Ativismo
Aung San Suu Kyi: heroína da paz
Aung San Suu Kyi passou a maior parte dos últimos 20 anos encarcerada, e nem assim seus algozes calaram a mais expressiva voz feminina de resistência pacífica do nosso tempo. A história da birmanesa Aung San Suu Kyi tem lances de bravura reconhecidos com o Nobel da Paz em 1991. Mas ela continua presa - e ninguém sabe quanto mais sua saúde resistirá
Sibelle Pedral
Revista Claudia – 11/2009
Um fã ardoroso demais era tudo de que a ativista política birmanesa Aung San Suu Kyi não precisava. No entanto, em maio passado, ele apareceu, depois de cruzar a nado o lago diante da casa dela, driblando a rigorosa segurança que guarda a prisão domiciliar da mulher que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1991. O americano John Yettaw tinha vindo prestar sua homenagem àquela que, mesmo tendo passado a maior parte dos últimos 20 anos na cadeia, continua a comandar a resistência em seu país, Mianmar, antiga Birmânia, à junta militar que impõe a 50 milhões de cidadãos um regime cruel e repressivo.
Suu Kyi sabe que não pode receber visitas - nem seu marido, o intelectual britânico Michael Aris, morto em 1999, obteve autorização para vê-la; nem mesmo seus dois filhos, que vivem no exterior. Sabe também que qualquer violação das normas da junta que a mantém prisioneira lhe traz sanções duras. Até por isso, implorou ao visitante indesejado que voltasse, segundo relatos meio truncados que chegaram ao Ocidente. Consta que o americano se disse exausto e pediu guarida. Suu Kyi aceitou-o, então, deixando que passasse a noite no chão da casa.
Poucos dias depois, em 14 de maio, como previsto, ela foi acusada de burlar a prisão domiciliar ao acolher o nadador e, como punição, levada para a prisão de Insein, em Rangum, a antiga capital do país (a atual, por determinação dos militares, é uma pequena cidade, Naypydaw). Foi julgada e (alguém tinha dúvida?), em 11 de agosto, condenada a mais 18 meses no cativeiro. Em outubro, recorreu, sem sucesso. Cumprirá a pena em casa - um consolo pífio, já que um ciclone no ano passado destelhou parte da residência e sobraram poucos móveis. A maioria foi vendida para comprar comida ao longo dos anos de prisão, pois Suu Kyi se recusa a receber dinheiro da junta.
Para o comandante militar de Mianmar, o general Than Shwe, no poder desde 1992, o fã foi a desculpa perfeita para manter Suu Kyi prisioneira pelo menos até meados de 2010, quando o país pretende realizar eleições diretas. Na verdade, um arremedo de eleições. Afinal, até os juncos do lago diante da casa da ativista sabem quem vai vencer. Mas manter presa a principal opositora da junta que manda no país desde 1962 é melhor, já que, mesmo incomunicável na cadeia, Aung San Suu Kyi emana uma autoridade moral que seus adversários parecem incapazes de abater.
CLOONEY E HILLARY
Sem contar um inexpressivo referendo em 2008, será a primeira vez que os cidadãos de Mianmar irão às urnas desde 1990, quando, na esteira de um levante popular contra o governo, o partido de Suu Kyi, a Liga Nacional pela Democracia (LND), ganhou de lavada - para surpresa e horror dos militares. Inconformados com o resultado da votação, que deu aos opositores 82% das vagas no Parlamento naquele ano, eles perseguiram e aprisionaram Suu Kyi e seus seguidores. Nem o Prêmio Nobel concedido a ela no ano seguinte conseguiu suavizar o encarceramento. Desde então, a vida dessa militante política incansável tem sido uma queda de braço com a junta, com breves períodos de liberdade - em alguns deles, ela pôde mesmo reunir pequenas multidões diante de sua casa - e longos de prisão severa, sendo que estes estão se tornando cada vez mais comuns.
"É escandaloso que ela continue detida em razão de sua popularidade", protestou a secretária de Estado americana Hillary Clinton há poucos meses. A voz de Hillary junta-se à de artistas como George Clooney e Sarah Jessica Parker, mas nenhum apelo demove os truculentos militares de Mianmar. Aung San Suu Kyi é a única pessoa laureada com o Prêmio Nobel a ser mantida em cárcere, e sua saúde inspira muitos cuidados. "Ela pouco consegue comer. Sua pressão é baixa e ela está desidratada", declarou em maio passado um médico que a examinou. Em junho, ela completou 64 anos. Sua luta política se arrasta desde os 45.
TÊMPERA DE LÍDER
Aung San Suu Kyi vem de uma linhagem de líderes, mas, até 1988, havia se mantido distante da política. Seu pai, Aung San, foi herói da independência da Birmânia, uma ex-colônia britânica que ganhou autonomia em 1948. Morreu assassinado quando Suu Kyi tinha apenas 2 anos. Indignada com a morte do marido, a mãe de Suu Kyi, Daw Khin Kyi, dedicou-se à vida pública, coordenando programas sociais no novíssimo país. Nos anos 1960, Suu Kyi mudou-se para a Inglaterra. Na prestigiada Universidade de Oxford, estudou filosofia, política e economia e conheceu o futuro marido, Michael Aris, na época um estudante de civilização tibetana. Casaram-se em 1972, tiveram dois filhos, Alexander, hoje com 36 anos, e Kim, 32, e uma vida próspera e interessante dividindo-se entre viagens de estudos e de trabalho pelo mundo. Em março de 1988, radicada na Inglaterra, Suu Kyi recebeu um telefonema que mudou tudo: a mãe havia sofrido um derrame em Rangum, e convinha que fosse para lá imediatamente.
Daw Khin Kyi ainda viveria por alguns meses, mas Suu Kyi viu-se envolvida em outro tipo de tumulto. O ditador militar da Birmânia, Ne Win, no poder desde o golpe de 1962, havia acabado de renunciar, e a insatisfação popular com o regime brutal tomou as ruas do país, em protestos espontâneos. O governo trucidou milhares de manifestantes, e Suu Kyi tomou sua primeira atitude claramente política enviando ao novo governo uma carta aberta na qual pedia eleições multipartidárias. Ao lado do marido e dos filhos, discursou para multidões pedindo liberdade e democracia. "Como filha de meu pai, não posso ficar indiferente ao que está acontecendo em meu país", declarou. Com os olhos do mundo voltados para Mianmar, o governo convocou eleições para maio de 1990.
Convertida em expoente da oposição, Suu Kyi formou seu partido, a LND - e as pressões dos militares endureceram. A vitória da LND foi a gota d’água para que os militares baixassem decretos ferozes, e o país mergulhou numa das mais terríveis ditaduras do planeta, denunciada por órgãos de direitos humanos, como a Anistia Internacional, por tráfico de seres humanos, emprego de mão de obra infantil e violência sexual contra seus adversários.
Em 1991, Suu Kyi publicou sua autobiografia, Viver sem Medo (Campus, esgotada), seleção de cartas, ensaios e entrevistas em que fala com ternura de seu país e seu povo. Impedida de receber o Nobel da Paz em Oslo, na Noruega, ela se fez representar pelo marido e por seus dois filhos, que no discurso de aceitação do prêmio disseram: "A dedicação e o sacrifício pessoal de minha mãe fizeram dela um símbolo do apelo do povo de Mianmar". Suu Kyi pretendia usar o dinheiro em programas de educação e saúde em Mianmar, mas, como nunca mais foi livre, há quem diga que a soma de 1,3 milhão de dólares nem sequer foi tocada.
SEM ÚLTIMO ADEUS
De vez em quando, ela consegue contrabandear fitas, vídeos e cartas para fora de seu país. Neles, narra o desejo de continuar lutando pela democracia com suas armas - a coragem e a lucidez. Seu lema, que reverbera como exemplo da resistência pacífica, é: "A única prisão real é o medo. E a única liberdade real é a liberdade de não ter medo". Do cativeiro, chegam seus apelos por sanções comerciais a Mianmar, bem recebidos em países como Estados Unidos, Canadá e em blocos como a União Europeia, mas ignorados pelas nações vizinhas, como China, Índia e Tailândia, os maiores parceiros comerciais do país.
Bem que o governo de Mianmar tentou mandá-la embora, mas, fiel a seu propósito de resistir, Suu Kyi se recusa a cruzar a fronteira - sabe que não poderá mais voltar, ainda que os militares lhe digam o contrário. No Natal de 1995, esteve pela última vez com o marido. Desde então, todos os vistos que Michael Aris pediu para viajar a Mianmar foram negados, como forma de pressioná-la a visitá-lo na Inglaterra. Em 1999, Aris morreu em Londres, vitimado por um câncer de próstata, sem que os dois voltassem a se encontrar. Os advogados de Suu Kyi contam que ela passa os dias estudando, tocando piano e meditando - é budista devota. Numa rara entrevista, concedida em 2002, perguntaram-lhe se era possível prever quando sua luta se encerraria. Quando Mianmar for uma verdadeira democracia. Ou seja, logo que for possível. E quanto antes, melhor."
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