tout le monde
Vida de pedestre
Há vantagens inegáveis em andar a pé. As pequenas coisas ganham significados que não teriam de outra forma
Matthew Shirts
O Estado de São Paulo - 16/07/2007
[img01]Ninguém, que eu saiba, descreveu tão bem o surgimento do pedestre enquanto categoria social como Monteiro Lobato. Antes do automóvel, "tout le monde", como se dizia, andava a pé. Existiam cavalos e carroças, bicicletas e barcos e navios, diversos meios de transporte, enfim, mas no dia-a-dia gastava mesmo era a sola do sapato. Como não havia motoristas, o pedestre não chegava a configurar uma categoria à parte. O assim chamado pedestrianismo era uma mera curiosidade, um esporte praticado sobretudo por poetas.
Lobato identifica a nova categoria social em 1926. Faz parte de O Presidente Negro, o único romance dele para adultos.
O narrador do livro se chama Ayrton Lobo. Ele começa a vida como contínuo da poderosa firma Sá, Pato & Cia., trabalhando a pé. Seu sonho é comprar um automóvel. "Ora, na rua via a humanidade dividida em duas castas, pedestres e rodantes, como os batizei aos homens comuns e aos que circulavam sobre quatro pneus [...] Sonhei, portanto, mudar de casta e por minha vez levar os pedestres a abrirem-me alas, sob pena de esmagamento."
Ayrton realiza seu sonho, compra um Ford, e a partir daí o pedestre se torna "uma criatura odiosa, embaraçadora do meu direito à rapidez e à linha reta. Pensei até em representar ao governo, sugerindo uma lei que proibisse a semelhantes trambolhos semoventes o trânsito pelas vias asfaltadas. Adquiri, em suma, a mentalidade dos rodantes..."
Como se não bastasse, Lobato prevê, no mesmo romance, e com razoável grau de acerto, diga-se de passagem, nada menos que a internet e as urnas eletrônicas de votação. Isto em 1926! Vislumbra, ainda, uma eleição nos Estados Unidos, disputada no século 21, entre um homem negro, uma mulher branca e outro homem, também caucasiano. É o quê se sucede neste momento se consideramos o embate eleitoral entre Barack Obama, Hillary Clinton, e seja qual for o candidato à vaga de George W. Bush pelo partido republicano. Como diria um amigo meu, Antônio Pedro Tota, também conhecido como "o professor", Lobato deveria era ter jogado na loto...
Lembro-me de O Presidente Negro sempre que ando a pé por São Paulo. É uma atividade que vem se tornando mais freqüente com o passar dos anos. Alguns talvez chamassem isto de mania de velho, mas resisto a ser enquadrado nesta categoria social. Tenho, no entanto, não há como negar, cada vez menos paciência para com os automóveis. (E o sentimento parece ser recíproco, diga-se de passagem).
Há vantagens inegáveis em andar a pé, mesmo aqui, onde a atitude diante do pedestre continua semelhante ao que era no tempo do Lobato. Parece chavão, mas não é: percebe-se a cidade de outro ângulo. As pequenas coisas ganham significados que não teriam de outra forma - não seriam nem percebidas, aliás.
Antes, um dos maiores obstáculos do pedestre paulistano, sobretudo nos bairros residenciais, era o cocô de cachorro na calçada. Sou distraído e, no meu caso, os incidentes eram freqüentes e lamentáveis, confesso. Reagia ao infortúnio com destempero, sempre aos berros, provocando pequenos escândalos que constrangiam meus filhos. Pior: movido pela emoção do momento, gritava na minha língua nativa, o inglês, facilitando a identificação do escandaloso. Se alguém, de dentro de uma casa vizinha perguntasse do quê se sucedia lá fora, a resposta infalível era: o gringo pisou no cocô de novo... É assim que imagino a cena, ao menos.
Tudo isso para dizer que as calçadas estão mais limpas, os "incidentes" menos corriqueiros. Sem brincadeira, acho esta uma notícia animadora. Os donos dos cachorros vêm cuidando das sujeiras dos animais, colocando-as em saquinhos de plástico que carregam consigo justo para tal finalidade. É um avanço. Facilita a vida do pedestre, do distraído, sobretudo, deixando a vizinhança mais harmoniosa e simpática. O próximo passo será convencê-los a não jogar os saquinhos de plástico usados na calçada. Mas não se pode querer tudo de uma só vez.
[img01]Ninguém, que eu saiba, descreveu tão bem o surgimento do pedestre enquanto categoria social como Monteiro Lobato. Antes do automóvel, "tout le monde", como se dizia, andava a pé. Existiam cavalos e carroças, bicicletas e barcos e navios, diversos meios de transporte, enfim, mas no dia-a-dia gastava mesmo era a sola do sapato. Como não havia motoristas, o pedestre não chegava a configurar uma categoria à parte. O assim chamado pedestrianismo era uma mera curiosidade, um esporte praticado sobretudo por poetas.
Lobato identifica a nova categoria social em 1926. Faz parte de O Presidente Negro, o único romance dele para adultos.
O narrador do livro se chama Ayrton Lobo. Ele começa a vida como contínuo da poderosa firma Sá, Pato & Cia., trabalhando a pé. Seu sonho é comprar um automóvel. "Ora, na rua via a humanidade dividida em duas castas, pedestres e rodantes, como os batizei aos homens comuns e aos que circulavam sobre quatro pneus [...] Sonhei, portanto, mudar de casta e por minha vez levar os pedestres a abrirem-me alas, sob pena de esmagamento."
Ayrton realiza seu sonho, compra um Ford, e a partir daí o pedestre se torna "uma criatura odiosa, embaraçadora do meu direito à rapidez e à linha reta. Pensei até em representar ao governo, sugerindo uma lei que proibisse a semelhantes trambolhos semoventes o trânsito pelas vias asfaltadas. Adquiri, em suma, a mentalidade dos rodantes..."
Como se não bastasse, Lobato prevê, no mesmo romance, e com razoável grau de acerto, diga-se de passagem, nada menos que a internet e as urnas eletrônicas de votação. Isto em 1926! Vislumbra, ainda, uma eleição nos Estados Unidos, disputada no século 21, entre um homem negro, uma mulher branca e outro homem, também caucasiano. É o quê se sucede neste momento se consideramos o embate eleitoral entre Barack Obama, Hillary Clinton, e seja qual for o candidato à vaga de George W. Bush pelo partido republicano. Como diria um amigo meu, Antônio Pedro Tota, também conhecido como "o professor", Lobato deveria era ter jogado na loto...
Lembro-me de O Presidente Negro sempre que ando a pé por São Paulo. É uma atividade que vem se tornando mais freqüente com o passar dos anos. Alguns talvez chamassem isto de mania de velho, mas resisto a ser enquadrado nesta categoria social. Tenho, no entanto, não há como negar, cada vez menos paciência para com os automóveis. (E o sentimento parece ser recíproco, diga-se de passagem).
Há vantagens inegáveis em andar a pé, mesmo aqui, onde a atitude diante do pedestre continua semelhante ao que era no tempo do Lobato. Parece chavão, mas não é: percebe-se a cidade de outro ângulo. As pequenas coisas ganham significados que não teriam de outra forma - não seriam nem percebidas, aliás.
Antes, um dos maiores obstáculos do pedestre paulistano, sobretudo nos bairros residenciais, era o cocô de cachorro na calçada. Sou distraído e, no meu caso, os incidentes eram freqüentes e lamentáveis, confesso. Reagia ao infortúnio com destempero, sempre aos berros, provocando pequenos escândalos que constrangiam meus filhos. Pior: movido pela emoção do momento, gritava na minha língua nativa, o inglês, facilitando a identificação do escandaloso. Se alguém, de dentro de uma casa vizinha perguntasse do quê se sucedia lá fora, a resposta infalível era: o gringo pisou no cocô de novo... É assim que imagino a cena, ao menos.
Tudo isso para dizer que as calçadas estão mais limpas, os "incidentes" menos corriqueiros. Sem brincadeira, acho esta uma notícia animadora. Os donos dos cachorros vêm cuidando das sujeiras dos animais, colocando-as em saquinhos de plástico que carregam consigo justo para tal finalidade. É um avanço. Facilita a vida do pedestre, do distraído, sobretudo, deixando a vizinhança mais harmoniosa e simpática. O próximo passo será convencê-los a não jogar os saquinhos de plástico usados na calçada. Mas não se pode querer tudo de uma só vez.