procura o alimento”, Enio Burgos, especialista em meditação
PACIÊNCIA
Mais do que a simples calma, a paciência representa a capacidade de permanecer com a mente serena em qualquer situação, aceitando voluntariamente as adversidades e confiando que, aconteça o que acontecer, será para seu bem. Ela seria, em linhas gerais, uma compilação da tolerância, da resignação e da fé. Mas é preciso, entretanto, diferenciar a paciência da supressão da raiva, alerta Rinchen. “Quando a raiva simplesmente submerge, persiste como ressentimento, e a paz e a harmonia não são possíveis enquanto houver mágoa”, diz.
A paciência seria então o contrário da raiva, a possibilidade de perceber as dificuldades e defeitos dos outros e de compreendê- los, sem julgar, criticar ou condenar. Algo que não é fácil, é claro, mas que pode ser conquistado pouco a pouco. Outro alicerce dessa virtude é a esperança. “Assim como o dia é seguido pela noite e a noite pelo dia, bons e maus períodos se sucedem. Quando houver maus períodos, tome coragem e pense que o sofrimento não durará para sempre”, sugere.
SABEDORIA
Raiz de todas as qualidades, essa é uma virtude importante para a prática de todas as outras. Sem ela, a generosidade, a disciplina ética, a paciência, o esforço entusiástico e a concentração se tornam cegos. Para Rinchen, é ela que faz com que cada virtude se torne mais forte. Até mesmo para ser generoso, é preciso ser sábio, dizem os especialistas. “O inferno está cheio de boas intenções, por isso é importante sabermos quem e como ajudar para não acabarmos prejudicando quem recebe”, explica Enio Burgos, fundador da Associação Meditar, em São Paulo.
"A melhor maneira de combater sentimentos como o medo e a ansiedade é se esforçar para manter a atenção no aqui e agora, vivenciando cada momento por vez, sem perder o foco, haja o que houver", Geshe Sonam Rinchem, mestre budista
O simples ato de dar dinheiro a uma criança de rua, por exemplo, pode parecer uma boa ação, mas corre o risco de contribuir para o mal, caso ele seja usado para a compra de drogas. Essa visão mais abrangente das causas e consequências de nossos atos é a sabedoria, virtude que pode ser adquirida com estudo, observação da realidade e fortalecimento de um olhar mais profundo sobre a existência humana.
Buda disse: “Muitos problemas do mundo têm raiz na ignorância”. Na visão budista, negar que não fazer o bem aos outros nos prejudica explica, em parte, o caos que vivemos. O inverso também é verdadeiro: o bem que fazemos volta para nós. “Se percebêssemos a vida como uma oportunidade de nos tornarmos pessoas melhores e enxergássemos no outro um igual, não haveria tanto sofrimento”, diz Burgos.
CONCENTRAÇÃO
Você tem o hábito de fazer mil coisas ao mesmo tempo e de estar sempre preocupada com problemas que ainda não aconteceram? Para o budismo, esse comportamento demonstra que sua mente não está tranquila, pois foi dominada pelo medo e pela ansiedade, emoções contrárias à felicidad