meio ambiente
Caçadora de pétalas
Margaret Mee trocou o meio acadêmico inglês pela selva amazônica. No Brasil, em mais de 30 anos de viagens, ela descobriu plantas e pintou flores raríssimas. Mais que isso, denunciou a destruição da floresta
Felipe Van Deursen
Revista Aventuras na História - 11/2009
A canoa navegava por um igarapé do rio Negro, na Amazônia, entre troncos de árvores parcialmente submersas, como restos de um templo abandonado. Copas frondosas logo acima da superfície fragmentavam a luz do sol que chegava à água. A inglesa Margaret Mee, 79 anos, em sua última viagem pela selva equatorial, entusiasmou-se ao ver cordões de cacto enlaçados ao redor de uma grande árvore, com botões de flor. Ela retornou ao local no dia seguinte e esperou até o anoitecer para, então, cumprir seu objetivo. Margaret sentiu-se "enfeitiçada" quando viu a primeira pétala se abrir, e outra após outra, tudo iluminado pela lua cheia e o auxílio de uma tocha. A flor exalou um perfume bastante doce e, em uma hora, estava totalmente aberta. Encontrar a surpreendente "flor-do-luar" e desenhá-la era a meta da expedição da artista botânica. A planta só floresce à noite, por poucas horas, e nunca havia sido registrada em seu habitat.
“Ao permanecer imóvel, com o escuro contorno na floresta ao redor, me senti enfeitiçada. Neste momento, a primeira pétala começou a se mover e, outra, enquanto a flor rompia para a vida”
De volta ao Reino Unido, em 1988, Margaret deu palestras e expôs suas pinturas. Artista por formação, fez grandes contribuições à botânica em mais de 30 anos de atividade. "A importância do trabalho de Margaret Mee baseia-se no fato de ela ter localizado plantas raríssimas, nem descritas nem classificadas, e retratado, in situ, vários estágios da planta [polinização, floração etc.]", diz Sylvia Brautigam, da Fundação Margaret Mee. Provavelmente ela teria feito ainda mais, não fosse o acidente de carro que tirou sua vida naquele ano, na Inglaterra.
PRIMEIRAS VIAGENS
Margaret Ursula Brown nasceu em Chesham, condado de Buckingham, em 1909. Estudou em três escolas de artes do país, foi colega do artista abstrato Victor Pasmore e, na sala de aula, conheceu seu futuro marido, Greville Mee. Em 1952, o casal deu uma guinada na vida. Depois de visitar a irmã no Brasil, Margaret ficou tão deslumbrada com as paisagens que acabou se mudando para São Paulo junto com o marido. Quatro anos depois partia para a primeira aventura na floresta. Chegou a Belém num pequeno avião de cargas.
“José, um índio de 7 anos, prontificou-se a me ajudar na colheita. Ele conseguiu para mim algumas plantas adoráveis, incluindo uma Bilbergia com folhas listradas”
O destino era o rio Gurupi. A amiga e escudeira Rita esteve a seu lado em todas as expedições. "Estávamos ambas vestidas para a selva - ou pelo menos pensamos que estávamos: calça jeans, camisa de manga longa, chapéu de palha e botas", escreveu Margaret em seu diário, hábito mantido sempre. As impressões e memórias da artista acompanham 60 das suas principais ilustrações no livro Flores da Floresta Amazônica.
Os trajes usados pela dupla de mulheres despertaram hostilidades no porto de Bragança, onde elas se estabeleceram por cinco dias, até surgir um barco que as levasse a Viseu (PA). Nos primeiros dias na floresta, elas assimilavam a beleza daquele universo praticamente desconhecido. Os animais impressionaram muito a artista, que viu de perto uma aranha marrom e peluda "comedora de pássaros" e cenas como um camaleão tentando engolir um bicho-folha quase do tamanho dele. Mas nada era tão fascinante quanto as flores. A Couroupita está entre os primeiros desenhos.
“Eu estava tão impaciente para explorar a região que em minha primeira excursão até um campo próximo encontrei diversas plantas interessantes – uma Linda trombeta chinesa branca e amarela.”
Na segunda viagem, em 1962, a artista foi ao Mato Grosso. Nos rios Arinos e Alto Juruena, ela encontrou preciosidades como a Billbergia decora. À noite, passou a gostar da companhia dos macacos. "Eram também ótimos vigias, sempre dando sinal de alerta no caso de aproximação de uma onça ou pequenos gatos selvagens", escreveu. A expedição, porém, não se resumia a singelas aventuras de uma inglesa pequenina deslumbrada com a Amazônia. A artista começava a perceber e registrar a degradação da floresta. "Esses belos mamíferos tornaram-se escassos desde que começaram a ser caçados para a retirada de suas peles", anotou, ao observar um grupo de ariranhas. A partir daí, e com a chegada cada vez mais intensa de indústrias, fazendas monocultoras e pecuaristas, as expedições de Margaret Mee sempre tiveram, acompanhando o trabalho artístico-científico, um clamor em defesa da natureza.
As viagens duravam no máximo quatro meses. Nesse tempo, em meio a adversidades como pouca comida e insetos, muitos insetos, "ela fazia esboços em cadernos de viagem, usando lápis e leves toques de cor, para depois, em seu ateliê, passar para pranchas de papel essas anotações, desenhando a lápis a planta e sua inflorescência e usando a técnica da tinta guache", afirma Sylvia. Margaret viajava com sacos, cestas e caixas onde levava as espécies que colhia, mantendo-as vivas até chegar em casa, para finalizar as pinturas. No meio das expedições, alojada em colônias na selva, ela montava pequenos jardins para as plantas colhidas. Muitas delas acabavam em centros de pesquisa no Sudeste. Entre uma viagem e outra, Mee colaborava com trabalhos acadêmicos, pintava e dava aulas.
DESCOBERTAS
Entre 1964 e 1965, ela cruzou o rio Tapajós até o rio Uaupés, próximo ao pico da Neblina. Em Taracuá, deparou com a trombeta Distictella magnoliifolia. A planta havia sido descoberta pelo naturalista Alexander von Humboldt, em 1800, no rio Orinoco, na Venezuela. Depois disso, fora avistada na região apenas uma vez mais, em 1905. Em 1967, a artista foi a Ponta Negra, em Manaus, onde teve uma grande decepção. "Foi trágico constatar o quanto havia sido destruído e queimado desde a minha última visita.
A floresta gloriosa que havia encantado os naturalistas Darwin, Spruce, Bates, Wallace e tantos outros estava, agora, praticamente reduzida a cinzas", escreveu. A frustração se repetiu na expedição seguinte, em 1970, no Demini, afluente do rio Negro. Uma refinaria de petróleo havia sido construída em suas margens, destruindo a vegetação. Perto dali, na reserva Ducke, Margaret chorou. "A floresta amazônica estava sendo desprezada e transformada em uma área miserável para despejo de lixo."
“A bromélia possuía o formato de uma moringa grega e as folhas envergavam para trás. A planta não estava florecendo, mas não tive dúvida de que era um nova espécie. Foi comprovado que era.”
Ao longo de mais de uma dezena de incursões pela selva, a artista não encontrou apenas flores raras. Em 1971, no rio Maués, ela avistou uma bromélia com folhas serrilhadas e não teve dúvida de que se tratava de uma nova espécie: Aechmea polyantha. No ano seguinte, ao percorrer os rios Mamori e Marau, fez outra descoberta. Enfurnada em um igapó, encontrou outra bromélia desconhecida, a Ouratea discophora, repleta de "pequenas flores transparentes como um cristal azul". "Em função dos avanços da ciência, muitas plantas estão sendo reclassificadas", afirma Sylvia, referindo-se às nove descobertas atribuídas a Margaret Mee até sua morte, em 1988. "Há possivelmente três plantas com o nome dela, todas bromélias."
Desde a primeira viagem, a artista temia pela existência de várias espécies da fauna e da flora. Ao observar as margens do rio Negro, dizia, no início da década de 1970, que o pau-rosa estava quase extinto. "O que acontecerá quando essas e outras espécies desaparecerem? Como será o futuro?" O pau-rosa está na lista de espécies ameaçadas do Ibama desde 1992. Só na Amazônia, a flora tem mais de 20 itens em risco de extinção.
AS INFLUÊNCIAS
Exploradores e botânicos inspiraram o trabalho de Margaret Mee
Henry Walter Bates (1825-1892)
Naturalista e explorador inglês, viajou para a Amazônia com Alfred Russel Wallace, um dos mentores da teoria da evolução das espécies. Entre 1848 e 1852, os dois catalogaram milhares de espécies de flora e fauna nos afluentes do rio Uaupés. O navio que levava Wallace de volta à Inglaterra pegou fogo e todo material científico se perdeu. Bates ficou mais sete anos no Brasil.
Lyman Smith (1904-1997)
Botânico americano, conhecido como o "pai dos estudos de bromélias". Ele trabalhou no Gray Herbarium, na Universidade Harvard, e no departamento de botânica do Instituto Smithsonian, em mais de 60 anos dedicados às flores. Ele e Margaret Mee foram colegas: a inglesa ilustrou sua extensa pesquisa sobre bromélias. Ao todo, ela pintou 70 pranchas.
Saiba mais:
Flores da Floresta Amazônica - A Arte Botânica de Margaret Mee, Margaret Mee, EscriturasEditora, 2009 R$ 99,90
*Ilustrações extraídas do livro “FLORES DA FLORESTA AMAZÔNICA: a arte botânica de Margaret Mee” (Escrituras Editora)
Veja também:
Margaret Mee: a dama das flores
A canoa navegava por um igarapé do rio Negro, na Amazônia, entre troncos de árvores parcialmente submersas, como restos de um templo abandonado. Copas frondosas logo acima da superfície fragmentavam a luz do sol que chegava à água. A inglesa Margaret Mee, 79 anos, em sua última viagem pela selva equatorial, entusiasmou-se ao ver cordões de cacto enlaçados ao redor de uma grande árvore, com botões de flor. Ela retornou ao local no dia seguinte e esperou até o anoitecer para, então, cumprir seu objetivo. Margaret sentiu-se "enfeitiçada" quando viu a primeira pétala se abrir, e outra após outra, tudo iluminado pela lua cheia e o auxílio de uma tocha. A flor exalou um perfume bastante doce e, em uma hora, estava totalmente aberta. Encontrar a surpreendente "flor-do-luar" e desenhá-la era a meta da expedição da artista botânica. A planta só floresce à noite, por poucas horas, e nunca havia sido registrada em seu habitat.
“Ao permanecer imóvel, com o escuro contorno na floresta ao redor, me senti enfeitiçada. Neste momento, a primeira pétala começou a se mover e, outra, enquanto a flor rompia para a vida”
De volta ao Reino Unido, em 1988, Margaret deu palestras e expôs suas pinturas. Artista por formação, fez grandes contribuições à botânica em mais de 30 anos de atividade. "A importância do trabalho de Margaret Mee baseia-se no fato de ela ter localizado plantas raríssimas, nem descritas nem classificadas, e retratado, in situ, vários estágios da planta [polinização, floração etc.]", diz Sylvia Brautigam, da Fundação Margaret Mee. Provavelmente ela teria feito ainda mais, não fosse o acidente de carro que tirou sua vida naquele ano, na Inglaterra.
PRIMEIRAS VIAGENS
Margaret Ursula Brown nasceu em Chesham, condado de Buckingham, em 1909. Estudou em três escolas de artes do país, foi colega do artista abstrato Victor Pasmore e, na sala de aula, conheceu seu futuro marido, Greville Mee. Em 1952, o casal deu uma guinada na vida. Depois de visitar a irmã no Brasil, Margaret ficou tão deslumbrada com as paisagens que acabou se mudando para São Paulo junto com o marido. Quatro anos depois partia para a primeira aventura na floresta. Chegou a Belém num pequeno avião de cargas.
“José, um índio de 7 anos, prontificou-se a me ajudar na colheita. Ele conseguiu para mim algumas plantas adoráveis, incluindo uma Bilbergia com folhas listradas”
O destino era o rio Gurupi. A amiga e escudeira Rita esteve a seu lado em todas as expedições. "Estávamos ambas vestidas para a selva - ou pelo menos pensamos que estávamos: calça jeans, camisa de manga longa, chapéu de palha e botas", escreveu Margaret em seu diário, hábito mantido sempre. As impressões e memórias da artista acompanham 60 das suas principais ilustrações no livro Flores da Floresta Amazônica.
Os trajes usados pela dupla de mulheres despertaram hostilidades no porto de Bragança, onde elas se estabeleceram por cinco dias, até surgir um barco que as levasse a Viseu (PA). Nos primeiros dias na floresta, elas assimilavam a beleza daquele universo praticamente desconhecido. Os animais impressionaram muito a artista, que viu de perto uma aranha marrom e peluda "comedora de pássaros" e cenas como um camaleão tentando engolir um bicho-folha quase do tamanho dele. Mas nada era tão fascinante quanto as flores. A Couroupita está entre os primeiros desenhos.
“Eu estava tão impaciente para explorar a região que em minha primeira excursão até um campo próximo encontrei diversas plantas interessantes – uma Linda trombeta chinesa branca e amarela.”
Na segunda viagem, em 1962, a artista foi ao Mato Grosso. Nos rios Arinos e Alto Juruena, ela encontrou preciosidades como a Billbergia decora. À noite, passou a gostar da companhia dos macacos. "Eram também ótimos vigias, sempre dando sinal de alerta no caso de aproximação de uma onça ou pequenos gatos selvagens", escreveu. A expedição, porém, não se resumia a singelas aventuras de uma inglesa pequenina deslumbrada com a Amazônia. A artista começava a perceber e registrar a degradação da floresta. "Esses belos mamíferos tornaram-se escassos desde que começaram a ser caçados para a retirada de suas peles", anotou, ao observar um grupo de ariranhas. A partir daí, e com a chegada cada vez mais intensa de indústrias, fazendas monocultoras e pecuaristas, as expedições de Margaret Mee sempre tiveram, acompanhando o trabalho artístico-científico, um clamor em defesa da natureza.
As viagens duravam no máximo quatro meses. Nesse tempo, em meio a adversidades como pouca comida e insetos, muitos insetos, "ela fazia esboços em cadernos de viagem, usando lápis e leves toques de cor, para depois, em seu ateliê, passar para pranchas de papel essas anotações, desenhando a lápis a planta e sua inflorescência e usando a técnica da tinta guache", afirma Sylvia. Margaret viajava com sacos, cestas e caixas onde levava as espécies que colhia, mantendo-as vivas até chegar em casa, para finalizar as pinturas. No meio das expedições, alojada em colônias na selva, ela montava pequenos jardins para as plantas colhidas. Muitas delas acabavam em centros de pesquisa no Sudeste. Entre uma viagem e outra, Mee colaborava com trabalhos acadêmicos, pintava e dava aulas.
DESCOBERTAS
Entre 1964 e 1965, ela cruzou o rio Tapajós até o rio Uaupés, próximo ao pico da Neblina. Em Taracuá, deparou com a trombeta Distictella magnoliifolia. A planta havia sido descoberta pelo naturalista Alexander von Humboldt, em 1800, no rio Orinoco, na Venezuela. Depois disso, fora avistada na região apenas uma vez mais, em 1905. Em 1967, a artista foi a Ponta Negra, em Manaus, onde teve uma grande decepção. "Foi trágico constatar o quanto havia sido destruído e queimado desde a minha última visita.
A floresta gloriosa que havia encantado os naturalistas Darwin, Spruce, Bates, Wallace e tantos outros estava, agora, praticamente reduzida a cinzas", escreveu. A frustração se repetiu na expedição seguinte, em 1970, no Demini, afluente do rio Negro. Uma refinaria de petróleo havia sido construída em suas margens, destruindo a vegetação. Perto dali, na reserva Ducke, Margaret chorou. "A floresta amazônica estava sendo desprezada e transformada em uma área miserável para despejo de lixo."
“A bromélia possuía o formato de uma moringa grega e as folhas envergavam para trás. A planta não estava florecendo, mas não tive dúvida de que era um nova espécie. Foi comprovado que era.”
Ao longo de mais de uma dezena de incursões pela selva, a artista não encontrou apenas flores raras. Em 1971, no rio Maués, ela avistou uma bromélia com folhas serrilhadas e não teve dúvida de que se tratava de uma nova espécie: Aechmea polyantha. No ano seguinte, ao percorrer os rios Mamori e Marau, fez outra descoberta. Enfurnada em um igapó, encontrou outra bromélia desconhecida, a Ouratea discophora, repleta de "pequenas flores transparentes como um cristal azul". "Em função dos avanços da ciência, muitas plantas estão sendo reclassificadas", afirma Sylvia, referindo-se às nove descobertas atribuídas a Margaret Mee até sua morte, em 1988. "Há possivelmente três plantas com o nome dela, todas bromélias."
Desde a primeira viagem, a artista temia pela existência de várias espécies da fauna e da flora. Ao observar as margens do rio Negro, dizia, no início da década de 1970, que o pau-rosa estava quase extinto. "O que acontecerá quando essas e outras espécies desaparecerem? Como será o futuro?" O pau-rosa está na lista de espécies ameaçadas do Ibama desde 1992. Só na Amazônia, a flora tem mais de 20 itens em risco de extinção.
AS INFLUÊNCIAS
Exploradores e botânicos inspiraram o trabalho de Margaret Mee
Henry Walter Bates (1825-1892)
Naturalista e explorador inglês, viajou para a Amazônia com Alfred Russel Wallace, um dos mentores da teoria da evolução das espécies. Entre 1848 e 1852, os dois catalogaram milhares de espécies de flora e fauna nos afluentes do rio Uaupés. O navio que levava Wallace de volta à Inglaterra pegou fogo e todo material científico se perdeu. Bates ficou mais sete anos no Brasil.
Lyman Smith (1904-1997)
Botânico americano, conhecido como o "pai dos estudos de bromélias". Ele trabalhou no Gray Herbarium, na Universidade Harvard, e no departamento de botânica do Instituto Smithsonian, em mais de 60 anos dedicados às flores. Ele e Margaret Mee foram colegas: a inglesa ilustrou sua extensa pesquisa sobre bromélias. Ao todo, ela pintou 70 pranchas.
Saiba mais:
Flores da Floresta Amazônica - A Arte Botânica de Margaret Mee, Margaret Mee, EscriturasEditora, 2009 R$ 99,90
*Ilustrações extraídas do livro “FLORES DA FLORESTA AMAZÔNICA: a arte botânica de Margaret Mee” (Escrituras Editora)
Veja também:
Margaret Mee: a dama das flores