entrevista
Peregrina do bem
Para Jimena Paratcha, trabalhar com crianças carentes é uma verdadeira jornada em busca de justiça social e de um futuro melhor para todos
Cristiane Assis
Revista Vida Simples – 04/2009
Anos vivendo entre Estados Unidos e Argentina; um período em comunidades ermas da América Latina; um tempo na Bahia; viagem em turnê mundial; residência na Inglaterra com idas frequentes ao Rio de Janeiro... Se a vida o conduzisse pelo mundo, existe algo que levaria sempre com você? Um tema para promover apaixonadamente com quem cruzasse seu caminho: de moradores de vilas a líderes comunitários, diretores de cinema, astros da música e de Hollywood? Para Jimena Paratcha, o trabalho em prol de crianças carentes mostrou-se um companheiro de jornada e, claramente, uma missão. Há dez anos ela é responsável pela Action for Brazil’s Children Trust (ABC) uma organização que arrecada recursos para projetos sociais no Brasil e beneficia mais de 3000 jovens. Jimena a fundou em Londres, dois anos depois de sair do paraíso brasileiro de Lençóis (BA) para se casar com Jimmy Page, o guitarrista do Led Zeppelin. Mas calma aí, a história começa bem antes disso...
Quando você descobriu sua vocação social?
Meus pais são argentinos, mas eu nasci nos Estados unidos e fui criada entre Buenos Aires e São Francisco, Califórnia. Aos 11 anos estava em Buenos Aires e minha paixão era dançar break. Eu tinha um amigo que, como eu, vivia muito bem financeiramente. A gente pegava escondido um aparelho de som e ia dançar break na calçada de um bairro. Fizemos amizade com as crianças que viviam na rua e pediam esmola, roubavam. Um dia, resolvemos convidar cinco dos nossos amigos para ir a uma lanchonete. Tudo parecia muito legal, até que as crianças receberam os pratos de comida. Eu não conhecia aquela fome! Primeiro, fiquei humilde, depois, identificada: eles tinham nossa idade, era tão injusto! Naquele dia entendi o que faria do resto da minha vida. Quatro anos depois tive a chance de começar. Eu estava na Califórnia e recebi um folheto sobre os Amigos de las Américas, uma organização que recruta adolescentes para serem voluntários em abrigos de crianças e comunidades pobres na América do Sul. Me inscrevi.
Foi assim que você veio a conhecer o Brasil?
Não, minha história com o Brasil veio depois, eu tinha 19 anos e estava decidida a trabalhar com crianças de rua pelo mundo. Decidi começar por Gana, na África, então juntei um bom dinheiro, o suficiente para viver um ano, e comprei minha passagem. Antes disso, fui tirar férias no Brasil. A questão é que os cofres do hotel em que eu estava em Salvador foram arrombados. E eu fiquei ali, sem dinheiro, sem poder viajar e precisando de um lugar barato para morar. Tentei trabalhar no projeto da irmã Dulce, mas eu não falava português. Daí alguém me indicou Lençóis, na Chapada Diamantina, como opção mais barata para viver. Lá conheci duas mulheres que serviam sopas para pessoas carentes e comecei a ajudá-las no que seria o meu primeiro projeto social, o Grãos de Luz (que ganhou em 2003 o prêmio Itaú-Unicef).
Não dá para imaginar como você se casou com um roqueiro...
Eu fui levar minha filha para conhecer a família na Argentina, estava separada. Amigos me apresentaram Jimmy, que estava em turnê, e nós conversamos muito sobre problemas sociais no Brasil. Em seguida ele foi para o Rio, viu de perto o que eu estava falando, e me ligou para pensarmos em algo. Mantemos contato, ele ajudou o Grãos de Luz, tivemos encontros esporádicos. Um dia, ele apareceu em Lençóis. E, um tempo depois, me convidou a viajar na turnê com ele. Minha idéia era fazer um folder e ir falando com os amigos dele pelo caminho, tentando arrecadar fundos para o Grãos de Luz, depois percebi que tudo era bem mais burocrático. Nos mudamos para a Inglaterra e, dois anos depois, fundei a ABC Trust.
Quais são os planos da ABC para 2009?
A crise financeira afetou muito a ABC e estamos apertando os cintos. Por esse e por outros motivos estamos redefinindo critérios. Estamos firmando parcerias cada vez mais sólidas, para apoiar projetos que tenham resultados de transformação ainda mais longo prazo, que atendam mais jovens e tenham mais apelo comunitário. Algumas das ONGs que ajudávamos já estão mais independentes, podem andar sozinhas. E queremos apostar mais nos projetos ligados a arte, dança, cultura, que estimulem a criatividade, que trabalhem com a energia das crianças.
E por que levar cultura para os jovens pode ser transformador?
No início, eu achava que os abrigos eram mais importantes que qualquer outro projeto, era emergência, trabalhava com fome, local para dormir, o básico. Então, quando recebia pedidos para cultura, eu os considerava frívolos. Hoje entendo o poder transformador deles num país como o Brasil. As crianças desenvolvem coragem, força e confiança e acabam beneficiando toda a comunidade em torno. E alguns, como no caso da Escola Picolino de Artes do Circo, podem até dar um salário mínimo para suas crianças continuarem na escola.
Você é otimista? Qual é o seu maior sonho?
Sou otimista, sim, e acredito no sonho de um mundo mais harmonioso e justo. Estou envolvida num projeto que tem um ingrediente importante para ajudar a viabilizar esse sonho: criar novos modelos de vida e sociedade. Estamos junto com o diretor mexicano de cinema Alfonso Cuarón no lançamento de uma campanha para que as pessoas façam pausas esporádicas de 60 segundos para analisar seu modelo de vida. Os insights serão compartilhados em um website e ajudarão cada um de nós a criar alternativas. Afinal, o jeito como estamos vivendo claramente não está funcionando, não é mesmo?
Anos vivendo entre Estados Unidos e Argentina; um período em comunidades ermas da América Latina; um tempo na Bahia; viagem em turnê mundial; residência na Inglaterra com idas frequentes ao Rio de Janeiro... Se a vida o conduzisse pelo mundo, existe algo que levaria sempre com você? Um tema para promover apaixonadamente com quem cruzasse seu caminho: de moradores de vilas a líderes comunitários, diretores de cinema, astros da música e de Hollywood? Para Jimena Paratcha, o trabalho em prol de crianças carentes mostrou-se um companheiro de jornada e, claramente, uma missão. Há dez anos ela é responsável pela Action for Brazil’s Children Trust (ABC) uma organização que arrecada recursos para projetos sociais no Brasil e beneficia mais de 3000 jovens. Jimena a fundou em Londres, dois anos depois de sair do paraíso brasileiro de Lençóis (BA) para se casar com Jimmy Page, o guitarrista do Led Zeppelin. Mas calma aí, a história começa bem antes disso...
Quando você descobriu sua vocação social?
Meus pais são argentinos, mas eu nasci nos Estados unidos e fui criada entre Buenos Aires e São Francisco, Califórnia. Aos 11 anos estava em Buenos Aires e minha paixão era dançar break. Eu tinha um amigo que, como eu, vivia muito bem financeiramente. A gente pegava escondido um aparelho de som e ia dançar break na calçada de um bairro. Fizemos amizade com as crianças que viviam na rua e pediam esmola, roubavam. Um dia, resolvemos convidar cinco dos nossos amigos para ir a uma lanchonete. Tudo parecia muito legal, até que as crianças receberam os pratos de comida. Eu não conhecia aquela fome! Primeiro, fiquei humilde, depois, identificada: eles tinham nossa idade, era tão injusto! Naquele dia entendi o que faria do resto da minha vida. Quatro anos depois tive a chance de começar. Eu estava na Califórnia e recebi um folheto sobre os Amigos de las Américas, uma organização que recruta adolescentes para serem voluntários em abrigos de crianças e comunidades pobres na América do Sul. Me inscrevi.
Foi assim que você veio a conhecer o Brasil?
Não, minha história com o Brasil veio depois, eu tinha 19 anos e estava decidida a trabalhar com crianças de rua pelo mundo. Decidi começar por Gana, na África, então juntei um bom dinheiro, o suficiente para viver um ano, e comprei minha passagem. Antes disso, fui tirar férias no Brasil. A questão é que os cofres do hotel em que eu estava em Salvador foram arrombados. E eu fiquei ali, sem dinheiro, sem poder viajar e precisando de um lugar barato para morar. Tentei trabalhar no projeto da irmã Dulce, mas eu não falava português. Daí alguém me indicou Lençóis, na Chapada Diamantina, como opção mais barata para viver. Lá conheci duas mulheres que serviam sopas para pessoas carentes e comecei a ajudá-las no que seria o meu primeiro projeto social, o Grãos de Luz (que ganhou em 2003 o prêmio Itaú-Unicef).
Não dá para imaginar como você se casou com um roqueiro...
Eu fui levar minha filha para conhecer a família na Argentina, estava separada. Amigos me apresentaram Jimmy, que estava em turnê, e nós conversamos muito sobre problemas sociais no Brasil. Em seguida ele foi para o Rio, viu de perto o que eu estava falando, e me ligou para pensarmos em algo. Mantemos contato, ele ajudou o Grãos de Luz, tivemos encontros esporádicos. Um dia, ele apareceu em Lençóis. E, um tempo depois, me convidou a viajar na turnê com ele. Minha idéia era fazer um folder e ir falando com os amigos dele pelo caminho, tentando arrecadar fundos para o Grãos de Luz, depois percebi que tudo era bem mais burocrático. Nos mudamos para a Inglaterra e, dois anos depois, fundei a ABC Trust.
Quais são os planos da ABC para 2009?
A crise financeira afetou muito a ABC e estamos apertando os cintos. Por esse e por outros motivos estamos redefinindo critérios. Estamos firmando parcerias cada vez mais sólidas, para apoiar projetos que tenham resultados de transformação ainda mais longo prazo, que atendam mais jovens e tenham mais apelo comunitário. Algumas das ONGs que ajudávamos já estão mais independentes, podem andar sozinhas. E queremos apostar mais nos projetos ligados a arte, dança, cultura, que estimulem a criatividade, que trabalhem com a energia das crianças.
E por que levar cultura para os jovens pode ser transformador?
No início, eu achava que os abrigos eram mais importantes que qualquer outro projeto, era emergência, trabalhava com fome, local para dormir, o básico. Então, quando recebia pedidos para cultura, eu os considerava frívolos. Hoje entendo o poder transformador deles num país como o Brasil. As crianças desenvolvem coragem, força e confiança e acabam beneficiando toda a comunidade em torno. E alguns, como no caso da Escola Picolino de Artes do Circo, podem até dar um salário mínimo para suas crianças continuarem na escola.
Você é otimista? Qual é o seu maior sonho?
Sou otimista, sim, e acredito no sonho de um mundo mais harmonioso e justo. Estou envolvida num projeto que tem um ingrediente importante para ajudar a viabilizar esse sonho: criar novos modelos de vida e sociedade. Estamos junto com o diretor mexicano de cinema Alfonso Cuarón no lançamento de uma campanha para que as pessoas façam pausas esporádicas de 60 segundos para analisar seu modelo de vida. Os insights serão compartilhados em um website e ajudarão cada um de nós a criar alternativas. Afinal, o jeito como estamos vivendo claramente não está funcionando, não é mesmo?