homem de bem
Cultivar e nutrir
Quanto mais o tempo avança, mais precisamos dos amigos da juventude
por Caco de Paula
Revista Vida Simples - 07/2008
[img01]Há alguns anos ganhamos uma muda de café de Ione, amiga que, sem saber, nos deu muito mais que a plantinha que minha mulher Gisele replantou no jardim de casa. Hoje colho a primeira safra dessa plantação única. Nosso pé de café cresceu a mais de 3 metros de altura, com folhas viçosas, deu belas flores brancas e depois frutos, sadios e brilhantes, de um vermelho intenso.
Na colheita de cada fruto maduro, recupero lembranças da infância, passada em meio a cafezais. Sempre fui um tanto curioso. Quando criança, intrigava-me a origem das plantas e o funcionamento dessa coisa fantástica que é a experiência do homem com a natureza. Que caminhos a curiosidade humana teria percorrido para saber para que serve e como produzir cada uma daquelas árvores, verduras, frutos, arbustos e matos que vi nas roças e quintais dos meus tempos de menino?
Queria saber os porquês de coisas muito simples do cotidiano, como, por exemplo, o limão, freqüente na mesa e nos temperos da casa, graças a uma pequena árvore do quintal. Como teria sido a descoberta do valor prático dessa qualidade ácida e saborosa que é o limão? Imagine o que cada uma entre muitas gerações de seres humanos aprendeu sobre o uso de tantas coisas que fazem parte de nossas vidas e, de tão banais, nos parecem ter surgido com o mundo, da maneira como as conhecemos. O que dizer do café, então?
Que caminho longo foi trilhado por tantas gerações, para conhecer a planta, reproduzi-la, colher seus frutos e saber que deveriam secá-los, descascá-los, torrá-los, moê-los, passá-los em infusão e chegar ao estado da arte de um bom café de coador? Ou, ainda, tudo que foi preciso fazer para que o fruto chegasse à forma de um vero spresso?
Vem à memória o perfume do café sendo torrado por minha avó, que girava um instrumento esférico sobre brasas, todo encarvoado e cheio de sementes. Junto com a muda de café ganhamos estímulo para acessar essas e outras lembranças. Até hoje me fascino com a engenhosidade humana capaz de cultivar a terra e nutrir as idéias. Creio que faz parte da natureza humana a curiosidade e a capacidade de aprendizado.
E uma coisa a se aprender é que, quanto mais o tempo avança, mais precisamos dos amigos que nos conheceram ainda jovens. Portanto, nunca deveríamos nos esquecer de que, assim como as plantas, temos de cultivar as amizades. Se há algum acaso no fato de conhecermos muitas das pessoas que acabamos conhecendo ao longo de nossas vidas, a transformação de algumas delas em verdadeiros amigos depende de escolhas.
E, como no cultivo da planta, de nutrir, alentar, sustentar. Foi esse pensamento que ganhamos junto com a muda de café que cresceu e que hoje nos dá tantos frutos.
Caco de Paula jornalista, sabe que muita cafeína aumenta a taxa de cortisol no organismo, mas adora tomar um cafezinho com os amigos. homemdebem@abril.com.br.
[img01]Há alguns anos ganhamos uma muda de café de Ione, amiga que, sem saber, nos deu muito mais que a plantinha que minha mulher Gisele replantou no jardim de casa. Hoje colho a primeira safra dessa plantação única. Nosso pé de café cresceu a mais de 3 metros de altura, com folhas viçosas, deu belas flores brancas e depois frutos, sadios e brilhantes, de um vermelho intenso.
Na colheita de cada fruto maduro, recupero lembranças da infância, passada em meio a cafezais. Sempre fui um tanto curioso. Quando criança, intrigava-me a origem das plantas e o funcionamento dessa coisa fantástica que é a experiência do homem com a natureza. Que caminhos a curiosidade humana teria percorrido para saber para que serve e como produzir cada uma daquelas árvores, verduras, frutos, arbustos e matos que vi nas roças e quintais dos meus tempos de menino?
Queria saber os porquês de coisas muito simples do cotidiano, como, por exemplo, o limão, freqüente na mesa e nos temperos da casa, graças a uma pequena árvore do quintal. Como teria sido a descoberta do valor prático dessa qualidade ácida e saborosa que é o limão? Imagine o que cada uma entre muitas gerações de seres humanos aprendeu sobre o uso de tantas coisas que fazem parte de nossas vidas e, de tão banais, nos parecem ter surgido com o mundo, da maneira como as conhecemos. O que dizer do café, então?
Que caminho longo foi trilhado por tantas gerações, para conhecer a planta, reproduzi-la, colher seus frutos e saber que deveriam secá-los, descascá-los, torrá-los, moê-los, passá-los em infusão e chegar ao estado da arte de um bom café de coador? Ou, ainda, tudo que foi preciso fazer para que o fruto chegasse à forma de um vero spresso?
Vem à memória o perfume do café sendo torrado por minha avó, que girava um instrumento esférico sobre brasas, todo encarvoado e cheio de sementes. Junto com a muda de café ganhamos estímulo para acessar essas e outras lembranças. Até hoje me fascino com a engenhosidade humana capaz de cultivar a terra e nutrir as idéias. Creio que faz parte da natureza humana a curiosidade e a capacidade de aprendizado.
E uma coisa a se aprender é que, quanto mais o tempo avança, mais precisamos dos amigos que nos conheceram ainda jovens. Portanto, nunca deveríamos nos esquecer de que, assim como as plantas, temos de cultivar as amizades. Se há algum acaso no fato de conhecermos muitas das pessoas que acabamos conhecendo ao longo de nossas vidas, a transformação de algumas delas em verdadeiros amigos depende de escolhas.
E, como no cultivo da planta, de nutrir, alentar, sustentar. Foi esse pensamento que ganhamos junto com a muda de café que cresceu e que hoje nos dá tantos frutos.
Caco de Paula jornalista, sabe que muita cafeína aumenta a taxa de cortisol no organismo, mas adora tomar um cafezinho com os amigos. homemdebem@abril.com.br.