cidadania
Infância em perigo
A cada 8 minutos uma criança é vítima de violência e 75% das agressões acontecem dentro de casa. Esses dados alarmantes motivaram um grupo de cidadãos a criar o Programa de Capacitação de Multiplicadores de Redução da Violência Infantil. O lançamento aconteceu hoje, em São Paulo
Liliane Oraggio
Planeta Sustentável - 02/04/2009
A violência contra a criança é uma das faces mais dramáticas da violência doméstica, que atinge uma a cada cinco mulheres no mundo. Mães fragilizadas não são capazes de proteger seus filhos dos agressores que, na maioria, são os próprios pais, padrastos, irmãos mais velhos. Embora o número de denúncias tenha aumentado sensivelmente nos últimos anos, a maioria das pessoas ainda tem receio de agir e muitas, mesmo próximas aos pequenos, não são capazes de identificar os sinais de violência infantil, que começa muito antes de culminar com um espancamento.
Pensando nisso, o Instituto Zero a Seis que reúne educadores, cientistas e pessoas atuantes nas questões da infância, resolveu lançar um programa para capacitar todos os interessados em combater esse tipo de violência. Hesitar em orientar a família a procurar ajuda ou mesmo fazer uma denúncia, nesses casos, pode por em risco a vida e a integridade de inocentes: “A maioria dos agressores são homens, mas já registramos violência praticada por mulheres e adolescentes, que são primos ou irmãos mais velhos”, ressalta Dalka Ferrari, do Centro de Referência às Vítimas de Violência, do Instituto Sedes Sapentiae, de São Paulo.
Geralmente, o problema é mantido em segredo pela família, o medo emudece as crianças vitimadas e, muitas vezes, é o olhar atendo de um vizinho ou professor que será capaz de romper esse círculo vicioso. Detalhe: este problema está por toda parte, no interior e nas grandes cidades, e não é restrito às classes sociais menos favorecidas.
Indefesa, a criança pode ser alvo de muitos tipos de violência. Em média, são 770 registros no Disque Denúncia (181), todos os meses.
• 67% dos casos são por agressão física,
• 17% por abandono,
• 10% por negligência,
• 2% por abuso sexual.
Porém, depreciação verbal, tortura psicológica e má alimentação podem não deixar marcas físicas evidentes, mas também têm o poder de destruir a infância. “Informar e dar elementos para que a violência seja reconhecida por pais, professores, vizinhos é a melhor maneira de prevenir. Além de fortalecer os órgãos de proteção e atendimento às vítimas”, afirma Paulo Santos, do Instituto São Paulo Contra a Violência. “Pensando em estimular denúncias, fizemos um filme para ser veiculado na TV, mas não colocamos no ar: os conselhos tutelares, que já trabalham no limite e em condições precárias, não teriam como dar encaminhamento aos casos”, revela. Mesmo assim, quando há suspeita, o disque denúncia deve ser acionado. Hesitar em dar um telefonema pode perpetuar o sofrimento de uma ou de várias vítimas.
Outra questão central da violência doméstica é que nem todos os delegados, médicos e outros profissionais envolvidos no atendimento são treinados para lidar com a delicadeza que os casos exigem. “Antes de chegar diante de um terapeuta, a criança brasileira que foi agredida ou abusada tem que dar seu depoimento no mínimo 9 vezes. Além da agressão e do medo, repetir a história é muito doloroso. Na França, por exemplo, um único relato é suficiente. Gravado em vídeo, é assistido por todos que cuidam do caso, poupando os menores dessa revitimização”, afirma a psicóloga Dalka Ferrari. Os traumas causados pela violência infantil (que muitas vezes incluem gravidez precoce e a contaminação por doenças sexuais), podem ser atenuados com um ou dois anos de tratamento intensivo, como é feito no CRVV, mas as marcas ficam para sempre e todo o desenvolvimento da criança fica comprometido.
É verdade que o papel dos órgãos públicos é fundamental para a prevenção e o controle da violência, seja ela de qualquer espécie. E, de fato, há muitas pessoas trabalhando nessa frente no governo federal, estadual, municipal, em ONGs nacionais e estrangeiras, em centros de estudos respeitávei