Por Sibelle Pedral
Revista Claudia - 08/2006
[img01] Aos 56 anos, Pedro Martinelli já realizou todas as façanhas que costumam povoar os sonhos dos fotógrafos mais audaciosos. Cobriu copas e olimpíadas, sagrações de papas, guerras (foi ferido no conflito que dilacerou a Nicarágua nos anos 70), clicou lindas mulheres nuas e vestidas, ganhou prêmios, captou a primeira imagem de uma tribo indígena até então totalmente isolada, fez dinheiro com publicidade. Com um currículo desses, não é de espantar que hoje queira se dedicar apenas à sua grande paixão: a Amazônia.
Pedro e a mata se conheceram no começo dos anos 70, quando ele acompanhou os irmãos Cláudio e Orlando Villas-Boas numa expedição em busca dos tais índios isolados, os panarás, que deveriam ser retirados de suas terras para a construção da rodovia Cuiabá-Santarém. Nas últimas três décadas, perdeu a conta de quantas vezes voltou para clicar o modo de vida do caboclo, tema de dois de seus livros, Amazônia, o Povo das Águas e Mulheres da Amazônia. Chegou a ter um barco para facilitar seu deslocamento, mas se desfez dele há alguns anos. "Já não vou tanto", lamenta Pedro, que neste ano "só" fez cinco viagens ao norte do país. "Descobri que não fico mal por problemas pessoais: adoeço por causa do que vejo lá. A destruição da Amazônia vai me arrasando aos poucos." Mesmo assim, não desiste de brigar pela preservação da maior reserva de mata nativa do planeta.
Há dois anos, durante uma temporada no Pará, munido de uma microfilmadora, Pedro colheu imagens terríveis do desmatamento indiscriminado e fez um filme curto, de pouco mais de dez minutos.
Assista o vídeo aqui.
"Apelei para o vídeo porque a fotografia paralisa a imagem e não dá a verdadeira noção da desgraça", diz ele. "É o meu panfleto pessoal." Em sua casa, nos arredores de São Paulo, onde vive com Branca, Nenê, Tiziu e Pituca, quatro cachorras vira-latas ("Já tentei casar, mas ninguém agüenta um cara que passa seis meses por ano longe de casa"), Pedro Martinelli recebeuCLAUDIA para falar sobre destruição e esperança.
Claudia - Qual é a verdadeira situação da Amazônia?
Pedro Martinelli - Quando estive lá pela primeira vez, fiquei assustado com o ritmo da devastação. Na época eu disse que, se continuasse daquele jeito, em 30 anos a Amazônia estaria perdida. Os 30 anos se passaram. A Amazônia está acabando e numa velocidade muito maior. Nos anos 70, vi abrirem estrada e o campo de pouso com machado. Dois caboclos com um machado levavam um dia inteiro para derrubar uma árvore. Hoje, um homem com uma motosserra faz esse trabalho em meia hora. Mas o diabo é o skidder, um tratorzinho com pinças que entra no mato para pegar a tora e vai arrancando tudo pelo caminho. O tão falado manejo sustentável - abrir espaço para que as espécies menores recebam a luz do sol e cresçam entre as árvores grandes - é pura ficção. O plano de manejo, que aponta as espécies que precisam ser preservadas, é tratado com desleixo. Ninguém se preocupa em derrubar uma árvore onde isso causa menos dano ou em desamarrar os cipós que unem as árvores, e cada tronco que cai arrasta vários outros. Eu estive lá e vi.
As madeireiras são as grandes predadoras da Amazônia?
São. Fazem o que querem, deixando de lado os planos de manejo que recebem. Não tem ninguém para fiscalizar. Mas há outros responsáveis pelo desaparecimento da floresta. Venho fotografando há 30 anos e posso afirmar que as formas de predação são muitas. Aliás, esse deve ser o tema do meu próximo livro. Hoje, por exemplo, as famílias caboclas estão derrubando árvores preciosas para fazer espetinhos, vendidos em Manaus por 3 reais o cento. A pesca pode ser predatória quando não respeita o tempo de reprodução das espécies. Até para cultivar mandioca é preciso desmatar.
O brasileiro prefere pensar que a situação está sob controle?
Vivemos às voltas com estatísticas que não nos dizem nada. Sai no jornal: "Destruíram 2,5 mil Maracanãs ou o equivalente a uma Áustria". O que é isso? Ninguém sabe. Só quem anda por lá tem noção da realidade. Certa vez, passei três dias no porão de um navio que carregava madeira para a Europa e um dos estivadores me disse: "Eu sinto a Amazônia se acabando e passando pelas minhas mãos há 20 anos". Consigo fazer um acompanhamento pessoal, íntimo, do que está acontecendo porque volto ciclicamente aos mesmos lugares. Minha história com a Amazônia começou em 1970, acompanhando a construção da Cuiabá-Santarém. Depois que o primeiro campo de pouso foi construído, percebi como é possível destruir rapidamente a mata. Passado um ano, já havia cerca e gado onde eu tinha passado a pé. Vi surgirem todas as cidades às margens da Cuiabá-Santarém, Sinop, Rio Verde. Acompanhei também a construção da Perimetral Norte e da Transamazônica. É um absurdo: elas não levam a lugar nenhum.
Se levassem, a existência delas se justificaria?
Essa é uma pergunta que a sociedade tem que fazer. É preciso abrir os olhos. A Cuiabá-Santarém vai ser asfaltada para escoar a produção de soja. Você acha que escoar soja justifica todo esse dano ambiental? Vale a pena destruir mata nativa para produzir uma commodity? Vale a pena substituir a floresta por plantações de soja? Pelo meu ponto de vista, a resposta é não.
Num artigo para Claudia, (edição de janeiro de 2006), o deputado Fernando Gabeira afirmou que cerca de 80% da mata está mantida, que a área preservada ainda é grande. É falso?
Gabeira até tem boa vontade, mas não está certo. Essa é a visão de gente que não conhece a Amazônia. Ele vê fotos no gabinete dele e não imagina que, por baixo das copas que o satélite fotografa, a mata está toda esgarçada. Não sabe como os madeireiros agem na calada da noite, fazendo buchas (pontes provisórias de toras sobre os rios) para os tratores passarem e derrubarem madeira nobre sem deixar vestígios. Se uma rede de televisão vai fazer uma reportagem lá, eles montam um circo, fazem tudo direitinho, botam até capacete novo no caboclo. Quando todo mundo vai embora, entram no mato e fazem o que querem. Antigamente, quando eu ia para Manaus de avião, viajava duas horas sem avistar um telhado sequer. Era mato contínuo. Hoje, vejo a mata toda recortada. Recentemente, passei 14 horas sobrevoando a Terra do Meio (no sudeste do Pará) e fotografando montinhos de madeira destruída. O Parque Nacional do Xingu virou uma ilha com um deserto em volta. Está cercado de pastos e soja. Lembra o parque do Ibirapuera, em São Paulo, uma área verde cercada de prédios. Tem gente séria tentando salvar o Xingu, mas tudo é muito lento e a tecnologia de destruição é rápida. O alarde que estão fazendo é ínfimo perto da verdadeira devastação. Se eu pudesse, levaria esses caras para ver a Amazônia real. Mas eles não têm disposição para isso. Detestam o calor, lá não há bons hotéis, é um horror. Só gostam do clichê exótico: para eles, Amazônia é índio vestido de índio - se estiver de short e chinelo já não serve -, arara, pôr-do-sol e exuberância. Mas essa exuberância está desaparecendo.
Você nunca se preocupou em fotografar essa exuberância e foca suas lentes nas pessoas que vivem na Amazônia. Que feitiço o caboclo jogou sobre você?
Eles são meus heróis, e eu fotografo as coisas que valorizo. Nas comunidades ribeirinhas, encontrei um banho de arte, de estética, de arquitetura, de culinária. E olha que lá é o inferno verde. Eles pescam em rios absurdamente violentos sem idéia do que pode acontecer, são devorados por formigas na roça. A vida na Amazônia é dura. Mas era a única que eles conheciam até o advento da televisão, que provocou uma alteração profunda de costumes. Hoje, o sonho do caboclo é ir para as cidades, e o meu trabalho agora é documentar essa transformação. O problema é que eles acham que nós vivemos como os atores da novela, em Ipanema. E aí, quando arriscam a sorte, conhecem a fome, o sofrimento. Nas comunidades existe miséria, não fome. Tem peixe, mandioca. Então, muitos acabam voltando.
A televisão está matando as tradições culturais dos caboclos?
A televisão é o céu e o inferno para eles. Alterou a vida. Nos homens, suscita questões mais pragmáticas: eles querem saber como é viver uns sobre os outros, como nós nos apartamentos. Querem saber como funciona um elevador. Nas mulheres, percebo uma transformação brutal. No auge da Carla Perez, a coisa mais comum no fim do mundo era ver meninas copiando o figurino da dançarina, shortinho e sapato de plataforma. O pai, embriagado, via a filha - que até então vivia com a roupinha simples feita pela mãe - num estado absolutamente inusitado, com aquele short, toda pintada. A Amazônia tem um problema de alcoolismo e o maior índice de incestos do mundo. Da mesma forma, a mídia vive alardeando que os índices de prostituição infantil nas cidades do Amazonas são os maiores do Brasil. Não é só por causa da miséria. A televisão tem um papel nisso.
E por que a televisão também pode ser o céu?
O lado bom é que ela presta um serviço. Fala dos riscos para o meio ambiente, coloca o indivíduo no cerne das questões ecológicas do planeta.
O caboclo está preocupado com o futuro da mata?
Sinto um certo desânimo da parte dos caboclos. Sinceramente? Não encontro uma contrapartida do lado de lá. Quando vejo o cara despejar óleo no motor do barco e jogar a lata no rio, penso que não tem mais jeito. Quando vejo as comunidades cheias de lixo, as picadas na mata tomadas por saquinhos de batata, latas de cerveja e toda espécie de plástico, não enxergo saída. Mas ainda existem comunidades puras, ingênuas, autênticas, gente que faz a farinha para a subsistência, que cria filhos sem luz, sem remédio, que planta florzinha na lata de óleo.
Você tem esperanças de que a situação melhore?
Já tive. Hoje não mais. Eu confiava que haveria uma revisão total delimitando áreas de utilização, que iriam dar um basta no desmatamento aleatório e indiscriminado. Agora não tem mais jeito. A Amazônia é muito frágil. Tecnicamente é possível derrubar 80% da mata e deixar 20% em pé sem que a floresta acabe, mas a vegetação foi destruída de tal jeito que os corredores da fauna estão desaparecendo. O que se vê são pedaços de mata estanques, como o Xingu. Por que, até hoje, ninguém criou uma universidade do mato, um centro de estudos da Amazônia? É uma idéia que proponho há anos! No entanto, se ainda existe alguma esperança, ela está nas mãos das mulheres da Amazônia. São centradas, fortes. Aprendi muito com elas na usina de Tucuruí.
No começo, trabalhavam na cozinha, eram ridicularizadas, chamadas de pilotas de fogão. Um belo dia, uma delas foi ao departamento de recursos humanos e pediu para trabalhar na obra. Queria ser peão, assim mesmo, usando o termo no masculino. Deram uma chance e ela virou assistente de carpintaria. Hoje há 180 empregadas lá, soldadoras, carpinteiras. O guindaste mais alto, que sobe a 60 metros levando gaiolas com homens, é operado por uma mulher que entra na cabine de bolsinha e batom. Apesar da gravidez, da TPM, dos filhos que adoecem, elas são mais produtivas e mais responsáveis que os homens, segundo a Eletronorte. Homem bebe no domingo e não aparece para trabalhar na segunda-feira. Quando ele recebe o salário, gasta tudo no primeiro boteco com cachaça e mulheres. Elas pegam o dinheiro e correm a pagar a conta do mercado, da farmácia, compram roupa para o filho. Isso me impressiona muito.
Por Sibelle Pedral
Revista Claudia - 08/2006
Pedro e a mata se conheceram no começo dos anos 70, quando ele acompanhou os irmãos Cláudio e Orlando Villas-Boas numa expedição em busca dos tais índios isolados, os panarás, que deveriam ser retirados de suas terras para a construção da rodovia Cuiabá-Santarém. Nas últimas três décadas, perdeu a conta de quantas vezes voltou para clicar o modo de vida do caboclo, tema de dois de seus livros, Amazônia, o Povo das Águas e Mulheres da Amazônia. Chegou a ter um barco para facilitar seu deslocamento, mas se desfez dele há alguns anos. "Já não vou tanto", lamenta Pedro, que neste ano "só" fez cinco viagens ao norte do país. "Descobri que não fico mal por problemas pessoais: adoeço por causa do que vejo lá. A destruição da Amazônia vai me arrasando aos poucos." Mesmo assim, não desiste de brigar pela preservação da maior reserva de mata nativa do planeta.
Há dois anos, durante uma temporada no Pará, munido de uma microfilmadora, Pedro colheu imagens terríveis do desmatamento indiscriminado e fez um filme curto, de pouco mais de dez minutos.
Assista o vídeo aqui.
"Apelei para o vídeo porque a fotografia paralisa a imagem e não dá a verdadeira noção da desgraça", diz ele. "É o meu panfleto pessoal." Em sua casa, nos arredores de São Paulo, onde vive com Branca, Nenê, Tiziu e Pituca, quatro cachorras vira-latas ("Já tentei casar, mas ninguém agüenta um cara que passa seis meses por ano longe de casa"), Pedro Martinelli recebeuCLAUDIA para falar sobre destruição e esperança.
Claudia - Qual é a verdadeira situação da Amazônia?
Pedro Martinelli - Quando estive lá pela primeira vez, fiquei assustado com o ritmo da devastação. Na época eu disse que, se continuasse daquele jeito, em 30 anos a Amazônia estaria perdida. Os 30 anos se passaram. A Amazônia está acabando e numa velocidade muito maior. Nos anos 70, vi abrirem estrada e o campo de pouso com machado. Dois caboclos com um machado levavam um dia inteiro para derrubar uma árvore. Hoje, um homem com uma motosserra faz esse trabalho em meia hora. Mas o diabo é o skidder, um tratorzinho com pinças que entra no mato para pegar a tora e vai arrancando tudo pelo caminho. O tão falado manejo sustentável - abrir espaço para que as espécies menores recebam a luz do sol e cresçam entre as árvores grandes - é pura ficção. O plano de manejo, que aponta as espécies que precisam ser preservadas, é tratado com desleixo. Ninguém se preocupa em derrubar uma árvore onde isso causa menos dano ou em desamarrar os cipós que unem as árvores, e cada tronco que cai arrasta vários outros. Eu estive lá e vi.
As madeireiras são as grandes predadoras da Amazônia?
São. Fazem o que querem, deixando de lado os planos de manejo que recebem. Não tem ninguém para fiscalizar. Mas há outros responsáveis pelo desaparecimento da floresta. Venho fotografando há 30 anos e posso afirmar que as formas de predação são muitas. Aliás, esse deve ser o tema do meu próximo livro. Hoje, por exemplo, as famílias caboclas estão derrubando árvores preciosas para fazer espetinhos, vendidos em Manaus por 3 reais o cento. A pesca pode ser predatória quando não respeita o tempo de reprodução das espécies. Até para cultivar mandioca é preciso desmatar.
O brasileiro prefere pensar que a situação está sob controle?
Vivemos às voltas com estatísticas que não nos dizem nada. Sai no jornal: "Destruíram 2,5 mil Maracanãs ou o equivalente a uma Áustria". O que é isso? Ninguém sabe. Só quem anda por lá tem noção da realidade. Certa vez, passei três dias no porão de um navio que carregava madeira para a Europa e um dos estivadores me disse: "Eu sinto a Amazônia se acabando e passando pelas minhas mãos há 20 anos". Consigo fazer um acompanhamento pessoal, íntimo, do que está acontecendo porque volto ciclicamente aos mesmos lugares. Minha história com a Amazônia começou em 1970, acompanhando a construção da Cuiabá-Santarém. Depois que o primeiro campo de pouso foi construído, percebi como é possível destruir rapidamente a mata. Passado um ano, já havia cerca e gado onde eu tinha passado a pé. Vi surgirem todas as cidades às margens da Cuiabá-Santarém, Sinop, Rio Verde. Acompanhei também a construção da Perimetral Norte e da Transamazônica. É um absurdo: elas não levam a lugar nenhum.
Se levassem, a existência delas se justificaria?
Essa é uma pergunta que a sociedade tem que fazer. É preciso abrir os olhos. A Cuiabá-Santarém vai ser asfaltada para escoar a produção de soja. Você acha que escoar soja justifica todo esse dano ambiental? Vale a pena destruir mata nativa para produzir uma commodity? Vale a pena substituir a floresta por plantações de soja? Pelo meu ponto de vista, a resposta é não.
Num artigo para Claudia, (edição de janeiro de 2006), o deputado Fernando Gabeira afirmou que cerca de 80% da mata está mantida, que a área preservada ainda é grande. É falso?
Gabeira até tem boa vontade, mas não está certo. Essa é a visão de gente que não conhece a Amazônia. Ele vê fotos no gabinete dele e não imagina que, por baixo das copas que o satélite fotografa, a mata está toda esgarçada. Não sabe como os madeireiros agem na calada da noite, fazendo buchas (pontes provisórias de toras sobre os rios) para os tratores passarem e derrubarem madeira nobre sem deixar vestígios. Se uma rede de televisão vai fazer uma reportagem lá, eles montam um circo, fazem tudo direitinho, botam até capacete novo no caboclo. Quando todo mundo vai embora, entram no mato e fazem o que querem. Antigamente, quando eu ia para Manaus de avião, viajava duas horas sem avistar um telhado sequer. Era mato contínuo. Hoje, vejo a mata toda recortada. Recentemente, passei 14 horas sobrevoando a Terra do Meio (no sudeste do Pará) e fotografando montinhos de madeira destruída. O Parque Nacional do Xingu virou uma ilha com um deserto em volta. Está cercado de pastos e soja. Lembra o parque do Ibirapuera, em São Paulo, uma área verde cercada de prédios. Tem gente séria tentando salvar o Xingu, mas tudo é muito lento e a tecnologia de destruição é rápida. O alarde que estão fazendo é ínfimo perto da verdadeira devastação. Se eu pudesse, levaria esses caras para ver a Amazônia real. Mas eles não têm disposição para isso. Detestam o calor, lá não há bons hotéis, é um horror. Só gostam do clichê exótico: para eles, Amazônia é índio vestido de índio - se estiver de short e chinelo já não serve -, arara, pôr-do-sol e exuberância. Mas essa exuberância está desaparecendo.
Você nunca se preocupou em fotografar essa exuberância e foca suas lentes nas pessoas que vivem na Amazônia. Que feitiço o caboclo jogou sobre você?
Eles são meus heróis, e eu fotografo as coisas que valorizo. Nas comunidades ribeirinhas, encontrei um banho de arte, de estética, de arquitetura, de culinária. E olha que lá é o inferno verde. Eles pescam em rios absurdamente violentos sem idéia do que pode acontecer, são devorados por formigas na roça. A vida na Amazônia é dura. Mas era a única que eles conheciam até o advento da televisão, que provocou uma alteração profunda de costumes. Hoje, o sonho do caboclo é ir para as cidades, e o meu trabalho agora é documentar essa transformação. O problema é que eles acham que nós vivemos como os atores da novela, em Ipanema. E aí, quando arriscam a sorte, conhecem a fome, o sofrimento. Nas comunidades existe miséria, não fome. Tem peixe, mandioca. Então, muitos acabam voltando.
A televisão está matando as tradições culturais dos caboclos?
A televisão é o céu e o inferno para eles. Alterou a vida. Nos homens, suscita questões mais pragmáticas: eles querem saber como é viver uns sobre os outros, como nós nos apartamentos. Querem saber como funciona um elevador. Nas mulheres, percebo uma transformação brutal. No auge da Carla Perez, a coisa mais comum no fim do mundo era ver meninas copiando o figurino da dançarina, shortinho e sapato de plataforma. O pai, embriagado, via a filha - que até então vivia com a roupinha simples feita pela mãe - num estado absolutamente inusitado, com aquele short, toda pintada. A Amazônia tem um problema de alcoolismo e o maior índice de incestos do mundo. Da mesma forma, a mídia vive alardeando que os índices de prostituição infantil nas cidades do Amazonas são os maiores do Brasil. Não é só por causa da miséria. A televisão tem um papel nisso.
E por que a televisão também pode ser o céu?
O lado bom é que ela presta um serviço. Fala dos riscos para o meio ambiente, coloca o indivíduo no cerne das questões ecológicas do planeta.
O caboclo está preocupado com o futuro da mata?
Sinto um certo desânimo da parte dos caboclos. Sinceramente? Não encontro uma contrapartida do lado de lá. Quando vejo o cara despejar óleo no motor do barco e jogar a lata no rio, penso que não tem mais jeito. Quando vejo as comunidades cheias de lixo, as picadas na mata tomadas por saquinhos de batata, latas de cerveja e toda espécie de plástico, não enxergo saída. Mas ainda existem comunidades puras, ingênuas, autênticas, gente que faz a farinha para a subsistência, que cria filhos sem luz, sem remédio, que planta florzinha na lata de óleo.
Você tem esperanças de que a situação melhore?
Já tive. Hoje não mais. Eu confiava que haveria uma revisão total delimitando áreas de utilização, que iriam dar um basta no desmatamento aleatório e indiscriminado. Agora não tem mais jeito. A Amazônia é muito frágil. Tecnicamente é possível derrubar 80% da mata e deixar 20% em pé sem que a floresta acabe, mas a vegetação foi destruída de tal jeito que os corredores da fauna estão desaparecendo. O que se vê são pedaços de mata estanques, como o Xingu. Por que, até hoje, ninguém criou uma universidade do mato, um centro de estudos da Amazônia? É uma idéia que proponho há anos! No entanto, se ainda existe alguma esperança, ela está nas mãos das mulheres da Amazônia. São centradas, fortes. Aprendi muito com elas na usina de Tucuruí.
No começo, trabalhavam na cozinha, eram ridicularizadas, chamadas de pilotas de fogão. Um belo dia, uma delas foi ao departamento de recursos humanos e pediu para trabalhar na obra. Queria ser peão, assim mesmo, usando o termo no masculino. Deram uma chance e ela virou assistente de carpintaria. Hoje há 180 empregadas lá, soldadoras, carpinteiras. O guindaste mais alto, que sobe a 60 metros levando gaiolas com homens, é operado por uma mulher que entra na cabine de bolsinha e batom. Apesar da gravidez, da TPM, dos filhos que adoecem, elas são mais produtivas e mais responsáveis que os homens, segundo a Eletronorte. Homem bebe no domingo e não aparece para trabalhar na segunda-feira. Quando ele recebe o salário, gasta tudo no primeiro boteco com cachaça e mulheres. Elas pegam o dinheiro e correm a pagar a conta do mercado, da farmácia, compram roupa para o filho. Isso me impressiona muito.


























