homem de bem
Hora de replantar
Uma boa idéia achada no meio lixo pode florescer e inspirar as pessoas
Por Caco de Paula
Revista Vida Simples - 04/2008
[img01]As notícias da minha cidade às vezes mais assustam que informam. Na primeira página do jornal, no noticiário de rádio, nos programas de TV, "grandes assuntos" e pequenas misérias parecem reforçar a imagem de um mundo cheio de problemas sem solução. São tantas as notícias que acabam por se anular umas às outras, na montanha de fatos soterrada pela nova montanha que se acumula sobre a anterior e que também desaparecerá algumas horas depois. Assim, é uma felicidade quando um pequeno fato, aparentemente ingênuo e desimportante, resiste à avalanche de notícias do cotidiano e nos chega na forma de uma pequena grande idéia. Uma nota com apenas algumas linhas, publicada em Veja São Paulo, conta a história da arquiteta Adriana Irigoyen, síndica do edifício onde mora, que, ao organizar a coleta seletiva no prédio, notou que as pessoas jogam fora as orquídeas tão logo elas perdem a flor. Ela se juntou aos vizinhos e passou a recolher as plantas para colocá-las nas árvores da rua. As plantas, que iriam para o lixo tão logo perdessem as flores, agora são penduradas a 3 metros de altura nos troncos das árvores. A idéia é tão simples que já começa a ser replicada por aí, em outros bairros. Ou começa a ter apoio de outras pessoas que, sendo do prédio ou não, também querem doar suas plantas para deixar a cidade mais bonita. Na minha casa mesmo já estamos falando com a vizinhança para ver se há plantas assim, que a gente possa reaproveitar, sejam orquídeas para os troncos das árvores, sejam outras espécies para replantar em canteiros. Aliás, o bom dessas idéias simples é que elas têm a virtude de se espalhar com facilidade. O pessoal que começou a praticá-la em São Paulo cita como inspiração uma ação parecida, feita em Maripá, cidade do interior do Paraná. Neste mundo tão focado em soluções e resultados para ontem, com quase nada sendo pensado para médio prazo, surpreende também o fato de que essa idéia aposte em algo que só atingirá o ápice daqui a um ano, quando as orquídeas voltarão a florescer. Não seria má idéia se as fl oriculturas e supermercados informassem aos consumidores que, em muitos casos, as plantas não precisam ir para o lixo. É muito legal pensar que se pode, a um só tempo, combater o desperdício e deixar a cidade mais bonita. É uma idéia duplamente bem-vinda. Trata-se, é claro, de encontrar durabilidade para uma plantinha que iria para o lixo. Mas, mais do que isso, há o significado da ação em si mesma e da perseverança, embutidos no ato de replantar, de insistir, de tentar novamente. Hoje em dia quase aceitamos que tudo seja descartável: dos produtos mais banais do cotidiano às notícias, os ideais, até mesmo algumas amizades, as plantas. E não precisa ser necessariamente assim. Que essa idéia, literalmente achada no lixo, nos inspire a encontrar soluções tão belas quanto uma orquídea - e ao menos tão duráveis quanto uma planta que só vai florescer daqui a um ano.
Caco de Paula não entende nada de botânica, mas adora uma idéia simples e prática. homemdebem@abril.com.br
[img01]As notícias da minha cidade às vezes mais assustam que informam. Na primeira página do jornal, no noticiário de rádio, nos programas de TV, "grandes assuntos" e pequenas misérias parecem reforçar a imagem de um mundo cheio de problemas sem solução. São tantas as notícias que acabam por se anular umas às outras, na montanha de fatos soterrada pela nova montanha que se acumula sobre a anterior e que também desaparecerá algumas horas depois. Assim, é uma felicidade quando um pequeno fato, aparentemente ingênuo e desimportante, resiste à avalanche de notícias do cotidiano e nos chega na forma de uma pequena grande idéia. Uma nota com apenas algumas linhas, publicada em Veja São Paulo, conta a história da arquiteta Adriana Irigoyen, síndica do edifício onde mora, que, ao organizar a coleta seletiva no prédio, notou que as pessoas jogam fora as orquídeas tão logo elas perdem a flor. Ela se juntou aos vizinhos e passou a recolher as plantas para colocá-las nas árvores da rua. As plantas, que iriam para o lixo tão logo perdessem as flores, agora são penduradas a 3 metros de altura nos troncos das árvores. A idéia é tão simples que já começa a ser replicada por aí, em outros bairros. Ou começa a ter apoio de outras pessoas que, sendo do prédio ou não, também querem doar suas plantas para deixar a cidade mais bonita. Na minha casa mesmo já estamos falando com a vizinhança para ver se há plantas assim, que a gente possa reaproveitar, sejam orquídeas para os troncos das árvores, sejam outras espécies para replantar em canteiros. Aliás, o bom dessas idéias simples é que elas têm a virtude de se espalhar com facilidade. O pessoal que começou a praticá-la em São Paulo cita como inspiração uma ação parecida, feita em Maripá, cidade do interior do Paraná. Neste mundo tão focado em soluções e resultados para ontem, com quase nada sendo pensado para médio prazo, surpreende também o fato de que essa idéia aposte em algo que só atingirá o ápice daqui a um ano, quando as orquídeas voltarão a florescer. Não seria má idéia se as fl oriculturas e supermercados informassem aos consumidores que, em muitos casos, as plantas não precisam ir para o lixo. É muito legal pensar que se pode, a um só tempo, combater o desperdício e deixar a cidade mais bonita. É uma idéia duplamente bem-vinda. Trata-se, é claro, de encontrar durabilidade para uma plantinha que iria para o lixo. Mas, mais do que isso, há o significado da ação em si mesma e da perseverança, embutidos no ato de replantar, de insistir, de tentar novamente. Hoje em dia quase aceitamos que tudo seja descartável: dos produtos mais banais do cotidiano às notícias, os ideais, até mesmo algumas amizades, as plantas. E não precisa ser necessariamente assim. Que essa idéia, literalmente achada no lixo, nos inspire a encontrar soluções tão belas quanto uma orquídea - e ao menos tão duráveis quanto uma planta que só vai florescer daqui a um ano.
Caco de Paula não entende nada de botânica, mas adora uma idéia simples e prática. homemdebem@abril.com.br