Lei da selva
Feras feridas
Um dia da caça, outro do caçador? Mentira. A caça está em desvantagem. Mas o caçador também perderá, pois a destruição dos animais leva à nossa destruição, conforme provam uma cientista brasileira e outra americana, ambas feras na defesa da vida
Laís Duarte
Revista Claudia - 04/2009
Na mata fechada, o couro pintado é símbolo de poder. As onças são rainhas nas florestas e planícies brasileiras, seja na mata Atlântica, na Amazônia, no cerrado, seja na caatinga. Com sua força e seus movimentos precisos, fazem de animais bem maiores seus reféns. Solitárias, elas se aproximam em silêncio de antas, veados, capivaras. Tocaia armada, saltam sobre a presa. Matam somente para alimentar a si mesmas e aos filhotes. Aliás, por eles, a onça arrisca a vida. Se outro animal chega perto da ninhada, a fêmea luta até a morte para proteger a prole. Mas poucos se habilitam a enfrentar tamanha fera. Onças temem apenas outras onças e o ser humano. Somos nós os seus maiores inimigos. Embora não existam números oficiais que determinem o risco de extinção, ele é grande. Nos rincões do Brasil, matá-las ainda é sinal de virilidade, dá status. A caça e o desmatamento ameaçam cada vez mais a sobrevivência de um dos mais belos exemplares da nossa fauna e, consequentemente, nossa própria existência. Nos locais onde esses predadores foram exterminados, as populações de antas e capivaras crescem de modo desequilibrado e destroem importantes espécies de plantas. Para ter uma ideia desse ciclo vital, com a inundação da área da Usina Sérgio Mota, em Porto Primavera, no oeste de São Paulo, as pintadas foram extintas na região. Capivaras, então, reproduziramse em excesso, atacaram as lavouras e contaminaram o gado com a febre maculosa, a doença do carrapato.
Do outro lado do mundo, nas savanas do continente africano, o problema se repete. Os guepardos, primos distantes das onças, também correm risco de desaparecer. Estima-se que, em 1900, existiam 100 mil animais da espécie na África e Ásia. Hoje, são apenas 12,5 mil. Tão belos quanto solidários, esses animais elegantes desfilam em grupos pela paisagem seca. O que é de um é de todos: vivem, comem e caçam juntos. Ao avistarem as presas, como as gazelas, correm velozmente, cercam o bicho e pulam sobre ele. Tanta coragem e charme acabou conquistando duas mulheres. Cientistas, elas se dedicam com unhas, dentes e muita pesquisa à proteção de guepardos na África e de onças no Brasil. Separadas geograficamente, estão unidas pelo sonho de preservar gatos que a humanidade teme e admira ao mesmo tempo. Laurie optou pela solidão ao se apaixonar por um animal que vive em bando. Sandra formou uma família para salvar feras solitárias.
A vida no Pantanal
Nas trilhas do Pantanal, os cachorros da comitiva latem sem parar, o que significa que acuaram a onça-pintada. Com anestésico e boa pontaria, em alguns minutos a onça feroz dorme tranquila como um gatinho. Ao ver o bicho de até 140 quilos, a chefe da equipe, Sandra Cavalcanti, 40 anos, tem a sensação do dever cumprido. Enquanto a onça está sedada, ela colhe sangue, mede o tamanho das presas e das patas. O animal recebe um nome e um radiotransmissor, preso ao pescoço. O “colar” permite saber sua localização, se o bicho está correndo, dormindo ou, até mesmo, morto. Com a paciência moldada no mato, Sandra espera que a pintada volte da anestesia e siga seu rumo. Essa “amiga da onça” nasceu em São Paulo, estudou agronomia em Piracicaba e foi apresentada às onças no Parque Nacional de Iguaçu, 15 anos atrás. Casou-se com um médico americano e fez mestrado na Universidade de Utah. Quando se separou, Sandra sentiu saudade das onças. No sul do Pantanal, ela criou um projeto para a conservação da espécie pelas ONGs Pró-Carnívoros e WCS. Depois de tantos anos dedicados à ecologia, a moça loira enfrentou barreiras que desconhecia: machismo e preconceito. A maior planície alagável do planeta é dominada por homens. Raros eram os peões que aceitariam receber ordens de uma mulher. Mas Sandra não é uma mulher qualquer e nunca se intimidou. a mata fechada, o couro pintado é símbolo de poder. As onças são rainhas nas florestas e planícies brasileiras, seja na mata Atlântica, na Amazônia, no cerrado, seja na caatinga. Com sua força e seus movimentos precisos, fazem de animais bem maiores seus reféns. Solitárias, elas se aproximam em silêncio de antas, veados, capivaras. Tocaia armada, saltam sobre a presa. Matam somente para alimentar a si mesmas e aos filhotes. Aliás, por eles, a onça arrisca a vida. Se outro animal chega perto da ninhada, a fêmea luta até a morte para proteger a prole.
[img3]Demorou, mas a equipe foi formada e o respeito conquistado. Nas caçadas científicas, a pesquisadora fez mais de 40 capturas. Descobriu que onças só atacam o gado quando não acham capivaras ou jacarés no mato e que picadas de cobras e intoxicações alimentares matam mais bois do que os felinos – dados que talvez possam mudar a visão dos pecuaristas. No Pantanal, porém, as pintadas são troféus. Quem mata a fera torna-se celebridade. Sandra entendeu que precisava transformar caçadores em assistentes de campo. Ao lado dela, há sempre um regenerado,e ele ajuda a localizar as feras. Entre cheias e secas, ela conheceu Antônio Porfírio. O romance permaneceu secreto durante dois anos. Sandra temia a reação da família ao saber que ela se derretera por um peão. Mas o coração foi mesmo capturado e o segredo acabou. Ao lado de Antônio, ela mudou-se para os Estados Unidos a tempo de concluir o doutorado. Lá, aos 38 anos, engravidou de Nick. Hoje, com 2 anos, ele acompanha a mãe no campo. A família trabalha unida para preservar felino pela ONG americana Panthera em uma área a 240 quilômetros de Cuiabá. A cada gripe do filhote, Sandra sente-se culpada por viver a horas da cidade mais próxima, Poconé. Mas gripe e culpa passam logo. Onças também são conhecidas como jaguar ou yaguaretê, que, em tupi, quer dizer “o que luta”. Sandra aprendeu com elas o prazer de lutar pela vida.
Uma gata do mato
Quando o sol doura a paisagem na Namíbia, no oeste da África, Laurie Marker já está de pé. Ela precisa ser rápida, pois escolheu como missão pesquisar o animal mais veloz da Terra. As pernas longas e ágeis em segundos levam os guepardos a uma velocidade superior a 105 quilômetros por hora. Top models das savanas, são elegantes como poucos. Se o mundo hoje se preocupa com a extinção dos guepardos, é graças ao esforço de Laurie. Ninguém sabe tanto sobre o animal quanto essa norte-americana de 54 anos. E por acaso. Nascida em Los Angeles e formada em psicologia, ela já era casada quando descobriu sua razão de viver no Wildlife Safari, um parque no estado do Oregon. Laurie viu com outros olhos um animal que poucos estudavam.
Determinada, passou a observar cada detalhe dos enormes gatos malhados, analisar hábitos e alimentação no parque. Em 1988, começou um programa de analyses\ genéticas da espécie no zoológico da capital, Washington. Ao mesmo tempo que se envolveu com os animais, Laurie divorciou-se do marido e da rotina. Vendeu tudo o que tinha e mudou-se para a Namíbia nos anos 1990. Lá, cruzou o país para entender por que os fazendeiros matam os guepardos. Compreendeu que, assim como o Brasil, felinos selvagens são vistos por pecuaristas como ameaça à criação do gado. No campo, Laurie captura os guepardos com armadilhas espalhadas pelas savanas, coleta sangue e sêmen. Os machos chegam a pesar 65 quilos e medem quase 1 metro de altura. Cada um ganha um colar com um transmissor. A partir daí, ela consegue acompanhar todos os passos do bicho.
[img4]A morena de cabelos cacheados e voz envolvente divide o tempo entre o trabalho no mato e o Cheetah Conservation Fund – o fundo internacional que ela criou para a conservação dos guepardos. Mas de nada adianta estudar o bicho sem mudar a realidade das famílias que convivem com ele. Por isso, Laurie construiu uma escola de educação ambiental que une estudantes negros e brancos, filhos de um país marcado pela segregação racial. Desenvolveu ainda um programa em que cachorros e jegues são usados para pastorear os rebanhos: o número de ataques ao gado diminuiu, bem como a ira dos fazendeiros. Hoje, alguns caçadores tornaram-se parceiros: capturam os animais e levam para o centro de pesquisa. Laurie divide com frequência a própria casa com filhotes órfãos, necessitados de cuidados. Com os humanos eles não são ferozes, podem até ser domesticados. Mas não é essa a meta de Laurie. Ela luta para que continuem vivos e livres.
Mães superprotetoras e filhotes brincalhões. Leia mais sobre os felinos no site www.claudia.com.br
Veja mais:
Panthera
Cheetah Conservation Fund
Wildlife Safari
Na mata fechada, o couro pintado é símbolo de poder. As onças são rainhas nas florestas e planícies brasileiras, seja na mata Atlântica, na Amazônia, no cerrado, seja na caatinga. Com sua força e seus movimentos precisos, fazem de animais bem maiores seus reféns. Solitárias, elas se aproximam em silêncio de antas, veados, capivaras. Tocaia armada, saltam sobre a presa. Matam somente para alimentar a si mesmas e aos filhotes. Aliás, por eles, a onça arrisca a vida. Se outro animal chega perto da ninhada, a fêmea luta até a morte para proteger a prole. Mas poucos se habilitam a enfrentar tamanha fera. Onças temem apenas outras onças e o ser humano. Somos nós os seus maiores inimigos. Embora não existam números oficiais que determinem o risco de extinção, ele é grande. Nos rincões do Brasil, matá-las ainda é sinal de virilidade, dá status. A caça e o desmatamento ameaçam cada vez mais a sobrevivência de um dos mais belos exemplares da nossa fauna e, consequentemente, nossa própria existência. Nos locais onde esses predadores foram exterminados, as populações de antas e capivaras crescem de modo desequilibrado e destroem importantes espécies de plantas. Para ter uma ideia desse ciclo vital, com a inundação da área da Usina Sérgio Mota, em Porto Primavera, no oeste de São Paulo, as pintadas foram extintas na região. Capivaras, então, reproduziramse em excesso, atacaram as lavouras e contaminaram o gado com a febre maculosa, a doença do carrapato.
Do outro lado do mundo, nas savanas do continente africano, o problema se repete. Os guepardos, primos distantes das onças, também correm risco de desaparecer. Estima-se que, em 1900, existiam 100 mil animais da espécie na África e Ásia. Hoje, são apenas 12,5 mil. Tão belos quanto solidários, esses animais elegantes desfilam em grupos pela paisagem seca. O que é de um é de todos: vivem, comem e caçam juntos. Ao avistarem as presas, como as gazelas, correm velozmente, cercam o bicho e pulam sobre ele. Tanta coragem e charme acabou conquistando duas mulheres. Cientistas, elas se dedicam com unhas, dentes e muita pesquisa à proteção de guepardos na África e de onças no Brasil. Separadas geograficamente, estão unidas pelo sonho de preservar gatos que a humanidade teme e admira ao mesmo tempo. Laurie optou pela solidão ao se apaixonar por um animal que vive em bando. Sandra formou uma família para salvar feras solitárias.
A vida no Pantanal
Nas trilhas do Pantanal, os cachorros da comitiva latem sem parar, o que significa que acuaram a onça-pintada. Com anestésico e boa pontaria, em alguns minutos a onça feroz dorme tranquila como um gatinho. Ao ver o bicho de até 140 quilos, a chefe da equipe, Sandra Cavalcanti, 40 anos, tem a sensação do dever cumprido. Enquanto a onça está sedada, ela colhe sangue, mede o tamanho das presas e das patas. O animal recebe um nome e um radiotransmissor, preso ao pescoço. O “colar” permite saber sua localização, se o bicho está correndo, dormindo ou, até mesmo, morto. Com a paciência moldada no mato, Sandra espera que a pintada volte da anestesia e siga seu rumo. Essa “amiga da onça” nasceu em São Paulo, estudou agronomia em Piracicaba e foi apresentada às onças no Parque Nacional de Iguaçu, 15 anos atrás. Casou-se com um médico americano e fez mestrado na Universidade de Utah. Quando se separou, Sandra sentiu saudade das onças. No sul do Pantanal, ela criou um projeto para a conservação da espécie pelas ONGs Pró-Carnívoros e WCS. Depois de tantos anos dedicados à ecologia, a moça loira enfrentou barreiras que desconhecia: machismo e preconceito. A maior planície alagável do planeta é dominada por homens. Raros eram os peões que aceitariam receber ordens de uma mulher. Mas Sandra não é uma mulher qualquer e nunca se intimidou. a mata fechada, o couro pintado é símbolo de poder. As onças são rainhas nas florestas e planícies brasileiras, seja na mata Atlântica, na Amazônia, no cerrado, seja na caatinga. Com sua força e seus movimentos precisos, fazem de animais bem maiores seus reféns. Solitárias, elas se aproximam em silêncio de antas, veados, capivaras. Tocaia armada, saltam sobre a presa. Matam somente para alimentar a si mesmas e aos filhotes. Aliás, por eles, a onça arrisca a vida. Se outro animal chega perto da ninhada, a fêmea luta até a morte para proteger a prole.
[img3]Demorou, mas a equipe foi formada e o respeito conquistado. Nas caçadas científicas, a pesquisadora fez mais de 40 capturas. Descobriu que onças só atacam o gado quando não acham capivaras ou jacarés no mato e que picadas de cobras e intoxicações alimentares matam mais bois do que os felinos – dados que talvez possam mudar a visão dos pecuaristas. No Pantanal, porém, as pintadas são troféus. Quem mata a fera torna-se celebridade. Sandra entendeu que precisava transformar caçadores em assistentes de campo. Ao lado dela, há sempre um regenerado,e ele ajuda a localizar as feras. Entre cheias e secas, ela conheceu Antônio Porfírio. O romance permaneceu secreto durante dois anos. Sandra temia a reação da família ao saber que ela se derretera por um peão. Mas o coração foi mesmo capturado e o segredo acabou. Ao lado de Antônio, ela mudou-se para os Estados Unidos a tempo de concluir o doutorado. Lá, aos 38 anos, engravidou de Nick. Hoje, com 2 anos, ele acompanha a mãe no campo. A família trabalha unida para preservar felino pela ONG americana Panthera em uma área a 240 quilômetros de Cuiabá. A cada gripe do filhote, Sandra sente-se culpada por viver a horas da cidade mais próxima, Poconé. Mas gripe e culpa passam logo. Onças também são conhecidas como jaguar ou yaguaretê, que, em tupi, quer dizer “o que luta”. Sandra aprendeu com elas o prazer de lutar pela vida.
Uma gata do mato
Quando o sol doura a paisagem na Namíbia, no oeste da África, Laurie Marker já está de pé. Ela precisa ser rápida, pois escolheu como missão pesquisar o animal mais veloz da Terra. As pernas longas e ágeis em segundos levam os guepardos a uma velocidade superior a 105 quilômetros por hora. Top models das savanas, são elegantes como poucos. Se o mundo hoje se preocupa com a extinção dos guepardos, é graças ao esforço de Laurie. Ninguém sabe tanto sobre o animal quanto essa norte-americana de 54 anos. E por acaso. Nascida em Los Angeles e formada em psicologia, ela já era casada quando descobriu sua razão de viver no Wildlife Safari, um parque no estado do Oregon. Laurie viu com outros olhos um animal que poucos estudavam.
Determinada, passou a observar cada detalhe dos enormes gatos malhados, analisar hábitos e alimentação no parque. Em 1988, começou um programa de analyses\ genéticas da espécie no zoológico da capital, Washington. Ao mesmo tempo que se envolveu com os animais, Laurie divorciou-se do marido e da rotina. Vendeu tudo o que tinha e mudou-se para a Namíbia nos anos 1990. Lá, cruzou o país para entender por que os fazendeiros matam os guepardos. Compreendeu que, assim como o Brasil, felinos selvagens são vistos por pecuaristas como ameaça à criação do gado. No campo, Laurie captura os guepardos com armadilhas espalhadas pelas savanas, coleta sangue e sêmen. Os machos chegam a pesar 65 quilos e medem quase 1 metro de altura. Cada um ganha um colar com um transmissor. A partir daí, ela consegue acompanhar todos os passos do bicho.
[img4]A morena de cabelos cacheados e voz envolvente divide o tempo entre o trabalho no mato e o Cheetah Conservation Fund – o fundo internacional que ela criou para a conservação dos guepardos. Mas de nada adianta estudar o bicho sem mudar a realidade das famílias que convivem com ele. Por isso, Laurie construiu uma escola de educação ambiental que une estudantes negros e brancos, filhos de um país marcado pela segregação racial. Desenvolveu ainda um programa em que cachorros e jegues são usados para pastorear os rebanhos: o número de ataques ao gado diminuiu, bem como a ira dos fazendeiros. Hoje, alguns caçadores tornaram-se parceiros: capturam os animais e levam para o centro de pesquisa. Laurie divide com frequência a própria casa com filhotes órfãos, necessitados de cuidados. Com os humanos eles não são ferozes, podem até ser domesticados. Mas não é essa a meta de Laurie. Ela luta para que continuem vivos e livres.
Mães superprotetoras e filhotes brincalhões. Leia mais sobre os felinos no site www.claudia.com.br
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Cheetah Conservation Fund
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