consumo consciente
Produzir e comprar em função do carbono
Dependendo do que for acordado em Copenhague, na 15ª Conferência das Partes, as cadeias produtivas deverão se tornar mais responsáveis, impactando menos o meio ambiente e reduzindo suas emissões de carbono. Até porque, é bem possível que os produtos sejam taxados em função da quantidade de gases de efeito estufa que emitem em toda a cadeia de valor. O consumidor será o responsável por fazer que isso realmente aconteça, por meio do seu poder de escolha
Thays Prado - Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável - 30/09/2009
Um mundo que se preocupa com suas emissões de carbono precisa repensar hábitos de consumo e estilos de vida. Se os países tiverem, de fato, que reduzir a quantidade de gases de efeito estufa que emitem – e é isso o desejável para o acordo climático que deve ser fechado em Copenhague, no final do ano, durante a COP-15 – certamente, toda a população vai precisar prestar atenção à cadeia produtiva de cada um dos itens que consome.
Para se ter uma ideia, uma pesquisa realizada pelo Movimento Nossa São Paulo no ano passado (leia a reportagem: “Evento diz quem tem responsabilidade sobre a floresta") mostra que a cidade de São Paulo, por meio do consumo de carne e madeira, é a maior responsável pelo desmatamento da Amazônia.
Também é bom lembrar que, este ano, o Greenpeace denunciou a ilegalidade da cadeia produtiva da carne brasileira, que vinha de áreas de desmatamento ilegal na floresta amazônica (Leia o post: Greenpeace denuncia a “farra do boi”). Empresas estrangeiras e nacionais boicotaram os frigoríficos denunciados até que eles se comprometessem a não comprar mais gado criado na região.
Saber a origem e o tipo de prática dos fornecedores de matérias-primas de cada produto que levamos para casa será um hábito cada vez mais comum entre os consumidores conscientes. A professora e pesquisadora em sustentabilidade do Insper, Priscila Claro, diz que será preciso haver uma mudança radical no consumo de produtos florestais, já que a maior parte das emissões brasileiras vem do desmatamento. “Resta saber se o consumidor na ponta da cadeia está disposto a pagar mais por um produto florestal legal”.
“Temos inteligência para evoluir para sistemas que permitam um consumo razoável sem destruir o planeta”, garante o economista Ladislau Dowbor. Para acelerar essa tendência, é possível que os produtos sejam taxados de acordo com a quantidade de carbono que emitem. O custo, provavelmente, será repassado aos consumidores finais. A notícia não é ruim, já que, atualmente os produtos que emitem mais gases de efeito estufa, em função de práticas irresponsáveis, acabam sendo mais baratos, já que não respeitam certas normas e leis. Além disso, as indústrias deverão se adequar para emitirem menos carbono e, portanto, serem mais competitivas no mercado.
Os produtos orgânicos também devem receber incentivos, pois evitam o uso de fertilizantes, que são outra fonte de emissões de gases de efeito estufa. “Isso muda o dia-a-dia do agricultor, que deve se adaptar, utilizando técnicas agrícolas como o plantio direto e a convivência das plantações com a pecuária, enfim, serão pequenas adaptações no setor produtivo que vão afetar toda a economia”, explica o representante do Greenpeace, João Talochi.
Também é bem provável que, ao chegarmos aos supermercados e lojas, comecemos a notar diferença nas embalagens. Na verdade, muitas delas já se modificaram bastante. “Vistas como um complemento de marketing, elas agora começam a ser pensadas em função do impacto ambiental que causam”, observa Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos.
Ele lembra que, em São Paulo, já existe a lei municipal 13316 que obriga as empresas a se responsabilizarem por 50% das embalagens pós-consumo. “Isso faz com que as organizações repensem sua logística e realizem a coleta e o reuso de embalagens, o que significa redução de custos e de lixo”.
A tendência é que os invólucros sejam cada vez mais biodegradáveis, percam um pouco o glamour e ganhem eficiência ambiental. “Não é difícil imaginar que, daqui a pouco, as pessoas vão levar vasilhames ao supermercado para comprar suco, refrigerante e água, por exemplo”, vislumbra Young.
Mesmo os bens duráveis devem se tornar ambientalmente mais eficientes. Um dos exemplos é a polêmica iniciativa do governo federal de trocar as geladeiras das pessoas de baixa renda para economizar energia e evitar a emissão de CFC, prejudicial à camada de ozônio. Os milhões de geladeiras velhas seriam coletadas e utilizadas na indústria para reaproveitamento de matérias-primas.
Os resíduos do que consumimos também deverão ser descartados de maneira cada vez mais responsável. Ricardo Young diz que, atualmente, tecnologias de fusão de resíduos a plasma são capazes de gerar energia elétrica e térmica e tornar o material descartado útil para a construção civil. Ele também acredita que a compostagem de materiais orgânicos tende a se tornar comum nos domicílios e já se cogita, inclusive, a possibilidade da coleta de rejeitos orgânicos para uma compostagem urbana. Esse simples fato é capaz de alterar a maneira como as donas de casa, os empregados domésticos, bares, restaurantes e até escolas operam suas cozinhas e descartam seu lixo.
Dowbor ainda prevê que as cadeias produtivas sejam encurtadas nos próximos anos. Em vez de consumir produtos importados, que foram trazidos ao país em navios ou aviões, grandes emissores de CO2, poderemos incentivar as produções de pequenas comunidades carentes próximas e o comércio local. “Se a carne brasileira sai mais barata nos Estados Unidos ou na China, mas gera desmatamento na Amazônia, isso não vai interessar a ninguém”, garante o economista. João Talochi diz também que é bem possível que países com metas obrigatórias de redução de emissões taxem produtos estrangeiros de países que não assumam qualquer tipo de compromisso em Copenhague, como forma de equilibrar a competitividade.
Ladislau Dowbor ainda acredita que o processo de produção também vai passar por alterações, tornando-se mais circular. Quer dizer que, em espaços muito próximos poderemos encontrar, por exemplo, uma plantação de algodão, uma fábrica de fiação de tecidos, outra que produza óleo a partir da semente do algodão e uma terceira que utilize os resíduos das sementes como fertilizantes. “São sistemas circulares em que o rejeito de uma produção é o insumo da outra. Isso é usar nossos recursos com racionalidade”.
Leia também:
COP-15: o que pode mudar na sua vida
Novos meios de transporte para reduzir emissões
Mais energia limpa, menos carbono
Dinheiro para quem não cortar árvores
O dilema dos pobres na redução de emissões
Um novo ideal para as gerações atuais
Um mundo que se preocupa com suas emissões de carbono precisa repensar hábitos de consumo e estilos de vida. Se os países tiverem, de fato, que reduzir a quantidade de gases de efeito estufa que emitem – e é isso o desejável para o acordo climático que deve ser fechado em Copenhague, no final do ano, durante a COP-15 – certamente, toda a população vai precisar prestar atenção à cadeia produtiva de cada um dos itens que consome.
Para se ter uma ideia, uma pesquisa realizada pelo Movimento Nossa São Paulo no ano passado (leia a reportagem: “Evento diz quem tem responsabilidade sobre a floresta") mostra que a cidade de São Paulo, por meio do consumo de carne e madeira, é a maior responsável pelo desmatamento da Amazônia.
Também é bom lembrar que, este ano, o Greenpeace denunciou a ilegalidade da cadeia produtiva da carne brasileira, que vinha de áreas de desmatamento ilegal na floresta amazônica (Leia o post: Greenpeace denuncia a “farra do boi”). Empresas estrangeiras e nacionais boicotaram os frigoríficos denunciados até que eles se comprometessem a não comprar mais gado criado na região.
Saber a origem e o tipo de prática dos fornecedores de matérias-primas de cada produto que levamos para casa será um hábito cada vez mais comum entre os consumidores conscientes. A professora e pesquisadora em sustentabilidade do Insper, Priscila Claro, diz que será preciso haver uma mudança radical no consumo de produtos florestais, já que a maior parte das emissões brasileiras vem do desmatamento. “Resta saber se o consumidor na ponta da cadeia está disposto a pagar mais por um produto florestal legal”.
“Temos inteligência para evoluir para sistemas que permitam um consumo razoável sem destruir o planeta”, garante o economista Ladislau Dowbor. Para acelerar essa tendência, é possível que os produtos sejam taxados de acordo com a quantidade de carbono que emitem. O custo, provavelmente, será repassado aos consumidores finais. A notícia não é ruim, já que, atualmente os produtos que emitem mais gases de efeito estufa, em função de práticas irresponsáveis, acabam sendo mais baratos, já que não respeitam certas normas e leis. Além disso, as indústrias deverão se adequar para emitirem menos carbono e, portanto, serem mais competitivas no mercado.
Os produtos orgânicos também devem receber incentivos, pois evitam o uso de fertilizantes, que são outra fonte de emissões de gases de efeito estufa. “Isso muda o dia-a-dia do agricultor, que deve se adaptar, utilizando técnicas agrícolas como o plantio direto e a convivência das plantações com a pecuária, enfim, serão pequenas adaptações no setor produtivo que vão afetar toda a economia”, explica o representante do Greenpeace, João Talochi.
Também é bem provável que, ao chegarmos aos supermercados e lojas, comecemos a notar diferença nas embalagens. Na verdade, muitas delas já se modificaram bastante. “Vistas como um complemento de marketing, elas agora começam a ser pensadas em função do impacto ambiental que causam”, observa Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos.
Ele lembra que, em São Paulo, já existe a lei municipal 13316 que obriga as empresas a se responsabilizarem por 50% das embalagens pós-consumo. “Isso faz com que as organizações repensem sua logística e realizem a coleta e o reuso de embalagens, o que significa redução de custos e de lixo”.
A tendência é que os invólucros sejam cada vez mais biodegradáveis, percam um pouco o glamour e ganhem eficiência ambiental. “Não é difícil imaginar que, daqui a pouco, as pessoas vão levar vasilhames ao supermercado para comprar suco, refrigerante e água, por exemplo”, vislumbra Young.
Mesmo os bens duráveis devem se tornar ambientalmente mais eficientes. Um dos exemplos é a polêmica iniciativa do governo federal de trocar as geladeiras das pessoas de baixa renda para economizar energia e evitar a emissão de CFC, prejudicial à camada de ozônio. Os milhões de geladeiras velhas seriam coletadas e utilizadas na indústria para reaproveitamento de matérias-primas.
Os resíduos do que consumimos também deverão ser descartados de maneira cada vez mais responsável. Ricardo Young diz que, atualmente, tecnologias de fusão de resíduos a plasma são capazes de gerar energia elétrica e térmica e tornar o material descartado útil para a construção civil. Ele também acredita que a compostagem de materiais orgânicos tende a se tornar comum nos domicílios e já se cogita, inclusive, a possibilidade da coleta de rejeitos orgânicos para uma compostagem urbana. Esse simples fato é capaz de alterar a maneira como as donas de casa, os empregados domésticos, bares, restaurantes e até escolas operam suas cozinhas e descartam seu lixo.
Dowbor ainda prevê que as cadeias produtivas sejam encurtadas nos próximos anos. Em vez de consumir produtos importados, que foram trazidos ao país em navios ou aviões, grandes emissores de CO2, poderemos incentivar as produções de pequenas comunidades carentes próximas e o comércio local. “Se a carne brasileira sai mais barata nos Estados Unidos ou na China, mas gera desmatamento na Amazônia, isso não vai interessar a ninguém”, garante o economista. João Talochi diz também que é bem possível que países com metas obrigatórias de redução de emissões taxem produtos estrangeiros de países que não assumam qualquer tipo de compromisso em Copenhague, como forma de equilibrar a competitividade.
Ladislau Dowbor ainda acredita que o processo de produção também vai passar por alterações, tornando-se mais circular. Quer dizer que, em espaços muito próximos poderemos encontrar, por exemplo, uma plantação de algodão, uma fábrica de fiação de tecidos, outra que produza óleo a partir da semente do algodão e uma terceira que utilize os resíduos das sementes como fertilizantes. “São sistemas circulares em que o rejeito de uma produção é o insumo da outra. Isso é usar nossos recursos com racionalidade”.
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