
Diogo Dantas – Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável – 04/05/2009
Estudo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro identificou mais de 200 exemplares de fauna e flora que estão tomando conta de determinadas paisagens e ameaçam extinguir variadas espécies de seus habitats naturais, contribuindo para uma queda brusca na biodiversidade. O levantamento, elaborado em parceria com o Instituto Biomas, identifica, entre os mais perigosos invasores, animais como gatos, passarinhos, peixes e saguis, além de plantas como a jaqueira, todos aparentemente inofensivos e até 'bonitinhos' para a maioria das pessoas.
A coordenadora da pesquisa, Helena Bergallo, explica que é justamente esse ar dócil que leva à propagação de espécies em uma paisagem que deveria estar sendo habitada por outra. Por isso, elas, primeiramente, são consideradas exóticas, para, em seguida, tornarem-se invasoras.
“São consideradas exóticas as espécies que não tiveram origem no ambiente onde estão instaladas. Elas são trazidas acidentalmente pelo homem como, por exemplo, na água de lastro de um navio”, explica a pesquisadora, que acrescenta: “As espécies invasoras não ficam restritas ao ambiente antrópico porque elas se reproduzem sem a ajuda do homem. Quando são levadas para um novo ambiente não carregam parasitas, nem seus predadores naturais e, por isso, acabam se tornando uma praga, com vantagem competitiva sobre as outras espécies. As invasões de espécies exóticas já se configuram como a primeira causa de perda de biodiversidade em ilhas e Unidades de Conservação e a segunda em continentes.
Helena entregou a lista de espécies ameaçadoras à Secretaria de Ambiente do Rio. Esta irá nortear a criação de uma “lista verde” com espécies nativas que devem ter seu plantio e disseminação estimulados. “Vamos estudar profundamente essa lista e promover programas para a retirada das espécies invasoras que estão degradando nosso ambiente”, salienta Marilene Ramos, secretária do Ambiente do Estado. “Mas gostaria de tranquilizar a população e as associações de proteção, porque nossa intenção não é sair por aí matando micos ou derrubando jaqueiras. Queremos, sim, controlar o crescimento dessas espécies para que elas não se tornem uma praga ainda maior, que afeta o equilíbrio ecológico da cidade”.
CARAMUJO AFRICANO NÃO É ESCARGOT!
[img1]Um dos exemplos mais recentes de ‘ataque’ desses animais aconteceu em 2007, quando o Rio se viu invadido pelos caramujos africanos. Eles foram trazidos à cidade no final da década de 1980, para substituírem o escargot, mas a iguaria não agradou o paladar carioca. No entanto, a espécie não teve sua reprodução controlada e acabou se multiplicando descontroladamente: sem acasalamento, cada um botava 1.200 ovos por ano; acasalados, o número dobrava. Conclusão: os caramujos passaram a representar alto custo de manutenção para seus criadores que, então, se livraram dos bichinhos de maneira inadequada: soltando-os em rios, matas, terrenos baldios ou mesmo jogando-os no lixo.
O problema é que esses moluscos, além de se reproduzirem assustadoramente rápido, contaminam o solo e a água, devastam plantações, hortas e jardins. Assim, podem provocar doenças em seres humanos (e em alguns animais), como a angiostrongilíase abdominal - doença fatal que ataca o intestino (perfuração e hemorragia interna) e da qual há centenas de casos registrados no país -, e também doenças neurológicas como a meningite eosinofílica, embora não haja registro no Brasil.
A receita para driblar a “invasão” do caramujo africano, naquela época, foi estimular a população a promover uma verdadeira caça ao animal, o que não surtiu grande efeito.
JAQUEIRAS DESCONTROLAM A POPULAÇÃO DE INSETOS
[img2]Apesar de estar presente na memória coletiva, o caso do caramujo não é o mais preocupante, de acordo com o estudo da UERJ, mas, sim, o da jaqueira.
A árvore na qual brota um fruto grande e com cheiro forte está se tornando um problema em uma das reservas florestais mais importantes do Rio de Janeiro: a Baía da Ilha Grande, em Angra dos Reis, no sul do estado. Com sua presença, diversas espécies nativas correm o risco de serem eliminadas já que provoca transformações no comportamento de outras espécies desse ecossistema.
Helena Bergallo explica: “Com a predominância das jaqueiras, os animais que antes se alimentavam de insetos (insetívoros), agora se rendem à fruta o que provoca um descontrole na população de insetos”.
ÁGUA DE LASTRO AUMENTA A PRESENÇA DO CORAL-SOL
[img3]Há outros motivos que tornam as unidades de conservação - situadas em ilhas - um motivo de grande preocupação. Nelas chegam navios pesqueiros e muitos deles trazem espécies de outros ecossistemas na água de lastro, captada para garantir a segurança operacional da embarcação.
A pesquisadora da UERJ conta que, na Ilha Grande, já há um projeto para a eliminação do Coral-Sol, que chega através dos navios e está acabando com os corais nativos. “Existe uma legislação que obriga as embarcações a deixarem a água de lastro a, pelo menos, 200 milhas de distância da costa, mas isso não costuma ser fiscalizado”, denuncia.
Registros dessa agressão foram feitos pela equipe de Joel Creed, também da Uerj, que estuda a invasão do coral-sol desde o ano de 2000. De acordo com Helena, o projeto do pesquisador registrou a agressão do Coral-Sol ao longo de 25 quilômetros. “Segundo o estudo, ele se reproduz entre 12 e 18 meses, o que é muito rápido para um coral e afugenta os invertebrados marinhos e peixes que já viviam naquele local”.
Esse organismo, originário do Caribe, foi visto, pela primeira vez em território brasileiro, na Bacia de Campos, no norte do estado do RJ. Sua chegada foi atribuída pelos pesquisadores aos navios petroleiros. Hoje a espécie se alastra, também, por 25 quilômetros quadrados do litoral norte de São Paulo.
BONITINHOS, MAS, NEM POR ISSO, INOFENSIVOS
A chegada de espécies em embarcações, nem sempre foi acidental. A disseminação desses invasores é contemporânea dos grandes descobrimentos. Ao conquistar terras, os navegantes que se instalavam no “mundo novo” faziam questão de levar animais de seus países para dar um ar hospitaleiro à sua nova casa.
[img4]“E isso não acontece somente aqui, claro! Há relatos de que um único gato, levado por um forasteiro para uma ilha na Nova Zelândia, foi responsável por acabar, de vez, com uma espécie de pássaro que habitava por lá”, conta Helena.
O felino também é uma espécie que tem se multiplicado descontroladamente nas grandes cidades. Duas razões contribuem para que o gato doméstico se propague pelas ruas e seja considerado um invasor: seu instinto assassino e a prática do homem de alimentá-lo. "O gato pode estar de barriga cheia que sai matando tudo que vê pela frente. As estimativas de caça por esse animal são absurdas”, explica a pesquisadora.
No Rio existe, até, um ponto central de disseminação dos gatos: o Campo de Santana, oficialmente chamado de Praça da República, localizado no Centro da cidade, onde a população de gatos por metro quadrado está entre as maiores do estado. Lá, os animais domesticados são abandonados, mas também há voluntários que os alimentam e cuidam de doenças. Existe, inclusive, uma comunidade no Orkut que reúne mais de mil participantes preocupados com a situação dos felinos abandonados.
De acordo com a pesquisa, a receita para esse caso é não alimentá-los (para que eles controlem a população de ratos, que também são invasores), mas esterilizá-los para que não se reproduzam. Se você gosta de ter um gato como bicho de estimação, é importante também mantê-lo dentro de casa.
[img5]Acredite se quiser: os peixes criados em aquários também podem se tornar espécies exóticas. E, isso, em razão da ignorância humana. "Muitas vezes, esses peixes são soltos em rios porque os donos não os querem mais e isso é um erro grave", comenta Helena. A carpa - criada em aquários e pequenos lagos - também está citada na lista de espécies exóticas, por desequilibrar o ecossistema.
[img6]Outra espécie "bonitinha" que faz os pesquisadores arrancarem os cabelos é o mico estrela ou sagui. Em áreas cercadas por matas, principalmente na zona sul do Rio de Janeiro, o animal recebe verdadeiros banquetes nas janelas dos apartamentos que dão para a vegetação de encostas. Além disso, a espécie se reproduz facilmente porque foi trazida do nordeste e não encontra predadores no Rio. Por outro lado, atacam a população de esquilos, que antes predominavam nas matas dessa região e, hoje, são vistos, cada vez, com menos frequência.
GRANDE RISCO PARA A BIODIVERSIDADE
O problema vivido com as espécies exóticas, hoje, é uma importante questão global de conservação. A preocupação foi registrada no texto da “Convenção Internacional sobre Diversidade Biológica”, aprovada em 1992 durante a Rio-92, da qual o Brasil foi signatário. Na ocasião, ficou determinado que os países adotariam medidas preventivas, de controle e de erradicação de espécies exóticas invasoras. No entanto, nada muito significativo tem sido feito. Inclusive, em relação à disseminação de informação sobre o tema: a ignorância das pessoas sobre o problema tem agravado a situação, a cada ano. E esse é um dos aspectos do plano da Secretaria do Ambiente do Rio.
A maior conseqüência da falta de controle sobre a expansão avassaladora desses animais é a homogeneização biótica, ou seja: a biodiversidade tende a diminuir, cada vez mais, com a supressão de uma espécie sobre várias outras, limitando a riqueza genética de nossas plantas e animais, uma das maiores riquezas do Brasil.
Alba Simon, Superintendente de Biodiversidade da Secretaria, afirma que é importante que a lista de invasores se torne pública para que as pessoas saibam o que estão plantando ou que animais estão ajudando a multiplicar. ”Mas não é para criar uma histeria. Temos que ter cuidado ao falar sobre as formas de erradicação dessas espécies. A ideia é de que seja uma ação controlada, até porque estamos tratando com seres vivos”, salienta.
Segundo a secretária Marilene Ramos, já há projetos em andamento, nesse sentido. “As pessoas estranham algumas de nossas ações, considerando que estamos ‘arrancando plantas’! Mas, o que elas não sabem é que, muitas vezes, em suas casas e sítios, plantam determinadas espécies sem saber que são exóticas e invasoras, e que ameaçarão o meio ambiente no entorno. Por isso, a informação é crucial nessa batalha”.
No entanto, com o controle dos invasores e a divulgação efetiva de informações sobre as espécies nativas, o quadro só se reverterá em longo prazo. "Vamos formar um grupo de trabalho e olhar espécie por espécie e isso leva tempo. O primeiro passo é lançar a chamada ‘lista verde das espécies’ que podem ser mantidas de acordo com as formações florestais do estado, que são muitas", sustenta Helena Bergallo.
INTERESSES COMERCIAIS POTENCIALIZAM O PROBLEMA
Mesmo com acordos internacionais na área ambiental, o que se nota são barreiras estabelecidas por acordos de natureza comercial. Isso porque, com um maior intercâmbio entre as cozinhas de todo o mundo, os cultivos de espécies também circulam entre as culturas.
A agricultura, a silvicultura, os reflorestamentos, a pesca, o comércio de animais domésticos, a horticultura, entre outros, se utilizam, muitas vezes, de espécies originárias de outras partes do mundo, o que intensifica, ainda mais, a “invasão das exóticas”. O que gera um círculo vicioso para o problema.
Não há mais dúvidas sobre os impactos negativos da transposição artificial de espécies não-nativas em ecossistemas locais e nas espécies que os compõem. Não basta, portanto, combater a consequência se a causa continuar rendendo lucro.
Diogo Dantas – Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável – 04/05/2009
Estudo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro identificou mais de 200 exemplares de fauna e flora que estão tomando conta de determinadas paisagens e ameaçam extinguir variadas espécies de seus habitats naturais, contribuindo para uma queda brusca na biodiversidade. O levantamento, elaborado em parceria com o Instituto Biomas, identifica, entre os mais perigosos invasores, animais como gatos, passarinhos, peixes e saguis, além de plantas como a jaqueira, todos aparentemente inofensivos e até 'bonitinhos' para a maioria das pessoas.
A coordenadora da pesquisa, Helena Bergallo, explica que é justamente esse ar dócil que leva à propagação de espécies em uma paisagem que deveria estar sendo habitada por outra. Por isso, elas, primeiramente, são consideradas exóticas, para, em seguida, tornarem-se invasoras.
“São consideradas exóticas as espécies que não tiveram origem no ambiente onde estão instaladas. Elas são trazidas acidentalmente pelo homem como, por exemplo, na água de lastro de um navio”, explica a pesquisadora, que acrescenta: “As espécies invasoras não ficam restritas ao ambiente antrópico porque elas se reproduzem sem a ajuda do homem. Quando são levadas para um novo ambiente não carregam parasitas, nem seus predadores naturais e, por isso, acabam se tornando uma praga, com vantagem competitiva sobre as outras espécies. As invasões de espécies exóticas já se configuram como a primeira causa de perda de biodiversidade em ilhas e Unidades de Conservação e a segunda em continentes.
Helena entregou a lista de espécies ameaçadoras à Secretaria de Ambiente do Rio. Esta irá nortear a criação de uma “lista verde” com espécies nativas que devem ter seu plantio e disseminação estimulados. “Vamos estudar profundamente essa lista e promover programas para a retirada das espécies invasoras que estão degradando nosso ambiente”, salienta Marilene Ramos, secretária do Ambiente do Estado. “Mas gostaria de tranquilizar a população e as associações de proteção, porque nossa intenção não é sair por aí matando micos ou derrubando jaqueiras. Queremos, sim, controlar o crescimento dessas espécies para que elas não se tornem uma praga ainda maior, que afeta o equilíbrio ecológico da cidade”.
CARAMUJO AFRICANO NÃO É ESCARGOT!
[img1]Um dos exemplos mais recentes de ‘ataque’ desses animais aconteceu em 2007, quando o Rio se viu invadido pelos caramujos africanos. Eles foram trazidos à cidade no final da década de 1980, para substituírem o escargot, mas a iguaria não agradou o paladar carioca. No entanto, a espécie não teve sua reprodução controlada e acabou se multiplicando descontroladamente: sem acasalamento, cada um botava 1.200 ovos por ano; acasalados, o número dobrava. Conclusão: os caramujos passaram a representar alto custo de manutenção para seus criadores que, então, se livraram dos bichinhos de maneira inadequada: soltando-os em rios, matas, terrenos baldios ou mesmo jogando-os no lixo.
O problema é que esses moluscos, além de se reproduzirem assustadoramente rápido, contaminam o solo e a água, devastam plantações, hortas e jardins. Assim, podem provocar doenças em seres humanos (e em alguns animais), como a angiostrongilíase abdominal - doença fatal que ataca o intestino (perfuração e hemorragia interna) e da qual há centenas de casos registrados no país -, e também doenças neurológicas como a meningite eosinofílica, embora não haja registro no Brasil.
A receita para driblar a “invasão” do caramujo africano, naquela época, foi estimular a população a promover uma verdadeira caça ao animal, o que não surtiu grande efeito.
JAQUEIRAS DESCONTROLAM A POPULAÇÃO DE INSETOS
[img2]Apesar de estar presente na memória coletiva, o caso do caramujo não é o mais preocupante, de acordo com o estudo da UERJ, mas, sim, o da jaqueira.
A árvore na qual brota um fruto grande e com cheiro forte está se tornando um problema em uma das reservas florestais mais importantes do Rio de Janeiro: a Baía da Ilha Grande, em Angra dos Reis, no sul do estado. Com sua presença, diversas espécies nativas correm o risco de serem eliminadas já que provoca transformações no comportamento de outras espécies desse ecossistema.
Helena Bergallo explica: “Com a predominância das jaqueiras, os animais que antes se alimentavam de insetos (insetívoros), agora se rendem à fruta o que provoca um descontrole na população de insetos”.
ÁGUA DE LASTRO AUMENTA A PRESENÇA DO CORAL-SOL
[img3]Há outros motivos que tornam as unidades de conservação - situadas em ilhas - um motivo de grande preocupação. Nelas chegam navios pesqueiros e muitos deles trazem espécies de outros ecossistemas na água de lastro, captada para garantir a segurança operacional da embarcação.
A pesquisadora da UERJ conta que, na Ilha Grande, já há um projeto para a eliminação do Coral-Sol, que chega através dos navios e está acabando com os corais nativos. “Existe uma legislação que obriga as embarcações a deixarem a água de lastro a, pelo menos, 200 milhas de distância da costa, mas isso não costuma ser fiscalizado”, denuncia.
Registros dessa agressão foram feitos pela equipe de Joel Creed, também da Uerj, que estuda a invasão do coral-sol desde o ano de 2000. De acordo com Helena, o projeto do pesquisador registrou a agressão do Coral-Sol ao longo de 25 quilômetros. “Segundo o estudo, ele se reproduz entre 12 e 18 meses, o que é muito rápido para um coral e afugenta os invertebrados marinhos e peixes que já viviam naquele local”.
Esse organismo, originário do Caribe, foi visto, pela primeira vez em território brasileiro, na Bacia de Campos, no norte do estado do RJ. Sua chegada foi atribuída pelos pesquisadores aos navios petroleiros. Hoje a espécie se alastra, também, por 25 quilômetros quadrados do litoral norte de São Paulo.
BONITINHOS, MAS, NEM POR ISSO, INOFENSIVOS
A chegada de espécies em embarcações, nem sempre foi acidental. A disseminação desses invasores é contemporânea dos grandes descobrimentos. Ao conquistar terras, os navegantes que se instalavam no “mundo novo” faziam questão de levar animais de seus países para dar um ar hospitaleiro à sua nova casa.
[img4]“E isso não acontece somente aqui, claro! Há relatos de que um único gato, levado por um forasteiro para uma ilha na Nova Zelândia, foi responsável por acabar, de vez, com uma espécie de pássaro que habitava por lá”, conta Helena.
O felino também é uma espécie que tem se multiplicado descontroladamente nas grandes cidades. Duas razões contribuem para que o gato doméstico se propague pelas ruas e seja considerado um invasor: seu instinto assassino e a prática do homem de alimentá-lo. "O gato pode estar de barriga cheia que sai matando tudo que vê pela frente. As estimativas de caça por esse animal são absurdas”, explica a pesquisadora.
No Rio existe, até, um ponto central de disseminação dos gatos: o Campo de Santana, oficialmente chamado de Praça da República, localizado no Centro da cidade, onde a população de gatos por metro quadrado está entre as maiores do estado. Lá, os animais domesticados são abandonados, mas também há voluntários que os alimentam e cuidam de doenças. Existe, inclusive, uma comunidade no Orkut que reúne mais de mil participantes preocupados com a situação dos felinos abandonados.
De acordo com a pesquisa, a receita para esse caso é não alimentá-los (para que eles controlem a população de ratos, que também são invasores), mas esterilizá-los para que não se reproduzam. Se você gosta de ter um gato como bicho de estimação, é importante também mantê-lo dentro de casa.
[img5]Acredite se quiser: os peixes criados em aquários também podem se tornar espécies exóticas. E, isso, em razão da ignorância humana. "Muitas vezes, esses peixes são soltos em rios porque os donos não os querem mais e isso é um erro grave", comenta Helena. A carpa - criada em aquários e pequenos lagos - também está citada na lista de espécies exóticas, por desequilibrar o ecossistema.
[img6]Outra espécie "bonitinha" que faz os pesquisadores arrancarem os cabelos é o mico estrela ou sagui. Em áreas cercadas por matas, principalmente na zona sul do Rio de Janeiro, o animal recebe verdadeiros banquetes nas janelas dos apartamentos que dão para a vegetação de encostas. Além disso, a espécie se reproduz facilmente porque foi trazida do nordeste e não encontra predadores no Rio. Por outro lado, atacam a população de esquilos, que antes predominavam nas matas dessa região e, hoje, são vistos, cada vez, com menos frequência.
GRANDE RISCO PARA A BIODIVERSIDADE
O problema vivido com as espécies exóticas, hoje, é uma importante questão global de conservação. A preocupação foi registrada no texto da “Convenção Internacional sobre Diversidade Biológica”, aprovada em 1992 durante a Rio-92, da qual o Brasil foi signatário. Na ocasião, ficou determinado que os países adotariam medidas preventivas, de controle e de erradicação de espécies exóticas invasoras. No entanto, nada muito significativo tem sido feito. Inclusive, em relação à disseminação de informação sobre o tema: a ignorância das pessoas sobre o problema tem agravado a situação, a cada ano. E esse é um dos aspectos do plano da Secretaria do Ambiente do Rio.
A maior conseqüência da falta de controle sobre a expansão avassaladora desses animais é a homogeneização biótica, ou seja: a biodiversidade tende a diminuir, cada vez mais, com a supressão de uma espécie sobre várias outras, limitando a riqueza genética de nossas plantas e animais, uma das maiores riquezas do Brasil.
Alba Simon, Superintendente de Biodiversidade da Secretaria, afirma que é importante que a lista de invasores se torne pública para que as pessoas saibam o que estão plantando ou que animais estão ajudando a multiplicar. ”Mas não é para criar uma histeria. Temos que ter cuidado ao falar sobre as formas de erradicação dessas espécies. A ideia é de que seja uma ação controlada, até porque estamos tratando com seres vivos”, salienta.
Segundo a secretária Marilene Ramos, já há projetos em andamento, nesse sentido. “As pessoas estranham algumas de nossas ações, considerando que estamos ‘arrancando plantas’! Mas, o que elas não sabem é que, muitas vezes, em suas casas e sítios, plantam determinadas espécies sem saber que são exóticas e invasoras, e que ameaçarão o meio ambiente no entorno. Por isso, a informação é crucial nessa batalha”.
No entanto, com o controle dos invasores e a divulgação efetiva de informações sobre as espécies nativas, o quadro só se reverterá em longo prazo. "Vamos formar um grupo de trabalho e olhar espécie por espécie e isso leva tempo. O primeiro passo é lançar a chamada ‘lista verde das espécies’ que podem ser mantidas de acordo com as formações florestais do estado, que são muitas", sustenta Helena Bergallo.
INTERESSES COMERCIAIS POTENCIALIZAM O PROBLEMA
Mesmo com acordos internacionais na área ambiental, o que se nota são barreiras estabelecidas por acordos de natureza comercial. Isso porque, com um maior intercâmbio entre as cozinhas de todo o mundo, os cultivos de espécies também circulam entre as culturas.
A agricultura, a silvicultura, os reflorestamentos, a pesca, o comércio de animais domésticos, a horticultura, entre outros, se utilizam, muitas vezes, de espécies originárias de outras partes do mundo, o que intensifica, ainda mais, a “invasão das exóticas”. O que gera um círculo vicioso para o problema.
Não há mais dúvidas sobre os impactos negativos da transposição artificial de espécies não-nativas em ecossistemas locais e nas espécies que os compõem. Não basta, portanto, combater a consequência se a causa continuar rendendo lucro.
























