Volta por cima
A favor das bicicletas
A economista Maria Elizabeth Silva Davison transformou a dor da perda de um filho em luta por mais respeito aos ciclistas. Para isso, se uniu à causa da ONG Rodas da Paz. Aqui, ela conta como é possível transformar o luto em estímulo à vida
Por Maria Elizabeth Davison
Revista Bons Fluidos - 12/2007
"Sou do Piauí, mas moro em Brasília há mais de 30 anos. Somos eu e meu marido, Persio. Foi aqui que nossos três filhos nasceram: Anna, Pedro e William. Em 2006, vivenciamos uma das coisas mais difíceis que uma família pode passar.
Pedro, então com 25 anos, foi atropelado e morreu no dia 19 de agosto. Ele era biólogo e ciclista por convicção, por entender que a bicicleta não polui e faz bem para a saúde. Pedro ia trabalhar e viajava pedalando também.
Uma vez, foi assim para Trancoso, na Bahia - 11 dias de estrada. Lembro que ele me ligava sempre para contar sobre as paisagens que tinha visto.
Meu filho morreu no dia do aniversário da filha dele, Luiza. Ela fazia 8 anos. Organizamos uma festa à tarde e, pelas 19 horas, o Pedro saiu para pedalar.
Ele estava acostumado a pedalar à noite. O acidente aconteceu às 21 horas. Temos uma avenida aqui chamada Eixão, com um canteiro central que divide as vias. Um motorista invadiu o canteiro, atropelou e seguiu sem socorrer.
Um motoqueiro viu, anotou a placa, chamou a polícia. O motorista foi pego em seguida. Estava embriagado, mas pagou fiança e saiu livre duas horas depois. Meu filho morreu no local.
Dias mais tarde, o presidente de uma ONG chamada Rodas da Paz foi nos procurar. Ela faz um trabalho de educação no trânsito em escolas e nos sugeriu um manifesto no sétimo dia da morte do Pedro.
Eles tiveram muita sensibilidade ao nos contactar e topamos. Distribuímos flores e seguramos uma faixa no local do acidente.
A ONG existe há três anos e nasceu após a morte de um ciclista. Recebemos tanto apoio das pessoas que meu marido e eu decidimos transformar nossa dor num trabalho junto à organização.
Hoje, sou diretora financeira da Rodas da Paz. Participo de reuniões semanais e reivindicamos ciclovias para Brasília. Você sabia que a cada quatro dias morre um ciclista na cidade?
Por que eu faço tudo isso? Não quero que outra família passe pelo que passamos. Em agosto, no aniversário de um ano da morte de Pedro, fizemos um ato de celebração no Jardim Botânico. Reunimos 80 crianças e apresentamos um teatro sobre educação no trânsito.
Os amigos biólogos de meu filho falaram sobre a preservação das espécies do cerrado, e distribuímos camisetas. Minha filha, Anna, fez um logotipo que mostra crianças andando de bicicleta e fala sobre a 'ética pela vida'.
A dor pela morte de meu filho é enorme. Pedro era um rapaz feliz, que amava viver. Por isso, eu não tinha o direito de ficar só, em casa, chorando. O trabalho na ONG me deu uma direção. O que desejo hoje é ver o meu filho William e Luiza, minha neta, andando de bicicleta em paz."
Para saber mais sobre a ONG Rodas da Paz: www.rodasdapaz.org.br.
"Sou do Piauí, mas moro em Brasília há mais de 30 anos. Somos eu e meu marido, Persio. Foi aqui que nossos três filhos nasceram: Anna, Pedro e William. Em 2006, vivenciamos uma das coisas mais difíceis que uma família pode passar.
Pedro, então com 25 anos, foi atropelado e morreu no dia 19 de agosto. Ele era biólogo e ciclista por convicção, por entender que a bicicleta não polui e faz bem para a saúde. Pedro ia trabalhar e viajava pedalando também.
Uma vez, foi assim para Trancoso, na Bahia - 11 dias de estrada. Lembro que ele me ligava sempre para contar sobre as paisagens que tinha visto.
Meu filho morreu no dia do aniversário da filha dele, Luiza. Ela fazia 8 anos. Organizamos uma festa à tarde e, pelas 19 horas, o Pedro saiu para pedalar.
Ele estava acostumado a pedalar à noite. O acidente aconteceu às 21 horas. Temos uma avenida aqui chamada Eixão, com um canteiro central que divide as vias. Um motorista invadiu o canteiro, atropelou e seguiu sem socorrer.
Um motoqueiro viu, anotou a placa, chamou a polícia. O motorista foi pego em seguida. Estava embriagado, mas pagou fiança e saiu livre duas horas depois. Meu filho morreu no local.
Dias mais tarde, o presidente de uma ONG chamada Rodas da Paz foi nos procurar. Ela faz um trabalho de educação no trânsito em escolas e nos sugeriu um manifesto no sétimo dia da morte do Pedro.
Eles tiveram muita sensibilidade ao nos contactar e topamos. Distribuímos flores e seguramos uma faixa no local do acidente.
A ONG existe há três anos e nasceu após a morte de um ciclista. Recebemos tanto apoio das pessoas que meu marido e eu decidimos transformar nossa dor num trabalho junto à organização.
Hoje, sou diretora financeira da Rodas da Paz. Participo de reuniões semanais e reivindicamos ciclovias para Brasília. Você sabia que a cada quatro dias morre um ciclista na cidade?
Por que eu faço tudo isso? Não quero que outra família passe pelo que passamos. Em agosto, no aniversário de um ano da morte de Pedro, fizemos um ato de celebração no Jardim Botânico. Reunimos 80 crianças e apresentamos um teatro sobre educação no trânsito.
Os amigos biólogos de meu filho falaram sobre a preservação das espécies do cerrado, e distribuímos camisetas. Minha filha, Anna, fez um logotipo que mostra crianças andando de bicicleta e fala sobre a 'ética pela vida'.
A dor pela morte de meu filho é enorme. Pedro era um rapaz feliz, que amava viver. Por isso, eu não tinha o direito de ficar só, em casa, chorando. O trabalho na ONG me deu uma direção. O que desejo hoje é ver o meu filho William e Luiza, minha neta, andando de bicicleta em paz."
Para saber mais sobre a ONG Rodas da Paz: www.rodasdapaz.org.br.