Belas paisagens
Campos dos sonhos
Com solo e sementes se faz agricultura e, por que não, arte? Inspirado na land art, o artista plástico tunisiano Jean Paul Ganem cria belas paisagens, mostrando que é possível unir com delicadeza estética, consciência ambiental e engajamento social
Raphaela de Campos Mello*
Revista Bons Fluidos – 04/2009
O que um agricultor e um pintor têm em comum? Ora, o primeiro cria paisagens, o segundo as retrata em suas telas. Se fundirmos as duas atividades, chegaremos ao trabalho do artista plástico Jean Paul Ganem, para quem “o solo é um gigantesco papel e as sementes são as tintas”. Essa é a essência da land art, conhecida como earth art ou earthwork. A corrente surgiu nos Estados Unidos na década de 60 com a intenção de levar as criações artísticas para além dos limites dos museus e galerias, aproximando-as das pessoas. Jean deu um passo ainda maior. Quer surpreender o olhar, tirá-lo da mesmice, e ainda promover o envolvimento das comunidades existentes fora das grandes metrópoles.
[img1]Segundo ele, os trabalhadores rurais não produzem somente alimentos –também imagens. “Quero que eles compreendam a dimensão estética de seu trabalho”, afirma. Por isso, cenários inóspitos e selvagens não interessam a esse tunisiano radicado na França. Amparado por patrocínios de ordem pública e privada, ele viaja o mundo à procura de paisagens “reais”, ou seja, habitadas por gente. Quando chega a uma propriedade e apresenta sua proposta de transformação dos espaços, costuma ser recebido como um filho desgarrado que à casa retorna ou como um forasteiro dono de ideias extravagantes.
“Certa vez um fazendeiro francês só aceitou emprestar parte de suas terras se recebesse em troca uma charrete de milho”, conta entre risos. Mas a intenção do artista não é atrapalhar
a rotina dos homens do campo. Pelo contrário. Para ele, o utilitário e o belo podem conviver em harmonia. Foi o que propôs a um plantador de trigo no interior da França. Em vez de semear apenas um tipo, por que não adicionar ao plantio outros dois, compondo uma tela xadrez tingida com três tons diferentes? Mescla de cores, poesia, humor e crítica são ingredientes recorrentes que jogam com o observador. Um campo listrado, não muito diferente dos de futebol, num segundo relance se revela um código de barras. Já no terreno próximo ao aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, a trilha sinuosa com direito a loopings faz contraponto com as rotas bem traçadas dos aviadores. A brincadeira pode ser conferida de camarote pelos passageiros.
[img2]E pensar que tamanho apuro tem prazo de validade. Sim, os trabalhos não são perenes. A certa altura a natureza tratará de imprimir seu próprio desenho.
Como prova de desapego, o artista diz não só compreender o caráter transitório de suas criações mas também valorizá-lo. “Por ser efêmera, a obra carrega uma mensagem mais forte”, diz.
[img3]INTERVENÇÕES URBANAS
Se no interior Jean encontra recantos bucólicos, nas cidades encara áreas degradadas que clamam por regeneração. Em Montreal, no Canadá, ele fez renascer das cinzas um aterro sanitário, ou “100 hectares de apocalipse”, nas palavras do artista. Ao longo de três décadas, o bairro próximo ao aeroporto da cidade conviveu com esse vizinho malcheiroso e, por tabela, com a desvalorização dos lotes e com a baixa autoestima dos moradores. Difícil acreditar que no começo do século 20 o lugar recebia a visita de pintores munidos de pincéis e cavaletes. Pois coube a Jean resgatar o passado. Para tanto, contou com a ajuda da prefeitura, de empresas e da comunidade.
[img4]Vizinhos, ex-presidiários e aprendizes de jardinagem trabalharam lado a lado, comprovando na prática o que a teoria dava como certo. “A arte pode ser o vetor de muitas coisas”, defende Jean. “Da estética, da questão ambiental e da formação de jovens.” A marotona resultou numa série de círculos floridos que levaram vida ao antigo lixão.
O artista também carrega na manga uma forma mais sutil de intervir no cenário urbano. Batizada de grafite vegetal, a técnica consiste em cobrir com plantas fachadas de edifícios localizados em regiões carentes de verde. “Esse tipo de trabalho desperta um novo olhar para a arquitetura”, comenta.
[img5]Os paulistanos não precisam ficar com água na boca. Em breve, a cidade de São Paulo terá um oásis de frescor assinado por Jean. Na época em que esta reportagem foi feita, o local que abrigará a obra não podia ser revelado. Mozart Mesquita, da produtora cultural Brazimage, parceira do projeto, dá uma pista: “Será num daqueles lugares invisíveis habitados por famílias que não vemos”. Seja onde for, esse presente será recebido com sincera gratidão
[img6]
O que um agricultor e um pintor têm em comum? Ora, o primeiro cria paisagens, o segundo as retrata em suas telas. Se fundirmos as duas atividades, chegaremos ao trabalho do artista plástico Jean Paul Ganem, para quem “o solo é um gigantesco papel e as sementes são as tintas”. Essa é a essência da land art, conhecida como earth art ou earthwork. A corrente surgiu nos Estados Unidos na década de 60 com a intenção de levar as criações artísticas para além dos limites dos museus e galerias, aproximando-as das pessoas. Jean deu um passo ainda maior. Quer surpreender o olhar, tirá-lo da mesmice, e ainda promover o envolvimento das comunidades existentes fora das grandes metrópoles.
[img1]Segundo ele, os trabalhadores rurais não produzem somente alimentos –também imagens. “Quero que eles compreendam a dimensão estética de seu trabalho”, afirma. Por isso, cenários inóspitos e selvagens não interessam a esse tunisiano radicado na França. Amparado por patrocínios de ordem pública e privada, ele viaja o mundo à procura de paisagens “reais”, ou seja, habitadas por gente. Quando chega a uma propriedade e apresenta sua proposta de transformação dos espaços, costuma ser recebido como um filho desgarrado que à casa retorna ou como um forasteiro dono de ideias extravagantes.
“Certa vez um fazendeiro francês só aceitou emprestar parte de suas terras se recebesse em troca uma charrete de milho”, conta entre risos. Mas a intenção do artista não é atrapalhar
a rotina dos homens do campo. Pelo contrário. Para ele, o utilitário e o belo podem conviver em harmonia. Foi o que propôs a um plantador de trigo no interior da França. Em vez de semear apenas um tipo, por que não adicionar ao plantio outros dois, compondo uma tela xadrez tingida com três tons diferentes? Mescla de cores, poesia, humor e crítica são ingredientes recorrentes que jogam com o observador. Um campo listrado, não muito diferente dos de futebol, num segundo relance se revela um código de barras. Já no terreno próximo ao aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, a trilha sinuosa com direito a loopings faz contraponto com as rotas bem traçadas dos aviadores. A brincadeira pode ser conferida de camarote pelos passageiros.
[img2]E pensar que tamanho apuro tem prazo de validade. Sim, os trabalhos não são perenes. A certa altura a natureza tratará de imprimir seu próprio desenho.
Como prova de desapego, o artista diz não só compreender o caráter transitório de suas criações mas também valorizá-lo. “Por ser efêmera, a obra carrega uma mensagem mais forte”, diz.
[img3]INTERVENÇÕES URBANAS
Se no interior Jean encontra recantos bucólicos, nas cidades encara áreas degradadas que clamam por regeneração. Em Montreal, no Canadá, ele fez renascer das cinzas um aterro sanitário, ou “100 hectares de apocalipse”, nas palavras do artista. Ao longo de três décadas, o bairro próximo ao aeroporto da cidade conviveu com esse vizinho malcheiroso e, por tabela, com a desvalorização dos lotes e com a baixa autoestima dos moradores. Difícil acreditar que no começo do século 20 o lugar recebia a visita de pintores munidos de pincéis e cavaletes. Pois coube a Jean resgatar o passado. Para tanto, contou com a ajuda da prefeitura, de empresas e da comunidade.
[img4]Vizinhos, ex-presidiários e aprendizes de jardinagem trabalharam lado a lado, comprovando na prática o que a teoria dava como certo. “A arte pode ser o vetor de muitas coisas”, defende Jean. “Da estética, da questão ambiental e da formação de jovens.” A marotona resultou numa série de círculos floridos que levaram vida ao antigo lixão.
O artista também carrega na manga uma forma mais sutil de intervir no cenário urbano. Batizada de grafite vegetal, a técnica consiste em cobrir com plantas fachadas de edifícios localizados em regiões carentes de verde. “Esse tipo de trabalho desperta um novo olhar para a arquitetura”, comenta.
[img5]Os paulistanos não precisam ficar com água na boca. Em breve, a cidade de São Paulo terá um oásis de frescor assinado por Jean. Na época em que esta reportagem foi feita, o local que abrigará a obra não podia ser revelado. Mozart Mesquita, da produtora cultural Brazimage, parceira do projeto, dá uma pista: “Será num daqueles lugares invisíveis habitados por famílias que não vemos”. Seja onde for, esse presente será recebido com sincera gratidão
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