liderança climática
Brasil: líder no combate ao aquecimento global?
Para Jim Garrison, presidente da ONG State of the World Forum, que procura criar uma rede internacional de líderes para a sustentabilidade, este é o momento de cada indivíduo se tornar um líder climático contra o aquecimento global e aponta o Brasil como o país que deve comandar essa corrente. A ONG defende que todas as nações cortem carbono em 80% até 2020, caso contrário, enfrentaremos o colapso da civilização humana
Thays Prado - Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável - 14/09/2009
Jim Garrison é o presidente da SWF – State of the World Forum, instituição sem fins lucrativos para a construção de uma rede internacional de líderes dedicados a criar uma civilização mais sustentável. No mês passado, a SWF lançou, no Brasil, a Campanha para Liderança Climática 2020 (veja post 2020: o dead line da humanidade e reportagem Brasil 2020 quer reduzir emissões em 80%), cuja causa é a redução em 80% das emissões globais de carbono – em relação aos índices de 2006 – até o ano de 2020.
Durante o lançamento da campanha, que reuniu cerca de 250 cientistas e especialistas no tema das mudanças climáticas, em Belo Horizonte, Garrison conversou com o Planeta Sustentável e afirmou que a luta contra o aquecimento global é apenas um caminho para um processo transformador bem maior. Pare ele, é urgente e fundamental que haja o entendimento de que “viemos da Terra, pertencemos a ela e a ela retornaremos”. Por isso, nossos sistemas político, econômico, cultural, educacional, enfim, todas as instâncias de nossas vidas precisam se alinhar com os sistemas naturais do planeta.
A proposta da State of the World Fórum de cortar emissões em 80%, em relação às taxas de 2006, até o ano de 2020 é realmente viável?
Sim. E já temos tecnologias disponíveis para isso. Não estamos enfrentando uma crise climática por falta de soluções, mas porque não estamos implementando as soluções que já foram desenvolvidas. Nós sabemos o que fazer, só não estamos fazendo.
Por quê?
Acredito que ainda estamos muito viciados em nosso estilo de vida. Cerca de 80% da nossa economia é baseada em petróleo. Estamos agindo da mesma maneira desde a origem dos seres humanos: usamos os recursos naturais de um local e depois nos mudamos para outro, como se a Terra fosse ilimitada. E isso é verdadeiro tanto para os donos das indústrias que negociam em Wall Street quanto para os povos indígenas da Amazônia. Não sabemos sobre limites, poucas pessoas compreendem a sabedoria de ter limites. Estamos chegando ao extremo do modo como vivemos e teremos que redefinir nossa relação com o planeta.
Que tipo de risco corremos se essa meta de redução não for alcançada?
A civilização humana que foi construída com base em um sistema climático estável pode ser inteiramente destruída se não pararmos o aquecimento global já. As calotas polares e geleiras de montanhas de todo o mundo estão derretendo, a produção de comida está entrando em colapso, o número de eventos extremos já é quatro vezes maior nos últimos 25 anos e o nível do mar está começando a subir. Se não fizermos nada nos próximos dez anos, vamos ver um aumento radical de temperatura entre 4 e 6 º C. Com isso, os oceanos devem subir 25 metros! Além disso, 85% da Amazônia se transformará em savana e o Brasil deixará de existir como uma nação viável. Hoje, 90% da população brasileira vivem a até 100 quilômetros da costa.
Se o oceano subir 5 metros, a costa inteira do Brasil desaparecerá, e essas pessoas serão forçadas a ir para o interior. E o que elas encontrarão por lá? O oeste do Brasil basicamente desertificado. Para onde irão esses milhões de brasileiros? Para a América do Norte! Onde se depararão com Nova York, Boston e a maior parte da Flórida e do Texas debaixo d’água. A região oeste dos Estados Unidos também estará transformada em deserto.
Dá para lutar contra esse cenário ao mesmo tempo em que enfrentamos uma crise financeira?
Há quinze anos, o comunismo entrou em colapso porque não era economicamente realista, agora, o capitalismo entra em colapso por não ser ecologicamente realista. Nós mantivemos o capitalismo na base do livre mercado e do crescimento a qualquer preço, com a exploração do meio ambiente e das pessoas das formas mais baixas possíveis para maximizar os lucros. O aquecimento global e a crise das mudanças climáticas representam a crise de todo um sistema de crenças, de toda uma ideologia econômica que não serve mais nem para os ricos, porque a riqueza está sendo destruída.
Primeiro precisamos conservar energia, e vamos economizar muito dinheiro com isso. Depois, podemos criar oportunidades extraordinárias. Dá para imaginar o que pode acontecer com a economia se começarmos a substituir os combustíveis fósseis por tecnologias limpas, como a solar, eólica, hidrelétrica, e implementarmos todas as inovações técnicas para aumentar a eficiência energética? Ou quando começarmos a reciclar tudo e economizar muito do que se tornaria resíduo? Imagine quanto dinheiro pode vir disso! Pode imaginar quantos empregos verdes serão gerados?
Quem deve começar a fazer esse corte drástico de emissões proposto pela SWF?
Estamos falando do colapso de uma civilização inteira e nos encontramos no extremo de um precipício. Isso significa que cada um de nós deve se tornar um líder climático. Pela primeira vez na história, cada um deve assumir uma responsabilidade individual pelo clima. Cada indivíduo, família, comunidade, estado, país, somos todos responsáveis pelo aquecimento global.
Por que o SWF escolheu o Brasil para começar essa campanha pela redução de emissões?
O caminho para o Brasil se tornar um líder mundial em termos climáticos é mais fácil do que para qualquer outro país no mundo. Seu sistema de energia é muito dinâmico, vocês já estão produzindo 52% da energia com fontes renováveis e usam etanol para dirigir seus carros. A maior parte das emissões de gases de efeito estufa não vem da produção de carbono, mas do corte da Amazônia. E vocês não precisam cortar a Amazônia, só fazem porque querem! O Brasil tem a maior área livre do mundo, 40% das terras fora da floresta não estão sendo usadas. Vocês podem reduzir suas emissões sem sequer mudar seu estilo de vida. Os Estados Unidos são viciados em petróleo. Para reduzirem suas emissões de carbono em 80% até 2020, têm que mudar tudo e o Brasil só precisa parar de cortar umas árvores (risos).
Outra coisa, precisamos de um país que esteja em paz com seus vizinhos – sabe o quanto isso é raro? E que seja grande e forte em recursos naturais e tenha uma população que se pareça com o restante do mundo. O Brasil é um país que lida com todas as contradições que outras nações também enfrentam, e ainda sabe dançar nas ruas e celebrar, e está em harmonia consigo mesmo. O Brasil é um grande país, com uma bela cultura, e tem o destino de ser o líder mundial em mudanças climáticas. Isso não vai demorar. Se assumir a liderança na direção da sustentabilidade verdadeira, o mundo se juntará ao Brasil. Este é o momento de vocês.
Jim Garrison é o presidente da SWF – State of the World Forum, instituição sem fins lucrativos para a construção de uma rede internacional de líderes dedicados a criar uma civilização mais sustentável. No mês passado, a SWF lançou, no Brasil, a Campanha para Liderança Climática 2020 (veja post 2020: o dead line da humanidade e reportagem Brasil 2020 quer reduzir emissões em 80%), cuja causa é a redução em 80% das emissões globais de carbono – em relação aos índices de 2006 – até o ano de 2020.
Durante o lançamento da campanha, que reuniu cerca de 250 cientistas e especialistas no tema das mudanças climáticas, em Belo Horizonte, Garrison conversou com o Planeta Sustentável e afirmou que a luta contra o aquecimento global é apenas um caminho para um processo transformador bem maior. Pare ele, é urgente e fundamental que haja o entendimento de que “viemos da Terra, pertencemos a ela e a ela retornaremos”. Por isso, nossos sistemas político, econômico, cultural, educacional, enfim, todas as instâncias de nossas vidas precisam se alinhar com os sistemas naturais do planeta.
A proposta da State of the World Fórum de cortar emissões em 80%, em relação às taxas de 2006, até o ano de 2020 é realmente viável?
Sim. E já temos tecnologias disponíveis para isso. Não estamos enfrentando uma crise climática por falta de soluções, mas porque não estamos implementando as soluções que já foram desenvolvidas. Nós sabemos o que fazer, só não estamos fazendo.
Por quê?
Acredito que ainda estamos muito viciados em nosso estilo de vida. Cerca de 80% da nossa economia é baseada em petróleo. Estamos agindo da mesma maneira desde a origem dos seres humanos: usamos os recursos naturais de um local e depois nos mudamos para outro, como se a Terra fosse ilimitada. E isso é verdadeiro tanto para os donos das indústrias que negociam em Wall Street quanto para os povos indígenas da Amazônia. Não sabemos sobre limites, poucas pessoas compreendem a sabedoria de ter limites. Estamos chegando ao extremo do modo como vivemos e teremos que redefinir nossa relação com o planeta.
Que tipo de risco corremos se essa meta de redução não for alcançada?
A civilização humana que foi construída com base em um sistema climático estável pode ser inteiramente destruída se não pararmos o aquecimento global já. As calotas polares e geleiras de montanhas de todo o mundo estão derretendo, a produção de comida está entrando em colapso, o número de eventos extremos já é quatro vezes maior nos últimos 25 anos e o nível do mar está começando a subir. Se não fizermos nada nos próximos dez anos, vamos ver um aumento radical de temperatura entre 4 e 6 º C. Com isso, os oceanos devem subir 25 metros! Além disso, 85% da Amazônia se transformará em savana e o Brasil deixará de existir como uma nação viável. Hoje, 90% da população brasileira vivem a até 100 quilômetros da costa.
Se o oceano subir 5 metros, a costa inteira do Brasil desaparecerá, e essas pessoas serão forçadas a ir para o interior. E o que elas encontrarão por lá? O oeste do Brasil basicamente desertificado. Para onde irão esses milhões de brasileiros? Para a América do Norte! Onde se depararão com Nova York, Boston e a maior parte da Flórida e do Texas debaixo d’água. A região oeste dos Estados Unidos também estará transformada em deserto.
Dá para lutar contra esse cenário ao mesmo tempo em que enfrentamos uma crise financeira?
Há quinze anos, o comunismo entrou em colapso porque não era economicamente realista, agora, o capitalismo entra em colapso por não ser ecologicamente realista. Nós mantivemos o capitalismo na base do livre mercado e do crescimento a qualquer preço, com a exploração do meio ambiente e das pessoas das formas mais baixas possíveis para maximizar os lucros. O aquecimento global e a crise das mudanças climáticas representam a crise de todo um sistema de crenças, de toda uma ideologia econômica que não serve mais nem para os ricos, porque a riqueza está sendo destruída.
Primeiro precisamos conservar energia, e vamos economizar muito dinheiro com isso. Depois, podemos criar oportunidades extraordinárias. Dá para imaginar o que pode acontecer com a economia se começarmos a substituir os combustíveis fósseis por tecnologias limpas, como a solar, eólica, hidrelétrica, e implementarmos todas as inovações técnicas para aumentar a eficiência energética? Ou quando começarmos a reciclar tudo e economizar muito do que se tornaria resíduo? Imagine quanto dinheiro pode vir disso! Pode imaginar quantos empregos verdes serão gerados?
Quem deve começar a fazer esse corte drástico de emissões proposto pela SWF?
Estamos falando do colapso de uma civilização inteira e nos encontramos no extremo de um precipício. Isso significa que cada um de nós deve se tornar um líder climático. Pela primeira vez na história, cada um deve assumir uma responsabilidade individual pelo clima. Cada indivíduo, família, comunidade, estado, país, somos todos responsáveis pelo aquecimento global.
Por que o SWF escolheu o Brasil para começar essa campanha pela redução de emissões?
O caminho para o Brasil se tornar um líder mundial em termos climáticos é mais fácil do que para qualquer outro país no mundo. Seu sistema de energia é muito dinâmico, vocês já estão produzindo 52% da energia com fontes renováveis e usam etanol para dirigir seus carros. A maior parte das emissões de gases de efeito estufa não vem da produção de carbono, mas do corte da Amazônia. E vocês não precisam cortar a Amazônia, só fazem porque querem! O Brasil tem a maior área livre do mundo, 40% das terras fora da floresta não estão sendo usadas. Vocês podem reduzir suas emissões sem sequer mudar seu estilo de vida. Os Estados Unidos são viciados em petróleo. Para reduzirem suas emissões de carbono em 80% até 2020, têm que mudar tudo e o Brasil só precisa parar de cortar umas árvores (risos).
Outra coisa, precisamos de um país que esteja em paz com seus vizinhos – sabe o quanto isso é raro? E que seja grande e forte em recursos naturais e tenha uma população que se pareça com o restante do mundo. O Brasil é um país que lida com todas as contradições que outras nações também enfrentam, e ainda sabe dançar nas ruas e celebrar, e está em harmonia consigo mesmo. O Brasil é um grande país, com uma bela cultura, e tem o destino de ser o líder mundial em mudanças climáticas. Isso não vai demorar. Se assumir a liderança na direção da sustentabilidade verdadeira, o mundo se juntará ao Brasil. Este é o momento de vocês.