COMPORTAMENTO
Escravos do automóvel
Documentário mostra que estamos dependentes do transporte individual, que o transporte coletivo não vai tão bem assim - mas há alternativas para isso
Por Isabel Abreu Braga
Planeta Sustentável - 19/09/2007
As imagens do vídeo Sociedade do Automóvel (que você pode assistir aqui no Planeta) foram captadas há mais de três anos. O tempo passou. Mas o trânsito caótico, os ônibus lotados e a poluição do ar continuam em São Paulo. A cidade permanece a mesma? Ou teria piorado? O documentário mostra uma cidade que vive o culto ao automóvel e que, nesta semana, se prepara para o Dia Mundial Sem Carro, no próximo dia 22 de setembro. Vários estilos de paulistanos participam do vídeo. O que se sente mais seguro na cidade por dirigir o seu carro, o que acredita que o veículo mais possante dá mais prestígio e aquele que trocou o transporte individual pelo metrô ou pela bicicleta. "Não tem uma pessoa que acha fácil locomover-se em São Paulo. A mobilidade é um problema para todos", diz o jornalista e um dos autores do vídeo Thiago Benicchio.
Os números da vida urbana paulistana apresentados no vídeo são impressionantes: quase seis milhões de automóveis, um acidente a cada três minutos, oito vítimas fatais da poluição por dia. Sem contabilizar o número de motoristas que deveriam ter sido multados, por exemplo, pelo desrespeito ao pedestre, mas não foram.
A idéia do vídeo, que inicialmente era trabalho de conclusão do curso de jornalismo, surgiu em 2004, quando a dupla Branca Nunes e Thiago Benicchio passou a ir de ônibus até a faculdade. "Começamos a reparar na cidade. Percebemos que o transporte público é desvalorizado: quem tem e quem não tem carro vê o transporte coletivo como alternativa para quem não tem dinheiro", conta Benicchio.
Depois, o vídeo foi editado e transmitido pela TV Cultura, além de ser disponibilizado na internet. De forma espontânea as imagens foram sendo divulgadas e, somente no Google vídeo, mais de 7 mil pessoas assistiram ao documentário.
"Com certeza as pessoas estão mais conscientes do problema da mobilidade", afirma o jornalista, que participa do movimento Bicicletada e mantém o blog Apocalipse Motorizado (inspirado no livro* do escritor Ned Ludd).
O motoqueiro, o motorista da Mercedes, o ciclista, o passageiro do ônibus e o pedestre. Todos sofrem com o trânsito e a poluição em São Paulo, causados principalmente pelo excesso de transporte individual nas ruas.
Se o médico Paulo Saldiva, chefe do departamento de patologia da Faculdade de Medicina da USP e referência internacional no estudo da poluição, fosse o imperador do Brasil, tudo isso seria bem diferente. "A primeira coisa que eu aboliria é esse tipo de transporte individual", diz o médico no documentário.
Mas até realizarmos essa idéia utópica de Saldiva, muita coisa ainda precisa mudar aqui na cidade dos homens. "Muita coisa pode ser feita, principalmente 'roubar' o espaço que os carros ocupam nas ruas, para criar faixa de ônibus, ciclovia, estacionamento para bicicletas, calçada mais larga", diz Benicchio.
Enquanto isso, vamos assistindo às pessoas que se fecham nos seus carros, escondem-se atrás do vidro fumê e esquecem do mundo que está logo ali, ao seu redor. "Você passa a não olhar para a cidade. Você tem que mudar a marcha, olhar o retrovisor e não vê a pessoa que está ali, dormindo no meio da rua", diz Benicchio. "O carro é um espaço privado e a gente precisa aprender a valorizar o espaço público", completa.
Existe o fetiche de ter o carro. Razões sociais, políticas e econômicas criam a dependência do transporte individual, que em São Paulo chega a ser literalmente individual: 1,2 pessoas é o índice de ocupação média do carro do paulistano.
E assim se inicia o círculo vicioso. Os ônibus cheios, o trânsito parado. Quem anda de ônibus quer logo comprar um carro. Mais pessoas trabalham, mais pessoas compram carros, mais trânsito. Mais isolamento. Mais propaganda de novos modelos de carros. Mais fetiche.
A quebra desse ciclo é essencialmente uma questão de políticas públicas e de conscientização das pessoas. Iniciativas como a produção desse vídeo e da mobilização pelo Dia Mundial Sem Carro podem significar um primeiro passo. Somente com a conscientização chegaremos ao poder público.
*Leia a resenha na Estante do Planeta.
As imagens do vídeo Sociedade do Automóvel (que você pode
assistir aqui no Planeta) foram captadas há mais de três anos. O tempo passou. Mas o trânsito caótico, os ônibus lotados e a poluição do ar continuam em São Paulo. A cidade permanece a mesma? Ou teria piorado? O documentário mostra uma cidade que vive o culto ao automóvel e que, nesta semana, se prepara para o Dia Mundial Sem Carro, no próximo dia 22 de setembro. Vários estilos de paulistanos participam do vídeo. O que se sente mais seguro na cidade por dirigir o seu carro, o que acredita que o veículo mais possante dá mais prestígio e aquele que trocou o transporte individual pelo metrô ou pela bicicleta. "Não tem uma pessoa que acha fácil locomover-se em São Paulo. A mobilidade é um problema para todos", diz o jornalista e um dos autores do vídeo Thiago Benicchio.
Os números da vida urbana paulistana apresentados no vídeo são impressionantes: quase seis milhões de automóveis, um acidente a cada três minutos, oito vítimas fatais da poluição por dia. Sem contabilizar o número de motoristas que deveriam ter sido multados, por exemplo, pelo desrespeito ao pedestre, mas não foram.
A idéia do vídeo, que inicialmente era trabalho de conclusão do curso de jornalismo, surgiu em 2004, quando a dupla Branca Nunes e Thiago Benicchio passou a ir de ônibus até a faculdade. "Começamos a reparar na cidade. Percebemos que o transporte público é desvalorizado: quem tem e quem não tem carro vê o transporte coletivo como alternativa para quem não tem dinheiro", conta Benicchio.
Depois, o vídeo foi editado e transmitido pela TV Cultura, além de ser disponibilizado na internet. De forma espontânea as imagens foram sendo divulgadas e, somente no Google vídeo, mais de 7 mil pessoas assistiram ao documentário.
"Com certeza as pessoas estão mais conscientes do problema da mobilidade", afirma o jornalista, que participa do movimento Bicicletada e mantém o blog Apocalipse Motorizado (inspirado no livro* do escritor Ned Ludd).
O motoqueiro, o motorista da Mercedes, o ciclista, o passageiro do ônibus e o pedestre. Todos sofrem com o trânsito e a poluição em São Paulo, causados principalmente pelo excesso de transporte individual nas ruas.
Se o médico Paulo Saldiva, chefe do departamento de patologia da Faculdade de Medicina da USP e referência internacional no estudo da poluição, fosse o imperador do Brasil, tudo isso seria bem diferente. "A primeira coisa que eu aboliria é esse tipo de transporte individual", diz o médico no documentário.
Mas até realizarmos essa idéia utópica de Saldiva, muita coisa ainda precisa mudar aqui na cidade dos homens. "Muita coisa pode ser feita, principalmente 'roubar' o espaço que os carros ocupam nas ruas, para criar faixa de ônibus, ciclovia, estacionamento para bicicletas, calçada mais larga", diz Benicchio.
Enquanto isso, vamos assistindo às pessoas que se fecham nos seus carros, escondem-se atrás do vidro fumê e esquecem do mundo que está logo ali, ao seu redor. "Você passa a não olhar para a cidade. Você tem que mudar a marcha, olhar o retrovisor e não vê a pessoa que está ali, dormindo no meio da rua", diz Benicchio. "O carro é um espaço privado e a gente precisa aprender a valorizar o espaço público", completa.
Existe o fetiche de ter o carro. Razões sociais, políticas e econômicas criam a dependência do transporte individual, que em São Paulo chega a ser literalmente individual: 1,2 pessoas é o índice de ocupação média do carro do paulistano.
E assim se inicia o círculo vicioso. Os ônibus cheios, o trânsito parado. Quem anda de ônibus quer logo comprar um carro. Mais pessoas trabalham, mais pessoas compram carros, mais trânsito. Mais isolamento. Mais propaganda de novos modelos de carros. Mais fetiche.
A quebra desse ciclo é essencialmente uma questão de políticas públicas e de conscientização das pessoas. Iniciativas como a produção desse vídeo e da mobilização pelo Dia Mundial Sem Carro podem significar um primeiro passo. Somente com a conscientização chegaremos ao poder público.
*Leia a resenha na Estante do Planeta.