Cidade
Perigo no ar
Avaliamos os índices de poluição de quarenta pontos do Rio. Apenas nove estão dentro dos padrões recomendados pela Organização Mundial de Saúde. A situação é pior em casas noturnas, mas é boa nos principais pontos turísticos
Patrick Moraes*
Revista Veja Rio – 20/05/2009
Saudado por suas belezas naturais, o Rio enfrenta hoje a sina das grandes metrópoles: a poluição do ar respirado pelos cariocas está alta. Entre os dias 5 e 9 de maio, VEJA RIO foi às ruas com um aparelho cedido pelo Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da USP para medir a quantidade de partículas finas inaláveis (PN 2,5), o tipo mais maléfico ao organismo, encontradas no ar da cidade. Em cada um dos quarenta pontos testados, o equipamento captou, durante cinco minutos, a concentração desse material, que forma, por exemplo, a fuligem preta em paredes de túneis e latarias de carros. Apenas nove ficaram abaixo do índice estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) – uma média de 25 microgramas por metro cúbico. Os piores resultados foram obtidos em casas noturnas, bares e locais com elevada concentração de pessoas, como a Lapa, e cruzamentos de grandes avenidas. Nos lugares com ar mais carregado, como as boates Casa da Matriz e Lounge 69, a média superou os 3 500 microgramas – ou seja, 140 vezes mais que o nível recomendado pela OMS. "Fosse uma indústria, as pessoas teriam de usar máscara", alerta Paulo Saldiva, coordenador do Laboratório de Poluição Atmosférica da USP.
O teste não é um diagnóstico científico, com resultados definitivos. Em medições oficiais, a qualidade atmosférica é testada por um dia inteiro e diversas vezes ao ano. A frequência evita distorções provocadas por fatores como vento, umidade e temperatura. Ainda assim, os testes feitos por VEJA RIO servem como um registro da poluição no momento em que o aparelho entrou em ação: quem passou por lá respirou aquela quantidade de partículas finas. Trabalhos recentes feitos por especialistas também contestam a fama de que o ar do Rio é limpo. "Infelizmente, nossa situação não é boa", constata o coordenador do programa Ares-Rio, Antonio Ponce de Leon, do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. "Recentemente, concluímos que os efeitos da poluição na vida da população carioca, especialmente na Zona Norte e em direção à Baixada, estão próximos aos níveis de São Paulo, Santiago e Cidade do México."
Veja quadro: Transportes e áreas verdes
As principais consequências para a saúde dos cariocas são as doenças respiratórias e cardiovasculares. "A inalação regular de grande quantidade de partículas aumenta de duas a três vezes o risco de um infarto", alerta o médico Marco Antonio de Mattos, diretor-geral do Instituto Nacional de Cardiologia. "A fuligem chega aos pulmões e ganha a corrente sanguínea. Os batimentos cardíacos aumentam, a pressão arterial se eleva e até a coagulação fica alterada." O pneumologista Alexandre Pinto Cardoso, diretor-geral do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, explica que o ar poluído agride principalmente quem já tem sintomas de bronquite, asma e enfisemas. "Mesmo quem não tem predisposição sente a irritação nos olhos e no nariz", diz.
Veja quadro: O caminho do mal
O Instituto Estadual do Ambiente (Inea), órgão da Secretaria de Estado do Ambiente, faz medições regulares de partículas inaláveis PN10, menos sensíveis do que as finas PN 2,5 testadas por VEJA RIO, em sete estações espalhadas pela cidade. O resultado, 45 microgramas por metro cúbico, fica um pouco abaixo do índice estabelecido pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), 50 microgramas, mas é mais que o dobro do determinado pela OMS para esse tipo de poluente (20 microgramas). "É quase impossível que uma grande metrópole consiga obter os padrões da OMS", afirma Paulina Porto, analista da gerência de qualidade ambiental do Inea. "Mas nos últimos dez anos estamos numa tendência de queda". Em 2000, o índice carioca era de 63 microgramas por metro cúbico. Por causa das várias reclamações contra o padrão estabelecido em 2005, a OMS instituiu uma faixa intermediária: entre 26 e 75 microgramas por metro cúbico.
Veja quadro: Os quarenta lugares visitados
O grande vilão é a frota de veículos da cidade, que emite 77% dos poluentes. A inspeção veicular e o incentivo ao uso de transporte público são vistos como medidas paliativas para diminuir o efeito corrosivo da partícula e os índices do ar do Rio. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente faz vistorias regulares em ônibus e retira de circulação aqueles com forte emissão de poluentes: a reprovação beira os 10%. Esses veículos só podem voltar a circular depois de ajustados em oficinas. O problema, porém, está longe do fim. No cruzamento das avenidas Rio Branco e Presidente Vargas, no Centro, o índice chegou a 250 microgramas. As partículas são tantas que atingem até o interior da Igreja da Candelária, localizada a poucos metros. Lá, a medição indicou 123 microgramas por metro cúbico. Nas paredes escurecidas, é perceptível a ação da fuligem.
Locais de lazer do carioca, como as ciclovias da orla e o Aterro do Flamengo, também tiveram índices acima do esperado – nesse caso, o resultado sofre influência da maresia. "Ela é medida como partícula leve pelo equipamento, mas sua composição é bem diferente. Não causa danos ao organismo, ao contrário da fumaça de um ônibus", afirma Saldiva. Os resultados mais assustadores não foram encontrados em vias de alto movimento, como se poderia supor: estão nas casas noturnas, agravados pela fumaça dos cigarros, que, embora proibidos por lei em áreas fechadas, continuam liberalmente consumidos. Na Casa da Matriz, em Botafogo, e no Lounge 69, em Ipanema, a medição superou os 3 500 microgramas. "Apesar de termos área própria no 2º andar, alguns frequentadores insistem em fumar em local não permitido", afirmam, em nota, os sócios da Casa da Matriz, que prometem conscientizar os seus clientes e chamar técnicos para verificar o equipamento de ventilação. Já os responsáveis pelo Lounge 69, que garantem ter quatro exaustores na casa, admitem não conseguir proibir o fumo dentro do ambiente fechado. Com pouco a fazer em termos de prevenção pessoal – utopicamente, as pessoas deveriam evitar grandes aglomerações e horários de pico –, o combate à poluição depende ainda de legislação e fiscalização mais duras e eficazes.
Veja quadro: Lazer e orla
Os principais pontos turísticos da cidade alcançaram bons resultados no teste da poluição. Coube ao Jardim Botânico o primeiro lugar em qualidade do ar, entre os quarenta lugares visitados por VEJA RIO: apenas seis microgramas por metro cúbico, quase cinco vezes menos que o padrão estabelecido pela Organização Mundial de Saúde. A Quinta da Boa Vista, outro grande parque da cidade, também apresentou bons índices: a média ficou em 13 microgramas. As duas atrações mais visitadas do Rio, Corcovado e Pão de Açúcar, tiveram resultados semelhantes: no primeiro, 22 microgramas por metro cúbico; no segundo, 20.
Muito procurados como área de lazer pelos moradores das zonas Norte e Sul, respectivamente, os arredores do Maracanã e o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas também foram aprovados. Em frente à estátua do Bellini, na entrada principal do estádio de futebol, o índice de partículas finas teve média de 16 microgramas. As mães que levam suas crianças à Praça dos Bebês, nas margens da Lagoa, altura da Fonte da Saudade, podem respirar tranquilas. Ali, o resultado foi de 19 microgramas de partículas por metro cúbico.
TURISMO LIMPO
Os principais pontos turísticos da cidade alcançaram bons resultados no teste da poluição. Coube ao Jardim Botânico o primeiro lugar em qualidade do ar, entre os quarenta lugares visitados por VEJA RIO: apenas seis microgramas por metro cúbico, quase cinco vezes menos que o padrão estabelecido pela Organização Mundial de Saúde. A Quinta da Boa Vista, outro grande parque da cidade, também apresentou bons índices: a média ficou em 13 microgramas. As duas atrações mais visitadas do Rio, Corcovado e Pão de Açúcar, tiveram resultados semelhantes: no primeiro, 22 microgramas por metro cúbico; no segundo, 20.
Muito procurados como área de lazer pelos moradores das zonas Norte e Sul, respectivamente, os arredores do Maracanã e o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas também foram aprovados. Em frente à estátua do Bellini, na entrada principal do estádio de futebol, o índice de partículas finas teve média de 16 microgramas. As mães que levam suas crianças à Praça dos Bebês, nas margens da Lagoa, altura da Fonte da Saudade, podem respirar tranquilas. Ali, o resultado foi de 19 microgramas de partículas por metro cúbico.
Saudado por suas belezas naturais, o Rio enfrenta hoje a sina das grandes metrópoles: a poluição do ar respirado pelos cariocas está alta. Entre os dias 5 e 9 de maio, VEJA RIO foi às ruas com um aparelho cedido pelo Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da USP para medir a quantidade de partículas finas inaláveis (PN 2,5), o tipo mais maléfico ao organismo, encontradas no ar da cidade. Em cada um dos quarenta pontos testados, o equipamento captou, durante cinco minutos, a concentração desse material, que forma, por exemplo, a fuligem preta em paredes de túneis e latarias de carros. Apenas nove ficaram abaixo do índice estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) – uma média de 25 microgramas por metro cúbico. Os piores resultados foram obtidos em casas noturnas, bares e locais com elevada concentração de pessoas, como a Lapa, e cruzamentos de grandes avenidas. Nos lugares com ar mais carregado, como as boates Casa da Matriz e Lounge 69, a média superou os 3 500 microgramas – ou seja, 140 vezes mais que o nível recomendado pela OMS. "Fosse uma indústria, as pessoas teriam de usar máscara", alerta Paulo Saldiva, coordenador do Laboratório de Poluição Atmosférica da USP.
O teste não é um diagnóstico científico, com resultados definitivos. Em medições oficiais, a qualidade atmosférica é testada por um dia inteiro e diversas vezes ao ano. A frequência evita distorções provocadas por fatores como vento, umidade e temperatura. Ainda assim, os testes feitos por VEJA RIO servem como um registro da poluição no momento em que o aparelho entrou em ação: quem passou por lá respirou aquela quantidade de partículas finas. Trabalhos recentes feitos por especialistas também contestam a fama de que o ar do Rio é limpo. "Infelizmente, nossa situação não é boa", constata o coordenador do programa Ares-Rio, Antonio Ponce de Leon, do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. "Recentemente, concluímos que os efeitos da poluição na vida da população carioca, especialmente na Zona Norte e em direção à Baixada, estão próximos aos níveis de São Paulo, Santiago e Cidade do México."
Veja quadro: Transportes e áreas verdes
As principais consequências para a saúde dos cariocas são as doenças respiratórias e cardiovasculares. "A inalação regular de grande quantidade de partículas aumenta de duas a três vezes o risco de um infarto", alerta o médico Marco Antonio de Mattos, diretor-geral do Instituto Nacional de Cardiologia. "A fuligem chega aos pulmões e ganha a corrente sanguínea. Os batimentos cardíacos aumentam, a pressão arterial se eleva e até a coagulação fica alterada." O pneumologista Alexandre Pinto Cardoso, diretor-geral do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, explica que o ar poluído agride principalmente quem já tem sintomas de bronquite, asma e enfisemas. "Mesmo quem não tem predisposição sente a irritação nos olhos e no nariz", diz.
Veja quadro: O caminho do mal
O Instituto Estadual do Ambiente (Inea), órgão da Secretaria de Estado do Ambiente, faz medições regulares de partículas inaláveis PN10, menos sensíveis do que as finas PN 2,5 testadas por VEJA RIO, em sete estações espalhadas pela cidade. O resultado, 45 microgramas por metro cúbico, fica um pouco abaixo do índice estabelecido pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), 50 microgramas, mas é mais que o dobro do determinado pela OMS para esse tipo de poluente (20 microgramas). "É quase impossível que uma grande metrópole consiga obter os padrões da OMS", afirma Paulina Porto, analista da gerência de qualidade ambiental do Inea. "Mas nos últimos dez anos estamos numa tendência de queda". Em 2000, o índice carioca era de 63 microgramas por metro cúbico. Por causa das várias reclamações contra o padrão estabelecido em 2005, a OMS instituiu uma faixa intermediária: entre 26 e 75 microgramas por metro cúbico.
Veja quadro: Os quarenta lugares visitados
O grande vilão é a frota de veículos da cidade, que emite 77% dos poluentes. A inspeção veicular e o incentivo ao uso de transporte público são vistos como medidas paliativas para diminuir o efeito corrosivo da partícula e os índices do ar do Rio. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente faz vistorias regulares em ônibus e retira de circulação aqueles com forte emissão de poluentes: a reprovação beira os 10%. Esses veículos só podem voltar a circular depois de ajustados em oficinas. O problema, porém, está longe do fim. No cruzamento das avenidas Rio Branco e Presidente Vargas, no Centro, o índice chegou a 250 microgramas. As partículas são tantas que atingem até o interior da Igreja da Candelária, localizada a poucos metros. Lá, a medição indicou 123 microgramas por metro cúbico. Nas paredes escurecidas, é perceptível a ação da fuligem.
Locais de lazer do carioca, como as ciclovias da orla e o Aterro do Flamengo, também tiveram índices acima do esperado – nesse caso, o resultado sofre influência da maresia. "Ela é medida como partícula leve pelo equipamento, mas sua composição é bem diferente. Não causa danos ao organismo, ao contrário da fumaça de um ônibus", afirma Saldiva. Os resultados mais assustadores não foram encontrados em vias de alto movimento, como se poderia supor: estão nas casas noturnas, agravados pela fumaça dos cigarros, que, embora proibidos por lei em áreas fechadas, continuam liberalmente consumidos. Na Casa da Matriz, em Botafogo, e no Lounge 69, em Ipanema, a medição superou os 3 500 microgramas. "Apesar de termos área própria no 2º andar, alguns frequentadores insistem em fumar em local não permitido", afirmam, em nota, os sócios da Casa da Matriz, que prometem conscientizar os seus clientes e chamar técnicos para verificar o equipamento de ventilação. Já os responsáveis pelo Lounge 69, que garantem ter quatro exaustores na casa, admitem não conseguir proibir o fumo dentro do ambiente fechado. Com pouco a fazer em termos de prevenção pessoal – utopicamente, as pessoas deveriam evitar grandes aglomerações e horários de pico –, o combate à poluição depende ainda de legislação e fiscalização mais duras e eficazes.
Veja quadro: Lazer e orla
Os principais pontos turísticos da cidade alcançaram bons resultados no teste da poluição. Coube ao Jardim Botânico o primeiro lugar em qualidade do ar, entre os quarenta lugares visitados por VEJA RIO: apenas seis microgramas por metro cúbico, quase cinco vezes menos que o padrão estabelecido pela Organização Mundial de Saúde. A Quinta da Boa Vista, outro grande parque da cidade, também apresentou bons índices: a média ficou em 13 microgramas. As duas atrações mais visitadas do Rio, Corcovado e Pão de Açúcar, tiveram resultados semelhantes: no primeiro, 22 microgramas por metro cúbico; no segundo, 20.
Muito procurados como área de lazer pelos moradores das zonas Norte e Sul, respectivamente, os arredores do Maracanã e o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas também foram aprovados. Em frente à estátua do Bellini, na entrada principal do estádio de futebol, o índice de partículas finas teve média de 16 microgramas. As mães que levam suas crianças à Praça dos Bebês, nas margens da Lagoa, altura da Fonte da Saudade, podem respirar tranquilas. Ali, o resultado foi de 19 microgramas de partículas por metro cúbico.
TURISMO LIMPO
Os principais pontos turísticos da cidade alcançaram bons resultados no teste da poluição. Coube ao Jardim Botânico o primeiro lugar em qualidade do ar, entre os quarenta lugares visitados por VEJA RIO: apenas seis microgramas por metro cúbico, quase cinco vezes menos que o padrão estabelecido pela Organização Mundial de Saúde. A Quinta da Boa Vista, outro grande parque da cidade, também apresentou bons índices: a média ficou em 13 microgramas. As duas atrações mais visitadas do Rio, Corcovado e Pão de Açúcar, tiveram resultados semelhantes: no primeiro, 22 microgramas por metro cúbico; no segundo, 20.
Muito procurados como área de lazer pelos moradores das zonas Norte e Sul, respectivamente, os arredores do Maracanã e o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas também foram aprovados. Em frente à estátua do Bellini, na entrada principal do estádio de futebol, o índice de partículas finas teve média de 16 microgramas. As mães que levam suas crianças à Praça dos Bebês, nas margens da Lagoa, altura da Fonte da Saudade, podem respirar tranquilas. Ali, o resultado foi de 19 microgramas de partículas por metro cúbico.