floresta de pé
Virgílio Viana aponta saídas para a Amazônia
Em evento realizado no dia 24 de julho, na Amcham, o diretor da Fundação Amazonas Sustentável mostrou que a preservação da floresta vai muito além do ecologicamente correto
Por Thays Prado
Planeta Sustentável - 24/07/2008
A Amcham – Câmara Americana de Comércio recebeu, no dia 24 de julho, Virgílio Viana, ex-secretário de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas e diretor da Fundação Amazonas Sustentável, para um debate sobre as questões amazônicas e a importância de se preservar a floresta.
Segundo Viana, temos o hábito de associar progresso e desenvolvimento à devastação florestal. “Mato sempre foi tido como uma coisa ruim. E é esse paradigma que devemos mudar”, argumenta.
Para isso, ele acredita que é necessário informar às pessoas sobre a importância da floresta e os impactos do desmatamento na vida de cada um de nós, já a curto-prazo. Viana ainda defende que a preservação da Amazônia será feita ao se demonstrar racionalmente que sua exploração sustentável pode ser mais viável, do ponto de vista econômico, do que o desmatamento. Possível, ele garante que é.
O estado do Amazonas seria um exemplo de que desenvolvimento e preservação não se excluem. Em 2003, o desmatamento, por ano, na região, era de 1.582 Km². No mesmo ano, foi lançado um programa de desenvolvimento sustentável que conseguiu reduzir gradativamente essa área para 582 Km², em 2007. Ao mesmo tempo, a média de crescimento econômico do estado aumentou e hoje gira em torno de 9% anuais, número bem acima da média nacional.
FUNDAMENTAL
“A preservação da Amazônia não é só romântica e simbólica, ela é vital para todos”, reforça Virgílio Viana. Um estudo feito pela NASA mostra que o fluxo de vapor d’água ao redor da Amazônia é responsável pelas chuvas do centro-sul do país, assim como de parte dos Estados Unidos e Europa. Degradar a floresta, portanto, influenciaria diretamente no volume dos rios, prejudicando a agricultura, a pesca, a captação de água potável e a geração de energia hidrelétrica.
A crença das comunidades indígenas de que floresta atrai chuva tem sido reforçada por pesquisas científicas recentes, que comprovam a presença de gases emitidos pelas folhas das árvores e cuja composição química ajuda a concentrar mais vapor d’água na região. As pesquisas também revelam que o desmatamento não apenas diminui a produção desses gases, como auxilia na liberação de outros, que tem efeito contrário e desagregam as gotículas de água, dificultando o processo de formação de chuvas.
O EMBATE COM O AGRONEGÓCIO
Viana lembra que a fronteira do agronegócio continua em expansão a cada ano, principalmente devido ao esquema de grilagem: compram-se terras, investe-se em agricultura e pecuária, vendem-se as terras a preços bem mais altos e compram-se novas terras, mais baratas, e mais próximas da fronteira amazônica.
O diretor da Fundação Amazonas Sustentável alerta que investir em produtividade agropecuária sem conter esse esquema pode fazer com que as terras produtivas se valorizem ainda mais e contribuam para o avanço do desmatamento.
Para que o agronegócio não destrua a Amazônia, Virgílio vê uma solução: “se a fronteira da soja e da pecuária envolve bilhões de reais, temos que ter algo da mesma ordem de grandeza do outro lado. Não dá para enfrentar esse avanço da agropecuária sobre as fronteiras amazônicas com projetos pilotos e de menor valor econômico. É uma batalha financeira”.
VALORIZAÇÃO DOS PRODUTOS REGIONAIS
Uma forma de estimular a economia da região amazônica e a produção limpa, a partir de matérias-primas regionais, é preciso desenvolver políticas públicas, oferecer incentivos tributários e microcrédito às atividades desenvolvidas pelas comunidades locais.
Virgílio conta que, desde 2003, produtos não madeireiros do estado do Amazonas têm isenção de ICMS e gozam de incentivos fiscais. Além disso, uma agência pública de desenvolvimento sustentável passou a ser responsável pelas compras do estado. As marcenarias que produzem móveis para as escolas só utilizam madeira legalizada e a merenda escolar tem como base produtos regionais.
Outra maneira de tornar a produção local economicamente viável é negociar taxas de importação mais baixas para os produtos amazônicos no exterior, de modo a torná-los mais competitivos.
BOLSA FLORESTA
Quando se fala em Amazônia, não dá para se esquecer da população que vive “na” e “da” floresta. Uma das iniciativas criadas pela Fundação Amazonas Sustentável para auxiliar o desenvolvimento das comunidades é o Bolsa Floresta – um auxílio financeiro destinado a famílias, associações e comunidades que vivem em unidades de conservação e são verdadeiras guardiãs do bioma.
As famílias que participam do programa recebem um complemento de renda de 50 reais por mês para continuarem preservando a floresta – a renda média da família amazonense é de 83 reais mensais. Já as comunidades que trabalham com produtos regionais, de maneira sustentável – como o extrativismo e beneficiamento de borracha, castanha, açaí, andiroba e copaíba, por exemplo – têm um investimento anual de 4 mil reais.
Para estimular a própria comunidade a exercer um controle na região, para que as leis de preservação sejam realmente cumpridas, o Bolsa Floresta oferece às associações de moradores a soma de 10% do valor total pago às famílias que compõem a comunidade – o que pode render de mil a cinco mil por mês.
EMPRESAS ALIADAS
Virgílio Viana acredita que a saída para a preservação da Amazônia pode estar no empresariado. Ele observa que historicamente muitos projetos interessantes, na região, são desenvolvidos por ONGs e ambientalistas, “que têm grande comprometimento ideológico e emocional com a causa, mas pouca experiência na área empresarial, o que leva a uma elevada incidência de fracassos”, diz.
Para o especialista, os empresários normalmente distantes dos produtos da floresta, são os mais indicados a descobrir meios de obter rentabilidade com a floresta em pé.
A Amcham – Câmara Americana de Comércio recebeu, no dia 24 de julho, Virgílio Viana, ex-secretário de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas e diretor da Fundação Amazonas Sustentável, para um debate sobre as questões amazônicas e a importância de se preservar a floresta.
Segundo Viana, temos o hábito de associar progresso e desenvolvimento à devastação florestal. “Mato sempre foi tido como uma coisa ruim. E é esse paradigma que devemos mudar”, argumenta.
Para isso, ele acredita que é necessário informar às pessoas sobre a importância da floresta e os impactos do desmatamento na vida de cada um de nós, já a curto-prazo. Viana ainda defende que a preservação da Amazônia será feita ao se demonstrar racionalmente que sua exploração sustentável pode ser mais viável, do ponto de vista econômico, do que o desmatamento. Possível, ele garante que é.
O estado do Amazonas seria um exemplo de que desenvolvimento e preservação não se excluem. Em 2003, o desmatamento, por ano, na região, era de 1.582 Km². No mesmo ano, foi lançado um programa de desenvolvimento sustentável que conseguiu reduzir gradativamente essa área para 582 Km², em 2007. Ao mesmo tempo, a média de crescimento econômico do estado aumentou e hoje gira em torno de 9% anuais, número bem acima da média nacional.
FUNDAMENTAL
“A preservação da Amazônia não é só romântica e simbólica, ela é vital para todos”, reforça Virgílio Viana. Um estudo feito pela NASA mostra que o fluxo de vapor d’água ao redor da Amazônia é responsável pelas chuvas do centro-sul do país, assim como de parte dos Estados Unidos e Europa. Degradar a floresta, portanto, influenciaria diretamente no volume dos rios, prejudicando a agricultura, a pesca, a captação de água potável e a geração de energia hidrelétrica.
A crença das comunidades indígenas de que floresta atrai chuva tem sido reforçada por pesquisas científicas recentes, que comprovam a presença de gases emitidos pelas folhas das árvores e cuja composição química ajuda a concentrar mais vapor d’água na região. As pesquisas também revelam que o desmatamento não apenas diminui a produção desses gases, como auxilia na liberação de outros, que tem efeito contrário e desagregam as gotículas de água, dificultando o processo de formação de chuvas.
O EMBATE COM O AGRONEGÓCIO
Viana lembra que a fronteira do agronegócio continua em expansão a cada ano, principalmente devido ao esquema de grilagem: compram-se terras, investe-se em agricultura e pecuária, vendem-se as terras a preços bem mais altos e compram-se novas terras, mais baratas, e mais próximas da fronteira amazônica.
O diretor da Fundação Amazonas Sustentável alerta que investir em produtividade agropecuária sem conter esse esquema pode fazer com que as terras produtivas se valorizem ainda mais e contribuam para o avanço do desmatamento.
Para que o agronegócio não destrua a Amazônia, Virgílio vê uma solução: “se a fronteira da soja e da pecuária envolve bilhões de reais, temos que ter algo da mesma ordem de grandeza do outro lado. Não dá para enfrentar esse avanço da agropecuária sobre as fronteiras amazônicas com projetos pilotos e de menor valor econômico. É uma batalha financeira”.
VALORIZAÇÃO DOS PRODUTOS REGIONAIS
Uma forma de estimular a economia da região amazônica e a produção limpa, a partir de matérias-primas regionais, é preciso desenvolver políticas públicas, oferecer incentivos tributários e microcrédito às atividades desenvolvidas pelas comunidades locais.
Virgílio conta que, desde 2003, produtos não madeireiros do estado do Amazonas têm isenção de ICMS e gozam de incentivos fiscais. Além disso, uma agência pública de desenvolvimento sustentável passou a ser responsável pelas compras do estado. As marcenarias que produzem móveis para as escolas só utilizam madeira legalizada e a merenda escolar tem como base produtos regionais.
Outra maneira de tornar a produção local economicamente viável é negociar taxas de importação mais baixas para os produtos amazônicos no exterior, de modo a torná-los mais competitivos.
BOLSA FLORESTA
Quando se fala em Amazônia, não dá para se esquecer da população que vive “na” e “da” floresta. Uma das iniciativas criadas pela Fundação Amazonas Sustentável para auxiliar o desenvolvimento das comunidades é o Bolsa Floresta – um auxílio financeiro destinado a famílias, associações e comunidades que vivem em unidades de conservação e são verdadeiras guardiãs do bioma.
As famílias que participam do programa recebem um complemento de renda de 50 reais por mês para continuarem preservando a floresta – a renda média da família amazonense é de 83 reais mensais. Já as comunidades que trabalham com produtos regionais, de maneira sustentável – como o extrativismo e beneficiamento de borracha, castanha, açaí, andiroba e copaíba, por exemplo – têm um investimento anual de 4 mil reais.
Para estimular a própria comunidade a exercer um controle na região, para que as leis de preservação sejam realmente cumpridas, o Bolsa Floresta oferece às associações de moradores a soma de 10% do valor total pago às famílias que compõem a comunidade – o que pode render de mil a cinco mil por mês.
EMPRESAS ALIADAS
Virgílio Viana acredita que a saída para a preservação da Amazônia pode estar no empresariado. Ele observa que historicamente muitos projetos interessantes, na região, são desenvolvidos por ONGs e ambientalistas, “que têm grande comprometimento ideológico e emocional com a causa, mas pouca experiência na área empresarial, o que leva a uma elevada incidência de fracassos”, diz.
Para o especialista, os empresários normalmente distantes dos produtos da floresta, são os mais indicados a descobrir meios de obter rentabilidade com a floresta em pé.