consumir pouco e bem
A moda de não comprar
A crise econômica fez surgir um tipo de consumidora que gasta pouco, tem orgulho de frequentar pontas de estoque e não se incomoda em repetir roupas.
Para as recessionistas, velho é vintage
Sandra Soares e Alessandra Moura
Revista Gloss – 06/2009
Ser fashionista está por fora. Desde que a economia Americana entrou em crise, afetando muitas outras economias do mundo, bacana é ser recessionista. A palavra define as pessoas que praticam consumo consciente, inteligente e de bom gusto – enfim, gente com talento para garimpar achados. Uma recessionista detesta exibir a marca das roupas que usa. Pelo contrário, orgulha-se de suas pechinchas e adora promoções (para fazê-la feliz, convide-a para um bazar de ponta de estoque, a liquidação da liquidação!). Ser recessionista é consumir pouco. Ou, antes de tudo, nem consumir, porque vale muito mais a pena reciclar (ou cuidar bem do que se tem).
Os americanos, justo eles, os reis do consumo, ajudaram a propagar o termo. Fizeram do blog um sucesso. O endereço foi criado por uma executiva de marketing da IBM para compartilhar suas boas compras. O Mercado tratou de se adaptar à nova onda, nos Estados Unidos e em toda parte, lançando produtos e propagandas adequados aos tempos de não-consumo. A marca de cosméticos francesa Bourjois, por exemplo, apresentou a “coleção recessionista”, com batons, máscaras e blushes baratinhos. O jornal ingles The Sunday Times publicou artigo com cinquenta frases interpretadas a partir da lógica dessa nova raça de consumidores. “Redecorar o quarto” equivale a “reorganizar a prateleira de livros”. E “adquirir um novo cachecol”, a “aprender a fazer tricô”. Por aqui, o editor de moda Ricardo Oliveros, da revista Playboy, deu dicas de como tornar-se recessionista em seu forademoda.net. Entre elas:
1. Contratar costureiras para confeccionar roupas sob medida (você economiza grana e ainda sai com a garantia de um visual exclusivo);
2. Refletir sobre o valor real das coisas. Justificar pagar caro por uma calça, por exemplo, com o argumento de que “Ah, mas é da marca tal…” é sempre uma armadilha.
“Paga-se caro quando a gente não está seguro de si ou de seu estilo”, escreve Ricardo. Identificar o quanto uma peça tem de valor agregado e de valor real (em termos de qualidade do corte, do tecido, etc.) é um bom começo;
3. Organizar bazares de troca com as amigas. Todas renovam o guarda-roupa sem colocar a mão na carteira!
Por trás da tendência recessionista, há não só uma resposta aos problemas econômicos, mas também aos ecológicos. A economia dos Estados Unidos entrou em pane em parte devido ao consumismo desenfreado dos seus – o que, obviamente,implica em maior gastode recursos naturais paraa produção acelerada deprodutos. Um levantamento feito por lá pela especialista em saúde ambiental Annie Leonard mostrou que, antes da crise, só um em cada cem artigos comprados eram mantidos pelo consumidor por mais de seis meses. O resto ganhava substituto antes disso. E com tanto descarte, alimentava-se o lixo.
No Azul
No Vermelho
SER OU NÃO SER
“O comprar exacerbado fez crescer entre as pessoas a crença de que ser é ter”, avalia Sandro Magaldi, especialista em comportamento de consumo e professor da Escola Superiorde Propaganda e Marketing(ESPM). “Mas isso vem sendorevisto desde que se tornoucool agir como consumidor espartano. Estou convencido de que cada vez mais oconhecimento será valorizado.” Segundo Sandro, os jovens são os grandes agentes dessa mudança porque, ao começarem a vida profissional em um mercado de trabalho concorrido, se deparam com a necessidade de acumular mais bagagem cultural. “Eles percebem quão pouca valia têm as posses no Mercado de trabalho! O que conta é a capacidade intelectual.” Sandro aconselha quem tem dinheiro para gastar nestes tempos de crise a investir em viagens e cursos. “Os preços estão caindo em várias áreas. Mas é mais inteligente investirem ser... do que em ter.”
Para ler:
Sapatólatras Anônimas
Autora: Beth Harbison
Editora: Record
Veja o relatório detalhado de gastos das personagens desta matéria
Ser fashionista está por fora. Desde que a economia Americana entrou em crise, afetando muitas outras economias do mundo, bacana é ser recessionista. A palavra define as pessoas que praticam consumo consciente, inteligente e de bom gusto – enfim, gente com talento para garimpar achados. Uma recessionista detesta exibir a marca das roupas que usa. Pelo contrário, orgulha-se de suas pechinchas e adora promoções (para fazê-la feliz, convide-a para um bazar de ponta de estoque, a liquidação da liquidação!). Ser recessionista é consumir pouco. Ou, antes de tudo, nem consumir, porque vale muito mais a pena reciclar (ou cuidar bem do que se tem).
Os americanos, justo eles, os reis do consumo, ajudaram a propagar o termo. Fizeram do blog um sucesso. O endereço foi criado por uma executiva de marketing da IBM para compartilhar suas boas compras. O Mercado tratou de se adaptar à nova onda, nos Estados Unidos e em toda parte, lançando produtos e propagandas adequados aos tempos de não-consumo. A marca de cosméticos francesa Bourjois, por exemplo, apresentou a “coleção recessionista”, com batons, máscaras e blushes baratinhos. O jornal ingles The Sunday Times publicou artigo com cinquenta frases interpretadas a partir da lógica dessa nova raça de consumidores. “Redecorar o quarto” equivale a “reorganizar a prateleira de livros”. E “adquirir um novo cachecol”, a “aprender a fazer tricô”. Por aqui, o editor de moda Ricardo Oliveros, da revista Playboy, deu dicas de como tornar-se recessionista em seu forademoda.net. Entre elas:
1. Contratar costureiras para confeccionar roupas sob medida (você economiza grana e ainda sai com a garantia de um visual exclusivo);
2. Refletir sobre o valor real das coisas. Justificar pagar caro por uma calça, por exemplo, com o argumento de que “Ah, mas é da marca tal…” é sempre uma armadilha.
“Paga-se caro quando a gente não está seguro de si ou de seu estilo”, escreve Ricardo. Identificar o quanto uma peça tem de valor agregado e de valor real (em termos de qualidade do corte, do tecido, etc.) é um bom começo;
3. Organizar bazares de troca com as amigas. Todas renovam o guarda-roupa sem colocar a mão na carteira!
Por trás da tendência recessionista, há não só uma resposta aos problemas econômicos, mas também aos ecológicos. A economia dos Estados Unidos entrou em pane em parte devido ao consumismo desenfreado dos seus – o que, obviamente,implica em maior gastode recursos naturais paraa produção acelerada deprodutos. Um levantamento feito por lá pela especialista em saúde ambiental Annie Leonard mostrou que, antes da crise, só um em cada cem artigos comprados eram mantidos pelo consumidor por mais de seis meses. O resto ganhava substituto antes disso. E com tanto descarte, alimentava-se o lixo.
No Azul
No Vermelho
SER OU NÃO SER
“O comprar exacerbado fez crescer entre as pessoas a crença de que ser é ter”, avalia Sandro Magaldi, especialista em comportamento de consumo e professor da Escola Superiorde Propaganda e Marketing(ESPM). “Mas isso vem sendorevisto desde que se tornoucool agir como consumidor espartano. Estou convencido de que cada vez mais oconhecimento será valorizado.” Segundo Sandro, os jovens são os grandes agentes dessa mudança porque, ao começarem a vida profissional em um mercado de trabalho concorrido, se deparam com a necessidade de acumular mais bagagem cultural. “Eles percebem quão pouca valia têm as posses no Mercado de trabalho! O que conta é a capacidade intelectual.” Sandro aconselha quem tem dinheiro para gastar nestes tempos de crise a investir em viagens e cursos. “Os preços estão caindo em várias áreas. Mas é mais inteligente investirem ser... do que em ter.”
Para ler:
Sapatólatras Anônimas
Autora: Beth Harbison
Editora: Record
Veja o relatório detalhado de gastos das personagens desta matéria