cidadania
Cidade em guerra
Está na hora de retomar a cidade, de voltar às ruas. É hora de parar de reclamar e começar a cuidar dela
Denis Russo Burgierman
Revista Vida Simples – 07/2009
[img1]No domingo, fui a uma praça perto da casa de uns amigos. Havia uma festinha de rua lá: piquenique, crianças, um sujeito ensinando grafite, uma moça dando oficinas de mosaico, distribuição de sementas de horta, música boa. A festa foi organizada por esses amigos e mais meia dúzia de moradores da área. O objetivo era ocupar a praça, juntar os vizinhos. No futuro, eles planejam fazer mutirões para reformar áreas degradadas do bairro.
Foi bem legal. Mas, tirando essa meia dúzia de pessoas que organizou a história e os amigos deles que nem moram no bairro, como eu, ninguém apareceu. Não foi por falta de divulgação. Os organizadores tinham batido de porta em porta, convidando, e centenas de pessoas disseram que iriam. Mas, na hora H, ficou todo mundo em casa. Da praça, dava para ver que algumas pessoas num prédio em frente olhavam a festa pela janela, sem disposição para descer.
Minha amiga contou que, numa das reuniões para organizar o evento, apareceu um morador de um prédio da area para dizer que ele não se interessava pelas festinhas. Mas que, se eles precisassem de dinheiro para contratar seguranças para vigiar a praça, ele teria prazer de ajudar.
Acho uma loucura essa falta de vontade de viver a cidade, essa falta de disposição de conviver na rua, de conhecer os vizinhos. Claro, cada um tem sua família, seu trabalho, seus amigos, e é de entender que as pessoas queiram dormir até mais tarde no domingo e descansar da luta da semana. Mas para que serve a cidade se não queremos conviver nela?
Às vezes, andando por aí, tenho a sensação de que estou numa cidade em guerra. Carros fortifi cados, grades gigantescas, seguranças mal encarados, luzes que se acendem quando passamos, gente assustada. Passo semanas sem ver uma criança brincando na rua.
Há uns anos, São Paulo inventou uma festa incrível, chamada Virada Cultural. É uma retomada da cidade, um festival de shows e arte que dura 24 horas, bem no centrão. A sensação que eu tive andando na última Virada era de que eu caminhava em meio a ruínas. Mendigos deitados, prédios aos pedaços, uma cidade destruída, como Beirute, Bagdá, Berlim.
E, no meio dos escombros, um monte de gente feliz, olhando para cima, para os prédios bonitos e os monumentos, com os olhos brilhando de encantamento. É como se eles não vissem a cidade há anos. E tivessem passado esse tempo fechados em bunkers, enquanto as bombas caíam lá fora, e a guerra tivesse finalmente acabado e fosse hora de celebrar.
A guerra precisa acabar. É hora de retomar a cidade, de voltar às ruas. É hora de pararmos de reclamar de como a cidade é mal cuidada e começarmos a cuidar dela.
O jornalista Denis Russo Burgierman tem certeza de que ainda é possível declarar trégua em nossas cidades.
[img1]No domingo, fui a uma praça perto da casa de uns amigos. Havia uma festinha de rua lá: piquenique, crianças, um sujeito ensinando grafite, uma moça dando oficinas de mosaico, distribuição de sementas de horta, música boa. A festa foi organizada por esses amigos e mais meia dúzia de moradores da área. O objetivo era ocupar a praça, juntar os vizinhos. No futuro, eles planejam fazer mutirões para reformar áreas degradadas do bairro.
Foi bem legal. Mas, tirando essa meia dúzia de pessoas que organizou a história e os amigos deles que nem moram no bairro, como eu, ninguém apareceu. Não foi por falta de divulgação. Os organizadores tinham batido de porta em porta, convidando, e centenas de pessoas disseram que iriam. Mas, na hora H, ficou todo mundo em casa. Da praça, dava para ver que algumas pessoas num prédio em frente olhavam a festa pela janela, sem disposição para descer.
Minha amiga contou que, numa das reuniões para organizar o evento, apareceu um morador de um prédio da area para dizer que ele não se interessava pelas festinhas. Mas que, se eles precisassem de dinheiro para contratar seguranças para vigiar a praça, ele teria prazer de ajudar.
Acho uma loucura essa falta de vontade de viver a cidade, essa falta de disposição de conviver na rua, de conhecer os vizinhos. Claro, cada um tem sua família, seu trabalho, seus amigos, e é de entender que as pessoas queiram dormir até mais tarde no domingo e descansar da luta da semana. Mas para que serve a cidade se não queremos conviver nela?
Às vezes, andando por aí, tenho a sensação de que estou numa cidade em guerra. Carros fortifi cados, grades gigantescas, seguranças mal encarados, luzes que se acendem quando passamos, gente assustada. Passo semanas sem ver uma criança brincando na rua.
Há uns anos, São Paulo inventou uma festa incrível, chamada Virada Cultural. É uma retomada da cidade, um festival de shows e arte que dura 24 horas, bem no centrão. A sensação que eu tive andando na última Virada era de que eu caminhava em meio a ruínas. Mendigos deitados, prédios aos pedaços, uma cidade destruída, como Beirute, Bagdá, Berlim.
E, no meio dos escombros, um monte de gente feliz, olhando para cima, para os prédios bonitos e os monumentos, com os olhos brilhando de encantamento. É como se eles não vissem a cidade há anos. E tivessem passado esse tempo fechados em bunkers, enquanto as bombas caíam lá fora, e a guerra tivesse finalmente acabado e fosse hora de celebrar.
A guerra precisa acabar. É hora de retomar a cidade, de voltar às ruas. É hora de pararmos de reclamar de como a cidade é mal cuidada e começarmos a cuidar dela.
O jornalista Denis Russo Burgierman tem certeza de que ainda é possível declarar trégua em nossas cidades.