Tendências 2009
A conta do aquecimento
Dezembro de 2009 é o prazo final para que países emergentes e desenvolvidos cheguem a um acordo sobre o controle de emissões - e o impasse permanece
Por Luiza Dalmazo
Revista Exame – 31/12/2008
O ano de 2008 foi um dos dez mais quentes dos últimos 160, de acordo com a Organização Mundial de Meteorologia. Em 2009, o que deve esquentar são as discussões sobre o futuro do planeta. Estão na reta final as negociações das metas para a segunda fase do Protocolo de Kyoto, o acordo global que tem o objetivo de reduzir as emissões dos gases que causam o efeito estufa. A primeira fase, que entrou em vigor de fato em 2004 e vai até 2012, estabeleceu limites de emissões apenas para os países industrializados. Mas, a partir da próxima etapa, todos os signatários do documento podem ser chamados a dar sua contribuição no combate ao aquecimento global - e isso inclui as estrelas emergentes China, Índia, Rússia e Brasil. O prazo para que se chegue a um acordo sobre o formato da segunda fase de Kyoto se esgota em dezembro de 2009. É pouco tempo, diante das enormes diferenças diplomáticas que ainda dividem ricos e emergentes e das dúvidas sobre a postura dos Estados Unidos sob nova administração.
Uma das grandes quedas-de-braço que se anunciam para o próximo ano é a que vai opor os países do bloco Bric e as nações industrializadas. Brasileiros, russos, indianos e chineses alegam que não podem ser obrigados a pagar a conta da industrialização do mundo desenvolvido, que durante mais de um século poluiu a atmosfera sem nenhuma preocupação com o clima. Reduzir as emissões, segue o argumento, significa frear o crescimento econômico de países que só nos últimos anos viveram uma fase de aceleração econômica. Mas o indiano Rajendra Pachauri, presidente do órgão da ONU responsável por Kyoto e vencedor do Nobel da Paz de 2007, refutou essa linha de raciocínio de forma categórica na mais recente negociação internacional, realizada no início de dezembro, na Polônia. Para que o aumento da temperatura média global fique no aceitável nível de 2 graus centígrados, afirmou Pachauri, a atividade econômica teria de pagar um preço modesto. "O custo seria de 3% do PIB mundial em 2030", disse ele.
Ainda não há nenhuma definição sobre o que vai acontecer dentro de três anos. Mas, se os emergentes tiverem mesmo de cortar suas emissões, haverá duas situações bastante distintas. China e Índia serão forçadas a encontrar formas para substituir a queima de carvão nas usinas termelétricas que empurram seus respectivos milagres econômicos. A carga maior, portanto, recairá sobre as empresas. No Brasil, cuja eletricidade vem em sua maior parte das ambientalmente corretas hidrelétricas, a receita seria um combate decidido ao desmatamento da Amazônia, responsável por três quartos das emissões de CO2 do país. O governo brasileiro apresentou na reunião polonesa um plano de diminuir em 40% a devastação florestal até o final de 2009. O plano tem ainda duas fases seguintes, que vão até 2017 e têm metas igualmente agressivas.
Enquanto se desenrola o intenso vaivém diplomático até a reunião de dezembro, marcada para Copenhague, a capital dinamarquesa, outro evento fundamental para as discussões sobre o clima vai acontecer nos Estados Unidos. Barack Obama se muda para a Casa Branca em 20 de janeiro. Poucos acreditam que o democrata vá aderir ao Protocolo de Kyoto - os americanos não assinaram o documento da ONU e, portanto, não estão obrigados a cumprir metas. Mas Obama prometeu pesados cortes nas emissões americanas. Mesmo que fora do acordo formal, uma nova postura dos maiores poluidores do mundo poderia facilitar um consenso global? Quem acompanha a batalha de perto acredita que não. "As metas oferecidas por Obama estão aquém do proposto em Kyoto", diz o gerente de sustentabilidade da consultoria PricewaterhouseCoopers, Ernesto Cavasin. "E Kyoto já provou ser insuficiente." A temperatura está subindo no planeta - e também na complicada política internacional do clima.
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Uma das grandes quedas-de-braço que se anunciam para o próximo ano é a que vai opor os países do bloco Bric e as nações industrializadas. Brasileiros, russos, indianos e chineses alegam que não podem ser obrigados a pagar a conta da industrialização do mundo desenvolvido, que durante mais de um século poluiu a atmosfera sem nenhuma preocupação com o clima. Reduzir as emissões, segue o argumento, significa frear o crescimento econômico de países que só nos últimos anos viveram uma fase de aceleração econômica. Mas o indiano Rajendra Pachauri, presidente do órgão da ONU responsável por Kyoto e vencedor do Nobel da Paz de 2007, refutou essa linha de raciocínio de forma categórica na mais recente negociação internacional, realizada no início de dezembro, na Polônia. Para que o aumento da temperatura média global fique no aceitável nível de 2 graus centígrados, afirmou Pachauri, a atividade econômica teria de pagar um preço modesto. "O custo seria de 3% do PIB mundial em 2030", disse ele.
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