A união faz a força
Novidade na Praça
Uma pequena área degradada foi transformada em um jardim cheio de arte e inspiração, por moradores, na zona oeste de São Paulo. A experiência mostrou que é muito fácil criar recantos como este pelo Brasil afora
Liliane Oraggio - Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável - 11/06/2009
Em uma área urbana de poucos metros quadrados aconteceu uma grande transformação, que mudou a paisagem e a rotina de muitos moradores do bairro do Sumaré, na zona oeste de São Paulo. A confluência das esquinas das ruas Apinajés, Herculano e Soledade, deixava livre um cimentado de forma triangular, que servia como depósito de lixo e entulho, como estacionamento e abrigo de indigentes. A única coisa saudável ali era uma árvore, um Chapéu-de-Sol resistente e generoso, plantado por um vizinho há uma década.
“Mudei para cá há três anos e vivia colocando faixas pedindo para que não jogassem lixo nessa área. Cansei de falar com as pessoas que faziam mau uso do lugar, mas eles reagiam debochando de mim. Pensei até em me mudar”, conta Bruno Giovanetti, jornalista, que mora em frente a área.
Numa cidade populosa e caótica como São Paulo, cada milímetro de solo é disputado na raça e as noções de cidadania são, facilmente, ignoradas. A velocidade com que tudo acontece na maior cidade da América Latina aniquila qualquer possibilidade de que haja uma certa gentileza urbana, isto é, ações de preservação do patrimônio físico e humano. Esse cantinho, então, era simplesmente mais uma prova concreta dessa realidade que parecia imutável.
Até que um fato trágico e uma iniciativa com muita prontidão mudaram o rumo dessa história.
Em outubro do ano passado, houve um incêndio ali. Os colchões dos moradores de rua foram queimados. Ninguém ficou ferido, mas as chamas consumiram uma parte da árvore e colocaram em risco a casa vizinha. Esse foi o ponto de mutação do lugar.
Jaime Prades, artista plástico e morador da Rua Herculano, resolveu tirar o entulho e conversar com os comerciantes que usavam o espaço como depósito de tralhas e, até, estacionamento. Mas não foi só: nos dois meses seguintes, ele trabalhou em um grafite enorme: munido de tinta e escada, aproveitou as manchas deixadas pelo incêndio na parede para grafitar pássaros gigantes e outras figuras lúdicas.
Jaime fez do Chapéu-de-Sol suporte para a instalação batizada de “Árvore das Perguntas”. Quem passa se encanta pelos desenhos e não escapa da curiosidade de ler as mensagens penduradas na árvore:
• “Por que jogamos lixo nas ruas?”
• “Por que as pessoas não se preocupam umas com as outras?”
• “Você se importa com a natureza?”
• “Você conhece a sua origem e a dos seus ancestrais?”
• “Quem somos nós brasileiros?”
• “Por que tanto desperdício e tanta carência?”.
Estas são algumas das muitas questões que interagem com os passantes, convidados a fazer a conexão com seus aspectos mais vitais e humanos.
“Ainda tem gente que joga lixo aqui, mas recolho”, diz Jaime. “Acho que uma das grandes chaves para resgatar o melhor das pessoas e da cidade, nestes tempos de tanta insegurança e caos. é a limpeza. Em vários níveis: limpeza da cidade, da rua, da casa, do corpo, das emoções. Numa reciclagem constante”, acredita o artista.
“O grafite tem o incrível poder de demarcar territórios urbanos”, explica Bruno. “Depois do trabalho do Jaime a paisagem mudou de fato e foi um grande alívio para a vizinhança. Estou documentando todas as etapas dessa transformação, que será incluída na minha tese de doutorado”, completa o jornalista, que tem centenas de fotos e imagens captadas ali e vai incluir esse exemplo em sua tese de doutorado sobre “Grafite”, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. E Jaime acrescenta: “Descobri que Soledade, o nome da rua, significa lugar ermo”. Ele manteve esse nome no espaço.
E a iniciativa de Jaime puxou outra. O jardineiro Afonso Batella, que mora no bairro vizinho e cuida de várias praças da região, sugeriu criar, ali, um jardim. Outros vizinhos se juntaram para quebrar o cimento, carregar entulho, trazer terra, plantar espécies que marcam sua presença sem interferir nos grafites. “Algumas plantas foram doadas, a terra reaproveitada de outros lugares, os vizinhos ajudaram fazendo o transporte, o plantio, quebrando o cimento para criar os canteiros e recolhendo o entulho. Em vez de bancos, colocamos pedras para que as pessoas possam sentar em círculo e desfrutar do lugar”, diz Afonso.
Eu participei dessa etapa do processo. Durante dois meses, todas as minhas horas vagas foram dedicadas a transportar plantas e terra, a quebrar o cimento, limpar o entulho, varrer o lugar. Enfim, trabalho braçal e muito prazeroso. Foi lindo ver como, a cada dia, nós conseguíamos deixar o lugar mais bonito e atrair a curiosidade de mais gente. Muitos arregaçavam as mangas e, juntos, partilhávamos as tarefas e muita conversa boa. Assim, descobri que vizinhos não são uma espécie em extinção na paulicéia. Ali perto de mim, moram o Álvaro, que é poeta, a Silvia, que é designer gráfica, o Flávio, que é veterinário, o João, que é roteirista e a Surama que pediu para o Jaime grafitar outra revoada de pássaros nas paredes externas do seu escritório e por aí vai...
Confesso que no começo fiquei receosa de que a Prefeitura ou a polícia fossem intervir na nossa ação, já que não pedimos licença para agir a favor da cidade. Mas, o belo se impôs e o lugar foi salvo. Sou paulistana da gema, nunca morei fora e sempre me debati com o desejo de mudar para o interior para fugir dessa loucura. Mas ver nascer esse jardim me reconciliou com a cidade. Fiquei menos individualista e muito satisfeita por ajudar a criar algo novo e bonito para uso coletivo. Ele até ganhou nome: Jardim do Tempo.
“É maravilhoso o que vocês fizeram aqui”, diz D. Lúcia “Antes eu ficava revoltada quando as pessoas diziam que eu morava perto da esquina do lixo. Hoje está uma beleza!”. Todos comemoram e para abençoar o feito, a “Árvore das Perguntas” foi escolhida por um casal de beija-flores como o lugar ideal para fazer um ninho. Acompanhamos toda a construção desse lugar acolhedor, a postura dos ovos e o nascimento de dois lindos filhotes. Eu e o Bruno fomos quase todos os dias visitar e fotografar os recém-nascidos, claro que pedindo licença para os pais, que ficavam voando baixo e muito bravos cada vez que alguém se aproximava das crias. Até que os bebês, um dia, alçaram vôo e a família toda se foi. O mascote da praça é o Alff, um charmoso gato siamês que reina absoluto como guardião da esquina.
A “Árvore das Perguntas”, os grafites e o jardim permanecem para acolher outros pássaros e novas ideias. Estão lançadas as sementes: Quem sabe essa não seja uma forma de quebrar a frieza das grandes cidades, de mobilizar cidadãos, de salvar a paisagem e educar o olhar para captar coisas belas?
Em uma área urbana de poucos metros quadrados aconteceu uma grande transformação, que mudou a paisagem e a rotina de muitos moradores do bairro do Sumaré, na zona oeste de São Paulo. A confluência das esquinas das ruas Apinajés, Herculano e Soledade, deixava livre um cimentado de forma triangular, que servia como depósito de lixo e entulho, como estacionamento e abrigo de indigentes. A única coisa saudável ali era uma árvore, um Chapéu-de-Sol resistente e generoso, plantado por um vizinho há uma década.
“Mudei para cá há três anos e vivia colocando faixas pedindo para que não jogassem lixo nessa área. Cansei de falar com as pessoas que faziam mau uso do lugar, mas eles reagiam debochando de mim. Pensei até em me mudar”, conta Bruno Giovanetti, jornalista, que mora em frente a área.
Numa cidade populosa e caótica como São Paulo, cada milímetro de solo é disputado na raça e as noções de cidadania são, facilmente, ignoradas. A velocidade com que tudo acontece na maior cidade da América Latina aniquila qualquer possibilidade de que haja uma certa gentileza urbana, isto é, ações de preservação do patrimônio físico e humano. Esse cantinho, então, era simplesmente mais uma prova concreta dessa realidade que parecia imutável.
Até que um fato trágico e uma iniciativa com muita prontidão mudaram o rumo dessa história.
Em outubro do ano passado, houve um incêndio ali. Os colchões dos moradores de rua foram queimados. Ninguém ficou ferido, mas as chamas consumiram uma parte da árvore e colocaram em risco a casa vizinha. Esse foi o ponto de mutação do lugar.
Jaime Prades, artista plástico e morador da Rua Herculano, resolveu tirar o entulho e conversar com os comerciantes que usavam o espaço como depósito de tralhas e, até, estacionamento. Mas não foi só: nos dois meses seguintes, ele trabalhou em um grafite enorme: munido de tinta e escada, aproveitou as manchas deixadas pelo incêndio na parede para grafitar pássaros gigantes e outras figuras lúdicas.
Jaime fez do Chapéu-de-Sol suporte para a instalação batizada de “Árvore das Perguntas”. Quem passa se encanta pelos desenhos e não escapa da curiosidade de ler as mensagens penduradas na árvore:
• “Por que jogamos lixo nas ruas?”
• “Por que as pessoas não se preocupam umas com as outras?”
• “Você se importa com a natureza?”
• “Você conhece a sua origem e a dos seus ancestrais?”
• “Quem somos nós brasileiros?”
• “Por que tanto desperdício e tanta carência?”.
Estas são algumas das muitas questões que interagem com os passantes, convidados a fazer a conexão com seus aspectos mais vitais e humanos.
“Ainda tem gente que joga lixo aqui, mas recolho”, diz Jaime. “Acho que uma das grandes chaves para resgatar o melhor das pessoas e da cidade, nestes tempos de tanta insegurança e caos. é a limpeza. Em vários níveis: limpeza da cidade, da rua, da casa, do corpo, das emoções. Numa reciclagem constante”, acredita o artista.
“O grafite tem o incrível poder de demarcar territórios urbanos”, explica Bruno. “Depois do trabalho do Jaime a paisagem mudou de fato e foi um grande alívio para a vizinhança. Estou documentando todas as etapas dessa transformação, que será incluída na minha tese de doutorado”, completa o jornalista, que tem centenas de fotos e imagens captadas ali e vai incluir esse exemplo em sua tese de doutorado sobre “Grafite”, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. E Jaime acrescenta: “Descobri que Soledade, o nome da rua, significa lugar ermo”. Ele manteve esse nome no espaço.
E a iniciativa de Jaime puxou outra. O jardineiro Afonso Batella, que mora no bairro vizinho e cuida de várias praças da região, sugeriu criar, ali, um jardim. Outros vizinhos se juntaram para quebrar o cimento, carregar entulho, trazer terra, plantar espécies que marcam sua presença sem interferir nos grafites. “Algumas plantas foram doadas, a terra reaproveitada de outros lugares, os vizinhos ajudaram fazendo o transporte, o plantio, quebrando o cimento para criar os canteiros e recolhendo o entulho. Em vez de bancos, colocamos pedras para que as pessoas possam sentar em círculo e desfrutar do lugar”, diz Afonso.
Eu participei dessa etapa do processo. Durante dois meses, todas as minhas horas vagas foram dedicadas a transportar plantas e terra, a quebrar o cimento, limpar o entulho, varrer o lugar. Enfim, trabalho braçal e muito prazeroso. Foi lindo ver como, a cada dia, nós conseguíamos deixar o lugar mais bonito e atrair a curiosidade de mais gente. Muitos arregaçavam as mangas e, juntos, partilhávamos as tarefas e muita conversa boa. Assim, descobri que vizinhos não são uma espécie em extinção na paulicéia. Ali perto de mim, moram o Álvaro, que é poeta, a Silvia, que é designer gráfica, o Flávio, que é veterinário, o João, que é roteirista e a Surama que pediu para o Jaime grafitar outra revoada de pássaros nas paredes externas do seu escritório e por aí vai...
Confesso que no começo fiquei receosa de que a Prefeitura ou a polícia fossem intervir na nossa ação, já que não pedimos licença para agir a favor da cidade. Mas, o belo se impôs e o lugar foi salvo. Sou paulistana da gema, nunca morei fora e sempre me debati com o desejo de mudar para o interior para fugir dessa loucura. Mas ver nascer esse jardim me reconciliou com a cidade. Fiquei menos individualista e muito satisfeita por ajudar a criar algo novo e bonito para uso coletivo. Ele até ganhou nome: Jardim do Tempo.
“É maravilhoso o que vocês fizeram aqui”, diz D. Lúcia “Antes eu ficava revoltada quando as pessoas diziam que eu morava perto da esquina do lixo. Hoje está uma beleza!”. Todos comemoram e para abençoar o feito, a “Árvore das Perguntas” foi escolhida por um casal de beija-flores como o lugar ideal para fazer um ninho. Acompanhamos toda a construção desse lugar acolhedor, a postura dos ovos e o nascimento de dois lindos filhotes. Eu e o Bruno fomos quase todos os dias visitar e fotografar os recém-nascidos, claro que pedindo licença para os pais, que ficavam voando baixo e muito bravos cada vez que alguém se aproximava das crias. Até que os bebês, um dia, alçaram vôo e a família toda se foi. O mascote da praça é o Alff, um charmoso gato siamês que reina absoluto como guardião da esquina.
A “Árvore das Perguntas”, os grafites e o jardim permanecem para acolher outros pássaros e novas ideias. Estão lançadas as sementes: Quem sabe essa não seja uma forma de quebrar a frieza das grandes cidades, de mobilizar cidadãos, de salvar a paisagem e educar o olhar para captar coisas belas?