Quais são as reservas naturais mais preciosas do mundo e como protegê-las? Raramente essas duas perguntas foram respondidas de maneira tão bela e cativante como neste livro produzido pela WWF. A sigla abrevia o nome da pioneira organização não-governamental World Wildlife Fund (“Fundo para a Vida Selvagem Mundial”), criada por cientistas europeus em 1961, para salvar espécies ameaçadas de extinção – como o famoso urso panda que ilustra seu logotipo e a faz ser reconhecida mais facilmente no mundo inteiro, em comparação com o nome de pronúncia difícil para não-falantes da língua inglesa.
À primeira vista, Planeta Terra – 200 Lugares de Preservação Prioritária (Global 200: Places that Must Survive) pode ser confundido com mais um espécime daquilo que os ingleses chamam de coffee-table books: livros gigantes de capa dura, pesando pelo menos dois quilos, recheados de esplendorosas fotos e/ou reproduções de obras de arte, impressas em papel de alto luxo, entre textos diminutos que, quase sempre, servem de mera legenda às imagens. Com tudo isso, o apelido “livro de mesa de café” não deixa de soar irônico e depreciativo, tratando o objeto como algo deixado sobre a mesinha central da sala de estar, para efeito decorativo e ser folheado em momentos de ócio ou espera – mais para ser visto do que propriamente lido, enfim.
Esta edição da WWF certamente preenche à perfeição todos esses requisitos, desde embelezar a casa até oferecer intenso prazer estético às visitas convidadas para um cafezinho. Concentram-se aqui nada menos que as belezas naturais mais representativas dos cinco continentes, em fotos assinadas pelos grandes fotógrafos do mundo especializados em “vida selvagem”, muitas delas ocupando páginas inteiras, quando não páginas duplas. E convenhamos: não existe Dalí, Da Vinci ou Rembrandt que se equipare ao majestoso multiforme panorama que o homem, talvez o único ser capaz de fruição estética, herdou ao nascer no planeta Terra.
Ninguém duvide que, através das lentes desses especialistas e do formato “livro-mesa-de-café”, os ecossistemas terrestres, aquáticos e submarinos selecionadas pelos cientistas da WWF recebem o tratamento editorial que merecem. Araras em revoada entre as copas da Floresta Amazônica, pinguins encarapitados em geleiras monumentais, ilhas de rocha vulcânica brilhando no Mediterrâneo, águias-reais caçando raposas na neve dos Alpes, gorilas e ursos com seus filhotes são apenas algumas estrelas do desfile que se estende por 300 páginas, numa verdadeira volta ao mundo.
Ainda assim, Planeta Terra – 200 Lugares de Preservação Prioritária vai muito além da simples antologia de imagens deslumbrantes da natureza. O livro destaca-se também como documento científico e texto didático de importância fundamental para qualquer leitor minimamente interessado na preservação da biodiversidade nele retratada. O cafezinho que acompanha a leitura ganha um travo amargo, conforme os autores – uma equipe de nove membros da WWF italiana – expõem a vulnerabilidade de toda essa beleza diante da voracidade predatória do ser humano. Da contaminação química ao desmatamento, da introdução de espécies exógenas a todo tipo de exploração econômica, não faltam ameaças capazes de destruir o frágil equilíbrio que sustenta a vida na Terra.
Se palavras nesse tom correm o risco de serem desprezadas como blá-blá-blá romântico pelos mais céticos, o livro as defende com vasta pesquisa científica, a serviço de uma visão prática e objetiva. Sua principal razão de ser é apresentar a estratégia de preservação elaborada e colocada em ação pela WWF, reconhecida e adotada também pela TNC – The Nature Conservancy , outra das maiores organizações ambientalistas internacionais.
Especialmente interessante é o modo como nos convida a enxergar o planeta com outros olhos, outros critérios, outra geografia. Reconhecendo que a encrenca possui dimensões globais e exige soluções emergenciais, os estudiosos responsáveis pelo plano começam traçando um novo mapa-múndi – apagando as fronteiras políticas para identificar as “nações” que a própria natureza compôs muito antes, em forma de ecossistemas e biomas.
Cada uma desses unidades geográficas significa, portanto, uma comunidade de multidões de espécies diferentes vivendo em interdependência harmoniosa consigo mesmas e com seu habitat. Esses “países biológicos” são batizados de “ecorregiões”, num total detectado mundialmente de 1 504, das quais a WWF selecionou 238 (arredondadas para 200 no título do livro) consideradas prioritárias para conservação, pois abrigam 90% da biodiversidade do planeta. Para cada uma delas, vêm sendo arquitetados e aplicados projetos específicos de proteção, descritos aqui com resultados positivos – caso da parceria com o governo brasileiro inaugurada em 2002, o ARPA – Programa Áreas Protegidas da Amazônia, que, entre outras ações, criou o maior parque de floresta tropical do mundo, o Parque Nacional das Montanhas de Tumucumaque, no Amapá.
Apesar de trazer o mapa completo das 238 ecorregiões, a publicação limita-se a destacar 53 delas, agrupadas em 28 capítulos. Ilhas Galápagos, Grande Barreira de Corais e Taiga Siberiana são outros exemplos célebres dessa seleção passada em peneira finíssima, deixando o leitor na esperança de que a WWF lance novos volumes, para dar a devida conta de todas as “duzentas” reservas naturais que elegeu como as mais importantes da Terra.
O livro é encontrado nas livrarias Cultura e Fnac.